Transversalidade da Reutilização para o Design

Transversality of Reuse for Design

Carreto, R. Carreto, C.

CIAUD - Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design
CIAUD - Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Neste artigo pretendemos salientar mais uma análise complementar para o universo do Design, tomando como ponto de partida uma metodologia transversal do conceito de reutilizar. A nossa envolvência diária na área do Design e na vivência quotidiana obriga-nos a reflectir sobre porquê novo. Não apenas pela preservação icónica, mas também, pelo estímulo criativo que é o reutilizar como conceito emergente de uma sociedade de consumo esgotada.

 

PALAVRAS-CHAVE: Design; Reutilização; Eco-Design; Sustentabilidade.

 

ABSTRACT: This article aims to highlight one more complementary analysis to the universe of Design, taking as a starting point a cross-methodology of the concept reuse. Our daily surroundings in Design and in daily life forces us to reflect on why new. Not only in preserving iconic, but also the creative stimulus that is reused as the emerging concept of a consumer society exhausted.

 

KEYWORDS: Design, Reuse, Eco-Design, Sustainability.

A célebre frase de Lavoisier “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” foi utilizada como ideia basilar para a construção deste artigo. Deste modo, pretendemos fazer uma análise teórica da aplicação do conceito de reutilização e partimos da análise artística e arquitectónica culminando no Design. Iremos basear-nos na reutilização, vista e sentida, por diferentes sensibilidades, mas que o ponto unificador seja reutilizar uma pré-existência que possa ser novamente aproveitada. Demonstrando, que o Design pode ser disciplina aglutinadora destes princípios e atitudes projectuais. Dentro do conceito de reutilização podemos fazer uma abordagem eclética em diversas áreas, de forma a contextualizar as variadas aplicações.
Poderemos começar por abordar o conceito de lixo (material sólido sem utilidade) transformado em obra de arte onde a cultura do século XX foi envolvida com materiais recuperados, reutilizados, retalhos, fragmentos e descartáveis que, para uns, nada servem ou significam, e para outros são considerados “matérias-primas” valiosíssimas para as suas criações artísticas. Picasso, Tatlin e Marinetti, Mimmo Rotella, Louise Nevelson, Marcel Duchamp, Kurt Schwitters e Chirstian Boltanski são alguns dos artistas interessados neste tipo de materiais considerados “lixo” (VERGINE, 2007). A autora Lea Vergine pergunta no seu livro “When Trash Becomes Art”: “And why, when writing about art, should we find ourselves considering trash?”[1] (VERGINE, 2008 p. 7).

“Certainly not because of a sort of peregrine dandyism. lnstead, let us reflect on the fact that we ourselves have been discarded or rejected by other human beings; more or less on a daily basis, we are forced to recover, scrape together and reassemble fragments of ourselves”[2] (VERGINE, 2007 p.7).

 “ln museums and galleries around the world, we have seen artworks made with trash, garbage, scraps, slag, leftovers, junk and waste (domestic waste, urban waste, hospital waste, industrial waste, nuclear waste ... ). ln recent years, there has been a great deal of discussion of trash (the English word is borrowed in this context by many languages”[3] (VERGINE, 2007 p.8).

                  

 

Fig. 1 – A Vitória, 1920, montagem, colagem e óleo sobre cartão, 104.5 x 79 cm.

Legenda: Kurt Schwitters, Imagem retirada de Web Site: http://mediaspin.com/blog/?p=445, data de acesso 26 de Maio de 2010.
 

 

Ainda os artistas da vanguarda do início do século XX utilizaram “lixo” nas suas obras. O Futurismo, o Cubismo e o Dadaísmo foram os movimentos que mais se destacaram neste contexto de arte, apenas mais tarde considerado como tal. A intenção destes artistas era deixar claro que utilizando, papel de rascunho, cordas, cordéis, lixo, bilhetes de navios e de comboio, ou seja, material que foi considerado de baixo valor, era possível fazerem-se criações artísticas, da mesma forma, como se materiais tradicionais tivessem sido utilizados (VERGINE, 2007).

 

 

Fig. 2 – Nature morte à la chaise canée, 1912. Óleo e aplicações na tela com corda ao redor, Pablo Picasso.

Legenda: Imagem retirada de VERGINE, Lea 2007. p.129

 

 

Fig. 3 – Sky Cathedral, 1958. Escultura de madeira encontrada, pintada de preto, 115 x 135 x 20 polegadas, Albright-Knox Art Gallery, NY, Louise Nevelson.

Legenda: Imagem retirada de Web Site: http://www.artlex.com/ArtLex/wxyz/wood.html, data de acesso 26 de Maio de 2010.

 

 

Fig. 4 – La Dolce Vita, 1960s, décollage sobre tela, Mimmo Rotella.

Legenda: Imagem retirada de Web Site: http://www.postershop.com/Rotella-Mimmo/Rotella-Mimmo-La-Dolce-Vita-4703281.html, data de acesso 26 de Maio de 2010.

 

Entre 1960 e 1970 o uso de “lixo” expandiu-se para quase todos os trabalhos artísticos como forma de denúncia do consumismo excessivo e de crítica social destas épocas, considerando as teorizações dos grupos Fluxus, Poesia Visiva, Nouveau Réalisme e Pop Art. No entanto, os anos 1980 e 1990 foram de extrema exploração poética. De objectos usados, objectos desactualizados, ou lixo, de forma sarcástica para afastar ansiedades criadas que continuaram nos movimentos pós-modernistas. Ainda nesta altura,

“Forms with a classical inspiration coexist, mingled and juxtaposed, with popular forms and waste objects in a very singular syncretism, in a hybrid that can be exquisite or dramatic - but always explosive: a coexistence that asks itself, and us, about the meaning of the choice of trash”[4] (VERGINE, 2007 p.10).
“The trends and the movements of the century are all there: Futurism, Dada, Surrealism, Fluxus and Pop. And therefore paradox and satire, tenderness and indignation, in an eccentric syncretism of the ironic, the dark, the disgusting, the rich and the obscurely happy. The anthology-both in terms of the innocence and the cunning with which it reflects on the aesthetic use of discarded objects and for its sheer uncommonness in terms of language and structure - has the splendour of a dazzling, discontinuous dump, majestically deformed; and it is as seductive as a secular cathedral of clandestine memories”[5] (VERGINE, 2007 pp.17-18).

Do ponto de vista artístico, poderemos de alguma forma reinterpretar o conceito de reutilização dentro da perspectiva dos ready-made de Duchamp: peças descontextualizadas que assumem valor icónico. Duchamp retirava peças do seu contexto original e inseria-as num contexto de difusão de arte, questionando profundamente o valor implícito de arte moderna. As diversas formas de interpretação de peças, já existentes com uma determinada função, obrigam a um processo complexo, mas claro e objectivo – de tentar fazer entender o visitante como se pretende que o objecto seja compreendido.
O dogmatismo provocado pela vanguarda fez Duchamp desviar-se do caminho de que o significado arte está simplesmente virado para o visual. Duchamp negou todos os princípios que vigoravam na expressão artística do momento, recorrendo ao princípio da arte pela arte, fundamentando-se em duas estratégias: “ (…) a ligação íntima entre a linguística e elementos visuais e o ready-made” (MARZONA, 2007. p. 10).
Os ready-made eram vistos como um sinónimo de anti-arte que vincou o processo de criação artística, diferenciando-se de tudo até então. Duchamp atribuiu novos significados a objectos que desempenhavam uma determinada função quotidiana, pertencendo a uma nova definição de significado, abrindo e expandindo o campo daquilo que poderia ser considerado arte e sua definição. Segundo Marzona (2007), a problemática do que era considerado arte tornou-se dependente da questão do contexto, no qual as peças eram aplicadas e compreendidas.

 

 

Fig. 5 – Roda de bicicleta, ready-made, 1913.

Legenda: Marcel Duchamp, Imagem retirada de Web Site: http://fakeline.wordpress.com/2009/10/, data de acesso 26 de Maio 2010.
 
 
 

Fig. 6 – Com Barulho Secreto, 1916. Reay-made: novelo de cordel entre duas chapas de latão ligadas por quatro parafusos. Se deslocar o ready-made ouve-se um barulho, 12x13x11,4cm.

Legenda: Marcel Duchamp, Imagem retirada de Web Site: picasaweb.google.com/fotosaula/Dadaismo#, data de acesso 24 de Março de 2010].
 

 

 

Fig. 7 – Ar de Paris, 1916. Reay-made: ampola de vidro, diâmetro 20,5 cm, altura 13,3cm.

Marcel Duchamp, Imagem retirada de Web Site: picasaweb.google.com/fotosaula/Dadaismo#, data de acesso 24 de Março de 2010.

 

 

Podemos basear-nos na atitude de ready-made para enriquecimento do universo do Design, pelo facto da sua importância conceptual. Qualquer actividade humana poderia ter uma racionalidade conceptual a montante de qualquer produção, como é o caso de Duchamp.
Passando ainda a outros conceitos de nova contextualização da reutilização, iremos mencionar exemplos de referência no enquadramento edificacional salientando a utilização de outrora e a capacidade de hoje em dia adaptarmos “restos” civilizacionais às necessidades contemporâneas. Deste modo, podemos considerar a reutilização como uma forma de:

 (…) maior evidência quando o projecto diz respeito a um edifício ou parte desse já existente; quando a memória daquilo que existiu constitui uma grande referência cultural colectiva. (…) Aquela arquitectura capaz de arrancar ao lugar a fórmula do seu próprio renascer, aquela  arquitectura feita pelos homens para dar morada aos deuses (…). A história das cidades dá-nos conta de quanto hoje é actual construir no construído (…). Aos restos arqueológicos mais antigos é neste sentido atribuído um papel evocativo de tempos passados, aos quais foi, no entanto, decretada desde há muito a morte. A cultura conservadora não conhece aqueles mecanismos da história urbana que permitiram a revitalização e evolução das civilizações e impede, através do ocultamento e do mimetismo, a recuperação e uso do grande património herdado. E assim, à medida que se afirmam as tendências de embalsamento do património acentua-se a desertificação dos lugares da história, acabando por transformá-los em representações fantásticas de uma realidade jamais existente” (CANNATÁ; FERNANDES, 1999 p.7).

Na obra da Reconversão do Convento de Santa Maria do Bouro em Pousada do Arquitecto Eduardo Souto Moura, com a colaboração da equipa Cecília Cavaca e Humberto Vieira, definiram o Design de Interiores como um dos elementos mais importantes no projecto, pois tratava-se de uma reutilização do edifício.

“A reconversão do Convento de Santa Maria do Bouro em Pousada confronta-se com o tema da ruína remetendo a solução para o subtil artifício da suareposição. As necessárias intervenções funcionais fogem à resposta arquitectónica unitária, deixando sempre os sinais emblemáticos e demonstrativos do uso das pré-existências”(ANNATÁ; FERNANDES,1999 p.9).

Neste caso, a utilização da ruína como suporte para o novo projecto e a criação de novas vivências interiores do edifício ganham novo programa funcional.

“Para o projecto as ruínas são mais importantes que o “convento”, já que são material disponível, aberto, manipulável, tal como o foi o edifício durante a história” (CANNATÁ;  FERNANDES, 1999 p.37).

A nível da análise do espaço interior deparamo-nos com técnicas construtivas contemporâneas, mas que coexistem com as técnicas e matérias da pré-existência. Salientamos a atitude interessante do Design de Interiores, caso das suites, em que os equipamentos passam a ser o método de distribuição do espaço sem sobrecarregar a construção antiga com novas paredes, fazem a separação física a partir da cabeceira da cama do quarto em relação ao vestuário e à instalação sanitária.

 

 

Fig. 8 – Suite da Pousada Santa Maria do Bouro.

Legenda: CANNATÁ; FERNANDES,1999 p. 47

 


Poderemos também referir o caso do projecto de Giorgio Grassi, Restauro e Reabilitação do Teatro Romano de Sagunto, que reutiliza a própria ruína como fragmentos da nova construção. Dando assim, “ (…) a aparência de uma ruína artificial” (CANNATÁ; FERNANDES, 1999 p.73). Assumindo, propositadamente, a diferenciação dos materiais novos e antigos, mas que tanto uns como os outros servem.

“A observação mais geral é a de que a obra de restauro (do tipo mimético) não parece ter tido como objectivo repor a imagem do teatro original o mais fielmente possível (como foi provavelmente a intenção do arqueólogo), mas antes repôr a imagem de ruína como se a própria ruína fosse o objectivo do restauro: ou seja, a imagem de teatro em ruína, exactamente como estava, acentuando, se possível, o carácter pitoresco” (CANNATÁ; FERNANDES, 1999 p.73).

 

Fig. 9 – Pormenor da Boca de Cena.

Legenda: CANNATÁ; FERNANDES,1999 p. 83

 


Esta atitude de salientar e contextualizar a ruína no local original, como elemento explicativo e demonstrativo da ambiência e da finalidade do projecto inicial, considera-se de grande interesse.

“ (…) a reconstrução daquelas artes essenciais da estrutura do teatro, necessárias para uma reposição clara da ideia de espaço arquitectónico do teatro romano de Sagunto. E isto respeitando os vestígios arqueológicos, mesmo partir das actuais ruínas, incluindo também as mais modestas sobreposições históricas que não se apresentem em manifesto contraste com a qualidade específica espaço que se pretende repôr, isto é, com a sua característica  unidade” (CANNATÁ; FERNANDES, 1999 p.75).

No seguimento do raciocínio na reutilização da ruína, salientamos uma nova abordagem ou atitude projectual. O projecto “S(ch)austall” surge como exemplo de aproveitamento de algo já construído. Consistiu em introduzir dentro de uma casa em ruína, uma caixa pré-fabricada como se pode verificar nas figuras em baixo. Esta construção que data do século XVIII foi utilizada de diversas formas até de pocilga. A sua localização, situação projectual e legal justificou o seu reaproveitamento para uma nova função interior, num local de pequenas exposições. Esta transformação culminou na implantação de uma nova estrutura, em aglomerado de madeira, dentro da estrutura antiga em pedra. O preenchimento interior do invólucro arquitectónico com um produto pré-fabricado torna o novo espaço adaptado, a nível de Design de Interiores, numa solução final com novo programa funcional, dando uma nova razão de ser ao pré-existente. A cobertura, também nova, protege ambas.

 

Fig. 10 – “S(ch)austall”, FNP Architekten

Legenda: Imagem retirada de Web Site: http://2.bp.blogspot.com/_Rb8A1vkpF2E/R_0p84D3khI/AAAAAAAAAe4/ce_wYAlVXuE/s400/schaustall_1.jpg, data de acesso 18 de Junho 2010].
 
 
 

Fig. 11 – “S(ch)austall”

Legenda: FNP Architekten, Imagem retirada de Web Site: http://1.bp.blogspot.com/_kkEpfLH52A0/RntFmaoGGWI/AAAAAAAAARU/bSp1HqRJBKc/s400/HD21a.jpg, data de acesso 18 de Junho 2010].

 

 

No sentido de aproveitar aquilo que em tempos já teve uma função, o designer pode intervir, criando ou atribuindo uma nova utilização a determinado objecto, prolongando a sua vida útil. Nesta conjectura de Eco-Design, aproveitar cada pedaço pode adiar consequências de desperdício provocadas pelo homem. “Temos de examinar qual o contributo que cada um de nós pode dar em função da sua actividade na sociedade” (PAPANEK, 1995. p. 17). Seria importante que os designers,

“ (…) Tentassem reformular os seus valores e o seu trabalho, de modo a que todo o design se baseasse na humildade, combinasse os aspectos objectivos do clima e o uso ecológico dos materiais com processos intuitivos subjectivos, e assentasse em factores culturais e bio-regionais” (PAPANEK, 1995. p. 14-15).

Este facto, leva-nos a reflectir na base da matéria-prima, matéria que não é casual, na consolidação do projecto de qualquer objecto ou obra. A reutilização é um factor preponderante na conjectura actual, pois é relevante reaproveitar materiais e objectos ou estruturas já edificadas para dar viabilidade económica ao mundo, nomeadamente ao mundo do Design.
 Na sequência do que atrás foi referido, com o aproveitamento de material ou objecto reutilizável para outra forma ou função, o acto de criar pode ser mais do que projectar um objecto de raiz. O projecto Chest of Drawers "You Can't Lay Down Your Memory", de Tejo Remy, projectado em 1991 é exemplo do que se afirma. A sua execução é feita a partir de uma colecção eclética de gavetas, sem relação entre si no acto de concepção inicial e posteriormente unidas com apenas uma cinta de lona como ponto de ligação e de estrutura. Este trabalho reflecte a reutilização de objectos, contrapondo-se o excesso de produção e consumo excessivo. O utilizador pode dispor as gavetas a seu gosto compondo assim, uma nova forma dentro das suas necessidades, pois é uma peça que se fundamenta no reaproveitamento de objectos pré-existentes conferindo-lhe uma nova forma.

 

 

Fig. 12 – Chest of Drawers "You Can't Lay Down Your Memory", 1991.

Legenda: Tejo Remy, Imagem retirada de Web Site: http://www.moma.org/collection_images/resized/671/w500h420/CRI_59671.jpg, data de acesso 26 de Maio 2010

 


Numa perspectiva de criar para reaproveitar e reutilizar objectos já existentes apresentamos o projecto “Watering Can” de Nicolas Le Moigne. Sob o tema “Re-think and Recycle”. Ele aborda a cultura de desperdício de garrafas de água de plástico (PET) e atribui-lhes uma nova função, reutilizando-as, prolongando-lhes o ciclo de vida. Para isso, criou um cabo de plástico com bico que pode ser fixado a vários tipos de garrafa que servem de regador de plantas.

 

 

Fig. 13 – “Watering Can”, 2005.

Legenda: Nicolas Le Moigne, Imagem retirada de Web Site: http://www.designboom.com/contest/files/le_moigne_nicolas.jpg, data de acesso 27 de Maio 2010
 
 
 

Na utilização de restos de material para a criação de um novo, temos o exemplo do projecto “One Day Paper Waste”, criado pela designer belga Jens Praet. Consiste na recolha de restos de documentos confidenciais, resultantes de uma máquina de destruir papel, que depois são misturados com resina. A pasta criada é compressa num molde para formar diferentes tipos de mobiliário. Inicialmente, o primeiro tipo foi concebido para uma exposição em 2007, em Eindhoven (Holanda). No entanto, a linha foi rapidamente colocada em produção pela Droog Design. A marca anunciou-o em resina preta, que foi posteriormente encomendado pela Vogue L'Uomo, em colaboração com a marca de roupa interior italiana, Yamamay.

 

Fig. 14 – "One Day Paper Waste”, 2007, 700 x 400 x 400 mm.

Legenda: Jens Praet, Imagem retirada de Web Site: http://www.jenspraet.com/jenspraet_files/One%20Day%20Paper%20Waste%20Cabinet.jpg, data de acesso 26 de Maio 2010
 
 
 

Fig. 14 – “Shredded Paper Storage”, 2008, 1450 x 600 x 400 mm.

Legenda: Jens Praet, Imagem retirada de Web Site: http://www.jenspraet.com/products_shredded_paper_storage.html, data de acesso 26 de Maio 2010

 

 

O reaproveitamento da matéria transformou o universo do Design, pois o fim não é apenas a usabilidade.
Durante algum tempo pensou-se que Design sustentável fosse a redução de meios de subsistência, mas a realidade indica que a necessidade obriga a um crescente de bens e serviços que devem estar devidamente adaptados a nível ecológico durante a sua vida útil e no fim desta seja ela decomposta ou reutilizável.
Os designers de hoje não podem apenas preocupar-se com as características estéticas e de funcionalidade dos produtos.

“O design preocupa-se com o desenvolvimento de produtos, utensílios, máquinas, artefactos e outros dispositivos, e esta actividade exerce uma influência profunda e directa sobre a ecologia. A resposta do design deve ser positiva e unificadora; deve ser a ponte entre as necessidades humanas, a cultura e a ecologia” (PAPANEK, 1995 p.31).

O Design e a ecologia têm uma relação muito próxima sendo também complexa (PAPANEK, 1995). O ciclo de vida de um objecto passa por determinadas fases:

“(…) Desde a aquisição original das matérias-primas, passando pelo processo de transformação e montagem, a compra do produto acabado (…), o uso, a recolha do produto após o uso e, finalmente, a reutilização ou reciclagem e  tratamento final” (PAPANEK, 1995 p. 35).

O Design tem por base uma metodologia projectual passível de resolver os mais variados tipos de problemas. O conhecimento desta metodologia permitirá ao designer trabalhar de um modo mais eficaz nos vários domínios da área, na perspectiva de explorar novos campos disciplinares. Na relação entre Design e Reutilização é necessário justificar conceitos que possibilitem a aplicação e a inserção de novos métodos para pôr em prática novas regras. O aproveitamento de materiais para uma solução de Design vem, cada vez mais, a ser pertinente não só na nossa sociedade, como também na indústria e no mundo artístico. O conceito de Eco-Design por meio da reciclagem/reutilização de materiais considerados lixo é frequentemente retratado como uma nova tendência no Design contemporâneo.
Segundo Papanek (1995) “O design inovador poderia resolver este desafio ecológico – desperdiçar menos – e, simultaneamente, tratar de três problemas diferentes de desempenho e psicologia” (PAPANEK, 1995. p. 64).

 

Notas

[1] T. L. “E porque, quando escrevemos sobre arte, devemos considerá-la como lixo?”
[2] T. L. "Certamente não por causa de uma espécie de dandismo peregrino. Em vez disso, vamos reflectir sobre o facto de que nós mesmos fomos descartados ou rejeitados por outros seres humanos, mais ou menos numa base diária, somos forçados a recuperar, juntar e remontar fragmentos de nós mesmos”.
[3] T. L. “Nos Museus e galerias por todo o mundo, temos visto obras de arte feitas com lixo, detritos, sucatas, entulho, restos, lixo e resíduos (lixo doméstico, resíduos urbanos, resíduos hospitalares, resíduos industriais, resíduos nucleares...). Nos últimos anos, tem havido uma grande discussão de lixo “trash” (a palavra inglesa é emprestada, neste contexto, por muitas línguas”.
[4] T. L “Formas coexistem com uma inspiração clássica, misturadas e justapostas, com formas populares e objectos de lixo num sincretismo muito singular, num híbrido que pode ser excelente ou dramático - mas sempre explosivo: uma coexistência que se pergunta a si próprio, e a nós, sobre o significado da escolha de lixo”.
[5] T. L. “As tendências e os movimentos do século estão todos lá: o Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo, Fluxus e Pop. E, portanto, o paradoxo e a sátira, a ternura e a indignação, num sincretismo excêntrico do irónico, o escuro, o nojento, os ricos e os obscuramente felizes. A antologia – tanto em termos da inocência e da esperteza, com que reflecte sobre o uso estético de objectos descartados, e pela sua raridade absoluta em termos de linguagem e estrutura - tem um esplendor deslumbrante, descontínuo, majestosamente deformado; e é tão sedutor como uma catedral secular de memórias clandestinas”.

 

Referências Bibliográficas

CANNATÁ, Michele; FERNANDES, Fátima - Construir no Tempo. Lisboa: Estar, 1999. ISBN 972-8095-67-8
MARZONA, Daniel – Arte Conceptual. Köln: Taschen, 2007. ISBN 978-3-8228-4793-0
PAPANEK, Victor – Arquitectura e Design: Ecologia e Ética. Lisboa: Edições 70, 1995. ISBN 972-44-0968-6
VERGINE, Lea – When Trash Becomes Art. Milano: Skira Editore, 2007. ISBN 88-7624-728-9

Reference According to APA Style, 5th edition:
Carreto, R. Carreto, C. ; (2011) Transversalidade da Reutilização para o Design. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL IV (7) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt