A Expressão Visual do Afeto. Ensino da Arte: Transdisciplinaridade, Cidadania e Inclusão.

The Visual Expression of Affection. Art Teaching: Transdisciplinarity, Citizenship and Inclusion.

Sousa, R.

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este texto apresenta as razões teóricas que justificam as práticas de livre expressão artística no trabalho com adolescentes e com adultos. Há ainda a indicação de procedimentos e atividades, cuja finalidade é o desenvolvimento da expressividade plástica e gráfica, como exercício de manifestação pessoal no contexto social. A expressão artística é campo de interação reflexiva entre o sujeito expressivo e seu universo interior e se apresenta como necessidade e motivação para o desenvolvimento de atividades que requerem também planejamento e organização. Por isso, além de sua finalidade própria, as atividades artísticas servem de princípio organizador do sujeito expressivo para vida social e o mundo do trabalho. Aqui são retomadas as questões pertinentes ao campo teórico-prático da “Livre Expressão” e da “Educação através da Arte”. Os argumentos e procedimentos aqui descritos foram apresentados aos professores, aos artistas e a outros participantes da “Oficina de Expressão Gráfico-Visual para Multiplicadores” realizada no DAC/UFSC, no ano de 2008.

PALAVRAS-CHAVE: Expressão Artística; Manifestação Pessoal; Inclusão Social.

 

ABSTRACT: This paper presents the theoretical reasons that justify the practice of free artistic expression in working with adolescents and adults. There is also an indication of procedures and activities whose purpose is the development of graphic and plastic expression, as an exercise of personal manifestation in the social context. Artistic expression is the field of reflexive interaction between the subject and expressive and his inner universe presents itself as a need and motivation for the development of activities that also require planning and organization. Therefore, besides its proper finality, artistic activities serve as the organizing principle subject to significant social and working life. Here are the relevant issues included the theoretical-practical "Free Speech" and "Education through Art." The arguments and procedures described here were presented to teachers, artists and other participants in the Workshop for Visual-Expression Graph Multipliers' held at the DAC / UFSC in 2008.

KEYWORDS: Artistic Expression; Personal Expression; Social Inclusion.

1. Introdução

A produção manual gráfica e plástica é campo expressivo da imaginação e da afetividade do sujeito, permitindo-lhe a auto-expressão e o diálogo objetivo com seu universo subjetivo. No processo de comunicação dos trabalhos desenvolvidos, isso estabelece as diferenciações entre a comunicação estética ou poética e a comunicação semântica, promovendo a idéia de uma “sintaxe visual”, que se desenvolve no plano da expressão, e de uma “semântica visual”, que se desenvolve no plano do conteúdo [1].
Sob um escopo psicológico, considera-se que o desenvolvimento da livre expressão gráfica e plástica, por meio de exercícios artísticos, permite a liberação expressiva e o aprofundamento emocional do sujeito expressivo, que passa a liberar e a dominar a comunicação estética de acordo com suas possibilidades e peculiaridades [2]. Isso é percebido mesmo nas atividades clássicas de desenho de observação quando se constata que, ao representar uma árvore, diversos desenhistas conseguem realizar representações verossímeis do modelo, mas essas representações se mostram muito diferentes umas das outras. Isso é apresentado como evidencia de que aspectos subjetivos ou poéticos são expressos nos desenhos juntamente com os aspectos objetivos ou semânticos da representação gráfica.
O exercício artístico e o aprofundamento emocional requerem organização, as atividades artísticas acionam funções cerebrais que facilitam a concentração [3] e os trabalhos desenvolvidos diante do próprio sujeito permitem seu relacionamento objetivo com aspectos de sua subjetividade, oportunizando-lhe o domínio e a ordenação de suas emoções e de suas ações. A expressividade dos trabalhos artísticos estabelece, também, a comunicação com o coletivo de pessoas a sua volta, o que oportuniza a inserção e a manifestação do sujeito no meio social.
 

 

2. O Recorte Teórico Da Proposta

A proposta aqui apresentada implica em um recorte de teorias pedagógicas, psicológicas e artísticas, para compor uma abordagem coerente com determinados objetivos, uma vez que essas áreas, tanto individualmente como em conjunto, propõem diferentes abordagens teóricas e que se organizam em busca de objetivos variados.
A abordagem aqui configurada privilegia a educação estética e a “educação pela arte”. A fundamentação teórica é enraizada nos estudos de filosofia e psicologia da educação, que propuseram a “arte como experiência“, fundamentada por John Dewey; o “desenvolvimento da capacidade criadora”, apresentado por Viktor Lowenfeld, e a “educação pela arte”, proposta por Herbert Read, cujo objetivo é o desenvolvimento afetivo e cognitivo [4].

 

3. Expressão Artística, Elaboração Simbólica e Auto-Imagem

O ato de sonhar advém da necessidade de elaboração simbólica das vivências afetivas do sujeito, caracterizando-se como uma atividade necessária à saúde mental dos seres humanos  [5]. Por sua vez, a estimulação imaginativa e a representação artística das imagens mentais, também, atuam positivamente, ao incrementar o processo de simbolização nos indivíduos, objetivando-o e materializando-o em imagens fixas no papel ou noutros suportes. As imagens, assim objetivadas, passam a ser material de interpretação objetiva, servindo para a construção da expressão pessoal e social, porque manifestam e simbolizam, a relação do indivíduo consigo mesmo e com o meio em que está inserido.
As artes como o desenho e a pintura possibilitam, portanto, o exercício da auto-expressão, que é uma prática eficiente para o desenvolvimento afetivo e criativo, propiciando, em certo grau, o autoconhecimento. A produção artística incita a intuição e a criatividade e, ao mesmo tempo, exige planejamento, organização e trabalho, na busca da concretização de um projeto estético, que é proposto pela necessidade de expressão.
Ao expressar sentimentos e representar idéias, o sujeito descobre em si competências e habilidades que passam a ser reconhecidas não só por ele, mas também pelo grupo e pelo próprio facilitador, que deverá estar habilitado para estabelecer um diálogo entre a produção do sujeito e as artes e os ofícios em geral. O processo de descoberta e trabalho enriquece a auto-estima de quem dele participa, promovendo experiências de criação, organização e produção. Isso reforça a confiança e a iniciativa do sujeito e do grupo, colaborando na preparação para outras atividades criativas, produtivas e para o trabalho em geral.
A idéia que o sujeito forma sobre si mesmo define sua auto-imagem. Mas, essa idéia não é formada apenas por impressões auto-referentes, porque muito do que o sujeito sente e pensa sobre si foi informado por outros sujeitos que participam de seu ambiente de convivência. Jean Mukaroviski assinala que a subjetividade é “objetividade interiorizada” [6]. Ao contrário do que pode parecer em primeira instância, os sentimentos e os conceitos desenvolvidos pelo sujeito a respeito de si, desde muito cedo, são predominantemente determinados pela maneira como o mundo reage à sua presença.
Os sujeitos que, ao se expressarem, recebem aprovação e estímulos positivos acreditam em si e desenvolvem positivamente sua auto-estima. Por outro lado, sujeitos que são reprovados e rejeitados passam a desacreditar de si mesmos, tornando-se inseguros e desgostosos. Alguns entre esses últimos passam a sugerir exagerada autoconfiança e forte auto-estima, mas apenas para dissimular sua insegurança. De modo geral, a auto-estima e a autoconfiança são construídas como produtos de processos integrados e concomitantes de aprovação-estimulação ou reprovação-coerção, a que todos são submetidos desde o início de suas vidas.
A capacidade de expressão é o que torna perceptíveis as coisas tangíveis e, entre essas, os corpos e as atitudes físicas das pessoas. A sua aparência física, os seus gestos ou outras atitudes físicas, além das coisas por ele produzidas, como sons, palavras, imagens ou objetos tangíveis, representam um sujeito diante dos outros sujeitos. Os espectadores das ações e dos produtos das ações do sujeito podem responder de modo receptivo e estimulante, aprovando sua expressividade, ou reagir de maneira agressiva, crítica e desestimulante, reprovando o seu comportamento e a sua produção.
Os sentimentos e os pensamentos são elementos tipicamente subjetivos e, por isso, necessitam de elementos expressivos ou objetivos para sua manifestação. Os sons, as palavras, as atitudes e outras produções humanas servem para expressar os sentimentos e comunicarem os pensamentos de um sujeito ou de um conjunto de sujeitos. De modo consciente ou inconsciente, há sentimentos e idéias que os sujeitos escondem até de si próprios. Esse acervo de entidades escondidas clama por expressão, por isso, a ocorrência dos sonhos e a ocorrência das artes suprem essa necessidade de expressão. Pois, as duas ocorrências oferecem possibilidades de manifestação de sentimentos e idéias, incluindo os que foram escondidos da consciência do sujeito onírico ou expressivo. A expressão de aspectos escondidos, geralmente, ocorre de maneira cifrada ou metafórica. Em sentido figurado, há quem diga que se escreve um livro para se livrar dele.

 

4. Expressão, Produção e Reconhecimento

A despeito de ser corriqueira entre as pessoas a manifestação do desejo de viver ociosamente, o trabalho é bastante valorizado na cultura burguesa.  O sujeito que desenvolve algum tipo de trabalho é socialmente reconhecido e, também, tem a oportunidade de reconhecer em si um valor. Além disso, destaca-se no trabalho aquele que desempenha suas funções de modo poético ou criativo.
A criatividade deve ser compreendida como um modo de negar a acomodação e a automação em qualquer tipo de atividade. Para tanto, é propagado que o sujeito deve renovar-se a cada momento e, constantemente, desempenhar suas atividades com motivação e criatividade. Exemplos disso advêm dos atores de teatro que, às vezes, encenam continuamente uma mesma peça durante anos, mas conseguem se apresentar renovados e motivados em cada uma das múltiplas sessões.
Aprender a considerar cada atividade como uma oportunidade de expressão, exercitando a motivação e a criatividade, é um modo de evitar a automatização. As atividades artísticas oferecem a oportunidade deste tipo de aprendizado, que passa a ser aplicado a outras situações operacionais ou produtivas do cotidiano. Isso é evidenciado quando se percebe pessoas com dificuldades para atuarem ou produzirem socialmente, mas, que ainda se interessam e se dedicam a atividades artísticas.
O ânimo de algumas pessoas para a expressão artística e sua dificuldade em exercer um trabalho corriqueiro provocam equívocos por parte de alguns outros, que associam a arte ao ócio. Nesses casos, as atividades artísticas são vistas sob a suspeita de desviar os sujeitos do mundo do trabalho. Entretanto, em parte dos casos, ocorre que as atividades artísticas oferecem a pessoas em processo de alienação social uma oportunidade de se manterem inseridos na comunidade [7].
Um caso extremo é representado por Artur Bispo do Rosário (1911-1989). Em 1938, Bispo foi interno na colônia psiquiátrica Juliano Moreira, na cidade do Rio de Janeiro, e lá permaneceu durante toda sua vida. Na colônia, ele desenvolveu trabalhos com trapos, fios e  outras sucatas, compondo mantos e diversos objetos de forte expressão. O crítico Frederico de Morais reconheceu o valor e divulgou a produção artística de Bispo, a qual foi reconhecida, catalogada e incorporada à História da Arte Brasileira. É preciso considerar que, sem a sua produção, Bispo seria apenas mais um exilado social. Porém, o trabalho lhe deu visibilidade e existência social.
Em outras situações mais bem sucedidas, as atividades artísticas são descobertas e desenvolvidas antes do surgimento ou agravamento de transtornos mentais. As razões expostas anteriormente evidenciam que a prática artística colabora na expressão de aspectos subjetivos e na interação objetiva do sujeito com sua própria subjetividade. Por meio de suas obras, essas atividades proporcionam um diálogo objetivo e socialmente aberto entre o sujeito e sua subjetividade, restabelecendo laços com a realidade social e auxiliando a prevenção da alienação psíquica.
Por outro lado, mesmo quando livres ou improvisadas, as atividades artísticas sempre requerem algum planejamento e organização. Experimentar e representar são ações que implicam na utilização, adaptação e ampliação de conhecimentos e práticas. A arte utiliza, adapta e recria conhecimentos e linguagens e, por isso compôs um grande acervo de procedimentos e significações ao longo da história.
Em princípio, toda atividade se desenvolve como arte, antes de sedimentar uma técnica ou produzir uma ciência. A arte é o rompimento com o trágico para o desenvolvimento do lógico. É por isso que o exercício artístico serve de preparo para outra atividade, porque requer princípios de organização e método, mas abre espaço para a improvisação e para a criatividade. A atividade artística serve como introdução ao mundo do trabalho porque requer percepção, observação, organização e método e desenvolve a criatividade, a iniciativa, a autoconfiança e a auto-imagem.

 

5. Recortes Estéticos e Históricos da Proposta

O proposto é a liberação afetiva e a interação do sujeito com ele mesmo e com a coletividade. Isso acontece por meio da representação de imagens decorrentes de seus próprios exercícios de imaginação e não decorre apenas da aceitação da arte como parte do conhecimento historicamente produzido. As obras de arte são registros de momentos da humanidade, mas também são depoimentos de momentos subjetivos de um sujeito-artista.
Depois da invenção dos dispositivos fotográficos, as necessidades de representação naturalista e de documentação político-social foram atendidas pela fotografia. Depois disso, os artistas não visaram mais “a representação fiel do mundo exterior, mas à sugestão fantástica dos seus sonhos”, passaram a assinalar a “necessidade de pintar não sobre o motivo, mas de memória, não diante do objeto, mas retomando-o na imaginação” [8].
O simbolismo destituiu a pintura fotográfica do trono acadêmico e abriu caminho para a canônica modernista que, atualmente, foi também suplantada por ecletismos diversificados e indiscriminados. Por exemplo, no início da década de 1980, houve o arrefecimento do projeto artístico-conceptual e um renascimento da pintura como experiência sensível, provocando um retorno à pintura subjetiva, simbólica, alegórica e decorativa.
Um marco dessa tendência no Brasil foi a Exposição “Como vai você, Geração 80”, que aconteceu no ano de 1984, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage na cidade Rio de Janeiro. Na Europa e nos EUA, essa retomada propôs nomes como "Transvanguarda", "Nova Pintura", "Nova Subjetividade" e "Bad Painting", entre outros. Assim, a ênfase na subjetividade e na expressividade artística recuperou seu prestígio e reacendeu o campo da pintura simbolista e expressiva.
A proposta de atuação artístico-expressiva apresentada neste texto adota o princípio simbolista dos desenhos e das pinturas de memória.  Isso propõe a realização das atividades sem o uso de modelos visíveis, as quais são motivadas por lembranças significativas com alto valor afetivo para o sujeito. Portanto, a proposta dispensa os ensinamentos de desenho de observação e os parâmetros de verossimilhança, investindo na expressividade e na valorização da ingenuidade figurativa como recurso criativo. A partir da ampliação das figuras ingênuas, é feito um investimento no tratamento das formas com grafismos, com texturas e com efeitos pictóricos diversos.
Observando e considerando os recursos desenvolvidos pelo sujeito ao se expressar, o facilitador, de posse de um repertório mais amplo de recursos e efeitos expressivos, oferece sugestões de ocupação dos planos de fundo e das partes das figuras. Isso é proposto, primeiramente, a partir de sugestões técnicas para a realização de atividades com lápis preto, nanquim, giz de cera ou tinta colorida. Posteriormente, o sujeito é incentivado a utilizar e compor técnicas mistas com o uso de diferentes materiais.  

 

6. Organização e Método

As atividades propostas em diferentes técnicas são organizadas em etapas a serem desenvolvidas individualmente. Todos os participantes do primeiro encontro iniciam o processo em um mesmo momento e com a mesma atividade. Porém, os ritmos podem ser diferenciados e, como é o caso de atividades livres, os participantes podem ser integrados à proposta em momentos diferentes.
O processo individualizado permite a progressão do participante nas atividades de acordo com seu próprio ritmo de trabalho e com sua freqüência ao espaço de atividades. A proposta foi pensada para ser realizada em dois formatos básicos. Há o formato de oficina, com encontros que acontecem durante um período de tempo e requerem freqüência regular. Há o formato de ateliê livre, com duração indeterminada e freqüência irregular.

  1. A primeira etapa propõe a produção de desenhos de memória, a ampliação e a liberação dos traçados e a transição da linguagem gráfica para a linguagem pictórica.
  2. A segunda etapa propõe a experimentação e o reconhecimento das tonalidades e transparências na pintura com aguada de nanquim ou outros materiais de efeito semelhante.
  3. A terceira etapa propõe a experimentação das cores com traçados de giz de cera e a pintura com aguada de tinta acrílica ou outros materiais de efeito semelhante.
  4. A quarta etapa propõe a retomada de trabalhos já realizados para o incremento de outros recursos expressivos, com colagens e pinturas superpostas. Propõe também a preparação de fundos em materiais como madeira e papelão, com tinta látex e pigmentos. Incentiva a experimentação orientada de possibilidades expressivas com os materiais e os procedimentos já conhecidos.
  5. A quinta etapa acontece apenas na proposta de ateliê livre, sendo estendida por tempo indeterminado com vistas ao desenvolvimento do estilo pessoal de cada sujeito participante. 

A criação dos desenhos recorre à representação de imagens de memória, representando pessoas, lugares, animais e objetos, entre outras coisas, que compõem lembranças afetivas. Nos desenhos, valoriza-se o que se diferencia das imagens massificadas ou dos desenhos estereotipados. Mas, na falta de outras opções ou de acordo com uma proposta específica, os modelos estereotipados servem de base ou aparecem em parte das composições.
Em princípio, os suportes das atividades são sempre maiores que o tamanho das folhas dos cadernos comuns e os formatos podem ou não ser retangulares. A investigação de novos formatos e outras possibilidades é constantemente incentivada.
Os suportes maiores evidenciam as pequenas dimensões das figuras que compõem os desenhos iniciais. Os primeiros desenhos são geralmente pequenos, porque os desenhistas também iniciantes usam os movimentos dos atos de escrever para desenhar. Isso fica mais evidenciado se lhe for entregue primeiramente um lápis.
O déficit na ocupação do suporte evidencia a necessidade de ampliação dos desenhos. Por isso, um desenho é escolhido para ser ampliado, agora com carvão ou pincel atômico de maneira a ocupar quase todo o suporte.
A ampliação da figura faz surgir grandes formas vazias, sem preenchimento, porque os efeitos de textura e as variações tonais são pouco evidentes nas primeiras figuras ampliadas, evidenciando a possibilidade de ocupação das formas com texturas gráficas ou outros recursos de ocupação em preto. Pontos, hachuras e outras retículas são propostas como recursos para sugestão de manchas, juntamente com áreas recobertas de preto, promovendo a passagem da linguagem gráfica para a linguagem pictórica.
Os materiais utilizados nos primeiros desenhos são o lápis preto sobre o papel branco. Os materiais para a ampliação e a ocupação das figuras e composições são carvão ou pincel atômico preto sobre papel pardo. Posteriormente, o carvão ou pincel atômico pode ser testado sobre papel branco ou sobre papel pardo pintado com tinta branca.
A atividade de ampliação e ocupação de figuras ou de conjunto de figuras é repetida diversas vezes, compondo um repertório temático para as atividades seguintes. A primeira etapa é, portanto, concluída com a ampliação e ocupação de figuras ou composições escolhidas nos desenhos iniciais.
Na segunda etapa, alguns dos desenhos já ampliados e ocupados são retrabalhados com tons de cinza, decorrentes da mistura em proporções diversas de tinta nanquim e água. A técnica de pintura que mistura a tinta com água abundante é denominada de “aguada”. Portanto, na segunda etapa, trabalha-se com “aguada de nanquim”, inserindo os participantes na linguagem pictórica com variações de tonalidade.  
Na terceira etapa, é feita a inserção das cores, por meio de desenhos ampliados e ocupados com giz de cera. Posteriormente, esses mesmos desenhos são ocupados por pinturas tonais, com aguada de nanquim, e também com pinturas coloridas, com tintas opacas ou transparentes, porque são aplicadas em estado pastoso ou diluídas em água.
Na quarta e na quinta etapas, os exercícios anteriores continuam sendo recuperados e, também, novos desenhos são criados e ampliados para serem acrescidos com cores, colagens e outros efeitos. Para tanto, pode-se utilizar recortes de revistas e outros materiais, que possibilitam composições com técnicas mistas de acordo com o estilo pessoal de cada participante.

 

7. Conclusões

O objetivo principal da proposta é aliar ação e reflexão, justificando as práticas com objetivos definidos. Por sua vez, os objetivos devem ser concretizados por meio de metas previamente estabelecidas e as metas são cumpridas no desenvolvimento ordenado do processo pedagógico. O produto das atividades expressivas é considerado sob parâmetros subjetivos ou afetivos, especialmente relacionados à satisfação dos produtores. Porém, o processo pedagógico precisa ser acompanhado de maneira crítica, por parte dos educadores ou facilitadores, visando o seu constante aprimoramento.
Os procedimentos indicados visam compor um processo consistente de aplicação e desenvolvimento dos aspectos pedagógicos da livre expressão na dinâmica educacional, negando-lhe o estigma de prática aleatória e inconseqüente.
O sucesso da iniciativa é percebido na qualidade expressiva dos produtos e na satisfação dos participantes que, como sujeitos expressivos, mostram-se mais confiantes e realizados em decorrência das atividades e de seus produtos. Os aspectos coincidentes das experiências individuais, realizadas com materiais e procedimentos semelhantes, permitem o diálogo coletivo e coerente dos participantes, diante dos produtos realizados.
Além disso, o sucesso também é percebido na organização do ambiente; na preparação, na manutenção e na utilização consciente dos materiais; na relação eficiente entre disciplina e iniciativa. Esses e outros aspectos visam desenvolver plenamente a liberdade de expressão artística, mas desenvolvem igualmente a disciplina necessária na preparação, na realização e na manutenção de qualquer atividade produtiva.  

 

Notas

[1] Sobre a função poética da linguagem, cf. Jakobson  (1977); sobre os planos da expressão e do conteúdo, cf. Floch (1985), e sobre sintaxe visual, cf. Dondis (1991).
[2] Sobre livre expressão artística e afetividade, cf. Lowenfeld e Britain (1977).
[3] Edwards (1984) informa que as atividades de desenho, entre outras, mobilizam o hemisfério direito do cérebro e estimulam a concentração.
[4] Cf. Dewey (in: Os Pensadores, 1974); Lowenfeld e Britain (1977) e Read (1977).
[5]  No final do séc. XIX Sigmund Freud estudou sistematicamente os sonhos, indicou suas funções, suas relações com o inconsciente e assinalou a possibilidade e a necessidade da interpretação (FREUD, 2001).
[6] Freud já havia dito que o inconsciente é histórico e Mukarovsky (1993) indica que a subjetividade é decorrente da relação entre o sujeito e o mundo objetivo, ou seja, “objetividade interiorizada”.
[7] Cf. Perassi (2005: 23-5) que reflete sobre a arte como oportunidade de inclusão no tópico “Arte e Expressão”.
[8] No verbete “Simbolismo”, Ashbery e outros (1981: 336-7)  assinalam a ênfase dada por Gauguim à pintura de memória no contexto da arte simbolista.

 

Referências Bibliográficas

ASHBERY, Jonh (et al). Dicionário da Pintura Moderna, São Paulo: Hemus, 1981.
DEWEY, Jonh. A Arte como Experiência, in: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
DONDIS, A. Sintaxe da Linguagem Visual, São Paulo: Martins Fontes, 1991.
EDWARDS, Beth. Desenhando com o lado direito do Cérebro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1984.
FLOCH, Jean Marie. Petite mythologie de l'oeil et l'esprit. Paris: Hades-Benjamin, 1985.
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeiro: Imago,  2001.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1977.
LOWENFELD, V. e BRITAIN, W. Desenvolvimento da Capacidade Criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
MUKAROVSKY, J. Estética e Semiótica da Arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.
PERASSI. Richard L. S.. Roteiro Didático da Arte na Produção do Conhecimento. Campo Grande, MS: EDUFMS, 2005.
READ. Herbert. A Educação pela Arte, São Paulo: Martins Fontes, 1977.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Sousa, R. ; (2011) A Expressão Visual do Afeto. Ensino da Arte: Transdisciplinaridade, Cidadania e Inclusão.. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL IV (7) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt