Manuel de Tavares e o catálogo da Livraria de D. João IV

Manuel de Tavares and the bookstore catalog of D. João IV

Castilho, L.

IPCB/ESART / CESEM - Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco / Centro de Estudo de Sociologia e Estética Musical

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Dada a importância que o Catálogo da Livraria de D. João IV, tem para o estudo da música ibérica, nos finais do séc. XVI e princípios do XVII, , e pelo facto de Manuel de Tavares ser o sexto compositor nele mais representado fez-se uma descrição da informação disponível sobre as suas composições constantes no catálogo, e a identificação hipotética daquelas que sobreviveram. Essa descrição constou dos seguintes parâmetros: número de vozes versando obras policorais e para um só coro; número de obras sacras em Latim e vilancicos; géneros músico-liturgicos, ocasião litúrgica para que foram escritas as composições, classificação dada pelo Rei (MB ou B) e línguas utilizadas nos vilancicos.

 

PALAVRAS-CHAVE: Policolaridade; Polifonia, Catálogo; D. João IV; Manuel de Tavares.

 

ABSTRACT: Given the importance to the study of Iberian music, at the end of the century. Sixteenth and early seventeenth centuries, the catalog of the Library of D. John IV, and because Manuel Tavares to be the sixth most represented composer it became a description of the available information on their compositions listed in the catalog, and the hypothetical identification of those who survived. This description consisted of the following parameters: number of voices, dealing polychoral and works for one chorus, number of sacred works in Latin and villancicos; gender-liturgical musician, liturgical occasion for which they were written compositions, classification given by the King (or MB B) and languages used in villancicos.

 

KEYWORDS: Polychoral; Polyphony; Catalog; D. João IV; Manuel de Tavares.

Durante o período filipino, a Capela dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa, era muito mais importante e influente do que a Capela Real. Aí, o futuro D. João IV recebeu uma educação típica de um grande fidalgo, que incluía o estudo do Latim e da Música.[1] O seu interesse crescente pela música foi de tal ordem que, quando herdou, em 1630, o Ducado de Bragança, começou a dedicar o máximo dos recursos financeiros disponíveis e o essencial dos seus tempos livres à formação de uma das maiores, se não a maior, biblioteca de música do seu tempo na Europa. Instituiu ligações de mecenato, encomendando obras aos principais polifonistas portugueses e a vários músicos da Capela Real espanhola, ou adquirindo impressos e manuscritos musicais através de contactos com editores ou distribuidores estrangeiros, ou ainda de agentes pessoais, e dos embaixadores portugueses pela Europa, após a Restauração.
Desafortunadamente, a biblioteca com todo esse riquíssimo espólio musical foi destruída em Lisboa pelo terramoto de 1755 e só a primeira parte do catálogo impresso sobreviveu. Este tinha sido editado em 1649, em Lisboa, por Paulo Craesbeeck, sob o título de Primeira Parte do Index da Livraria de Musica do Muyto Alto, e Poderoso Rey D. João o IV Nosso Senhor.[2] Contém cerca de dois milhares de volumes impressos e cerca de quatro mil peças manuscritas, das quais 1345 são obras em latim, 2351 são vilancicos e 196 obras seculares vocais e instrumentais. Segundo Rui Vieira Nery[3], os impressos parecem ter sido adquiridos sem um determinado critério, para além do dispor de tudo quanto se ia publicando na Europa, sendo nas obras manuscritas que o monarca concentrava sobretudo as suas escolhas, estando representados, entre aquelas, mais de duzentos autores de diversas nacionalidades, com particular destaque para os das várias escolas polifónicas ibéricas.
Manuel de Tavares é um desses autores representados no catálogo, no entanto, antes de se analisar a sua obra neste documento tão importante, dá-se a conhecer um pouco do seu percurso profissional e da sua obra sobrevivente.
Manuel de Tavares, provavelmente nascido em 1685, era natural de Portalegre, em cuja catedral foi moço de coro e discípulo de António Ferro. Por volta de 1609, ainda jovem, muda-se para Espanha, onde ocupa o cargo de Mestre de Capela da Catedral de Baeza (Província de Jaen) até 1612[4], quando foi contratado para a Catedral de Murcia. Fixa residência nesta cidade durante quase vinte anos, até ir ocupar igual cargo na Catedral de Las Palmas de Gran Canária, em 1631[5]. Nesta cidade, começa em funções em Maio de 1631 e ali permanece até ao Verão de 1638, quando decidiu voltar à Península, para ocupar o lugar de Mestre de Capela da Catedral de Cuenca. Contudo, apenas exerceu este cargo um par de semanas, pois faleceu a 13 de Outubro[6].
Atualmente com um acervo de 28 composições, sendo 13 Policorais e 15 para um único Coro, emprega cinco géneros, sendo quatro músico litúrgicos: Missa, Ofício (hinos, salmos, lições, cânticos de Simeão), Motete e Vilancico; e o outro profano: Romance.
Voltando à análise do Catálogo de D. João IV, Manuel de Tavares, como já foi referido, é um dos autores contemplados e conta com um total de 96 obras, sendo o sexto compositor mais representado no catálogo.[7] Destas, 53 são obras sacras em latim, género em que Tavares é também o sexto compositor mais representado,[8] e 43 são vilancicos, sendo o nono compositor mais representado nesta categoria.[9]
O quadro nº1 contém a lista das composições sacras latinas, de Manuel de Tavares, referidas no catálogo de D. João IV. Para cada peça, fornece-se a seguinte informação:
Número de vozes
Título da obra
Modo
Género
Ocasião litúrgica
Classificação
Número do caixão
Número do índice
Número de página

 

Quadro 1 – Obras Sacras em Latim

 

O quadro nº2 contém a lista dos vilancicos no catálogo de D. João IV. Para cada peça, fornece-se a seguinte informação:
Número de vozes
Título da obra
Língua
Ocasião litúrgica
Classificação
Número do caixão
Número do índice

 

Quadro 2 – Vilancicos

 

Da análise das obras de Manuel de Tavares constantes do catálogo de D. João IV, podemos constatar o seguinte:

 

Fig. 1

 

Num universo de 96 obras, as de oito vozes são as mais representativas, com 45 obras, correspondendo a uma percentagem de 46,9%, o que corresponde a quase metade. Mas as obras a seis vozes também encontram uma ampla utilização, com uma percentagem global de 27,1 %. Seguem-se as de dez vozes, com 5,2%, e cinco e onze vozes, com 4,2%. O número de vozes menos utilizado é a quatro e a catorze com 1%.

 

Fig. 2

 

Analisando agora separadamente o número de vozes utilizado nas obras sacras em latim e nos vilancicos, constata-se que igualmente para cada um dos géneros são as oito vozes as mais utilizadas, com 39,6% e 55,8% respectivamente, seguindo-se as seis, com 26,6% e 27,9%. Nas obras sacras em latim, o número de vozes é mais variado, indo de quatro a catorze, enquanto nos vilancicos vai apenas de quatro a dez.
Ainda no âmbito da utilização do número de vozes, examinemos qual a proporção das obras monocorais e policorais. Assume-se, no caso especifico de Manuel de Tavares, que as obras a partir de sete vozes são policorais, uma vez que, pela análise do seu repertório, este número de vozes é assim tratado.

 

Fig. 3

 

Como se pode ver nos esquemas acima inseridos, quer na totalidade das obras, quer nas categorias separadas das composições latinas e dos vilancicos, há uma predominância bastante significativa de obras policorais, a rondar os 66%, enquanto as monocorais ficam pelos 34%.
Nas obras sacras em latim, Manuel de Tavares aplica diferentes géneros músico-litúrgicos. Como se pode constatar pelos esquemas seguidamente inseridos, o Motete é o mais representativo, com uma percentagem de 60,4%, seguindo-se o Salmo, com 17%, a Missa, com 9,4%, o Cântico, com 7,5%, a Antífona, com 3,8%, e, por fim, a Lição, com 1,9%.

 

Fig. 4

 

D. João IV julgava e seleccionava as obras para serem cantadas na sua Capela, atribuindo-lhes classificações de Muito Bom, Bom, e Reprovada (as que caíam nesta última categoria eram enviadas para uma estante que designara por inferno). No caso de Manuel de Tavaresl, é atribuída a classificação de Muito Bom (MB) a 29 das suas obras, numa percentagem de 30,2%, e de Bom (B) a 46, ou 47,9%, ficando sem classificação (s/c) 21, ou seja, 21,9%.

 

Fig. 5

 

Nos esquemas abaixo, poder-se-á observar as classificações atribuídas nas obras sacras em latim e nos vilancicos. 

 

Fig. 6

 

A língua utilizada nos vilancicos é quase na totalidade o castelhano (95,3%), só em duas obras se utilizando outras: o Negro e o Galego.
Em conclusão, as obras de Manuel de Tavares referenciadas no catálogo de D. João IV são em grande parte a oito vozes, policorais, com uma classificação de Bom; nas músicas sacras em latim, predomina o género motete e a língua mais utilizada nos vilancicos é o castelhano.
As obras mencionadas no catálogo régio que sobreviveram são: o motete Tota pulchra est Maria, a 7 vozes, com a classificação de Bom, situado no caixão n.º 35, com o número de índice 794/20, da página 429; o motete Surge propera amica mea, a 8 vozes, com a classificação de Muito Bom, situado no caixão n.º 35, com o número de índice 799/28, da página 440; o motete baseado no salmo Laudate pueri Dominum, a 10 vozes, com a classificação de Bom, situado no caixão n.º 35, com o número de índice 799/17, da página 439; e o salmo Credidi, a 11 vozes, com a classificação de Bom, situado no caixão n.º 35, com o número de índice 794/12, da página 428.

 

Notas

[1] Cf. R. V. Nery e P.F. Castro, História da Música (sínteses da cultura Portuguesa), Lisboa, Comissariado para a Europália 91 –Portugal / Imprensa Nacional casa da Moeda, 1991, p.61
[2] Existem duas edições modernas: uma de 1874, de Joaquim Vasconcelos, que proporcionou uma transcrição diplomática de uma cópia descoberta na Bibliothèque Nationale de Paris, e outra de 1967, uma reprodução em facsimile por Mário de Sampayo Ribeiro, preservada em Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Para uma compreensão da livraria de D. João IV e do seu catálogo cf. Rui Vieira Nery, The Music Manuscripts in the Library of King D. João IV of Portugal (1604-1656): a Study of Iberian Music Repertoire in the Sixteenth and Seventeenth Centurie, Tese de Doutoramento em Musicologia, Universidade do Texas, Austin, Texas, 1990.
[3] Cf. Rui Vieira Nery e P.F. Castro, Op. cit., p.62.
[4] Livros de Autos Capitulares desde el Ano 1611 a 1616, Arquivo da Catedral de Baeza, Fol. 29.
[5] Lola de la Torre,  «Documentos sobre la música en la Catedral de Las Palmas (1621-1640)», El Museo Canario, Las Palmas de Gran Canaria, 1997, p. 493.
[6] Miguel Martínez Millán, Historia Musical de la Catedral de Cuenca, Cuenca, Diputación Provincial de Cuenca, 1988, p. 131.
[7] Rui Vieira Nery, The Music Manuscripts in the Library of King D. João IV of Portugal (1604-1656): a Study of Iberian Music Repertoire in the Sixteenth and Seventeenth Centurie, Tese de Doutoramento em Musicologia, Universidade do Texas, Austin, Texas, 1990, p.756.
[8] Ibidem, p.760.
[9] Ibidem, p.773

Reference According to APA Style, 5th edition:
Castilho, L. ; (2013) Manuel de Tavares e o catálogo da Livraria de D. João IV. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL VI (11) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt