Capulanar: Para uma Abordagem Ét(n)ica ao Design de Moda Sustentável?

Capulanar: Towards an Ethical Approach to Sustainable Fashion Design?

Lucas, S.

CIAUD - Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Com base numa abordagem qualitativa a práticas criativas tradicionais, fundamentada por uma pesquisa-acção participativa, Capulanar é o resultado de um estudo de caso decorrente de um projeto de investigação no âmbito do nosso doutoramento em Design na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. A partir de uma análise histórica contextual, a primeira parte deste artigo evidencia três conceitos-chave de Co-design, Slow-fashion e Afetividade associados pela autora à criação e produção da capulana. Já a segunda parte, desenvolve-se a partir das propostas teóricas de Fletcher (2008) e Fuad-Luke (2009) sobre Sustentabilidade e descreve os resultados do Capulanar, um programa formativo de co-criação, cuja ação pedagógica de Co-design interliga os conceitos socio-culturais intrínsecos à capulana com noções-base de sustentabilidade adiantadas pelos mesmos autores. Doravante, os resultados desta ação constituirão uma plataforma de discussão profícua sobre a importância do Co-design na regeneração dos valores essenciais de Cultura e Identidade na atual (re)criação de novos modelos de capulanas fashionable.

 

PALAVRAS-CHAVE: Capulana; Identidade; Co-design; Afetividade; Slow-fashion.

ABSTRACT: Base on a qualitative approach to traditional creative practices grounded on a participatory research-action, Capulanar is the result of a case study derived from a research project within our Ph.D in Design at the School of Architecture of the University of Lisbon. From an historical contextualization, the first part of this article emphasizes three key-concepts of Co-design, Slow-fashion and Affectivity associated by the author to the creation and production of capulana. Yet, the second part draws its contents from the theoretical approaches from Fletcher (2008) and Fuad-Luke (2009) to Sustainability and it describes the results of Capulanar, a co-creative training program which pedagogical action of Co-design links the socio-cultural concepts intrinsic to capulana to the key-notions of Sustainability proposed by the same authors. The results of this action will henceforth constitute a plataform for a proficuous discussion about the importance of Co-design in the regeneration of Culture and Identity as core values in the actual (re)creation of new models of Fashionable capulanas.

 

KEYWORDS: Capulana; Identity; Co-design; Affectivity; Slow-fashion.

1. Introdução

O termo capulana surge como uma referência cultural moçambicana através de Samora Machel [1] num discurso realizado em Maio de 1975. Muito embora a capulana estivesse desde há muito ligada a processos socio-políticos de construção da moçambicanidade, desvendando a importância das relações comerciais (e culturais) no oceano Índico, neste discurso, Machel ampliou para sempre o sentido simbólico destes panos como uma entidade iconoplástica da identidade moçambicana [2].
Maputo [3], Zanzibar e Mombassa eram (e ainda são) cidades cosmopolitas, “zonas de contacto” que reflectem um circuito transcontinental de panos e de roupas (Pratt, 1991; Prestholdt, 2008; Fair, 2004) ligando o Norte de África, o Sudoeste Asiático, o Médio Oriente - com foco no Império Otomano - e o Sul da China (Clarence-Smith, 2005; Simpson & Karisse, 2007).
A partir de uma pesquisa realizada em Maputo, observou-se que a capulana tem uma forte presença na paisagem urbana (ver imagem 1) quer mantendo a sua forma mais tradicional (onde a capulana veste o corpo em drapeados soltos) quer procurando silhuetas mais contemporâneas (como peça de roupa inspirada por modelos europeus). Esta forte presença da capulana é simultaniamente significativa de uma ancoragem na tradição e de uma transformação deste pano como meio e instrumento de construção da identidade da mulher moçambicana (ver nota 8).

 

Fig. 1

 

Ao analisar a criatividade urbana de Maputo – espaço de encontro de várias culturas – a capulana, esse retângulo de tecido, base de muitas das modas que atravessam a história da África Oriental - é revisitado por assimetrias geradas por contextos pós-coloniais. Os profissionais de moda (estilistas e alfaiates) recriam-na a partir da mistura de modelos de corte ocidental com a proeminente criatividade Africana que incorpora, em si, “identidades feitas por múltiplas camadas” [4]. Por outro lado, as novas gerações questionam o uso da capulana e a forma tradicional de a vestir, emergindo o vestido feito de capulana [5] numa das respostas mais ajustadas à vontade de ser ‘moderno’ [6].  
Mas quando cortamos a capulana ela continua a ser capulana? De que forma o design para a sustentabilidade pode atualizar e revitalizar a tradição da capulana? Poderá esta actualização, fomentar uma maior recetividade para o uso da capulana pelas gerações mais jovens?
Este artigo explora, especificamente, de que forma a tradição da capulana (rectângulo de tecido) pode ser atualizada por meio de processos de design colaborativo, a fim de promover identidade e vitalidade cultural para gerações moçambicanas mais jovens. O projeto apresenta a ação formativa co-criativa Capulanar, atesta o envolvimento da comunidade moçambicana em Lisboa [7] e explora de que forma esta colaboração é eficaz na criação de propostas de design que intendem atualizar o uso deste pano tradicional. Paralelamente, esta ação reintroduz no processo criativo os conceitos culturais intrínsecos à capulana aqui definidos pela própria autora como Co-design, Slow-Fashion e Afetividade.
Na base deste artigo assume-se que os conceitos culturais associados à capulana são a chave para a efetivação do que hoje se defende por Design Sustentável. A ação Capulanar é sustentada pelas ideias de Fuad-Luke e a sua reflexão sobre a importância do Co-design como uma permissa oferecendo “(…) an opportunity for multi-stakeholders and actors collectively define the context and problem and in doing so improve the chances of a design outcome being effective“ (2009, p.147). Ainda focando-se no campo direto da Moda, o desenvolvimento desta ação formativa apoia-se também nas ideias de Fletcher (2008) e nos seus argumentos que debatem a importância da Slow-fashion para a construção de uma moda mais sustentável. Esta autora sublinha ainda – e seguindo o argumento de Fuad Luke – a importância de um novo modelo de ação fundamentado pela participação do usuário para que o design se torne ferramenta de mudança social (2008, p.193). Finalmente, este artigo tem ainda como referência as ideias do designer Ehrenfeld (2008) para quem importa um desenvolvimento sustentável ligado a fatores sociais e culturais que se concentra no ‘ser‘ em vez do insustentável ’ter‘ como modo de existência humana. Ao sublinhar esta importância da afetividade, Capulanar acentua o valor da ação de produção dos objectos, construindo assim um modo de agir existencialista que sugere, por uma lado, “a need to do something” em vez de “need something” (Ehrenfeld, 2008, p.138) e, por outro lado, confirma com Borjesson (2006) uma “sustentabilidade afetiva dos objetos”. Aqui, numa dimensão intangível, a sustentabilidade é construida a partir da durabilidade do objecto, da satisfação cognitiva e do desejo de manter, cuidar e preservar o objeto (Chapman, 2005, p.75-76 e Ehrenfeld, 2008, p.133).
Na elaboração deste trabalho optou-se, também, por uma abordagem teórica, fundamentada em Strauss & Corbin (1990) e Glaser & Strauss (1967), que induz a uma análise histórica mais detalhada e à combinação de dados antropológicos com metodologias de design. Primeiramente, foi feito um estudo etnográfico sobre a capulana de Moçambique e esta etapa compreendeu duas fases de trabalho de campo realizado em 2011, ora na cidade de Maputo, ora em Lisboa, aqui em especial junto da comunidade moçambicana residente. Tendo optado por métodos qualitativos (entrevistas e observação participante) foi feita uma ampla recolha de entrevistas semi-estruturadas (a historiadores, fotógrafos, estilistas, comerciantes, mulheres moçambicanas – mamanas, a jovens moçambicanas e a alfaiates africanos) e, ainda durante esta etapa, foram feitos, a partir de observação direta, inúmeros registos fotográficos e videograficos que, associados aos relatórios e às notas de campo, fundamentaram todo o estudo. Numa segunda parte do projecto e partindo da análise dos dados recolhidos, desenvolve-se então a ação Capulanar que se apoiou numa metodologia de investigação pesquisa-ação participativa. Nesta fase do trabalho, integrou-se no proceso de Co-design um grupo de 4 jovens moçambicanas.  Partindo de uma análise histórica do pano, como base para a compreensão da cultura e da tradição que lhe estão associadas, foi possível elaborar o briefing para a ação Capulanar que se desenvolveu em 4 fases: apresentação, negociação, efectividade e avaliação. Esta metodologia de trabalho provou não só facilitar a possibilidade individual de participação e cooperação (como uma necessidade humana) no processo de design, como ainda, validar a sua importância maior para a construção da identidade (personalidade, melhoria de autonomia e bem-estar) e revitalização cultural.

 

2. A capulana de Moçambique

 

Fig. 2

Este pano usado por mulheres (e também por homens) para vestir os seus corpos é conhecido por vários nomes: como capulana no sul de Moçambique; como Kanga em Zanzibar; como lamba em Madagáscar; como leso em Mombasa; como pagne no Quénia; como gutino na Somália; como cheramine nas ilhas de Comores (Spring, 2012); como chitenge no Malawi; e, finalmente, como Kikoi na África do Sul (Arnfred & Meneses, 2014, p.7).
Cruzando Moçambique de Norte a Sul, este tecido colorido que veste o corpo, reflete um longo passado de negociações no oceano Índico (Alpers, 2009, p.180). Vários são os autores que apontam a segunda metade do século XIX como data de origem destes panos [8] e relacionam o seu aparecimento com dois movimentos sociais: a libertação dos escravos e a Revolução Industrial em Inglaterra. Desde então, a capulana tem registado a história que situa este pano num todo e como parte integrante de uma área relevante do comércio e da moda, que se estende desde a costa da África Oriental até aos Mares da China (Alpers, 2009; Simpson & Kreisse, 2007).
A capulana é em si um pano retangular de algodão estampado em toda a sua superfície, medindo aproximadamente entre 170 e 190 cm de comprimento e 110 cm de largura. Tradicionalmente, têm impresso um desenho central [10] enquadrado por uma margem sólida (uma margem dupla ou com quatro lados) com desenhos distintos em cores contrastantes. Outro tipo de capulana muito presente em Moçambique, e cuja utilização é anterior às estampadas, é a capulana tecida que apresenta um padrão de xadrez a duas cores.
Cada região de Moçambique tem o seu dress-code. No sul de Moçambique as mulheres usam geralmente uma capulana com um lenço de padrão diferente. Já “as mulheres no Norte podem usar até 5 capulanas. Um par de capulanas como saia, depois outra capulana no topo como um vestido de corpo inteiro que cobre o corpo do peito aos joelhos, uma blusa (quimão) e um lenço na cabeça” [11]  (ver figura 2). É de acrescentar que as mulheres islâmicas usam frequentemente um véu feito com uma capulana de padrão distinto. Atualmente, “as mulheres mais urbanas, que optaram por não usar a capulana como vestimenta diária, demonstram a sua afeição pela capulana, ao transporta-la na sua bolsa de mão, ao vesti-la como roupa de casa ou em certas cerimónias como casamentos, batizados e enterrros” [12].

 

3. Desvendando os conceitos culturais da capulana: Co-design, Slow-fashion e Afetividade.

3.1 A capulana vista como Slow-fashion e sugestora de afetos

Sobre o lema ‘one size fits all’ este retângulo de tecido convida a vários usos [13] e veste vários tamanhos e, por isso mesmo, pode-se associar ao movimento Slow-fashion. Como alerta Kate Fletcher, importa abrandar os ritmos de consumo de roupa e para tal será conveniente inserir “design strategies such as versatibility and reparability to keep a product relevant; [and] the promotion of emotional bounds with a product which encourage ongoing use” (2008, p.166).
Apesar de também usada por homens, a capulana desenvolveu-se intimamente ligada à mulher moçambicana (Arnfred & Meneses, 2014) e, na África Oriental, este têxtil tem-se tornado uma ferramenta de mediação que amplifica a "interação social" (Beck, 2001, p.157) já que permite ao seu utilizador a construção de relacionamentos. À semelhança do que Yahya-Othman (1997, p.137) descreve sobre as kangas, estes panos “são muitas vezes trocados como presentes entre as mulheres”. As mulheres podem também vestir-se entre si com capulanas iguais de modo a, afetivamente, simbolizarem o sentimento que as une.
Muito embora as capulanas do sul de Moçambique não tenham mensagens inscritas (como acontece com os panos homólogos, kangas) normalmente elas têm um nome e é este nome que constroi o sentimento associado ao padrão, tornando-a em algo próximo e apropriado [14]. Neste sentido, as capulanas são um meio para transmitir, simultaneamente, uma mensagem e um sentimento (Beck, 1997; Hamid, 1995; e Hongoke, 1993). Se de acordo com Bordieu (1988, p.15) as mensagens, tais como as das capulanas, “assumem o poder de manter a ordem ou de a subverter de acordo com a crença de quem as pronuncia e a legitimidade de quem as recebe”, aqui (também com Barthes, 2005, p.32) a capulana torna-se apogeu da teoria Flugel em que "a roupa é muito mais comunicação do que a própria expressão".
Em suma, a perpetuação da relação afetiva da capulana com o seu utilizador reforça o seu posicionamento no enquadramento conceptual de uma  “afectividade sustentável” defendida por Borjesson (2006, p.107 e p.192) como designação que nasce a partir da competência afetiva (e constantes adaptações) desenvolvida com o próprio objeto para que se torne intemporal.

 

4. A relação da capulana com o Co-design (desenhar com o outro)

Estrategicamente, os produtores e os comerciantes de panos recorriam (e recorrem) à população local para obterem informações sobre os padrões que faziam maior sucesso e, também, sobre quais a população perpetuava o seu desejo.
Acerca dos processos de co-design, o proprietario da ex-TextÁfrica [15]  salienta que:

“Os desenhos eram adaptados ao gosto das pessoas. Cada região de Moçambique tem o seu gosto de padrões e cores. Por exemplo, em Chimoio existe a preferência pela cor Bordeaux, em Nampula pela tonalidade amarelo. A norte do Zambeze, os Maometanos não usam rostos de pessoas nas roupas, por isso, não se vendiam as capulanas de propaganda. Os desenhos eram experimentados nos mercados, às vezes de dez desenhos lançados só um vingava e se tornava popular. Eram os comerciantes que nos davam essa informação”. [16]


A revista moçambicana Tempo, num artigo intitulado “Capulanas: recuperação comercial de um fenómeno cultural” inclui uma entrevista com Adelino Maia (então responsável da secção de desenho da Texlom [17]), em que este refere que “em alguns casos as ideias para a criação das capulanas partiam de pessoas exteriores ao mecanismo de produção”.  Ainda no mesmo artigo, um outro entrevistado (gerente dos armazéns Kanji) refere que as maquetes dos desenhos enviadas para o estrangeiro eram feitas depois de um estudo em conjunto entre a D. Cacilda [18] e as “mapwseles” (mulheres locais) que escolhiam as cores …” (Tembe & Cardoso, 1978, p.22). Ora, como se pode verificar, já estes métodos utilizados para o design das capulanas nascia de processos de co-design.

 

5. Experimentação e tradução da prática Capulanar

Partindo da reflexão sobre os conceitos culturais da capulana de Moçambique, aplicando-os ao processo de design e compreendendo a frase de Borjesson “Osborne, drawing on Ricoeur, also implies that there are negative effects on real improvements in society when traditionality is regarded as a way of preserving rather than of gaining experience” (2006, p.56), a ação Capulanar propõe-se como uma proposta ‘fashion-able’, cujo objetivo é olhar para o passado à procura de soluções e inovar através das metodologias do design, desenvolvendo modelos de vestir este retângulo de tecido de forma a permitir a experiencialidade renovada e o afeto por novas gerações moçambicanas. A opção pela abordagem de Co-design desenvolvida com um grupo de jovens moçambicanas foi a de ganhar um ‘conhecimento de informação privilegiada’ acerca da perceção e prática cultural à volta do pano. Um segundo objetivo buscava ainda melhorar o valor intrínseco ao utilizador, conseguindo menorizar parcialidades na validação dos conceitos que foram desenvolvidos.
Foram aplicadas várias técnicas de Co-design, alinhando os seus benefícios para os objetivos do projeto. Numa primeira fase, no Museu Nacional do Traje em Lisboa, foram desenvolvidos três forums de diálogo sobre a capulana de Moçambique, envolvendo um conjunto bastante heterogéneo de pessoas. Estes forums destinaram-se a apresentar o projeto e a explorar em conjunto as idéias e perceções dos participantes acerca da capulana: as suas memórias e o papel que este pano desempenha nas suas vidas diárias (ver imagem 3). Numa segunda fase, foram convidadas quatro jovens moçambicanas, que já tinham estado presente nos forums, a participar na oficina Capulanar. Nesta oficina, procurou-se validar os resultados dos estudos anteriores, negociar e efetivar o desenvolvimento de novas formas de vestir capulana que se ajustassem a uma geração mais jovem e cosmopolita, mas ainda assim, mantendo os conceitos culturais associados ao pano, pré-definidos pela autora (ver imagem 5).

 

Fig. 3

 

Fig. 4

 

 

O primeiro objetivo da oficina – ganhar conhecimento interno – foi atingido na sua totalidade. As participantes fizeram uma série de observações que ajudaram a mudar alguns dos meus pressupostos implícitos sobre a forma como as novas gerações se ligam à capulana e à sua tradição. Constatou-se, por exemplo, que algumas dessas jovens usam a capulana em espaços públicos, não por hábito mas porque encontraram na capulana uma forma de afirmação da sua identidade em contextos de diáspora.
O segundo objetivo da oficina visava validar os próprios conceitos do projeto. E, através do Co-design, foi possível gerar um diálogo permanente entre o grupo de jovens participantes o que tornou possível verificar e desenvolver, em conjunto e em profundidade, as ideias apresentadas no Capulanar em 2 níveis de conhecimento distintos e 10 outfits diferentes feitos a partir do mesmo retângulo de tecido, atingindo-se assim o conceito de Slow-fashion. Este método de “criatividade coletiva” (Sanders & Stappers, 2008) permitiu-nos, de facto, criar valores e níveis concetuais com resultados mais coerentes e menos enviezados.  Como o gráfico que se segue procura dar conta, neste projeto o design de moda tornou-se território de pesquisa, análise, experimentação e construção de conhecimento cultural.

 

Fig. 5

 

6. Análise dos resultados e fatores de sucesso

O estudo do têxtil capulana de Moçambique apela, intrinsecamente, a um projeto transdisciplinar, alcançando uma complexidade tangível nas dimensões historico-económicas deste pano e uma outra intangível, nas suas dimensões socioculturais, e engloba para isso disciplinas do design, moda, antropologia, sociologia e sustentabilidade. Os resultados do estudo confirmaram algumas idéias iniciais da autora, mas alteraram os pressupostos implícitos na pesquisa inicial, pois o processo expandiu o leque de possibilidades, ideias e visões sobre as problemáticas esboçadas originalmente.
A validação e avaliação dos resultados do Capulanar foi possível devido a dois momentos:

  1. Na apresentação do projeto durante o Moçambique Design Day (FIL, Lisboa) no qual os participantes puderam expor, discutir,  experimentar [19] e avaliar os resultados do Capulanar com um público heterogéneo.
  2. Na criação da plataforma virtual do Capulanar no facebook que permitiu a interação com um público muito mais amplo, em especial o que está em Moçambique. Os resultados das experimentações, são registados e partilhados on-line, expondo interpretações pessoais e apropriações que exprimem o Self.

 

Fig. 6

 

Os conteúdos teórico-práticos desenvolvidos no âmbito da sustentabilidade permitiram: equacionar a contemporaneidade feita a partir da tradição (leia-se conceitos culturais da capulana); ativar encontros (inter)culturais e (inter)geracionais; e acionar diálogos mais profundos e espaços de prática partilhados (i. e. fórums de diálogo e o espaço lab).
Mais especificamente, os resultados do Capulanar permitem articulações significativas nos domínios da cultura, criatividade e identidade através de práticas outras de vestir capulana. Até à data, os “insights” sobre este projeto contribuiram relevantemente para dirigir e iluminar discursos acerca da criatividade nas cidades africanas, a partir das práticas operacionalizadas nos campos produtivos de moda em contextos urbanos. Ao fundamentar discussões acerca de realidades africanas, o projeto iluminou e tem vindo a potencializar uma evolução nas práticas de moda e, por conseguinte, de renovação cultural e identitária. Ao levantar questões sobre identidade, esta pesquisa realizou intervenções práticas, que sublinham e insistem na importância da dinâmica de processos criativos contextualizados no espaço urbano. Aqui ilustrando o contexto da diáspora, os desafios resultantes dos binómios pano – lugar do Self e pano – lugar de cultura, ilustram de que forma a identidade está entrelaçada nos processos sociais, culturais e criativos que vão permitindo 'construir-se a si mesmo’. A extensão da plataforma Capulanar para o domínio virtual (facebook [20]) permitiu alargar de Moçambique para Lisboa o público de interação com o próprio projeto.

 

Agradecimentos

Para o apoio a esta pesquisa, agradeço à FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), em Portugal. Os meus agradecimentos vão para todas as pessoas que cederam espaço e tempo para as entrevistas. Ao Museu Nacional do Traje, em Lisboa, pela colaboração e cedência dos espaços para desenvolver o projeto. Uma enorme gratidão para os meus orientadores Dr. Henri Christiaans e Dra Paula Meneses pelas suas críticas construtivas, apoio e estímulo.

 

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Notas

[1] Primeiro presidente de Moçambique independente.

[2] Entrevista com João Craveirinha em Lisboa a 11 Novembro de 2013.

[3] Moçambique, até aos anos 1925-26, referia-se à atual Ilha de Moçambique.

[4] Importa considerar a reflexão sobre este tópico feita por Rovine (2013) acerca do trabalho desenvolvido pelos designers Africanos.

[5] Entrevista a Sr. Aboubacar, alfaiate do Senegal, residente em Maputo há 8 anos.

[6] Moorman refere que em África, o Maio de 68 trouxe esta noção de ser ‘moderno’ baseada na construção da imagem do Ocidente reinterpretada pelo estilo Africano (Moorman, 2004;). Esta prática aprimorou-se ao longo das décadas e hoje, o moderno africano reflete um estilo único, revisitado por ditâmes do Ser Africano, construido a partir da originalidade de misturar a roupa local com a Internacional, proclamando (até num sentido mais politico) a moçambicanidade cosmopolita.

[7] A intenção é de criar um projeto-modelo em Lisboa, em colaboração com a comunidade moçambicana imigrante, para futura aplicação no contexto local Moçambicano.

[8] Veja-se, entre outros, Yatha–Otman, 1997; Picton, 1995; Parkin, 2004; Mc Curdy, 2006; Hamid, 1996; Linnebuhr, 1989; Fair, 2004; Beck, 1997, 2000, 2001; Para o caso de Moçambique veja-se Arnefred, 2010; Arnefred & Meneses, 2014; Spring, 2012, Torcado & Rolleta, 2004; Zimba, 2012.

[9] Para calcular este valor médio e variável a autora mediu cerca de 52 capulanas. Como relatado pelos vendedores de capulanas, estes não fazem uso da fita-métrica e a medida do corte surge de duas formas: a partir do comprimento da moldura da capulana ou a medida adquirida por um processo mais empírico que se obtém a partir do comprimento do próprio vendedor. O limite das extremidades do pano é determinado pelo comprimento dos seus braços abertos na horizontal.

[10] As principais técnicas de estampagem utilizadas são a reserva de cêra (wax-print) e batique.

[11] Entrevista ao fotógrafo Jorge Almeida realizada em Maputo, em Abril de 2011.

[12] Entrevista a Conceição Cumaio, realizada em Maputo em Maio de 2011.

[13] Em entrevista a Elsa de Noronha, em Lisboa a 22 de Julho de 2013, ela refere que a capulana pode adquirir diferentes funções: pode ser usada como uma toalha de mesa, como cortina, como um lençol de cama, como um envoltório para proteger da chuva, como xaile, para carregar os bebés ou qualquer outra situação que justifique a sua utilização.

[14] Dois autores apresentam em detalhe como as capulanas são batizadas em Moçambique. Veja-se a revista Tempo, edição 387, de 1978.

[15] A TextAfrica era uma das fábricas produtoras de capulanas. Situava-se em Chimoio na província de Manica. Iniciou a sua atividade  em 1955 tendo sido encerrada em meados de 1980, já após a independência de Moçambique.

[16] Entrevista a Frederico Magalhães, filho do proprietário da TextÁfrica Manuel Magalhães, realizada no Porto a 26 de Novembro de 2013.

[17] Texlom era uma das fábricas de produção de capulanas em Moçambique, situada em Lourenço Marques.

[18] A D. Cacilda era uma comerciante de tecidos e proprietária da Casa Cacilda, onde se vendiam capulanas.

[19] Para esta fase de verificação foi dada uma conferência sobre o projeto e o mesmo foi exposto durante 5 dias no espaço de exposição Capulanar permitindo um contacto mais próximo, onde o público pode experimentar as várias formas de capulanar. 

[20] https://www.facebook.com/pages/Capulanar/633749629990002

Reference According to APA Style, 5th edition:
Lucas, S. ; (2015) Capulanar: Para uma Abordagem Ét(n)ica ao Design de Moda Sustentável?. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL VIII (15) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt