Design e a relação nostálgica entre os hábitos de consumo no ensino superior

Design and the nostalgic relationship between consumption habits in higher education

Frandoloso, P.

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O presente artigo teve como objetivo investigar características da relação do design e a comunicação com o consumo de produtos nostálgicos no dia a dia de jovens universitários de uma instituição de ensino superior do oeste do estado de Santa Catarina. Para dar conta do objetivo a pesquisa foi embasada em um referencial teórico que passa pelos campos do Design, Psicologia, Antropologia, Sociologia e áreas da Comunicação, como o Marketing, Moda, Comportamento e Entretenimento. O domínio desses temas e uma pesquisa qualitativa através de grupo focal possibilitou um levantamento das características do perfil do consumidor nostálgico da instituição analisada, alcançando os objetivos propostos.

 

PALAVRAS-CHAVE: design; consumo; nostalgia; comunicação; comportamento.

 

ABSTRACT: This paper aimed to investigate the relationship between design, communication and the nostalgic consumption on the college student’s life in the west of Santa Catarina. A theoretical that goes through different knowledge like Psychology, Anthropology, Sociology and areas of Communication, like Marketing, Fashion, Behavior, Entertainment and Design was used during its development. Understanding about all these fields and through a focus group research, it was possible to comprehend the nostalgic consumer behavior in the analyzed university, achieving the proposed goals.

 

KEYWORDS: design; consumption; nostalgia; communication; social behavior.

1 Introdução

Segundo o Dicionário Aurélio (1999) o termo “nostalgia”, oriundo do francês nostalgie, significa saudade do passado, vontade de viver ou reviver uma época que não a atual. Seu emprego relacionado aos hábitos de consumo é relativamente novo e ainda soa estranho entre muitas pessoas, que nem imaginam se encaixar em tal identidade, a qual surge como um forte segmento de mercado e em ascensão nos hábitos de consumo registrados entre movimentos sociais e econômicos.

Designado a pessoas que optam por produtos e serviços ligados ao passado, os nostálgicos são consumidores que veem no estilo de vida uma forma de saciar desejos com produtos que os marcaram em outra época, vivenciada ou não. Esses produtos carregam em si algum fator e significado importante para o indivíduo.

É na vontade de revisitar o passado que um consumidor nostálgico procura por produtos e serviços que saciem a necessidade de uma ligação com outra época. Eles compram bonecos, vinis, filmes, artigos da moda e produtos retrô, que vão de móveis a eletrônicos, trazendo para o presente símbolos de épocas que ficaram na história, mas ainda influenciam seu comportamento.

Neste sentido, é importante salientar que produtos e serviços com valor agregado devem transcender o status de apenas bens de consumo. Seu processo de fabricação, logística e funcionamento são importantes, mas não são um ponto final. O design toma papel importante nesse processo, desde a ideia até a concepção de um projeto que pretende alcançar êxito.

A diferença entre um ótimo produto e um produto simplesmente bom é que um produto ótimo personifica uma ideia que as pessoas conseguem entender a aprender – uma ideia que cresce em suas mentes, com a qual elas se envolvem emocionalmente. (ROBERT & STEWART, 2010 pg. 21).

Esse pensamento se consolida quando verificamos um mercado de consumo mutante e em ritmo acelerado. Diferentes perfis de consumidores começam a formar nichos que desdobram-se, criando novos padrões de comportamento e tendências de consumo, o que possibilita a abertura de mercados e segmentos que ganham relevância e chamam a atenção do meio econômico (MAFFESOLI, 1987).

De acordo com as ideias de Anderson (2006), nichos são um público que possui desejos de consumo bem particulares e procura por produtos e serviços bem-delimitados. Quanto mais informação e mais se conhece sobre os consumidores, mais produtiva será a abordagem para a oferta. Compreender esse “encantamento” das pessoas por um estilo de vida baseado no passado é um desafio para entender quem são, aonde estão, o que fazem, como pensam e agem.

O público de nicho se concentra em grupos de interesse, pois ali encontram segurança e têm a possibilidade de externar opinião sem sofrer constrangimento. Um desejo único unido ao de outras pessoas, com anseios em comum, ganha força e alcança mais representatividade quando colocado em grupo, aumentando sua influência e seu poder de consumo.

Posto isso, algumas perguntas surgem: o que leva determinada faixa de consumidores a agir assim? Existe um perfil mapeável para tais consumidores? Quais são as principais referências dessas pessoas? Como esses hábitos e tendências interferem em seu círculo social e estilo de vida?

É na perspectiva de colher informações do objeto de pesquisa e baseado na importância de um segmento atual e evidente para o mercado do consumo, das tendências comportamentais e consequentemente do design e comunicação, que esta pesquisa busca compreender os hábitos de consumo dos consumidores nostálgicos com idade universitária de uma instituição de ensino superior o oeste do estado de Santa Catarina.

 

 

2. Os movimentos de consumo

O consumo evoluiu com a sociedade e suas marcas estão na história da humanidade, na qual se desenhou através das décadas, adaptando-se em novas realidades, criando diferentes perspectivas.

A produção em escala trouxe uma realidade antes inexistente para as demandas de consumo. Uma nova lógica começava a se formar na vida das pessoas, então era preciso produzir e, para isso, aumentar a demanda. Mas a pergunta que iria nortear todos os avanços posteriores era: por que as pessoas precisam consumir?

Seguindo as ideias de Baudrillard (2007), tudo começou a ser motivado pelo alcance de um sentimento sem traduções claras, algo que se questionado teria diferentes respostas de pessoa para pessoa, que era conhecido simplesmente por um nome que parecia expressar muito além do que a palavra representa: felicidade.

Inscrita em caracteres de fogo por detrás da menor publicidade para as Canárias ou para os sais de banho, a felicidade constitui a referência absoluta da sociedade de consumo [...] este mito que se encontra lastrado desde a Revolução Industrial e as Revoluções do séc. XIX, foi transferido para a Felicidade. (BAUDRILLARD, 2007, p.47).

Impulsionado pelos avanços sociais e tecnológicos, as pessoas precisavam de algo, mas ainda não sabiam o que elas “precisavam precisar”. A partir dessa premissa, uma infinidade de “necessidades” começaram a surgir, e para cada uma delas muitas e diferenciadas soluções foram desenvolvidas; a sociedade começa a engatinhar no mundo novo e maravilhoso de criar e saciar necessidades.

A noção de necessidade é solidária da de bem-estar, na mística da igualdade. As necessidades descrevem um universo tranquilizador de fins e semelhante antropologia naturalista cimenta a promessa da igualdade universal. [...] perante as necessidades e o princípio de satisfação, todos os homens são iguais, porque todos eles são iguais diante do valor de uso dos objetos e dos bens. (BAUDRILLARD, 2007, p. 48).

Essa ideia ditou o ritmo do cenário econômico no mundo inteiro. Nessa época, ainda nota-se uma generalização de desejos e soluções, na qual o ideal fordista de produção em escala ordenava todos os processos.

 

2.1 Tribalização

Pode-se dizer que a formação das tribos na sociedade pós-moderna veio como forma de unir as pessoas em torno de um mesmo sentimento e fazer parte do seu estilo de vida.

Seja como for, para além de qualquer atitude judicativa, o tribalismo, sob seus aspectos mais ou menos reluzentes, está impregnando cada vez mais os modos de vida. Eu tenderia a dizer que ele está se tornando um fim em si. Isto é, através de bandos, clãs e gangs ele recorda a importância do afeto na vida social. (MAFFESOLI, 1987, p. 138).

Na sociedade atual existe uma homogeneização das massas afetando diretamente o indivíduo que busca alternativas para deixar de ser “igual” e acaba buscando essa alternativa dentro da sociedade. Maffesoli chama de “comunidades emocionais” os grupos em que o indivíduo está inserido defendendo o seu sentimento, que até então permanecia oculto, bem como os membros dessa sociedade que passam a agir juntos. Como a sociedade e o comportamento humano são dinâmicos e de uma transitoriedade intensa, não se pode dizer em que momento o indivíduo sente a necessidade de estar inserido em um grupo, e muitas delas têm o seu futuro determinado pelo consumo; ele é quem determina o ciclo preestabelecido por diversos fatores. “Para resumir, podemos dizer que, conforme as épocas, predomina um tipo de sensibilidade, um tipo de estilo destinado a especificar as relações que estabelecemos com os outros.” (MAFFESOLI, 1987, p. 101).

Nota-se que o indivíduo, mesmo pertencendo a um grupo, possui necessidades particulares, que definem a sua identidade nas tribos em que está inserido, aflorando desejos de essência puramente individual espelhados em referências e contextos que caracterizam seu estilo de vida.

 

2.2 Individualização dos desejos

O estrondoso aumento de opções começava a interessar as grandes corporações e a apresentar um novo mundo aos consumidores. Em breve, o cenário mercadológico iria iniciar um novo ciclo, o da individualização, que já tomava seus pequenos traços nos grandes centros urbanos e nas pessoas que buscavam algo a mais, um diferencial.

Com sua profusão luxuriante de produtos, imagens e serviços, com o hedonismo ao qual induz, com seu ambiente eufórico de tentação e proximidade, a sociedade de consumo revela claramente a amplidão da estratégia de sedução. [...] identifica-se com a repetida multiplicação de escolhas que torna possível a abundância [...] ao lhes oferecer cada vez mais opções e combinações sob medida, permitindo, assim, circulação e escolhas livres. (LIPOVESTKY, 2005, p. 2).

Perante este novo pensamento, ainda seguindo as ideias de Lipovetsky (2005), chega-se a um ponto na história da sociedade de consumo em que o pensamento massificado começa a ser trocado pela individualização dos interesses, gostos, desejos e necessidades. A padronização perde força para a personalização.

Para saciar esse público evoluído e transformado, o design tem pela frente o desafio de dar forma a espelhos de inspiração, ou seja, criar imagens e repassar valores através de produtos que sejam únicos.

“O produto ícone ou referência é uma entrada ou portal para uma comunidade específica, para uma experiência singular. E é aí que você começa a gerar valor”. (ROBERT & STEWART, 2010 pg. 127).

Ainda sobre a agregação e valores e como criar uma experiência especial, os autores colocam que:

Incluída no design está a experiência de como você o compra, do que realmente acontece quando você o tem em mãos e abre a caixa, como você começa a se sentir e o que ele comunica a você. E, é claro, há uma cadeia de eventos pelo qual você toma conhecimento do produto. Isso também faz parte do design – o que todos esses pontos de referência significam para você. (ROBERT & STEWART, 2010 pg. 22).

Com isso, afeta-se a cultura, costumes, relacionamentos e valores. Tais mudanças começam a ser percebidas dentro das formações sociais, nas cidades e centros comerciais, nas relações interpessoais, na comunicação, no modo de viver em todo o planeta.

A sociedade pós-moderna ou, em outras palavras, a sociedade que generaliza o processo de personalização em ruptura com a organização moderna disciplinar-coercitiva realiza, de certa maneira, no próprio cotidiano e por meio de novas estratégias, o ideal moderno da autonomia individual, mesmo sendo ela, à evidência, de um teor inédito. (LIPOVETSKY, 2005, p. 8).

A sociedade evoluiu com o tempo e o consumo continuou aumentando, ainda mais com a chegada da publicidade. Os bens materiais para os indivíduos de determinada tribo são objetos de grande valor, pois saciam determinada vontade e deixam-nos bem perante aquele grupo. Importante salientar que tribo não é um termo exclusivo para um grupo de jovens, e por isso a flexibilização das tribos e do mercado é extremamente importante para que o indivíduo obtenha amparo naquilo que procura.

Atualmente, ao mesmo tempo em que nos fragmentamos também nos reagrupamos ao longo de outras dimensões. Hoje em dia, nossos bebedouros são cada vez mais virtuais, há muitos deles; e as pessoas que se reúnem em torno deles e se selecionam a si mesmas [...] Em vez de nos relacionarmos por laços frouxos com multidões, graças às sobreposições da cultura de massa, temos a capacidade de nos interligarmos, mediante laços mais fortes, com igual quantidade de pessoas, se não com mais, em consequência da afinidade em comum pela cultura de nicho. (ANDERSON, 2006, p. 189).

Todos precisam estar inseridos em algo que os faça sentir bem, independente da idade ou geração. A habituação a determinado grupo vai depender muito das escolhas que o indivíduo fizer e se serão aceitas pelos outros integrantes, pois em uma tribo as gerações estão misturadas e isso pode ser conflitante.

A evolução dos meios de comunicação e a disseminação de informações através da internet favorece a aproximação das pessoas em torno de assuntos em comum, mesmo estando fisicamente distantes ou sequer se conhecendo. É o início da era da proximidade virtual e o compartilhamento do desejo de consumo por meio dos nichos. Quando alguma pessoa deseja algum produto que não está disponível onde se encontra, em algum lugar do planeta ela terá acesso a tal produto, além de outras opiniões sobre isso, e uma compra em poucos cliques.

O teórico Marshal McLuhan dizia em seus estudos que os meios eletrônicos de comunicação permitiriam uma maior organização social da população, diminuindo virtualmente as distâncias, o que acarreta maior produção e distribuição de conteúdo, permitindo que o acontecimento em um local remoto tenha reflexo em outra parte do globo.

Essa situação (a de uma sociedade oral onde a interdependência resulta da interação necessária às causas e aos efeitos na totalidade da estrutura) é típica de uma aldeia e, desde o advento dos meios eletrônicos de comunicação, da aldeia global. Também é o mundo da publicidade e das relações públicas que é o mais consciente dessa nova e fundamental dimensão que é a interdependência global. (McLUHAN, 1977, p. 38).

A aldeia global, a instantaneidade de informação e a formação de grupos distintos são frutos de uma geração que apoia-se no desenvolvimento tecnológico e facilidade de troca de informação.

Se as pessoas mudaram e seus hábitos de consumo começaram a não ser mais simplesmente hábitos, o que se nota é a negação do que até então era padronizado, replicado e amplamente propagado.

 

 

2.3 Moda e antimoda

O que muitos chamam de “antimoda” começou com o desejo das pessoas serem únicas, com gostos e produtos personalizados.

Ardern (2008, p. 16) é claro quando diz que “[...] pessoas que criam obras para pessoas na moda imitarem fazem exatamente o contrário do que está na moda [...]”, constatação já percebida pelos profissionais do mercado, que agora tem como desafio tentar descobrir como contentar esses novos “grupos individuais” que se formam.

Complementando e ratificando os autores, Cobra ainda define os novos consumidores afirmando:

Antes o que impulsionava o consumo era o desejo de ascender socialmente pela posse de bens materiais. Hoje busca-se oportunidades e experiências que lhe proporcione uma vida mais feliz, mais rica e recompensada. Escolhas simples, ganho de tempo e longevidade, pois as pessoas vivem mais. [...] A moda deve proporcionar experiências inusitadas e deve apresentar produtos práticos. (COBRA, 2007, p. 225).

Não há mais uma busca por ser igual. Graças à globalização e à internet, hoje alguém pode ver e consumir algo de outro lugar do mundo e passar a adotar aquilo como parte da sua vida.

Alguém vivendo no Brasil pode simplesmente decidir, por algum motivo particular ou sentimental, que quer comprar e usar apenas produtos que tenham ligação com a Inglaterra, por exemplo. Esse mesmo indivíduo pode dividir tais costumes com seus amigos nas redes sociais ou na vizinhança. Seus amigos podem gostar e também aderir, adotando uma característica própria, como o estilo de vida baseada nos Beatles da Inglaterra. Isso afunila-se em um segmento interdependente, que dá vida a novas lojas, serviços, eventos, etc.

 

3. Nostalgia e consumo

A moda se reinventa através do tempo e de signos atemporais com uma forte inclinação para o consumo de estilos de vida baseados na memória, seja do próprio indivíduo ou uma simulada por ele.

Em todas as etapas da vida, os fatores que formam a personalidade de uma pessoa – e nisso incluem-se seus gostos, interesses e escolhas – são as memórias. Lembranças marcantes guardadas no consciente e inconsciente de cada um. Mesmo sem ser perceptível, a todo o tempo as memórias exercem papel de definição em muitos aspectos da formação humana. Dentro desse contexto, Cobra afirma que:

Com base em memórias, reduzimos a necessidade de trabalho para nossos cérebros. Isso também reduz o risco de lidar com as coisas novas, diferentes e desconhecidas. As lembranças de hábitos do passado influenciam sobre nossas ações presentes e futuras. (COBRA, 2007, p. 192).

Comportamentos são impulsionados por lembranças ou o que se configura como a felicidade sentida por alguém em estabelecer certa ligação com outra época. Essa ligação pode ser em forma de contato com um produto, beneficiando-se de um serviço ou simplesmente a sensação de conexão com algo que sua imaginação proporciona.

Nos estudos sobre o hedonismo, Barbosa relata:

O hedonismo moderno nos permite evocar estímulos através da imaginação e na ausência de qualquer sensação gerada a partir do mundo exterior. Esse controle acontece através do poder da imaginação, que proporciona a ampliação das experiências agradáveis. [...] o indivíduo é muito mais um artista da imaginação, alguém que tira as imagens da memória ou das circunstâncias existentes e as redistribui ou as aperfeiçoa de outra maneira em sua mente de tal modo que elas se tornam distintamente agradáveis. (BARBOSA, 2004, p. 51).

A transformação das características e gostos nostálgicos em produtos e formas de consumo se evidenciam cada vez mais. Dentro dessas subdivisões encontram-se detalhes ainda mais específicos, que conotam a dimensão que esse mercado de nicho tomou.

Além de gostar de produtos nostálgicos, um indivíduo também pode ser chamado de hipster, kidult, old school, entre outras nomenclaturas que especificam qual a relação do consumidor e sua época preferida do passado.

 

4. Metodologia de pesquisa

Para alcançar os objetivos da pesquisa, alguns processos metodológicos foram traçados como base para sua realização.

Pesquisa bibliográfica: uma revisão de pensamentos e teorias de relevância sobre o tema. Neste sentido, a pesquisa bibliográfica será utilizada durante a revisão bibliográfica e “[...] abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros [...]” (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 183).

Analisando e filtrando estudos já realizados por nomes importantes dos campos que envolvem o tema consumo nostálgico, foram estudadas ciências da comunicação, design, psicologia, antropologia, sociologia, dentre outros.

Pesquisa qualitativa: possibilitou uma análise profunda das questões levantadas, permitindo considerações consistentes e um entendimento sobre o objeto estudado.

Na pesquisa qualitativa “[...] o pesquisador, ao encerrar sua coleta de dados, se depara com uma quantidade imensa de notas de pesquisa ou de depoimentos, que se materializam na forma de textos, os quais terá de organizar para depois interpretar.” (ROESCH, 1999, p. 168).

Na coleta de dados, a pesquisa utilizou-se de um grupo focal. Sua base consiste na participação do pesquisador e do pesquisado, criando uma interação entre ambas as partes, da qual se objetiva absorver dados a partir da discussão focada em tópicos específicos e diretivos, daí o nome grupo focal.

O grupo focal é uma técnica de pesquisa qualitativa que consiste em uma entrevista em grupo (público alvo a ser pesquisado), na qual a participação de todos os integrantes é fundamental. A obtenção dos dados ocorre através da discussão sobre um determinado tema especifico. Tal discussão deve obedecer um roteiro previamente planejado que é apresentado por um moderador. Este lança perguntas ao grupo, estimulando e conduzindo a discussão tendo em foco o tema em questão. Não se trata de uma sequência de perguntas e respostas, como uma entrevista comum, é prevista a interação entre os participantes que, no decorrer da discussão, podem rever suas opiniões e refazer suas colocações à medida que reconstroem seu ponto de vista. (LEME, 2006, p. 64-65).

A pesquisa com o grupo focal foi realizada na primeira metade do mês de abril de 2012. A instituição escolhida foi a Universidade Comunitária Regional de Chapecó – Unochapecó, considerada a melhor universidade do oeste do estado de acordo com o MEC. Quinze pessoas foram convidadas para discutir sobre o tema proposto no projeto, no qual procurava-se conhecer o perfil do comportamento desses consumidores.

 

5. Resultados

Ao serem levantados e analisados todos os dados da pesquisa com grupo focal, nota-se que o público nostálgico se forma de uma maneira homogênea, mas que há algumas ressalvas, principalmente no quesito gerações em que estão inseridos.

Por ser um ambiente universitário com a faixa etária predominante entre 16 e 25 anos, a grande maioria do público abordado nesta pesquisa se encaixa na geração Y, os quais possuem poder aquisitivo e influência crescente no consumo, pois nasceram em um mundo globalizado, onde se encontra tudo com menos esforço.

Pela possibilidade de escolha muito facilitada, eles acabam optando por produtos que satisfaçam sentimentalmente e não apenas superficialmente. Essa geração sabe que não precisa gostar e consumir as mesmas coisas que a maioria das pessoas e, dessa forma, descobre e inventa formas de encontrar algo que realmente lhes identifique.

Embora todos os cursos da universidade tenham sido convidados para participar da pesquisa e que o comportamento de consumo nostálgico não seja uma característica exclusiva de algumas áreas do conhecimento, pode-se perceber uma maior participação de integrantes da área dos cursos de Ciências Sociais Aplicadas. Tal fator não dita uma regra, mas reflete algumas características desse perfil de universitário que integra essa área perante o tema proposto.

Basicamente os nostálgicos identificados na pesquisa possuem a influência de familiares em seus gostos e hábitos de consumo. Sendo esses influenciadores mais velhos e as referências apresentadas datam da época em que eram jovens.

Ídolos de gerações passadas quando apresentados para essas novas gerações se tornam formadores de opinião por mensagens através da música, cinema, televisão, esporte e outras formas de entretenimento. A falta de ídolos com tal presença e significado, ou pela sua banalização nos dias atuais, faz com que esses indivíduos busquem por uma fuga da realidade em que estão inseridos. Então trazem elementos de outras épocas e criam um mundo em que eles podem se vestir, ouvir, assistir e emitir opiniões em seu grupo de convívio que estejam ligadas a uma época que eles consideram a ideal para viver.

O grupo faz questão de ter algo especial e personalizado, sendo adverso ao que é copiado em escala. Procuram individualidade para manter uma diferença entre os outros de seu círculo social que, na visão deles, não possuem o mesmo conhecimento sobre o significado dos símbolos nostálgicos.

Eles estão instantaneamente ligados a fontes de entretenimento, as quais formam seu referencial de consumo nostálgico, com forte ligação com a música alternativa, videogames, quadrinhos, TV, cinema, vestuário, quinquilharias.

O gênero do grupo não tem predominância de sexo. O público masculino demonstra-se mais interativo quanto ao assunto, deixando claro seu domínio pelas questões propostas. Já o feminino aponta grande interesse pela questão de moda e vestuário, com um certo receio em externar suas opiniões.

 

 

6. Conclusões

Desde o início da pesquisa, buscou-se uma base sólida para angariar recursos metodológicos a fim de resolver o problema constatado e atingir os objetivos propostos no primeiro momento em que esse trabalho iniciou-se.

A base teórica direcionou a pesquisa até o objeto estudado, que neste caso é o consumidor nostálgico de uma instituição de ensino superior o oeste do estado de Santa Catarina, escolhida a partir do entendimento e da relevância da mesma na região em que atua.

O contato com essas pessoas foi de extrema valia e proporcionou uma situação única: a realização de um grupo focal de discussão, que permitiu uma integração e levantamento informações de suma importância para compreender o comportamento dos consumidores nostálgicos.

Depois de cerca de um ano de pesquisas, estudos e discussões, os objetivos foram satisfatoriamente alcançados, materializando-se em uma pesquisa de referência para estudos futuros, visto que esse é um ponto inicial de um tema ainda pouco explorado em pesquisas nacionais e com muito potencial e aplicações no campo científico das áreas que o cercam.

 

 

Referências

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. 1. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

BARBOSA, Lívia.  Sociedade de Consumo. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

BRUNNER, Robert; EMERY, Stewart. Gestão Estratégica do Design: como um ótimo design fará as pessoas amarem sua empresa. São Paulo: M. Book do Brasil Editora Ltda, 2010.

BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. 2 ed. Portugal: Edições 70, 2007.

COBRA, Marcos. Marketing & Moda. São Paulo: Editora Senac, 2007.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Mariana de Andrade. Fundamentos de Metodologia Científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.

LEME, Taciana Neto. Os Conhecimentos práticos dos professores: (re) abrindo para a educação ambiental na escola. 1. ed. São Paulo: Annablume, 2006.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. 1. ed. São Paulo: Manole, 2005.

MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos : O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1964.

______. A Galáxia de Gutenberg. Ed. 3. São Paulo: Cultrix, 1977.

ROESCH, Sylvia Maria Azevedo. Projetos de estágio em administração: guia para estágios, trabalhos de conclusão, dissertações e estudos de caso. 2 ed. São Paulo: Atlas, 1999.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Frandoloso, P. ; (2014) Design e a relação nostálgica entre os hábitos de consumo no ensino superior. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL VII (13) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt