Um manuscrito musical redescoberto

A rediscovered musical manuscript

Estudante, P.

UPP - Escola das Artes do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O levantamento sistemático e exaustivo das nossas fontes musicais é fundamental para uma melhor percepção do fenómeno musical em Portugal ao longo dos séculos. O seu estudo vai permitir colmatar algumas lacunas e sobretudo suscitar novas perguntas, novas dúvidas que mais não são que um passo adicional na compreensão da nossa História da Música. O presente artigo corresponde precisamente à apresentação preliminar de uma fonte manuscrita do século XVII redescoberta em 2004. Pertencente ao espólio do musicólogo Manuel Joaquim (hoje conservado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra), este manuscrito musical é um extraordinário testemunho da forte tradição musical da Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho em Portugal, em particular no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Palavras-chave: Portugal, Coimbra, Mosteiro de Santa Cruz, século XVII, música instrumental, órgão, instrumentistas, codicologia, Manuel Joaquim, Agostinho da Cruz, Diego de Alvarado, D. Jorge (Mota), Philippe Rogier, Juan Navarro, Luca Marenzio, Cristóbal de Morales.

PALAVRAS-CHAVE: musicólogo Manuel Joaquim; manuscrito musical; Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho em Portugal; século XVII.

ABSTRACT: The systematic and exhaustive survey of our musical sources is fundamental for a better perception of the musical phenomenon in Portugal throughout the centuries. His study will fill some gaps and above all raise new questions, new doubts that are more than an additional step in understanding our History of Music. This article corresponds precisely to the preliminary presentation of a manuscript source of the seventeenth century rediscovered in 2004. Pertaining to the estate of musicologist Manuel Joaquim (now conserved in the General Library of the University of Coimbra), this musical manuscript is an extraordinary testimony of the strong musical tradition of Order of the Ordinary Canons of St. Augustine in Portugal, in particular in the Monastery of Santa Cruz de Coimbra. Keywords: Portugal, Coimbra, Santa Cruz Monastery, 17th century, instrumental music, organ, instrumentalists, codicology, Manuel Joaquim, Agostinho da Cruz, Diego de Alvarado, D. Jorge (Mota), Philippe Rogier, Juan Navarro, Luca Marenzio, Cristóbal de Morales.

KEYWORDS: musicologist Manuel Joaquim; Musical manuscript; Order of the Ordinary Canons of St. Augustine in Portugal; XVII century

Quando, em 1941, o musicólogo Macário Santiago Kastner, no seu Contribución al estudio de la música española y portuguesa, avalia a qualidade e importância musical do crúzio Fr. Agostinho da Cruz[2], baseia-se apenas nas duas obras deste compositor então conhecidas. Eram elas uma peça incompleta descrita por Kastner como um tento do 1o tom, nunca publicada; e uma pequena peça publicada pelo musicólogo em 1956 sob o título “Verso de 8o tom por d-sol-re”[3]. Kastner afirma que essas composições lhe foram facultadas por um outro musicólogo pioneiro, Manuel Joaquim. Este último estaria ainda na posse de uma terceira peça recusando-se, no entanto, a revelar qual era a fonte em que se encontravam todas estas obras de Fr. Agostinho da Cruz[4].
Ainda Santiago Kastner, em 1946[5], acredita ter encontrado mais uma obra do compositor ao atribuir-lhe o Tento de 4o Tom [de] D. Agostinho dos ff. 115v-117 do MM 43 da Biblioteca Pública Municipal do Porto, Liuro de obras de orgão juntas pella coriosidade de P. P. Fr. Roque da Cõceição. Anno de 1695[6]. Estas três obras, das quais uma incompleta, perfazem a produção musical até hoje conhecida de Fr. Agostinho da Cruz.
Em 2004, encontrei na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC)[7], entre os vários volumes pertencentes ao espólio de Manuel Joaquim (adquirido em 1994 pela BGUC), um manuscrito musical. Veio a revelar-se um importante códice de música instrumental ibérica do século XVII com várias obras inéditas. Verificou-se ainda ser a fonte não revelada, atrás mencionada, para as composições de Fr. Agostinho da Cruz. 
Este artigo é assim constituído por uma descrição codicológica abreviada do códice, pela apresentação do seu conteúdo musical, assim como por uma tentativa de identificação da sua proveniência e datação.
Descrição codicológica do manuscrito Sem cota atribuída, este manuscrito pertencente ao fundo Manuel Joaquim (daqui para a frente o manuscrito será identificado pela sigla MJ1) da BGUC, apresenta 46 fólios em papel, encadernados por uma folha de pergaminho. Esta última, com cantochão notado sobre pautas a vermelho e sem nenhum título, uma vez desdobrada, tem as dimensões 295 x 430 mm (vertical x horizontal). Apenas um bifólio de papel e a lombada de um segundo permanecem unidos à capa em pergaminho.
Todos os fólios em papel têm aproximadamente as mesmas dimensões, 295 x 195 mm.
Os fólios foram integral e antecipadamente preparados para a cópia de música, apresentando todos doze pentagramas cor sépia (com as excepções apenas das folhas de guarda, primeiro e último fólios). Consequentemente, a mancha de texto de cada página é, sensivelmente, de 267 x 155 mm.
Quanto à sua estrutura, o MJ1 é composto por:
1- um bifólio de papel, sem numeração, sem música, e a lombada de um segundo bifólio (o corpo de ambos os fólios foi rasgado), ainda unidos à encadernação;
2 - desligados da capa em pergaminho, temos quatro cadernos, com número desigual de fólios e cosidos entre si (ver FIG. 1):
- 1o caderno: ff. 21-54v, faltam os ff. 33-40; a numeração informa-nos que foram perdidos outro(s) caderno(s) anterior(es) a este;
- 2o caderno: ff. 55-62v, falta o f. 60;
- 3o caderno: ff. 63-72v, falta o f. 69;
- 4o caderno: ff. 73-77, falta o f. 74.

 

Fig. 1 – Estrutura dos cadernos do MJ1.



A análise do papel revela-nos um manuscrito homogéneo com todos os bifólios a apresentarem 14 a 16 pontusais inter-distantes aproximadamente 25 mm (não alterando em torno das marcas de água) e vergaturas no sentido da largura do bifólio, cada uma com aproximadamente 1 mm. Cada bifólio apresenta uma marca de água (ver FIG. 2) e a sua contramarca (ver FIG. 3); a primeira encontra-se no centro da metade esquerda do bifólio e a contramarca no canto direito inferior (ver FIG. 4); ambas as filigranas pousam o seu eixo vertical sobre pontuais.
O estudo do papel e das suas marcas de água encontra-se muito atrasado em Portugal.
Assim a obtenção de informação por comparação com outras marcas de água exaradas a partir de fontes portuguesas, nas poucas referências bibliográficas existentes, torna-se um exercício algo frágil. Na obra de Ataíde e Melo [8] há apenas uma vaga concordância com a marca de água n. 105, pertencente a um manuscrito português de 1565-6; Owen Rees levanta uma marca de água no MM [9] da BGUC9 próxima da filigrana principal do MJ1, remetendo para um papel proveniente de Florença e da primeira metade do séc. XVI [10].
 

Fig. 2 – Marca de água do papel do manuscrito MJ1.

 

Fig. 3 – Contramarca do papel do manuscrito MJ1.


Fig. 4 – Esquema de um bifólio do MJ1 com a marca de água e contramarca.

 

Fig. 5 – Selo branco do f. 28 do MJ1 e a respectiva reprodução.



Consultadas as obras internacionais de referência (1) Briquet, C.M., Les Filigranes.
Dictionnaire historique des marques du papier dès leur apparition ver 1282 jusqu'en 1600, 4 vols., 1907, e (2) Heawood, Edward, Watermarks, mainly of the 17th and 18th centuries, 1969, verifica-se que na obra enciclopédica de Briquet as marcas de água ns. 763, 766, 767, 769 e 770 são semelhantes à filigrana principal do MJ1. Encontram-se praticamente todas em documentos provenientes de Ferrara e do último quartel do séc. XVI. Briquet classifica-as como pertencentes à categoria 'Balestra' ('Arbalète') sobre a qual escreve:

“Todas as variantes da balestra inscritas dentro de um círculo são de origem italiana [...] As 763 a 770, adornadas com um trevo na parte superior, provêm sobretudo de Ferrara, sendo muito provavelmente um produto da indústria veneziana. A marca da balestra continuou em uso nos Estados da Républica durante todo o séc. XVII; encontramo-la acompanhada por uma segunda marca de água (uma âncora inscrita num círculo, duas rodas, duas rodas uma em cima da outra, uma coroa, uma flor, etc.) e de uma ou mesmo duas contramarcas pousadas no canto ou cantos da folha
[...]” [11]

Para a contramarca do MJ1 não foi encontrada nenhuma concordância.
Como já foi dito, o manuscrito MJ1 é, sob o ponto de vista codicológico, homogéneo.
É constituído apenas por um tipo de papel, do mesmo papeleiro, do mesmo período. A informação recolhida sugere tratar-se de um papel veneziano feito nas últimas décadas do séc. XVI. Fica assim limitada inferiormente a datação do MJ1.
Conteúdo musical do manuscrito MJ1
Resultado do trabalho de pelo menos três copistas, o conteúdo musical do MJ1, inventariado na TABELA 1, pode ser subdividido da seguinte forma:
a) um conjunto de obras a quatro vozes, em partitura12, sem texto e, na sua grande maioria, com o autor identificado,
b) um conjunto de algumas obras de origem vocal notadas em formato de livro de coro,
c) e um grupo mais heterogéneo constituído por obras vocais postas em partitura ou ainda algumas peças a três e quatro vozes, igualmente em partitura, sem texto, anónimas e frequentemente incompletas.

 

Fig. 6 – Início da primeira obra atribuída ao compositor até agora desconhecido, D. Jorge (MJ1, f. 25).

 

Fig. 7 – [Fabordão do 1º tom] de D. Jorge (MJ1, ff. 25-25v).


Tabela 1 – Inventário musical do MJ1



O primeiro conjunto, trabalho de um mesmo copista, deverá ter sido o primeiro a ser notado no manuscrito. As obras de origem vocal em formato de livro de coro (todas sacras: duas Missas de Philippe Rogier e alguns versículos de um Magnificat de Juan Navarro) foram claramente inseridas posteriormente. Notadas por uma segunda mão, estas obras encontram-se disseminadas ao longo do manuscrito, nos fólios deixados em branco pelo primeiro copista. Outro ou outros copistas vieram ainda acrescentar quatro partituras de obras de origem vocal (dois madrigais de Luca Marenzio e duas de um motete de Cristóbal de Morales, do original a cinco vozes e uma curiosa redução às três vozes mais agudas) assim como algumas pequenas peças e esboços de peças (exercícios?) a três e quatro vozes, muitas incompletas e todas anónimas.
No cômputo geral, e não considerando as obras declaradamente de origem vocal (em formato de livro de coro e em partitura), temos um total de 33 peças [22] das quais apenas 17 se encontram completas. Tratam-se em geral de obras curtas havendo três que ultrapassam as 45 semibreves: duas incompletas, as dos ff. 21-24 e ff. 61-62, respectivamente 97 e 84 semibreves, e uma completa, pièce de résistance do MJ1, o [Tento do] 6O tom de Fr. Agostinho da Cruz (ff.54v-56v) com 104 semibreves.
Pelo momento, e no quadro de uma apresentação preliminar desta fonte musical, vamos salientar apenas as obras com autor identificado. Destaca-se a primeira peça do MJ1, ff. 21-24, pela sua autoria, “Castilho”. Perante aquelas que se apresentam, para já, como as hipóteses de autoria mais prováveis, Bernardo Clavijo del Castillo ou seu irmão, Diego del Castillo, temos sempre uma obra extremamente importante já que, para o primeiro, apenas um Tento do 2o tom é conhecido, e para o segundo seria a primeira obra para tecla identificada. O MJ1, a acompanhar os nomes já conhecidos de Fr. Agostinho da Cruz e Diego de Alvarado, adiciona um novo compositor à História da Música Portuguesa, D. Jorge (Mota)23 (a FIG. 7 apresenta uma das suas obras). Assim, temos

  • quatro peças atribuídas a D. Jorge (Mota),
  • cinco a Fr. Agostinho da Cruz e
  • três a Diego de Alvarado.

De novo reflecte-se a importância deste manuscrito, fonte de repertório inédito. Para além da peça incompleta de Castilho, das composições do até agora desconhecido D. Jorge, este manuscrito oferece três obras inéditas de Diego de Alvarado, organista espanhol ao serviço da Capela Real de Lisboa de quem só eram conhecidas as duas obras incluídas no apêndice manuscrito do exemplar do Facultad organica da Biblioteca da Ajuda (ver TAB. 1). O MJ1 é ainda fonte praticamente exclusiva da produção do crúzio Fr. Agostinho da Cruz [24].

 

Datação e proveniência do MJ1

O papel italiano do fim do século XVI fornece um primeiro limite cronológico inferior para a datação do manuscrito. A análise do conteúdo musical do MJ1 permite afinar esse limite.
Sabemos que, entre os pelo menos três copistas que trabalharam no manuscrito, o primeiro terá notado, entre outras, as obras de Fr. Agostinho da Cruz (c1590-1633). Este músico, membro da Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, surge identificado no manuscrito com o título religioso Fr[ei], uma designação obtida em 1609, ano da sua admissão na Ordem Agostinha [25]. Consequentemente, o MJ1 deverá ser posterior a 1609.
Por outro lado, um obituário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (BGUC Ms. 1741,
f. 43) anuncia a morte de Agostinho da Cruz em 1633 já com o título religioso D[om], ou seja, membro pleno da Ordem agostinha, algo que deverá ter ocorrido aproximadamente entre 1610 e 1620. Assim, a cópia das peças de Fr. Agostinho da Cruz conservadas no MJ1 não terá tido lugar até muito depois que o compositor atinja a dignidade de Dom, ou seja, durante a década de 1610. As restantes peças notadas pelo primeiro copista a trabalhar no MJ1 deverão ter sido notadas no mesmo período.
Quanto ao trabalho dos outros copistas, a sua datação prende-se, para já, exclusivamente à caligrafia. Assim, o manuscrito MJ1 é seguramente um produto da primeira metade do século XVII com as primeiras obras a serem notadas depois de 1609.
Os ff. 28 e 52 apresentam no seu canto superior direito um selo branco com os seguintes dizeres « PAROCHIAL DE SANTA CRUZ DE COIMBRA » (ver FIG. 5). Daqui depreende-se que o MJ1 antes de se encontrar na posse de Manuel Joaquim (pelo menos desde 1938), pertenceu à igreja de Santa Cruz, e isto depois da extinção das Ordens religiosas em 1834, como comprova a expressão « Igreja Parochial ». De alguma forma os responsáveis religiosos de então devem ter conseguido evitar que este manuscrito acompanhasse a restante espoliação do fundo documental do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, hoje seguramente de forma parcial e depois de várias vicissitudes, reunido na BGUC [26]. Assim, o MJ1 deverá ter permanecido em Santa Cruz durante a segunda metade do século XIX, eventualmente ainda durante os primeiros anos do século seguinte. Desconhece-se como foi parar às mãos de Manuel Joaquim sabendo-se apenas, a partir da leitura da sua correspondência pessoal, que já o possuía em 1938. Para além da peça de Fr. Agostinho da Cruz facultada por Manuel Joaquim a Macário Santiago Kastner para este a publicar em 1956 (ver as primeiras linhas deste artigo), o MJ1 vai permanecer praticamente desconhecido até à sua redescoberta em 2004.
A presença do selo branco da igreja de Santa Cruz acrescida da inclusão de obras do crúzio Fr. Agostinho sugerem que o manuscrito MJ1 seja resultado da famigerada actividade musical do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Dito isto, é igualmente possível que o MJ1 tenha sido copiado (pelo menos parcialmente) no Mosteiro de São Vicente de Fora (onde Fr. Agostinho da Cruz serve durante alguns anos), em Lisboa (onde Diego de Alvarado se encontra desde praticamente 1600 ao serviço da Capela Real [27]) para, mais tarde, regressar à casa-mãe agostinha, em Coimbra [28].
Não cabe no âmbito desta apresentação preliminar a discussão das várias funções musicais do MJ1 que a heterogeneidade do repertório, formato utilizado na sua notação e respectivos copistas parecem apontar. É possível, no entanto, constatar que o manuscrito MJ1 enriquece o nosso património musical do século XVII com novas obras ibéricas para tecla ibéricas assim como acrescenta um novo capítulo ao que parece ter sido uma forte tradição de música instrumental da Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, em particular do seu Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra [29].


Referências bibliográficas

[1] Investigador e docente do Centro de Investigação em Ciências e Tecnologias das Artes (CITAR) / Escola das Artes do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa. Membro da equipa de investigação Patrimoines Musicaux da Université Paris IV-Sorbonne. Encontra-se actualmente a desenvolver um projecto de pósdoutoramento no CITAR sobre o repertório do século XVII com partes instrumentais explícitas proveniente do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Programa de Formação Avançada e Qualificação de Recursos Humanos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia).
[2] Contribución al estudio de la música española y portuguesa, Lisboa, Editorial Ática, 1941, pp. 170-1.
[3] Silva ibérica de música para tecla de los siglos XVI, XVII y XVIII, Edition Schott 4215, 1956, p. 11.
[4] Segundo informação fornecida pelo próprio Santiago Kastner ao Dicionário de Música de Tomás Borba e Lopes Graça, 1956, vol. 1, p. 380.
[5] “Tres libros desconocidos con música orgánica en las Bibliotecas de Oporto y Braga”, Anuario Musical, vol. I, 1946, pp. 143-151; p. 148.
[6] Publicado parcialmente por Speer, Klaus, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Portugaliae Musica, vol. XI, 1967. Ver pp. xix e 164-8.
[7] Gostaria de expressar aqui o meu reconhecimento ao Dr. Maia do Amaral, na altura o responsável pela secção dos Reservados da BGUC, por me ter proporcionado as melhores condições de trabalho. Devo ainda salientar a generosidade e entusiasmo de Sr. Mário Simões, a quem expresso a minha mais sincera gratidão.
[8] Ataíde e Melo, Arnaldo Faria de, O papel como elemento de identificação, Lisboa, Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1926.
[9] Rees, Owen, Polyphony in Portugal c.1530-c.1620: sources from the Monastery of Santa Cruz, Coimbra, Outstanding Dissertations in Music from the British Universities, London & New York, Garland Publishing, 1995; Appendix 1, p. 370.
[10] A consulta ainda (1) do Catálogo de Marcas de Água consoante os documentos existentes na Biblioteca da Ajuda de Jordão Apolinário de Freitas ( www.ippar.pt/sites \_externos/bajuda/htm/ref/magua/index.htm [consulta em 2004]), (2) do livro de Luís Silveira, Livros do séc. XVI impressos em Évora, Évora, Imprensa Moderna, 1941, assim como (3) de um estudo recente feito sobre alguns manuscritos musicais da Capela Ducal de Vila Viçosa (Ryan, Michael Joseph, Music in the Chapel of the Dukes of Bragança, Vila Viçosa, Portugal c1571-1640, London, University of London, 2001) não permitiu estabelecer concordâncias com a marca de água do MJ1.
[11] “[...] Toutes les var. de l'arbalète inscrite dans un cercle sont de provenance italienne. [...] Les 763 à 770 enfin surmontés d'un trèfle, provenant pour la plupart de Ferrare, sont bien probablement des produits de l'industrie vénitienne. La marque de l'arbalète a continué à être en usage dans les États de la République durant tout le cours du XVIIe s.; on la trouve accompagnée d'un second filigr. (ancre dans un cercle, deux roues, deux roues l'une au dessus de l'autre, couronne, fleur, etc.) et d'une ou même de deux contremarques posées à l'angle ou aux deux angles de la feuille [...]'' (Vol. I, pp. 49-50).
[12] O termo partitura em itálico refere-se à disposição das várias vozes sobrepostas e coordenadas por barras verticais (ver FIG. 6).
[13] Trata-se do madrigal “Che fa hoggi il mio sole”, a 5v. Foi publicado no Il primo libro de madrigali a cinque voci, Venezia, Angelo Gardano, 1580. Será reeditado pelo mesmo impressor em 1582, 1587 e 1602; sempre em Veneza, o primeiro livro de madrigais de Marenzio será editado por Giacomo Vincenti & Ricciardo Amadino em 1586 e 1588, e por Girolamo Scotto em 1600 e 1608, e, finalmente, por Alessandro Raverii em 1608 (ver RISM, Serie A, vol. 5, pp. 417-9).
O grande número de edições atesta da reputação destes madrigais na sua época. Existe, no acervo musical da BGUC, um exemplar da parte de Quinto (MI-58) de uma destas edições, a de Angelo Gardano de 1587.
Infelizmente este livro encontra-se muito mutilado faltando entre outros o madrigal em questão, estando apenas o seu incipit inscrito no ainda existente índice final. No entanto, outra edição, uma colectânea de madrigais de diferentes autores, cujas partes de Alto, Quinto e Sesto, subsistem na BGUC (respectivamente os MI-59 a 61), permitiu estabelecer nova concordância:
Harmonia celeste di diversi eccellentissimi musici a IIII. V. VI. VII. et VIII. voci, nuovamente raccolta per Andrea Pevernage, et data in luce. Nella quale si contiene una scielta di migliori madrigali che hogidi si cantino. Antwerpen, P. Phalèse & J. Bellère, 1583.
Reeditado em 1589. (158314 e 158919 segundo Lesure, François, Recueils Imprimés XVIe-XVIIe siècles, RISM Serie B, 1960, pp. 318 e 345).
[14] Trata-se de mais um madrigal a 5v de Luca Marenzio, “Lasso ch'io ardo”, sendo o que segue o anterior no Il primo libro de madrigali a cinque voci. A identificação foi estabelecida através da edição moderna Steele, John (ed), Luca Marenzio. The Complete Five Voice Madrigals, New York, Gaudia, 1996; vol I, pp. 52-56.
[15] Trata-se do motete Lamentabatur Jacob de Cristóbal de Morales publicado pela primeira vez em:Mutetarum divinitatis liber primus quae quinquae absolutae vocibus ex multis praestantissimorum musicorum academiis collectae sunt., Milano, A. Castiglione, 1543 (15433 em Lesure, Recueils...). A obra encontra-se a partir do f. 15. 
Entre o acervo da BGUC não encontramos nenhum exemplar desta edição. Apenas o Orphenica Lyra (1554) de Miguel Fuellana (MI-262) apresenta, no fólio 64, uma intabulação para vihuela deste motete.
[16] Existe apenas uma edição de missas deste compositor, Missae sex Philippi Rogerii atrebatensis sacelli Regii phonasci musicae peretissimi, & aetatis suae facile principis..., Madrid, Typographia regia, 1598 (15981, Lesure, Recueils...). Contém cinco missas de Rogier, entra elas a Missa Ego sum qui sum, nas pp. 106-153.
No fundo musical da BGUC encontramos um exemplar dessa edição com a cota MI-23.
[17] A Missa Inclita stirpes Iesse de Rogier encontra-se igualmente na edição Missae Sex Philippi Rogerii.. (BGUC MI-23), pp. 36-69.
[18] Esta é uma das peças que Manuel Joaquim comunicou a Mácario Santiago Kastner, como foi dito nas primeiras linhas deste trabalho.
[19] Publicada em Kastner, M.S., Libro de tientos y Discursos de Musica Pratica, y Theorica de Organo intitulado Facultad Organica (Alcalá, 1626) compuesto por Francisco Correa de Arauxo, Barcelona, vol. II, 1952, pp. 242-3.
[20] Publicada por Speer, K., Fr. Roque da Conceição. Livro de obras de órgão, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, PM XI, 1967, pp. 182-3.
[21] Esta obra foi publicada em 1590, Psalmi, hymni ac Magnificat totius anni, secundum ritum Sanctae Romanae Ecclesiae, quatuor, quinque ac sex vocibus concinendi, necnon Beatae Virginis Dei genitricis Mariae diversorum temporum antiphonae in finem horarum dicendae., Roma, ex typographia Jacobi Tornerii (Fr. Coattino), ff.139v-145 [ver RISM serie A, vol. 6, p. 306]. Há um exemplar na BGUC, cota MI-19.
[22] Não foram consideradas as entradas relativas aos f. 24v e f. 62v por se encontrarem repetidas noutras partes do manuscrito, assim como as duas cadências do f. 70v.
[23] A consulta do The New Grove Dictionary of Music and Musicians, Second Edition, London, MacMillian, 2001 e dos dicionários e referências musicológicas portuguesas não permitiram topar com um compositor ou músico D. Jorge ou D. Jorge Mota. Apenas Pinho, Ernesto, Santa Cruz de Coimbra. Centro de Actividade Musical nos séculos XVI e XVII, Lisboa, 1981, p. 114, refere um D. Jorge, falecido em 1585, copista, bom corista, e sem qualquer referência a uma eventual actividade de compositor ou organista. 
Entretanto, enquanto não tivermos mais informações, vamos considerar D. Jorge e D. Jorge Mota como sendo o mesmo personagem.
[24] A única excepção será, como foi dito nas notas introdutórias, a peça de um D. Agostinho dos ff. 115v-117 do MM
43 da Biblioteca Pública Municipal do Porto atribuída por Kastner a Fr. Agostinho da Cruz.
[25] Para uma síntese biográfica de Fr. Agostinho da Cruz, ver The New Grove..., vol. 6, pp. 744-5. Notar, no entanto, que a data de morte do compositor não é a anunciada no dicionário; segundo um obituário do Mosteiro de Santa Cruz (BGUC Ms 1741, f. 43), Fr. Agostinho da Cruz morre em 1633.
[26] Apresentarei em trabalho futuro o curioso percurso recente de alguns dos manuscritos musicais mais importantes do fundo proveniente do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, hoje na BGUC.
[27] Para uma síntese biográfica de Diego de Alvarado, ver The New Grove..., Vol. I, p. 430.
[28] A circulação de músicos e manuscritos era frequente entre as instituições da Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho (cf. Nery, Rui Vieira, “New Sources for the Study of Portuguese Seventeenth-Century Consort Music”, Journal of the Viola de Gamba Society of America, xxii, 1985, pp. 9-28; p. 13.
[29] De facto, parece ser possível reconstituir uma sucessão cronológica de manuscritos de música instrumental provenientes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra: os MM 48 e MM 242 (c1550-75), o MJ1 (c.1610-20), e os MM 52, MM 236 e MM 243 (c1630-50), todos com vários elementos em comum. Quanto aos MM 48 e MM 242, ver Kastner, M.S., “Los manuscritos musicales n.os 48 y 242 de la Biblioteca General de la Universidad de Coimbra”, Anuario Musical, vii, Barcelona, 1952, e Rees, Polyphony in Portugal...,
pp. 271-82 e pp. 325-64. Quanto aos MM 52, MM 236 e MM 243, ver Nery, “New Sources...”.
No que diz respeito ao MJ1, ver Estudante, Paulo, Les pratiques instrumentales de la musique sacrée portugaise dans son contexte ibérique. XVIe-XVIIe siècles. Le ms. 1 du fond Manuel Joaquim (Coimbra), Tese de Doutoramento, Université Paris IV-Sorbonne, Universidade de Évora, 2007, pp. 319 e ss.. Contém um estudo codicológico e musical aprofundados do MJ1, uma argumentação detalhada sobre as suas diferentes funções musicais, bem como a respectiva contextualização dentro da produção musical nacional e ibérica.
Esta apresentação preliminar do MJ1 foi redigida em 2004 para ser publicada no Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, algo que nunca chegou a acontecer por o periódico ter sido, pelo menos temporariamente, descontinuado.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Estudante, P. ; (2008) Um manuscrito musical redescoberto. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL I (2) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt