Investigação académica sobre filarmónicas e bandas militares em Portugal: Uma panorâmica da situação actual

Academic investigation into wind bands in Portugal: a panorama of the present situation.

Madureira, B.

FCSH-UNL - Instituto de História Contemporânea

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Apesar de constituírem uma das principais práticas musicais em Portugal, as bandas de música foram durante décadas um campo de estudo descurado pela investigação, inclusive musicológica. Embora na última década se tenha intensificado o número de estudos científicos relativos a estes agrupamentos musicais, a dispersão desses trabalhos dificulta o acesso à investigação produzida e constitui um problema aos investigadores. Neste sentido, o principal propósito deste trabalho é o levantamento e a apresentação crítica do estado da arte no campo da investigação sobre bandas, civis e militares, especialmente ao nível de dissertações de mestrado e teses de doutoramento. O processo metodológico contemplou a pesquisa bibliográfica em arquivos, bibliotecas e centros de documentação, contribuições de investigadores e informações encontradas através de mecanismos de pesquisa virtual. Constatamos um predomínio das áreas científicas da musicologia e da etnomusicologia e uma crescente produção de teses de doutoramento no último decénio, reveladora do crescente interesse por este objecto de estudo.

PALAVRAS-CHAVE: filarmónica; banda militar; 

ABSTRACT: Although the wind bands constitute one of the main musical practices in Portugal, they have been, for decades, a field of study neglected by an investigation, even by musicology. Though in the last decades the number of scientific studies related to these musical bands was intensified, the dispersion of these studies makes it difficult for investigators to access the produced investigation. Thus, the main aim of this work is the survey and critical presentation of the state of art in the field of investigation into civil and military bands, especially in what concerns Master's dissertation and PhD theses. The methodological process contemplated the bibliographical research in archives, libraries, centers of documentation, investigators' contribution and information found through mechanisms of virtual search. We realized that there is a predominance of the scientific areas of musicology and an increased production of PhD theses in the last decade, which reveals a growing interest in this subject.

KEYWORDS: wind band; military band; 

1. Introdução

Nos últimos anos tem-se intensificado o número de estudos científicos acerca das bandas de música, civis e militares, uma consequência do crescente interesse por este objecto de estudo por parte de um número cada vez maior de investigadores, sobretudo no âmbito da realização de mestrados. Todavia, devido à natural dispersão de trabalhos, nem sempre é fácil ter acesso a toda a investigação produzida. Este estudo tem precisamente como finalidade apresentar e descrever criticamente, embora de forma breve, um estado da arte no campo da investigação sobre filarmónicas e bandas militares portuguesas, especialmente ao nível de dissertações de mestrado e teses de doutoramento. São listados os estudos defendidos sobre esses agrupamentos musicais, em instituições nacionais ou internacionais, por investigadores portugueses ou estrangeiros, e ainda aqueles que estão em curso. Não obstante privilegiarmos dissertações e teses, não são descurados alguns artigos, publicados em revistas ou actas de congressos, bem como outros trabalhos referenciais para o estudo das bandas de música do nosso país. Após as habituais notas conclusivas expomos uma listagem das siglas utilizadas ao longo do texto.

 

2. Metodologia

Primeiramente, importa clarificar a distinção que atribuímos às designações dissertação e tese, cujas diferenças são, sobretudo, de natureza formal e de conteúdo. Tendo em consideração toda a legislação em vigor nesse âmbito, e no intuito de uniformização da terminologia científica, um trabalho de investigação para a obtenção do grau de mestre é considerado uma dissertação, enquanto uma investigação destinada a obter o título de doutor se designa de tese. A actual pesquisa baseou-se nas informações encontradas através de mecanismos de pesquisa virtual, incluindo na relação de teses em curso apresentada na base de dados “Registo Nacional de Temas de Teses de Doutoramento em Curso”, [1] na pesquisa bibliográfica em arquivos, bibliotecas e centros de documentação e também em contribuições de alguns investigadores. Esta lista de trabalhos contém, além do título, nome e apelido do autor e respectiva instituição de ensino, o ano de defesa pública (caso já tenha sido defendida) e uma breve exposição crítica da investigação, incluindo a sua área de estudo, maioritariamente, no campo da musicologia histórica, etnomusicologia e antropologia. Incluímos, igualmente, alguns estudos no âmbito da composição, educação ou direcção de orquestra de sopros que, embora de forma indirecta, consideramos pertinentes para o estudo das bandas de música. Toda esta diversidade de campos de estudo reforça o carácter interdisciplinar que se reveste esta temática.

 

3. Estado da arte

Concretamente ao nível do 3º ciclo de estudos, a primeira reflexão académica sobre bandas, realizada em instituições de ensino superior portuguesas, é de autoria de Helena Lourosa (À sombra de um passado por contar: Banda de Música de Santiago de Riba-Ul. Discursos e percursos na história do movimento filarmónico português), produzida no domínio da etnomusicologia, na UA, no ano de 2012. A partir de um interessante e bem redigido estudo de caso com uma banda bicentenária, a autora procura contextualizar a sua existência no âmbito da história das bandas, bem como explorar o desenvolvimento que o grupo teve ao longo do tempo. Este trabalho está disponível no repositório científico da UA. Noutro âmbito – o da musicologia histórica – em 2013 Pedro Marquês de Sousa defendeu na FCSH-UNL a tese As bandas de música no distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República (1850-1910): história, organologia, reportórios e práticas interpretativas, onde o autor, a partir de um estudo de caso com as bandas de um distrito, aborda a origem e o desenvolvimento do modelo organológico das bandas, a tipologia e a evolução do reportório musical e a sua relação com a prática interpretativa em diferentes contextos de actuação. Esta tese, disponível para consulta presencial na FCSH, é um trabalho referencial no âmbito do estudo histórico das bandas de música, elaborado com grande profundidade e rigor científico, por um autor cujos trabalhos são uma referência nesta área de estudos.

Existem, no entanto, alguns trabalhos que, apesar de realizados em universidades estrangeiras, reflectem sobre filarmónicas portuguesas. Um deles foi realizado por uma cidadã Americana, Katherine Brucher, e cedido pela própria (A banda da terra: Bandas Filarmónicas and the perfomance of place in Portugal, 2005). Outro tem como autor Agostinho Diniz Gomes (O contributo das bandas filarmónicas para o desenvolvimento pessoal e social: um estudo efectuado no alto Tâmega, sub-região do norte de Portugal, 2007). Relativamente ao trabalho apresentado por Katherine Brucher, na University of Michigan, é uma investigação bem argumentada sob uma perspectiva etnomusicológica, na qual a autora descreve e caracteriza, com recurso a um intenso trabalho de campo, as bandas de comunidades rurais dos distritos de Aveiro e Coimbra. Destaca a Sociedade Filarmónica de Covões, fazendo referência à importância, às funções e sobretudo ao papel desta filarmónica como representante da “terra” através da performance musical. Quanto à tese de Agostinho Gomes, defendida na Universidade de Vigo e disponível para consulta na BNP, é uma investigação no campo da educação onde, através de um estudo de caso com diversas bandas civis transmontanas, o autor procura averiguar a importância da participação dos indivíduos nas filarmónicas, para o desenvolvimento pessoal e comunitário, além de reflectir se esse fenómeno deve ser valorizado numa perspectiva educacional, etnomusicológica, sociológica e pedagógica. As múltiplas perspectivas sob as quais o autor trabalha acabam por secundarizar a contextualização histórica daqueles agrupamentos musicais, à qual é dedicada somente um capítulo. Além destes, em 2002, Oswaldo Neto defendeu na Universidade de Hong Kong a tese The role of the military and municipal bands in shaping the musical life of Macau, ca 1820 to 1935, uma abordagem muito bem fundamentada às bandas militares daquele território e ao seu reportório, dando destaque à Banda Municipal, ao seu apogeu e ao seu declínio, bem como à história da Banda Militar de Macau e a sua ligação com Portugal. Ao reportório ‒ constituído fundamentalmente por transcrições de obras clássicas, algumas delas de autores portugueses ‒ é dada uma especial ênfase. É possível consultar esta tese, em formato físico, na FCSH-UNL. Conquanto seja um trabalho de investigação num campo de estudo distinto ‒ o da composição ‒ não deixa de merecer referência a tese apresentada por Luís Cardoso na UA (2014), intitulada Da banda para a orquestra: estratégias de transcrição, na qual o autor, a partir de três exemplos de obras, nos dá pistas sobre técnicas de transcrição de peças musicais de banda para orquestra. No mesmo campo, este autor defendeu, em 2010, a dissertação de mestrado “Tetis”: análise e composição a partir de “Otonifonias” de Joly Braga Santos, onde é analisada esta obra de Braga Santos e elaborada uma outra denominada Tetis. Ambos os trabalhos são referências para o estudo da composição musical para sopros e o seu autor é um profundo conhecedor do meio, com alguns textos publicados e disponíveis on-line. A sua tese deu origem a um livro (uma edição de Águeda: Soberania do Povo, disponível na BNP) e, tal como a dissertação, é possível consulta-la no repositório científico da UA.

Existem outros trabalhos de doutoramento que têm como objecto de estudo personalidades cuja vida e obra se confundem com a história das filarmónicas, nomeadamente, Pedro de Freitas e Leonel Ferreira. Sobre o primeiro, defendido na Universidade de Salamanca em 2010 e disponibilizado pela autora Susana Barrote (Pedro de Freitas: a vida e a obra de um escritor e musicógrafo nacionalista), é uma pesquisa que ajuda a retratar, conhecer e compreender as bandas civis entre as décadas de 1950 e 1980, no âmbito da vida e obra musical e literária de Pedro de Freitas. É sem dúvida um contributo original para o conhecimento, no qual a autora interpreta e explica muito bem os dados recolhidos. Apesar de terem dados e informações interessantes, a autora exagera um pouco na dimensão e quantidade de notas de rodapé. Manuel Jerónimo é o autor da tese em Ciências Musicais Históricas Leonel Duarte Ferreira (1894-1959): vida e obra musical (2012), um estudo biográfico e bem alicerçado deste compositor, realizado e disponível para consulta presencial na FCSH-UNL, complementado com um estudo da sua técnica de composição e uma inventariação das suas composições musicais. A edição e disponibilização de inúmeras obras musicais do biografado é uma das mais-valias desta pesquisa.

Relativamente a teses em curso, mencionamos os estudos de André Granjo (Música para banda no despertar da democracia: o projecto de encomendas da S.E.C. 1976-1983), Bruno Madureira (Filarmónicas e bandas civis no terceiro quartel do século XX: um estudo de casos com as bandas de 4 concelhos), Francisco Relva Pereira (Da Charamela da Universidade de Coimbra: do século XVIII à actualidade e a importância no Cerimonial Académico) e Marcos Aragão Fontoura (O corpo musical da Guarda Nacional Republicana: música, ritual e poder). As três primeiras, do campo de estudo da musicologia histórica, decorrem na FLUC, e a quarta, em etnomusicologia, na UA. Tendo em conta as temáticas, são trabalhos que vêm colmatar algumas lacunas existentes no âmbito do objecto de estudo em causa. O facto de os autores serem instrumentistas ou maestros profissionais, todos ligados a bandas de música, valoriza ainda mais os respectivos trabalhos.

No que diz respeito aos trabalhos efectuados ao nível de mestrado, o panorama é bastante diversificado sob diversos aspectos, incluindo o qualitativo. Neste âmbito, não poderíamos omitir o menor rigor de algumas dissertações, sobretudo ao nível da linguagem utilizada, comparativamente às teses de doutoramento acima referidas. No âmbito deste ciclo de estudos têm sido realizadas diversas investigações sobre filarmónicas numa perspectiva etnomusicológica, particularmente, por alunos ligados ao departamento de Ciências Musicais da UNL, bem como outros com uma vertente mais antropológica, efectuados geralmente no âmbito dos cursos da área. Um estudo relevante no campo da antropologia foi realizado por Maria José Peixe, em 2012, intitulado Contributos para as memórias musicais do concelho de Cascais. Estudo de casos das bandas de Carcavelos e Talaíde nas suas identidades, performances, patrimonializações, encenações. Este estudo, desenvolvido no âmbito de um estágio da autora no Museu da Música Portuguesa, inclui um levantamento etnográfico das filarmónicas referidas no título. Esta pesquisa, com uma componente de trabalho de campo bastante consistente, mas nem sempre rigorosa na terminologia científica utilizada na sua redacção, foi apresentada na FCSH-UNL e está disponível para consulta no repositório científico desta instituição. Com uma forte componente sociológica e antropológica, o estudo de Margarida Louro (A banda filarmónica: um retrato social e cultural. O caso da Banda Comércio e Indústria de Caldas da Rainha, 2006), defendido na FCSH-UNL e disponível para consulta presencial nesta faculdade, é coerente e bem argumentado. Contextualiza esta filarmónica no seio da sua comunidade, além de dar pistas interessantes sobre a génese das bandas civis em Portugal. No trabalho antropológico de Susana Russo (As bandas filarmónicas enquanto património: um estudo de caso no concelho de Évora, 2007), realizado no ISCTE e disponível no repositório desta instituição, a autora aborda as filarmónicas enquanto património, partindo de um estudo de caso com as filarmónicas de um concelho. Uma das mais-valias desta investigação é a referência aos primeiros estudos realizados no âmbito das bandas, além de incluir uma síntese muito interessante e bem organizada relativa à história destes agrupamentos musicais. A dissertação de mestrado em etnomusicologia, de Maria João Vasconcelos, sob o título A orquestra Filarmónica 12 de Abril: um agrupamento musical em mudança (1980-2006), apresentada na FCSH-UNL em 2007 e disponível para consulta presencial nesta faculdade, analisa as mudanças deste agrupamento musical entre 1980 e 2006, relativamente ao reportório, organização, constituição e dimensão do seu impacto na região. É um estudo crucial para a compreensão do reflorescimento que a maioria das filarmónicas beneficiou na década de 1980, isto porque, a autora aborda os pontos que consideramos essenciais para tal. Neste estudo, Vasconcelos demonstra uma excelente capacidade de síntese e espírito crítico. Finalmente, em 2013, Helena Milheiro defendeu, na UA, a dissertação em etnomusicologia Um por todos, todos pela Música Nova: um estudo de caso, uma pesquisa no âmbito do ensino musical praticado nas filarmónicas, realizada a partir de um estudo de caso com uma banda de Ílhavo. Este trabalho está disponível no repositório científico da UA.

No âmbito da musicologia histórica, em 2006, foram defendidas três dissertações de mestrado, tendo as bandas militares como objecto de estudo. João Brito apresentou, na FCSH-UNL, a dissertação A Banda da Guarda Nacional Republicana e os seus fagotistas, uma resenha histórica das bandas militares, especialmente a da Guarda Nacional Republicana (GNR), concentrando-se sobretudo na vida e obra dos diversos fagotistas que integraram esta banda até ao presente. Luís Correia, igualmente na FCSH-UNL, defendeu a dissertação Bandas e músicos militares em Portugal do século XIX ao XXI, um estudo bem estruturado que aborda especialmente as bandas militares, a sua génese e a sua história. O autor começa por tratar as bandas militares num contexto mais europeu (sobretudo a França) para depois fazer uma referência mais específica às bandas militares em Portugal. Aborda detalhadamente as três bandas mais antigas (a da GNR, a da Armada e a do Exército) e dá uma especial ênfase aos músicos militares e à forma como têm sido vistos pela sociedade ao longo do tempo, particularmente pela imprensa. A dissertação de Fernando Binder ‒ Bandas Militares no Brasil: difusão e organização entre 1808 e 1889 ‒ apresentada em 2006 à Universidade Estadual Paulista, estuda a actuação das bandas durante o período monárquico brasileiro. Dedica uma secção às bandas em Portugal, sobretudo as militares, e faz constantes comparações da relação existente entre as bandas portuguesas e brasileiras. Muito bem fundamenta e argumentada, é uma obra a ter em conta para o estudo da actuação das bandas no século XIX, que nos dá pistas essenciais para compreender a sua criação e as funções atribuídas, além de nos permitir perceber muito bem a influência das bandas militares na disseminação das congéneres civis. Posteriormente, em 2009, Manuel Neto apresentou na FLUC a dissertação A Sociedade Filarmónica Lousanense: contributo para a sua história entre 1853 e a Implantação da República, um estudo bem organizado e contextualizado sobre uma banda, que também esclarece questões ligadas à génese e ao desenvolvimento das bandas em Portugal. Igualmente no âmbito da musicologia histórica, no ano de 2010, Cândida Lóios apresentou, na UE, a dissertação A Sociedade Filarmónica Luzitana de Estremoz entre 1880 e 1910, uma pesquisa sobre esta colectividade no contexto sociocultural de Estremoz entre os anos de 1880 e 1910. O reportório das bandas filarmónicas dos distritos de Aveiro e Coimbra. Análise e estudo da sua evolução desde 1980 é o título da dissertação de Fausto Moreira, defendida em 2014, na UA. Consiste num estudo sobre a representação da música de autores portugueses no reportório musical para banda e a sua evolução entre 1980 e 2011, que nos fornece excelentes pistas sobre a mudança de paradigma verificada nas filarmónicas, ao nível do reportório, no período em consideração. Em todas estas investigações musicológicas, de forte pendor histórico, merecem relevo o rigor na apresentação de dados, bem como os contributos que trazem relativamente a novas fontes de pesquisa documental. Todas estas seis dissertações estão disponíveis no repositório científico das respectivas instituições de ensino.

Merecem igualmente referência algumas dissertações no campo da direcção de orquestra de sopros que são um contributo válido para o estudo das bandas em Portugal. Duas delas foram realizadas na Holanda, por maestros portugueses com uma grande proximidade com filarmónicas, embora a segunda se concentre essencialmente nas congéneres militares. A primeira, terminada em 2005 e de autoria de André Granjo, intitula-se The wind band movement in Portugal: praxis and conditionalities, um estudo rigoroso e muito bem estruturado e fundamentado que caracteriza a história, a organização, a prática performativa, o reportório, os modelos pedagógicos e a organologia das 121 bandas da região centro de Portugal, com base nos dados obtidos nas respostas a um inquérito que o autor enviou a todos esses agrupamentos musicais. [2] Em 2009 Fernando Marinho apresentou a dissertação Military Symphonic Bands in Portugal: Setting and functionality, um trabalho que aborda, no fundo, a constituição e funcionalidade actual das bandas militares existentes em Portugal, além de fazer uma contextualização histórica desde a sua génese até ao presente. Embora seja um trabalho pouco reflexivo e excessivamente descritivo, as observações que o autor faz em relação ao reportório musical usualmente interpretado por estes agrupamentos musicais são especialmente úteis para a compreensão da sua evolução nas últimas décadas. [3] Ainda no campo da direcção, em 2009, Maurício Costa apresentou, na UA, a dissertação Metodologias de ensino e reportório nas filarmónicas de Valpaços, uma pesquisa sobre o reportório musical e as metodologias de ensino utilizadas nas filarmónicas do concelho de Valpaços, que pode ser consultada no repositório científico da UA.

No campo educacional, em 2007, Joana Nogueira defendeu na UM a dissertação de mestrado O ensino formal e não formal da música. Estudos de caso no 2º ciclo do ensino básico e nas escolas de música das bandas filarmónicas, onde a autora avalia a utilização de estratégias motivadoras nas aulas de educação musical e demonstra a importância do ensino musical ministrado nas filarmónicas, com recurso a um estudo de caso. O único capítulo que aborda as filarmónicas concentra-se essencialmente no modelo de ensino lá praticado na actualidade, ignorando os métodos utilizados no passado. Esta pesquisa pode ser consultada na BNP. Três anos depois, em 2010, Manuel Reis apresentou, na UTAD, uma dissertação intitulada Animação musical: formação de uma filarmónica. Estudo de caso, que se baseia numa pesquisa sobre o contexto educacional, sociocultural e musical vivenciado na criação de uma filarmónica. Esta investigação pode ser consultada no repositório da UTAD. Embora não seja uma tese ou dissertação merece referência um trabalho de carácter científico organizado por Graça Mota (Crescer nas Bandas Filarmónicas – Um estudo sobre a construção da identidade musical de jovens portugueses), [4] que consiste no estudo e busca de compreensão acerca do papel que a participação nas filarmónicas representa na configuração da identidade musical dos jovens que nelas participam. Por não ser o objectivo deste projecto de investigação, a breve contextualização histórica das bandas apresentada, limita-se a fornecer uma síntese de dados históricos mais relevantes retirados, especialmente, de outras obras aqui mencionadas.

Nos últimos anos têm sido publicados diversos artigos em revistas científicas, em actas de congressos ou em capítulos de livros, que abordam ‒ de forma directa ou indirecta ‒ a temática das bandas de música em Portugal, de autores como André Granjo (“Otonifonias: sobre a música para banda de Joly Braga Santos”; [5] “O projecto de encomendas de música para banda da SEC de 1977 a 1983: contextualização e observações iniciais”), [6] Bruno Madureira (“A Fundação Calouste Gulbenkian: O papel do seu Serviço de Música no âmbito do apoio às Bandas de Música [1955-1995]”), [7]  Fernando Binder (“O Dossiê Neuparth”), [8] Gerhard Doderer (“A constituição da Banda Real na Corte Joanina [1721-24]”), [9] Helena Lourosa (“A polissemia da performance. Dimensões performativas da banda filarmónica a partir da análise musical e da história social deste agrupamento. Um estudo de caso”), [10] Katherine Brucher (“Rapsódias Portuguesas: Filarmónicas and the Performance of Transnationalism and Portuguese Identity”), [11] Paulo Lameiro (“Práticas musicais nas festas religiosas do concelho de Leiria: o lugar privilegiado das bandas filarmónicas”; [12] “Coretos Sagrados: algum repertório litúrgico das filarmónicas do concelho de Leiria”), [13] Pedro Marquês de Sousa (“A música Militar em Portugal – do seu carácter funcional ao artístico”) [14] ou Salwa Castelo-Branco (“Filarmónicas en Fête”). [15] Alguns destes textos ‒ muito especialmente os de Paulo Lameiro ‒ são presença quase obrigatória nas teses e dissertações sobre bandas realizadas neste novo século. A Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX [16] contém diversas entradas relacionadas com bandas civis e militares, designadamente, sobre compositores, regentes, agrupamentos de sopro, reportório, contextos performativos, casas de edição e venda de instrumentos de sopro. O seu artigo “bandas filarmónicas” ‒ elaborado por especialistas na temática ‒ é especialmente valioso, não obstante as imperativas limitações espaciais.

Ainda no âmbito academial foram realizados estudos ligados à temática das bandas por Vera Santana e Margarida Ramos (As bandas, FCSH-UNL), [17] João Menezes (Marcos Romão dos Reis Júnior: músico, maestro, professor e compositor, ESML) [18] e Alexandre Coelho (História das Bandas do Exército em Portugal, ESPE). [19] Entre estes três estudos académicos destacamos o de Vera Santana e Margarida Ramos, não só pelo período em que foi elaborado, mas sobretudo pelos conteúdos e grau de reflexão empreendido pelas autoras. Nele são abordados diversos fenómenos que marcaram a história das bandas após a revolução democrática, designadamente, o ingresso de elementos do sexo feminino. Refira-se, todavia, que em Portugal as filarmónicas começaram a ser alvo de estudos académicos no ano de 1985 com uma tese de licenciatura em Antropologia, apresentada na FCSH-UNL e de autoria de Regina Gomes (As bandas filarmónicas como expressão e veículo culturais). [20] Neste valioso trabalho para o estudo das filarmónicas numa década tão importante para elas, como foi a de 1980, é estudado o papel do associativismo no âmbito da criação e manutenção de bandas, o seu rejuvenescimento e crescimento humano na década de oitenta, os meios de subsistência, o impacto de outras formas de passatempo na actividade das bandas, o défice de formação musical dos elementos, a inclusão de alguns instrumentos musicais, o reportório musical interpretado, o contexto performativo e a participação de elementos femininos. A autora tem o mérito de abordar alguns pontos fulcrais ‒ acima referidos ‒ para a compreensão das bandas civis naquela década e interpreta-los muito bem. Igualmente no âmbito da licenciatura, em 1999 Fernando Ribeiro defendeu, no ISCTE, a dissertação de licenciatura em sociologia A banda filarmónica – actualidade e percursos de uma instituição, [21] um estudo de caso com as filarmónicas do concelho de Santarém, onde é analisado o seu valor social e função no meio musical português.

Desde os anos noventa, com mais regularidade, têm sido realizados trabalhos sobre bandas fora do espectro académico, que têm como objectivo primordial relatar a história de uma determinada banda ou conjunto de bandas da mesma região. Esse tipo de trabalhos isolados, essencialmente relatos cronológicos, em geral pouco ou nada falam sobre as filarmónicas numa perspectiva mais abrangente, à excepção de alguns trabalhos de Pedro de Freitas. A sua História da música popular em Portugal [22] foi o primeiro trabalho historiográfico sobre bandas, onde o autor aborda a génese e o desenvolvimento das bandas militares em Portugal, a história de cada um dos instrumentos musicais que tradicionalmente as integram, o sistema de ensino lá praticado e um breve historial de cerca duzentas filarmónicas do país. Um senão desta monografia é a exclusão das restantes centenas de filarmónicas existentes, explicada pela falta de colaboração entre os seus responsáveis e o autor. Noutra obra, As minhas recordações da grande guerra, [23] Freitas descreve a fundação e os antecedentes da banda de música do Batalhão dos Caminho-de-ferro, fundada em França pelo autor, no ano de 1918, e a sua posterior reactivação em Portugal. Este autor também elaborou O primeiro concurso nacional de bandas civis, [24] um relato dos moldes do referido concurso, a sua organização e as bandas participantes, nomeadamente, em relação ao ano de fundação, número de elementos, nome do regente e obras que interpretaram. Este trabalho é especialmente interessante para a compreensão do reportório musical habitualmente interpretado pelas bandas, além de se basear especialmente em fontes primárias acedidas pelo autor. Finalmente, em 1955, Freitas reuniu numa separata diversos artigos publicados no jornal O Distrito de Setúbal com a denominação É preciso dar ao povo música da sua feição. [25] Esta obra consiste numa contextualização histórica de cada uma das filarmónicas do distrito de Setúbal, embora também contenha uma útil resenha histórica da evolução das bandas civis a nível nacional. São especialmente valiosos os contributos do autor em relação à génese e desenvolvimento das filarmónicas, bem como a relação que ele considera ter existido entre a política e esses agrupamentos musicais.

No que diz respeito às bandas militares ‒ e paralelamente aos trabalhos académicos de João Brito e Luís Correia já mencionados ‒ apesar de não abundarem os trabalhos realizados sobre elas, a fidelidade e autenticidade das informações disponíveis é mais credível, uma vez que geralmente a documentação militar está devidamente guardada e tratada. Acerca da música na instituição castrense destacam-se os trabalhos de Manuel Joaquim (A música militar através dos tempos), [26] uma sinopse histórica sobre a música militar, onde o autor fala dos primeiros exemplos de música militar, abordando os instrumentos musicais utilizados e as primeiras referências a tal prática. Menciona igualmente diferentes agrupamentos de sopro ao longo da história, práticas performativas e composições musicais; de Manuel Ribeiro (Quadros históricos da vida musical portuguesa, [27] cujo sétimo capítulo é dedicado à música militar, designadamente, à sua génese e desenvolvimento; de Albino Lapa (Subsídios para a história das bandas militares portuguesas), [29] uma descrição dos primórdios, antecedentes e desenvolvimento da Banda da GNR; de Artur Fão (“A Banda de Música e a Fanfarra de Clarins da Armada” in O Corpo de Marinheiros da Armada no seu 1º Centenário [1851-1951]), [29] um artigo em que o autor esclarece a génese e a história da Banda da Armada e dos seus antecedentes; de Alberto Cutileiro (Alguns subsídios para a história da Banda da Armada), [30] uma resenha histórica da Banda da Armada, desde os seus agrupamentos antecessores até meados do século XX; e de António Miguel Martinó (José Cândido Martinó: uma vida desenhada pela banda), [31] um estudo biográfico sobre um seu ascendente que esteve especialmente ligado a bandas, civis e militares. Este trabalho, valioso em termos de rigor científico e profundidade, está muito bem apoiado nas fontes primárias que o autor apresenta. Mais recentemente, temos disponível a monografia de Pedro Marquês de Sousa, denominado História da Música Militar em Portugal [32] e uma outra sobre a Banda da Armada realizada por um elemento da instituição, Vera Pereira (Música e Poder Simbólico: A Banda da Armada como Paradigma Nacional), [33] o qual teve origem na sua dissertação de mestrado em etnomusicologia apresentada à UA, em 2008. Estes dois trabalhos não se limitam ao relato histórico das bandas estudadas. Ambos abordam a música na instituição militar numa perspectiva ampla e abrangente, não só em Portugal, como no resto da Europa. É de salientar a importância atribuída pelos autores ao estatuto social do músico no seio da instituição militar e à relação existente entre as bandas militares e as filarmónicas até aos dias de hoje. Podemos igualmente mencionar os trabalhos de Ernesto Vieira [34] e de Joaquim de Vasconcelos. [35] Nestes três dicionários constam inúmeras entradas relacionadas com bandas de música, designadamente, instrumentos musicais de sopro, maestros e instrumentistas de sopro (sobretudo militares) ou conceitos musicais comuns naqueles agrupamentos musicais. O único senão destas obras é a natural ausência de entradas relativas ao século XX, face às suas datas de edição. À excepção da dissertação de Vera Pereira, os restantes trabalhos acerca das bandas militares foram realizados no campo de estudo da história ou da musicologia histórica.

 

4. Notas conclusivas

A partir da presente relação bibliográfica torna-se evidente o elevado número de trabalhos realizados, sobretudo no último decénio, sobre este objecto de estudo. Ao nível de doutoramento identificamos oito teses concluídas, cujo objecto de estudo relaciona-se com uma banda de música, civil ou militar, ou um conjunto desses agrupamentos musicais, além de outras quatro em curso presentemente. Entre as concluídas, quatro são do campo da musicologia histórica, duas de etnomusicologia, uma de educação e outra de composição musical. Das quatro teses em curso, três são da área da musicologia histórica e uma da etnomusicologia.

No âmbito de mestrado a situação actual é deveras animadora, em termos quantitativos. Foram realizadas, até ao momento, dezoito dissertações que consideramos especialmente relevantes para o estudo das bandas de música em Portugal. Seis foram realizadas no campo de estudo da musicologia histórica, três em etnomusicologia, três em antropologia, duas em educação, uma em composição e três em direcção de orquestra de sopros. Infelizmente, não é totalmente certo que este levantamento esteja completo, sendo plausível que, involuntariamente, tenhamos omitido trabalhos a ter em conta, pelo que pedimos desculpas aos respectivos autores. Como é evidente, este é um trabalho que carece de permanente actualização.

 

Abreviaturas

BNP. Biblioteca Nacional de Portugal; ESML: Escola Superior de Música de Lisboa; ESPE: Escola Superior Politécnica do Exército; FCSH – UNL: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa; FLUC: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; ISCTE: Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (actual Instituto Universitário de Lisboa); UA: Universidade de Aveiro; UE: Universidade de Évora; UM: Universidade do Minho; UTAD: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

 

Notas

[[1]] http://www.dgeec.mec.pt/np4/40/ [consultado em 10-04-2016].

[2]Apresentada no Fontys Conservatorium - Tilburg, foi cedida pelo próprio autor.

[3]Apresentada no Zuid-Nederlandse Hogerschool Voor Muziek- Conservatorium Maastricht e, posteriormente na FLUC, foi cedida pelo próprio autor.

[4] Edições Afrontamento, 2008.

[5] Revista Glosas, nº 3, Maio de 2011, p. 47-49.

[6] J. M. Pedrosa Cardoso e Margarida Lopes de Miranda, Sons do Clássico: no 100º aniversário de Maria Augusta Barbosa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012, p. 229-249.

[7] ERAS: European Review of Artistic Studies, V. 5, n. 2, 2014, p. 1-27.

[8] Rotunda, nº 4, UNICAMP - Campinas, 2006, p. 71-101.

[9] Revista Portuguesa de Musicologia, nº 13, 2003, p. 7-34.

[10] Helena Marinho, Jorge Correia e Susana Sardo (ed.), Performa 09 – Actas dos Encontros de Investigação em Performance, CD-ROM, Universidade de Aveiro, 2009, s.p.

[11] Oberschüetzen, IGEB, 2010, disponível em http://www.igeb.net [consultado em 03-10-2014].

[12] Actas dos 3ºs. Cursos internacionais de verão de Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1997, p.213-254.

[13] Revista do Centro de História e Teoria das ideias, vol. X, 2ª Série, Centro de História da Cultura, 1998, p.255-290

[14] I Jornadas de Memória Militar/Os militares, a ciência e as artes, Comissão Portuguesa de História Militar, 2008, p. 99-128.

[15] Voix du Portugal, Cité de la musique / Actes sud, 1997, p. 63-73.

[16] Salwa Castelo-Branco (coord.), Enciclopédia da Música Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores / Temas e Debates, 2010.

[17] Trabalho elaborado na década de oitenta e consultado no Espólio de Silva Dionísio, Arquivo da Banda Sinfónica da GNR.

[18] Década de 2000, cedido pelo autor.

[19] 2006, cedido pelo autor.

[20] De momento, este trabalho está no depósito da biblioteca da FCSH-UNL e não se encontra disponível para consulta.

[21] Pode ser consultada no repositório científico da instituição.

[22] Edição do autor, 1946. Disponível para consulta presencial na BNP.

[23] Edição do autor, 1935. Disponível para consulta presencial na BNP.

[24] Edição do autor, 1965. Disponível para consulta presencial na BNP.

[25] Edição do autor. Disponível para consulta presencial na BNP.

[26] Obra editada pela Câmara Municipal de Viseu em 1937 a partir de uma conferência realizada no Teatro Viriato, no dia 12 de Fevereiro desse ano, pelo tenente Manuel Joaquim, chefe de banda do Regimento de Infantaria nº 14. Disponível na BN e na biblioteca da FCSH-UNL.

[27] Edições Sasseti, 1939. Disponível na BN e na biblioteca da FCSH-UNL.

[28] Edição da revista Alma Nacional, 1941. Disponível na BNP e na biblioteca da FCSH-UNL.

[29] Sem editor, 1956. Disponível na BNP.

[30] Edição do Centro de Estudos da Marinha, 1981. Disponível para consulta na BNP.

[31] Editado pela Colibri, 1999. Disponível para consulta na BNP.

[32] Editora Tribuna, 2008. Disponível para consulta na BNP e na FCSH-UNL.

[33] O livro - editado em 2010 pela Comissão Cultural de Marinha - está disponível para consulta na BNP e a dissertação pode ser consultada no repositório da UA.

[34] Dicionário Musical, 2ª edição, J.G. Pacini, 1899; Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses, 2 volumes, Edição do autor, 1900.

[35] Os músicos portugueses, 2 volumes, Imprensa portuguesa, 1870.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Madureira, B. ; (2017) Investigação académica sobre filarmónicas e bandas militares em Portugal: Uma panorâmica da situação actual. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL X (20) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt