O Momento Presente e os Novos Contornos Culturais – reflexões para a área do design

The Present Moment and the New Cultural Configurations – Reflections for the area of design

Dias, S.

ESD-IPCA / IPCA ID+ - Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

ABSTRACT: O mundo contemporâneo apresenta-se-nos com novos contornos, moldado por questões relacionadas com as mudanças de paradigmas globais em que a imprevisibilidade é um factor principal. Para o expressar, emergem novos termos tornando-se evidente que a visão pós-modernista já não se encontra adequada à nossa realidade. Apresenta-se aqui uma síntese do enquadramento histórico da atualidade por forma identificar alguns aspetos desenhados pela nova noção de cultura, sobretudo a partir de meados dos anos 90 do século XX.

A metodologia e a temática aqui aplicadas provêm de uma investigação de doutoramento na área do design [1]. Através de revisão da literatura e percorrendo algumas das mais recentes análises feitas por intelectuais da atualidade, enumeramos alguns aspetos que têm vindo a operar mudanças significativas na experiência cultural presente. Procuramos contribuir para um melhor enquadramento teórico destes agentes que consequentemente afetam a maneira de pensar e de fazer design.

PALAVRAS-CHAVE: Modernidade líquida; hipermodernidade; altermodernidade; mobilismo; design; cultura.

ABSTRACT: The contemporary world presents itself with completely new and unpredictable forms, shaped by issues related to global paradigm shifts. New concepts are thus emerging, making clear that the postmodernist vision is no longer suitable to our reality. In this article, we intend to present a synthesis of the current historical context, in order to identify some values drawn by the new notion of culture, especially from the mid-90s of the twentieth century.

The theme and methodology are driven by a doctoral research on the area of design [1]. Through a literature review and following the most recent analysis made by experts of contemporary culture, we highlight some aspects that have been operating significant changes to the current cultural experience. We aim to contribute to a better theoretical framing of the changing agents that undoubtedly affect the way we think and do design.

KEY-WORDS: liquid modernity; hipermodernity; altermodernity; mobilism; design; culture.

1. Introdução

O presente artigo aplica a metodologia e temática que provém de uma investigação de doutoramento na área do design [1]. Através de revisão da literatura e percorrendo algumas das mais recentes análises feitas por intelectuais da atualidade, enumeramos alguns aspetos do mundo contemporâneo que nos ajudam a compreender os novos contornos culturais que se apresentam segundo novas definições e que parecem já não caber na noção de cultura pós-moderna.

Para exprimir e classificar este mundo difuso, complexo e paradoxal, emergem novos termos como hipermodernidade (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy), modernidade líquida (Zygmunt Bauman) ou altermodernidade (Nicolas Bourriaud), e consequentemente se diversificam as denominações para um novo padrão cultural, respetivamente, cultura-mundo, cultura líquida ou modelo radicante.

Sendo o design um fator profundamente sensível à cultura e concebido dentro dos dois grandes modelos culturais – modernismo e pós-modernismo – este artigo visa contribuir para um melhor enquadramento teórico dos agentes que têm vindo a operar mudanças significativas na experiência cultural presente e, consequentemente, no design. 

 

2. Mobilismo e o empoderamento do cidadão

A escalada da globalização, desde os anos 80, a desregulação económica com a abertura dos mercados e o desenvolvimento, sem precedentes, das tecnologias e das indústrias da cultura e da comunicação lançam o mundo definitivamente na nova realidade cultural, com expressão sobretudo a partir dos anos 90 do século XX. Na verdade a década de 90 parece revelar o culminar de uma combinação de vários fatores, que resultou na desestabilização completa dos sistemas de referência que regularam a sociedade durantes as décadas anteriores. Segundo diversos pensadores contemporâneos esses valores, que conferiam ao indivíduo uma almofada de conforto e estabilidade, nunca mais terão sido recuperados. As manifestações desta realidade são visíveis no nosso quotidiano, completamente reconsiderado, estendendo-se a todas as dimensões da vida. Se há bem pouco tempo o seio familiar se organizava de forma perfeitamente previsível, estável e tradicional, hoje sofre o impacto de muitas variáveis: “O trabalho da mulher, o aumento da duração dos estudos, a irregularidade dos horários de trabalho, a maior mobilidade dos trabalhadores, os múltiplos níveis da célula familiar constituídos ao sabor das uniões e desuniões...” (Lehu, 1996/2001, p. 29)

Recentemente, num importante debate sobre tendências tecnológicas globais[2] salientou-se que “a tendência profunda, hoje, que molda o futuro, é o empoderamento dos cidadãos acompanhado por uma enorme difusão do poder e que uma questão central é a imprevisibilidade(…)” (Vasconcelos, 2015).

O profundo desenvolvimento das tecnologias da comunicação das últimas décadas detonaram toda esta mudança social alterando para sempre os modelos de participação das pessoas no processo cultural. De uma forma geral, a sociedade passou de um contexto passivo de contemplação para um contexto de ação/utilização.

Desde que a Apple desenvolve o Interface Gráfico de Utilizador – inicialmente criado no âmbito restrito da investigação militar ao serviço da 2.ª Guerra Mundial e consequente Guerra Fria – e o entrega, em meados dos anos 80, à experiência do utilizador comum, este vê-se pela primeira vez perante uma tecnologia elevada sem necessidade de uma aprendizagem especial. A sua fácil compreensão, através da usabilidade cada vez mais aperfeiçoada de ícones, janelas e cliques do rato, rapidamente a torna numa ferramenta democrática, dissolvendo definitivamente o uso do computador com a vida.

Durante os anos 90 crescem as potencialidades digitais das ligações à world wild web, mas é sobretudo a partir de 2000 e com a 2.ª geração da Internet (web 2.0) que os utilizadores passam a participar ativamente nas redes sociais e com a produção dos seus próprios conteúdos. Em pouco tempo, todos os dispositivos que potenciam as ligação em rede tornaram-se instrumentos primordiais do relacionamento das pessoas e, em breve, teremos todas as coisas potencialmente ligadas entre si de forma inteligente, num sistema de internet das coisas.

Num artigo publicado em 2005, o crítico de design Max Bruinsma, salientava o fenómeno do crescente protagonismo do cidadão comum, denominado esta dinâmica cultural de mobilismo (proveniente da palavra inglesa mob, que representa multidão). Em 2006 é precisamente o cidadão/utilizador o eleito para a capa da Time como personalidade do ano, evidenciando-se a importância instalada da cultura participativa.

Diferentemente da ideia de ‘massa’ de outrora – as massas (mob) de hoje têm uma natureza dinâmica: são “agregados temporários de ocorrências, temporariamente ligados em rede”. Partilhando e combinando interesses, preocupações e forças comuns, regista-se uma crescente frequência de mobilizações que fazem a diferença nos discursos podendo representar um contrapoder e uma vigilância do próprio poder: “o que interessa à mob é a participação, não o consolo. Eles envolvem-se nos temas e causas que escolheram na qualidade de actores, não de meros consumidores”. (Bruinsma, 2005, pp. 40-44)

O indivíduo já não se sujeita com facilidade às vontades que lhes são dirigidas unilateralmente e revelam cada vez mais esse desejo de participação e autoria em múltiplas produções em todos os domínios, desde a criação de empresas até às práticas mais expressivas. Sobre esta matéria, Lipovetsky e Serroy referem que “as grandes instituições religiosas e políticas já não controlam os espíritos de forma estrita, as ciências e os seus saberes e as suas questões abertas difundem-se todos os dias, um pouco mais na cultura quotidiana.” (2010, pp. 178-179)

 

3. Modernidade líquida

Neste contexto, em que a comunicação se estabelece de forma instantânea e a nível planetário, tudo tendem a permanecer em fluxo, volátil e flexivel, desde os relacionamentos, convicções, estilos de vida, até às instituições. Para o filósofo Zygmunt Bauman vivemos num mundo líquido onde tudo é temporário e incapaz de manter a forma. (Bauman, 2004, Cit. por  Pallares-Burke, 2004, p. 322)

Ainda que, segundo ele, a sociedade não tenha abandonado totalmente a ideologia moderna anterior hoje, já não possuímos a utopia que regulava a sociedade moderna, que acreditava num futuro compensado pelo esforço e pelo progresso. É nesse sentido que, para este filósofo, vivemos um pós-modernidade3 sem ilusões, tendo-a batizado de modernidade líquida.

Zigmunt Bauman estabelece a diferença entre a primeira e a segunda fases da modernidade. A primeira é uma modernidade sólida, onde a permanência e a durabilidade existiam como princípio. Não obstante da sociedade moderna sólida estar sempre a ‘desmontar’ a realidade herdada através da ação dos movimentos de ruturas das vanguardas artísticas, acreditava-se contudo poder ‘montá-la’ ou numa realidade ainda melhor e novamente sólida.

A segunda modernidade é a de hoje. Esta é líquida. Tudo é instável, fragmentado, determinado pela incerteza e pelo curto prazo. Não existe, como na ideologia moderna, a crença de se poder alcançar algo permanente. Tudo muda antes que haja tempo de se solidificar.

 

4. Hipermodernidade

Os princípios que estruturam a primeira modernidade, centrados no mercado, no indivíduo ou nos avanços tecnológicos, são os mesmo que estrutura a nossa segunda modernidade, contudo hoje vivemos num mundo ‘hiper’ onde estes aspetos são exponenciados. Conforme esclarecem Serroy e Lipovestky, o hipercapitalismo é o motor da mundialização financeira; a hipertecnicização, o grau mais elevado da universalidade técnica moderna; o hiperindividualismo, é o homem individual agora liberto dos constrangimentos comunitários à maneira antiga; e o hiperconsumo, é o grau mais elevado do hedonismo mercantil. (2010, p.40)

Segundo estes pensadores, foi nos anos 50 que os princípios modernos foram intensificados, mas é com a escalada da globalização, desde os anos 80, que este fenómeno passa a interferir diretamente nos comportamentos sociais. A desregulação económica, com a abertura dos mercados (entre as décadas 70 e 80) e o desenvolvimento, sem precedentes, das tecnologias e das indústrias da cultura e da comunicação lançam o mundo definitivamente na nova realidade cultural. Estes factores combinados originaram “a hipertrofia da oferta mercantil, a superabundância de informações e de imagens, a pletora de marcas, a imensa variedade de produtos alimentares, de restaurantes, de festivais de música, os quais se podem encontrar agora em todo o mundo, em cidades que oferecem as mesmas vitrinas comerciais”. (ibid. Ibidem, pp. 20-21)

Esta mutação sucedeu de forma tão rápida que quando se anunciava o nascimento do pós-moderno já se esboçava em simultâneo a hipermodernização do mundo.

O termo pós-moderno perdeu a sua capacidade de exprimir uma modernidade intensificada a partir dos anos 90. Este é o motivo que levou a que os Lipovetsky e Serroy considerassem o prefixo híper (de hipérbole, exagero expressivo) e classificassem a nossa era de hipermoderna4. (Lipovetsky & Serroy, 2010, p. 53)

A hipermodernidade traz também consigo um novo protagonismo da cultura face à dimensão económica e de mercado. Ou seja,  enquanto que na era moderna a cultura era pensada como um fenómeno secundário, na hipermodernidade a cultura ganha a importância central na vida económica global. A cultura mistura-se com a mercadoria e de uma forma geral “agora são os media, mais dos que os círculos científicos e intelectuais, que fabricam as celebridades” de acordo com a lógica infinita “do marketing, da mediatização e do star-system” (idem, ibidem, pp. 127-128)

Ainda que as questões estéticas, culturais e criativas sempre tivessem um papel fundamental no universo económico e de mercado, atualmente estes fatores tornaram-se primordiais e numa escala completamente nova. É precisamente quando “o mundo se transforma em cultura e a cultura em mundo” que os autores classificam a cultura de cultura-mundo. (idem, ibidem, p.14)

 

5. Altermodernidade

Por seu lado, o filósofo e crítico de arte, Pierre Bourriaud apresenta o neologismo altermoderno5 como um termo que melhor define o indivíduo “que corresponde aos desafios do século XXI, e especificamente ao momento histórico que vivemos e no qual nos inscrevemos, para o bem e para o mal: a globalização”.  (Bourriaud, cit. por Guerra, 2009)

Este termo resulta da utilização do sentido de alteridade (na raiz latina alter significa outro) e que neste caso se refere à consciência planetária do outro: “ser moderno, no século XX, correspondia a pensar de acordo com formas ocidentais; hoje, a nova Modernidade produz-se segundo uma negociação planetária.”

A principal diferença que verificamos na cultura comparando a modernidade e a era contemporânea, está na sua posição. Ou seja, no período moderno as diferenças culturais são enfatizadas por oposição, não se aceitam as misturas de forma a garantir a pureza da definição: bom ou mau; artístico ou comercial; eu ou outro, etc. Dicotomias que funcionavam como instrumentos facilitadores da leitura e classificação da realidade.

Hoje, estas hierarquias evaporaram-se e ficamos sem referencias estruturantes, para as quais temos de arranjar novas soluções. O caldo cultural de crescente caos e a excrescência de artefactos provocado pela globalização, ao contrário de uma separação cultural, leva antes à sua fusão, mistura e sobreposição. Esta realidade de interações, dá origem a uma cultura crioulizada6 fruto das hibridações dos particularismos, das reinterpretação, das redefinição ou das reciclagens culturais.

Não pode, por isto, haver nestas condições, um modelo cultural único. Existe, antes, diferentes versões de cultura onde “coabitam produtos formatados e produções crioulizadas, que se enriquecem com todas as correntes e estilos do mundo próximo e longínquo.” (Lipovetsky & Serroy, 2010, pp. 155)

Bourriaud ilustra a dinâmica cultural com uma metáfora da botânica – o radicante –inerente ao contexto altermoderno, em comparação com o conhecido termo – rizoma – atribuído ao contexto pós-modernerno.

Enquanto que no modernismo o conhecimento se pretende original (que provenha da origem) a imagem adequada será a raiz que escava em profundidade. Por seu lado Rizoma7 é o modelo que descreve a orgânica do pós-modernismo adotado por Deleuze e Guattari para caracterizar um sistema não hierarquizado (ou seja, sem referências originais). Este modelo é geralmente utilizado para ilustrar a estrutura do conhecimento que deriva de vários pontos que se podem conectar a outros pontos quaisquer, sem hierarquias.

Bourriaud, acrescenta agora o modelo Radicante8 :“ (…) organismo cujas raízes crescem enquanto avançacomo é o exemplo da planta trepadeira hera. Assim, nesta imagem está contida a metáfora para o nomadismo contemporâneo, que seria baseada em reuniões, encontros, diálogos, traduções entre indivíduos e contextos que se cruzam ao avançar. (Bourriaud, 2011)

Este conceito é explorado no seu ensaio concebido em conjunto com a exposição de arte contemporânea Altermodern, em 2009.

 

 

6. Considerações finais

Todas as perspetivas que salientamos neste artigo, para classificar a experiência cultural presente, têm como base a combinação de fatores como a revolução digital, a mundialização dos mercados ou desenvolvimento sem precedentes das indústrias culturais provocando novas mudanças de paradigma à escala global.

A realidade apresenta-se líquida e incerta, caótico e excessiva, sendo a imprevisibilidade uma das caraterísticas mais importantes das tendências do mundo contemporâneo.

A cultura passou a adquirir uma centralidade inédita no panorama económico mundial (cultura-mundo), facultando ao cidadão comum o acesso à superabundância cultural. O desenvolvimento das tecnologias da comunicação abriram às ‘novas massas’ uma expressão social sem precedentes, num contexto de mobilismo cultural – impulsionando comportamentos participativos e socialmente interventivos. Hoje o cidadão adquire um crescente protagonismo como ator social e fala-se do seu empoderamento com um dos principais aspetos do futuro.

Contudo, como sintoma da ideia de que tudo é cultura, inerente à cultura-mundo, tem emergido tensão ao verificar-se que a sociedade continuar a interessar-se unicamente pelo que é mais fácil, mais sedutor, mais espetacular, ficando por revelar muitas outras coisas, ainda que ao alcance da mão. Como Lipovetsky e Serroy simplificaram, vivem-se as “sacralizações sem qualquer efeito, sem consequências, sem práticas efetivas. Reconhece-se o génio das obras, mas não se mergulha nelas; não se retira a coroa à grande cultura mas é transformada numa majestade simbólica, sem poder”. ( 2010, p. 133)

Estes autores desenvolvem ainda a ideia de que este indivíduo, se destituído de competência para perceber as consequências de tão grande poder ampliado à escala global, experimenta, de forma paradoxal, um sentimento de grande desorientação, tornando-se vulnerável às múltiplas e infinitas novas formas de manipulação. Quer isto dizer, que tal abundância de informação não chega para produzir experiências significativas se estas não forem devidamente interiorizadas.

Torna-se, assim, pertinente o facto dos diversos autores, abordados neste artigo, analisares a contemporaneidade com preocupações semelhantes. Todos salientam a premente necessidade da reconstrução de grelhas de sentido e de experiências pessoais com significado como reação a um empobrecimento simbólico: “cada vez mais se expressa a necessidade de reinventar as regras dum jogo que, ao ser jogado de forma selvagem, escapa demasiado aos seus próprios participantes”. (Lipovetsky e Serroy 2010, pp. 238-239)

Para Zigmunt Bauman, “o único sentido duradouro, o único significado que tem [o indivíduo] chance de deixar traços, rastos no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto do seu próprio esforço e trabalho.” (2000, pp. 324-325)

Estes intelectuais argumentam a importância de se restabelecerem referências que possibilitem aos indivíduos uma visão englobante, como o reconhecimento da sua posição na história e dentro da realidade de cada um, que permita hierarquizar e interpretar os acontecimentos. De forma ao indivíduo não se diluir no torvelinho dos tempos, é fundamental que desenvolva a competência de um nómada radicante (Bourriaud, 2009b) ou de um geólogo do significados (Bruinsma, 2006), conseguindo avançar numa encruzilhada de caminhos e sabendo interpretar um mundo que se apresenta múltiplo e simultâneo, como que constituído por sedimentos de múltiplas origens.

É contudo, igualmente pertinente, perceber que diversos autores partilham da convicção de que as atuais condições têm provocado um desejo de unidade e de sentido, parecendo comprovar a tese de uma tendência relacional9. Esta mesma aproximação é feita pela primeira vez à área do design por Parrinder e Davies (2006) e desenvolvida por Andrew Blauvelt10. Como resultado da análise de diversos projetos de design a partir de meados dos anos 90, este crítico argumenta que “estamos na terceira maior fase do design moderno da História: uma era de um design de base relacional e contextualmente específico” (Blauvelt, 2008).

 

Análise crítica

Posto isto, cabe perguntar de que forma esta necessidade se manifesta na prática do design com base relacional: serão projetos orientados para um intenso desejo de participação popular, sendo o aspeto interativo desenvolvido como um fim em si mesmo? Ou, podermos esperar produções que se salientam com vigor, como estruturas intermediárias que possibilitando ao indivíduo a co-criação ou co-autoria da sua própria experiência participativa, permitindo uma relação crítica e responsável com o mundo?

Retiramos desta análise a convicção de que o designer poderá continuar a desempenhar um papel fundamental na sociedade se encarar as circunstâncias atuais como oportunidades. A nova noção de cultura exige-lhe as competências de um organismo radicante que procura a singularidade da sua visão a partir de material cultural já existente. Para tal, parece-nos pertinente que o designer desenvolva competência de diálogo com os outros e com os diverso contextos numa necessária descentralização do seu papel. Questões que desejamos abordar em artigos posteriores. 

 

Notas

[1] Dias, S. (2015). Design como processo: Uma reflexão sobre a dimensão lúdica, participativa e relacional (Tese de Doutoramento). Faculdade de Belas Artes, Porto, Portugal.

[2] Ciclo de conferências “Tendências Globais 2030 _ os futuros de Portugal”. Participação de diversos especialistas com o objetivo de se discutir questões relacionadas com as novas mudanças de paradigma e avaliar o seu impacto no futuro de Portugal e do mundo. Ciclo comissariado por Álvaro Vasconcelos, promovido pela Fundação de Serralves entre 28 setembro 2015 e 11 de fevereiro de 2016.

[3] Bauman reforça que se trata-se de uma pós-modernidade, mas sem a visão pós-modernista. Segundo o autor, tem-se gerado uma confusão semântica entre pós-modernidade (sociedade ou tipo de condição humana) e pós-modernismo, que se refere à visão de mundo “que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido”. Esta é uma visão que difere da ideologia da Modernidade Líquida, que agora propõe. (Bauman, cit. por Pallares-Burke, 2004, p. 321)

[4] Hipermodernidade foi um termo surgido nos anos 70, mas popularizado em 2004, no livro em que Lipovetsky colaborou Sébastien Charles: Os tempos hipermodernos.

[5] Altermodern deu o título à 4ª Exposição Trienal de Arte na Tate Gallery em Inglaterra (e ao respetivo catálogo), realizada em 2009 e comissariada por Bourriaud. Nesta exposição o autor reúne um conjunto da artista selecionados segundo uma perspetiva do pensamento e da Arte no contexto global contemporâneo.

[6] Termo que caracteriza o processo cultural contemporâneo, utilizado pelos autores Lipovestsky e Serroy, 2010; e Bourriaud 2009.

[7] Em botânica, rizoma refere-se à estrutura de algumas plantas que podem ramificar-se a partir de qualquer ponto que, dependendo da sua localização, poderá funcionar como uma raiz, um talo ou um ramo.

[8] Conceito utilizado por Bourriaud para caracterizar o artista contemporâneo, que mais do que procurar ser original (trabalhar diretamente com a matéria prima), pretendem a singularidade (fazer associações de maneira inédita).

[9] A este propósito salientam-se autores como Frank Popper, Clair Bishop, Jacques Ranciére, Grant Kester, Nicolas Bourriaud ou Andrew Blauvelt

[10] Blauvelt desenvolveu a reflexão sobre a prática do design relacional em palestras anteriores à edição  do artigo publicado online em 2008, Towards Relational Design. Para mais informação consultar o blogue da Walker Art Center, disponível em: http://blogs.walkerart.org/design/2008/11/10/towards-relational-design

 

Referências bibliográficas

Bauman, Z. (2000). Liquid modernitiy. Cambridge: Polity Press.

Blauvelt, A. (2008). Toward relational design. In Design Observer-Observatory. Consult. fev. 2011. Retrieved from http://observatory.designobserver.com/entry.html?entry=7557

Bourriaud, N. (2008). Altermodern explained by Nicolas Bourriaud  [Video]. Consult. 28 mar. 2011. Retrieved from https://www.youtube.com/watch?v=bqHMILrKpDY

Bourriaud, N. (2009a). Altermodern : Tate triennial. London: Tate.

Bourriaud, N. (2009b). Nicolas Bourriaud at Gulbenkian - The Radicant [Video]. Consult. 4 jun. 2010. Retrieved from https://www.youtube.com/watch?v=HxwIwapDn8g

Bourriaud, N. (2011). Meetings on art - Bourriaud - Kuzma – Maraniello: La Bienal de Veneza Channel [Video]. Consult. 15 jun. 2012. Retrieved from http://www.youtube.com/watch?v=nUEZ9M6woQg

Bruinsma, M. (2005). A rebelião das mobs: A cultura do envolvimento. In Rev. Catysts!, (1), pp. 38-44.

Bruinsma, M. (2006). Cultural catalysts, cultural agency. Retrieved from http://maxbruinsma.nl/agency/bottom.html

Guerra, S. (2009). Nicolas Bourriaud: Entrevista.  Arte Capital, 75.  Consult. 28 mar. 2011. Retrieved from http://www.artecapital.net/entrevistas.php?entrevista=75

Lehu, J. M. (2001). O Marketing interativo: a nova abordagem estratégica do consumidor. Porto: Livraria Civilização Editora. (Trabalho original publicado em 1996)

Lipovetsky, G., & Charles,  S. (2004). Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla.

Lipovetsky, G., & Serroy,  J. (2010). Cultura-mundo: Resposta a uma sociedade desorientada. Lisboa: Edições 70.

Pallares-Burke, M. L. G. (2004). Entrevista com Zigmunt Bauman. Revista Tempo Social, 16(1), pp. 301-325. Consult. jan. 2013. Retrieved from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&pid=S0103-20702004000100015&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Parrinder, M. & Davies, C. (2006). Nicolas Bourriaud’s concept of ‘relational aesthetics’ may give designers a new set of tools. Eye Magazine (59). Consult. 2013. Retrieved from http://www.eyemagazine.com/feature/article/part-of-the-process.

Poynor, R. (2008, junho 1). Observer: stained relations. Consult. set. 2010. Retrieved from http://www.printmag.com/article/observer_strained_relations/

Vasconcelos, A. (2015). TENDÊNCIAS GLOBAIS 2030 - Tendências tecnológicas globais: um mundo melhor? Retrieved from https://www.youtube.com/watch?v=eI_RbMyD6Rs

Reference According to APA Style, 5th edition:
Dias, S. ; (2017) O Momento Presente e os Novos Contornos Culturais – reflexões para a área do design. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL X (20) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt