Marketing no Mercado da Arte e o Processo Artístico de Criação: Um Estudo Caso

Marketing in the Art Market and the Artistic Process of Creation: A Case Study

Nogueira, I.

IPV/CI&DETS - Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Educação

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O mercado da arte e a influência do marketing na divulgação do produto artístico é o propósito do presente estudo. Mercado de arte, intervenientes, mudança de atitudes, experiências, desafios e novas tendências de criação artística configuram uma recente narrativa do marketing cultural com influência no comportamento do consumidor de arte, no público-alvo, na economia da arte e, neste contexto, na especulação artística. Esta questão leva à necessidade de uma reflexão sobre a utilidade estratégica da comunicação na perspetiva do marketing obrigando a reconsiderar a sua função intermediária ao serviço da inovação e comercialização da arte.

Este trabalho e o estudo que o suporta, confronta o princípio da especulação artística e os meios por ela veiculados em dois percursos artísticos. Nele se reflete que o marketing artístico, possui vertentes de natureza criativa e comercial variáveis, proporcionais ao envolvimento de artistas, entidades artísticas e intermediários comerciais, essenciais ao fluxo comercial da obra de arte.

PALAVRAS-CHAVE: Arte, mercado da arte, marketing cultural e especulação artística.

ABSTRAT: The art market and the influence of marketing in spreading the artistic product is the purpose of the present study. Art market, players, changing attitudes, experiences, challenges and new trends in artistic creation configure a recent cultural marketing perspective with repercussions on art consumer behavior, in target audience, in art economy and, in this context, in the artistic speculation.This question leads to the need for reflection on the strategic use of communication in the marketing perspective forcing to review its intermediary function at the service of innovation and commercialization of Art. This work and the study supporting it, confronts the principle of artistic speculation and the means used by it in two artistic careers paths. It reflects that artistic marketing has aspects of creative and commercial variables, proportional to the involvement of artists, arts organizations and trading intermediaries, essential to the trade flow of the artwork.

KEYWORDS: Art, art market, cultural marketing and artistic speculation.

1. Introdução

Esta investigação tem como objeto de estudo o mercado da arte e a influência do marketing na sua divulgação.

Atualmente o marketing está adaptado aos mercados de arte e à mudança de atitudes, experiências, desafios e novas tendências da criação artística, assim como aos intervenientes neste tipo de mercado. Desta forma, pode-se questionar qual é o verdadeiro papel executado pelo artista no mercado da arte: há artistas que se dedicam à arte de forma descomprometida e altruísta, outros ajustam-se às flutuações do mercado de arte e preconizam uma conceção artística congruente com a predisposição consumista. Em ambas as situações, o universo artístico tem demonstrado uma certa imprevisibilidade em eleger um perfil adequado ao sucesso.

A função do marketing é caracterizada pela satisfação das necessidades dos consumidores, embora no mundo da arte, nem sempre esta questão é privilegiada pelo artista, contrariando desta forma as regras básicas do marketing com a produção de obras a partir da sua ideologia.

Segundo Kotler e Armstrong, (2003, p. 3) [1], “a função do Marketing, mais do que qualquer outra função nos negócios, é lidar com os clientes, entender, criar, comunicar e proporcionar ao cliente valor e satisfação constituindo a essência do pensamento e da prática do marketing”.

Neste sentido o mercado das artes é constituído por um conjunto de intervenientes que nem sempre partilham das mesmas necessidades, preferências e valores. Em muitas circunstâncias é atribuído um estatuto à arte que a vincula a uma sociedade elitista, assumindo a categoria de um produto inacessível.

Esta questão leva à necessidade da reflexão sobre a utilidade estratégica da comunicação na perspetiva do marketing obrigando a reconsiderar o papel principal do marketing enquanto função intermediária ao serviço da inovação e comercialização da Arte.

Ao longo deste trabalho procuraremos expor e fundamentar as escolhas tomadas ao longo da revisão de literatura e do percurso de investigação relativamente à metodologia adotada tendo em conta as palavras-chave aduzidas anteriormente e a definição do problema.

O Mercado de Arte domina o tema desta investigação. Delineámos, nesse sentido um estudo que confronta a especulação artística e os meios por ela veiculados em dois percursos artísticos, protagonizados por Mark Kostabi e Miguel Palma.

Com base destes pressupostos o enquadramento teórico pretende demonstrar o desempenho do Marketing Artístico e a rede de ligações que se estabelece com o mercado artístico. Para tal, colocam-se-nos várias interrogações que abrangem diversos aspetos que circunscrevem o estudo. As relações determinantes entre o artista (enquanto produtor), as instituições (como intermediárias) e o consumidor de arte (como cliente) influenciam na valorização e aquisição do produto artístico? No mercado da arte, a dinâmica dessas relações, potenciam a especulação artística?

 

2. Metodologia

2.1. Enquadramento metodológico

Esta investigação resulta da necessidade em explicar questões e conceções que circulam no mercado da arte tendo por base perspetivas e conceitos definidores do enquadramento do marketing na arte e a utilidade estratégica da comunicação na perspetiva do marketing enquanto função intermediária ao serviço da inovação e comercialização da Arte.

Sendo o mercado das artes constituído por vendedores e consumidores que nem sempre apresentam as mesmas necessidades e exigências neste tipo de mercado, geralmente a mesma obra nem sempre estimula nos vários observadores o mesmo sentido crítico e de investimento.

Para a realização deste trabalho optou-se por um estudo de natureza descritiva com recurso a técnicas de investigação qualitativa, cujos fatores determinam o fenómeno deste mercado, através do marketing para a sua divulgação e integração no Mercado da Arte.

A intenção de circunscrever o presente estudo de forma concreta e decisiva levou-nos a definir o seguinte problema:

Será que a produção artística e a maneira como é dada a conhecer vão influenciar o Mercado da Arte?

Como refere Polit e Hungler (1995), a pesquisa exploratória aponta mais do que a observação e a explicação do fenómeno: “a pesquisa exploratória pretende explorar as dimensões desse fenómeno, a maneira pela qual ele se manifesta e os fatores com os quais ele se relaciona” (p. 14) [2]. Pensamos que ao descrever e explorar o fenómeno em estudo, podemos contribuir para um melhor conhecimento da problemática em questão.

Efetivamente, o método adotado nesta investigação permite o cruzamento de diferentes fontes de informação e o recurso a diversas fontes de pesquisa e recolha de dados, de destacar a entrevista. A este propósito, Fernandes (1991) [3] refere que “uma das vantagens da investigação de natureza qualitativa está relacionada com as vantagens na concretização de hipóteses de investigação. Resulta em função da utilização de técnicas, como entrevistas direcionadas com os sujeitos sob investigação, observações criteriosas e minuciosas das suas atividades, vivências e análise documental”.

 

2.2. Participantes

A amostra refere-se a dois artistas plásticos, cuja componente artística e mercantil se manifesta de formas e conceitos diferentes salientando que o estudo não se cinge exclusivamente aos artistas enquanto pessoas, mas às suas preocupações artísticas e a dinâmica instituída no circuito comercial da arte.

 

Tabela 1 - Caraterização dos participantes

 

Mark Kostabi representa-se de uma forma compulsiva em autoentrevistas, na imprensa, comunicação social e espetáculos e filmes com a perspetiva de exibicionismo e autopromoção,  assumindo-se como protagonista e ídolo principal no mundo das artes, enquanto Miguel Palma é considerado um artista prolífero em permanente ascensão com a capacidade de mover e melhorar o mundo através de todo um conjunto de ideias inovadoras em que o sucesso é garantido Os grandes projetos que este artista apresenta consistem numa alegoria sobre o modo como a informação e os media são recebidos na nossa sociedade.

 

2.3. Técnicas e instrumentos de recolha de dados

Para este estudo foram realizadas entrevistas semiestruturadas baseadas na recolha de dados qualitativos e comparativos entre dois artistas com tópicos de interesse para o desenvolvimento da investigação cujos objetivos gerais e específicos foram submetidos a um critério de análise comparativa (Estrela,1986) [4], através de um guião com o seguinte esquema: tema, definição dos objetivos gerais, questões/assuntos.

As questões do guião foram criadas com o objetivo de obter respostas acerca do tema. Segundo Bogdan & Biklen (1994) [5] as entrevistas caracterizadas pelo livre arbítrio dos participantes. Para o sucesso das entrevistas a linguagem deve ser acessível com a criação de estímulos ao entrevistado para assim poder clarificar as suas reações e ideias através de questões direcionadas exclusivamente para o assunto a tratar. Para a garantia da legitimidade da entrevista, houve a necessidade de transmitir os objetivos da entrevista assim como a conceção do estudo.

Neste sentido também se procedeu a uma investigação documental dos sujeitos envolvidos com a recolha de informações em catálogos, revistas, livros, filmes e registos biográficos e bibliográficos online com o intuito de fazer comparações entre os dois artistas participantes, relacionando a produção artística e a sua divulgação, posteriormente foi realizada uma análise de conteúdo onde existiu um cruzamento de dados desta mesma análise.

 

2.4. Tipo de Investigação

Esta investigação é de natureza qualitativa, centrada numa tipologia designada por estudo de caso. Foi privilegiada uma metodologia de natureza qualitativa, caracterizada por se basear numa abordagem naturalista – fenomenológica, no sentido de “compreender um fenómeno, para extrair a sua essência do ponto de vista daqueles que vivem ou viveram essa experiência” (Fortin, 2003. p. 148) [6].

O presente estudo apenas se valorizará no contexto específico do mercado da arte, cujos intervenientes (Mark Kostabi e Miguel Palma) participaram nesta investigação e reportam de uma forma diferenciada as suas vivências, experiências, conceitos artísticos e mercantis

O método adotado nesta investigação permite o cruzamento de diferentes fontes de informação e o recurso a diversas fontes de pesquisa e recolha de dados, de destacar a entrevista. A este propósito, Fernandes (1991) [3] refere que “uma das vantagens da investigação de natureza qualitativa está relacionada com as vantagens na concretização de hipóteses de investigação. Depois de reunida a informação acerca dos intervenientes foram elaboradas entrevistas semiestruturadas com o intuito de registar o que eles pensam acerca do Mercado de Arte e o processo artístico de criação e marketing dos artistas, “Mark Kostabi e Miguel Palma” cujo objeto de pesquisa foi feito através de dados específicos a partir de um conjunto de pesquisas documentais e entrevistas que o organizam. Posteriormente foi feita uma análise comparativa entre os dois artistas na perspetiva do problema para determinar os resultados.

 

3. Discussão de resultados

Os resultados desta investigação permitiram-nos fazer um paralelismo entre dois artistas que, grosso modo, exibem motivações e realidades distintas na predisposição com a Arte e para com o Mercado de Arte.

No que concerne às motivações e interesses no conceito do mercado de arte, os participantes revelam que estão de acordo com as suas vivências, experiências, ideologias e concretização dos objetivos quer artístico, quer comercial.

As motivações de Mark Kostabi estão direcionadas para a venda de arte, a corroborar esta ideia o artista refere “alguns demonstram, outros não. Alguns sentem prazer enquanto vendem, mas escolhem não demonstrá-lo. Alguns sentem-se nervosos quando recebem dinheiro pela sua arte porque sentem que não o merecem”. Na perspetiva do mercado de arte, o artista reconhece que o conceito de mercado de arte é comparado a qualquer outro tipo de mercado, em que os lucros são a sua principal preocupação em detrimento do interesse ou altruísmo artístico, que podem ser subjacentes a outros mercados em cadeia, especialmente revelador quando afirma que “o mercado de arte é uma vasta conglomeração de clientes que, por vezes, se interliga com outros mercados como o Imobiliário ou o mercado de Mobiliário”. A reforçar esta ideia, Mark Kostabi considera que existem mercados opostos que funcionam da mesma forma: “quem compra arte pertence ao mercado da arte, mas algumas fações não têm quase nada a ver com as outras, por exemplo, os clientes de Larry Gagosian e os clientes para as esculturas de bronze de Frederic Remington, mas nunca saberás se existem uma interligação entre estes mercados”. Para Miguel Palma as motivações artísticas não estão voltadas primordialmente para a área mercantil, embora considere que qualquer artista gosta de vender a sua arte. Na área do mercado da arte considera que esse mercado é constituído por todos os intervenientes do processo de compra e venda de arte, incluindo colecionadores e galerias.

Na perspetiva de marketing na arte, Mark Kostabi considera que quem atribui a chancela ao produto artístico é a referência artística, e principalmente, a palavra do artista tendo em conta que a arte tem uma natureza intrínseca ao marketing, pois” alguns artistas estão em negação e não querem reconhecer a importância do marketing”. No aspeto comercial considera que o marchand tem um papel preponderante nas vendas e transações de obras de arte, embora atualmente opte pela venda de arte através dos media. A este propósito, refere que a entrada numa galeria prestigiada garante benefícios económicos e simultaneamente “permite a entrada em coleções de museus e a apreciação das mesmas em literatura especializada”. Por sua vez, Miguel Palma, considera que o estatuto do produto advém da inexorável passagem do tempo e que o marketing é aliciante enquanto estrutura para o sucesso imediato do artista. No mercado de arte sobressai a ideia de que o marchand tem um papel preponderante na transação e comercialização de obras de arte.

A título de experiência artística Mark Kostabi utiliza todo o tipo de estratégias artísticas valorizadoras do produto e inclui uma dimensão de promoção: “passo 10% do meu tempo a fazer marketing, o que significa contatar clientes, organizar exposições e concertos, dar entrevistas e ir a inaugurações de exposições de arte para me manter em contato com o que se está a passar no momento”, cuja principal finalidade é vender as obras que produz. Nesse sentido, assume-se ele próprio como um manager perspicaz e atento, acrescentando que tem “muitos negociantes que são muito organizados e se comportam como managers, mas tecnicamente são meus clientes”. Kostabi tem como atividade paralela a música que serve de trampolim para o sucesso de vendas através de espetáculos musicais e concertos realizados em espaços por ele criados. Ele distingue-se dos outros artistas pela sua autonomia artística e financeira, criticando aqueles que não têm uma postura equivalente à sua, pois “há muitos artistas de sucesso que provavelmente têm as mesmas crenças, mas a grande maioria aceitará um emprego paralelo”. Destaca o seu percurso de vida referindo que desde cedo começou a vender as obras aos amigos, algo que continua a fazer na exata medida em que o seu conjunto de amigos aumenta, “se consigo vender a um estranho, aprendi que se me tornar amigo dessa pessoa é mais fácil vender-lhe mais obras. Já vendi mais de 18000 quadros e não conheço pessoalmente todos os colecionadores, mas conheço os negociantes que lhes venderam o meu trabalho – e tento ser amigo dos negociantes simples, porque nem todos os negociantes são pessoas honestas, mas temos de pesar as vantagens e desvantagens numa análise caso a caso”. A produção de obras de Kostabi é reveladora do dinamismo exacerbado aliado à sua obsessão em perspetivar a arte com um intuito comercial, a elevada produção artística (em algumas circunstâncias em prejuízo do pudor artístico, do original e da unicidade benjaminiana) a corroborar esta questão está o número aproximadamente de 19000 obras com 250 exposições individuais e 1000 coletivas. A sua participação em feiras e bienais, como Basel e outras, sendo a maior parte em Itália, tem como principais colecionadores e visitantes de outras galerias de outros países, só depois apareceram os colecionadores japoneses no final dos anos 80 e início dos anos 90. “Desde o final dos anos 90 até agora o mercado italiano tem respondido muito bem às minhas obras, mas no passado mais próximo o mercado dos Estados Unidos tem estado muito ativo”, segundo o artista as feiras de arte são um centro atrativo para quem pretende comprar arte. “Gosto que os visitantes sintam que foi uma experiência digna da quantia que investiram”, Kostabi tem como referências artísticas um conjunto seletivo de artistas que potenciam a dignificação do seu trabalho (como Caravaggio, Chirico, Hopper, Léger, etc.) e consequentemente poderão induzir a valorização das suas obras.

Na experiência artística, Miguel Palma apenas utiliza o website como forma de promoção e divulgação do seu trabalho, considerando que na perspetiva da venda de obras nem sempre equaciona a possibilidade de as vender, considera-se um manager mediano, porque trabalha de uma forma prolífera tendo em conta que as artes plásticas são a sua principal profissão, não se distingue entre os outros artistas porque trabalha com seriedade. Na perspetiva comercial da arte diz que é difícil aceder a um mercado de topo e, uma vez ter acedido, torna-se ainda mais difícil manter o nível de exigência, “existem artistas que aprecio bastante; existem outros artistas que estão interessados em problemáticas que não me interessam particularmente, mas que, contudo, reconheço a seriedade e qualidade dos trabalhos; e existem naturalmente outros casos que exploram temáticas sobre as quais não estou interessado”. A nível de produção de obras já produziu algumas centenas, realizou cerca de 54 exposições individuais e 134 coletivas, participação em feiras de relevo, acentuando a ideia de que são uma boa montra. No entanto, tal como Kostabi, assinala que os principais colecionadores são pessoas amigas. Palma denuncia uma crise de valores na esfera artística, especialmente no que concerne à promiscuidade associada à pressão do mercado de arte, confidenciando que tem como principais influências artísticas as que lhe parecem menos artísticas.

Como meios de divulgação artística Mark Kostabi não possui um público-alvo referindo que “já vi o meu trabalho igualmente integrado em coleções Minimalistas como em coleções de colorido Pop (ladeado e conchas com coleções de brinquedos). Já fiz capas para álbuns dos Guns N’ Roses e para álbuns de música clássica. Se houvesse um alvo chamá-lo-ia transversal”, assinalando como circuito comercial de formas de arte, os museus e os críticos de arte, citando Nova Iorque como melhor circuito.

Como meio de divulgação artística, Miguel Palma faz anotação democratizante de que qualquer pessoa pode adquirir as suas obras, e os fatores que influenciam os consumidores de arte são a paixão, o entusiasmo, a ganância e o medo.

Como forma de reconhecimento da identidade artística, do artista Kostabi, o percurso do Artista está dependente de uma imagem de marca “branding” e de um nome capaz de assegurar a valorização de outras obras que pretende produzir. No que concerne aos leilões e à possibilidade dos artistas se tornarem consagrados, torna-se evidente em Kostabi que afetam negativamente a reputação do artista “os leilões criam a ideia no público de que o trabalho é “líquido”. Que tem valor de mercado inerente e não é meramente especulativo ou caridade”. Em termos representativos, Kostabi sem qualquer imodéstia refere que “já tive obras expostas no MET em Nova Iorque, mas neste momento não estão lá. O MoMA e o Guggenheim têm algum trabalho meu, mas não está exposto de momento. As capas do álbum Use Your Illusion dos Guns N’ Roses, O Café Fiorello em Nova Iorque. Os restaurantes Agata e Romeo em Roma”. Kostabi considera que alguns interlocutores no mercado de arte, perspetivam a arte como uma mercadoria similar a qualquer outro produto, referindo: “trabalho com alguns comerciantes que (em privado) dizem que a arte é apenas uma mercadoria, mas a maior parte das pessoas que compram arte para a sua casa estão a fazer algo que consideram especial”.

Segundo Kostabi o fenómeno da especulação artística surge de forma natural e incontestável no mercado de arte, pois “se comprasse arte para investir, consultaria secção artística do New York Times todas as sextas feiras e compareceria a todas as exposições de jovens artistas. Se as apreciações fossem muito boas, compraria toda a coleção (assumindo que os preços fossem razoáveis, o que é comum nas galerias menos

famosas). Com esta abordagem a especulação poderia ser também um gesto mais espiritual porque estaria a apoiar um artista emergente”.

Relativamente a esta questão, Miguel Palma é mais consentâneo e não concorda que os interlocutores no mercado de arte perspetivem a arte como uma mercadoria similar a qualquer outro produto, acentua a ideia de preservação da aura artística; assim como o facto da arte, como qualquer produto passível de ser colecionado, estar potencialmente sujeita a especulação.

A venda de arte e o mercado de arte representam para Mark Kostabi a base alicerçante das caraterísticas mercantis, onde conjuga o prazer nas trocas comerciais e o contacto com o consumidor, acumulando um número de ocorrências aproximado de 99%. Contudo, Miguel Palma desvaloriza o interesse mercantil, remetendo a venda e compra de arte para galerias e colecionadores, reafirmando que o mercado de arte deverá ser constituído pelos seus legítimos intervenientes e o papel do artista assenta na criação. A função do marchand denota uma percentagem de ocorrências com valor de referência de 40 % em que Mark Kostabi valoriza na dinâmica do Marketing na perspetiva comercial das obras de arte, enquanto Miguel Palma valoriza o percurso do artista e os intermediários são considerados uma ponte para a divulgação das obras, com 0% de ocorrências.

Mark Kostabi sobrevaloriza uma consciência de produção massiva de obras e provoca a sua consequente venda a potenciais colecionadores, por consequência da pressão/obsessão do mercado de arte. Destaca-se a premente necessidade, sublinhada inúmeras vezes pelo artista, em aceder ao circuito comercial da arte, com um valor aproximado de 52% de ocorrências. Esta perspetiva é contraposta por Miguel Palma abstendo-se de nomear o enquadramento comercial da arte, preferindo relevar a seriedade no trabalho, a autonomia artística, a qualidade estética e a identidade artística, com valor de referência de 100% de ocorrências.

A importância dada pelos participantes no estudo, acerca das correlações entre a identidade artística e o fenómeno especulativo na arte, verificamos que Mark Kostabi privilegia a obtenção de clientes e o gosto pelo trabalho que realiza influenciam a produção artística com 28% do número de ocorrências, aliada à consagração do artista e locais de destaque artístico (galerias e museus) com 35% de ocorrências. E com particular referência, ao fenómeno especulativo associado ao investimento em arte com 14% de ocorrências.

Miguel Palma assinala a este propósito uma perspetiva desinteressada, enaltecendo a consagração do artista em feiras, bienais e lugares de referência, com 69% de ocorrências e não relacionando diretamente a valorização das suas obras com os fenómenos de especulação. A análise dos contextos dos participantes, permitiu-nos aferir que há alguma indefinição acerca do nível onde ocorre os fenómenos de especulação artística, todavia, há indícios de que estes tendencialmente sucedem a um nível que ultrapassa a performance do artista e se focalizam nas entidades e organizações que dinamizam o mercado de arte.

 

4. Conclusões

A função do marketing aparece inquestionavelmente interligado ao conceito de mercado de arte e assume-se como um imperativo nas relações que se estabelecem entre artistas, intermediários, público e consumidores. No conjunto destas relações especula-se a valorização das obras de arte, a sua mobilidade no mercado de arte e, acima de tudo, o “valor de uso e de troca”. Se por um lado, assistimos a manifestações artísticas descomprometidas, por outro lado, é evidente a atitude premeditada de outros em identificar os mercados e as expectativas do público que se pretende atingir; quem são os seus compradores (os seus pontos fortes e fracos), as suas competências negociais e os seus concorrentes. No decurso deste trabalho confrontámo-nos com estes aspetos e sedimentaram diversas reflexões conducentes à identificação de propostas de análise de competências e perspetivas associadas ao mercado de arte. No mercado de arte, o tipo marketing, a metodologia e práticas tornou-se exigente e assumiu uma dimensão contundente devido à especificidade das obras de arte. Através deste trabalho constatámos que o marketing artístico possui vertentes de natureza criativa e comercial variáveis proporcionais ao envolvimento de artistas, entidades artísticas e intermediários comerciais, essenciais ao fluxo comercial das obras de arte.

Ao longo da revisão da literatura houve a preocupação em refletir as conexões entre o artista, o marketing e o mercado de arte sem descurar das naturais e pertinentes extrapolações que enformam esta discussão e, porventura, alimentaram alguns pontos de vista essenciais.

O presente trabalho demonstrou que a amplitude das atividades de marketing se estende, com um ímpeto similar a outros domínios de ação, ao contexto artístico que é habitualmente considerado pelas hostes mais poéticas como altruísta e destinado ao puro deleite estético. No entanto, verificou-se que é consensualmente aceite que as estratégias de marketing são um imperativo do mercado de arte. Nos resultados desta investigação indiciam que o marketing é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de qualquer artista ou organização.

Os resultados obtidos não poderão ser generalizáveis e circunscrevem-se à especificidade deste estudo devido à dimensão e natureza dos participantes envolvidos. Contudo, pensamos que poderão contribuir para uma análise mais apurada e abrangente com múltiplas configurações em torno do tema central deste trabalho em futuros estudos.

 

Referências Bibliográficas

[1] Kotler, P., & Amostrong, G. (2003). Princípios de Marketing (9ª ed.). São Paulo: Pearson Education.

[2] Polit, D. F., & Hungler, B. (1995). Fundamentos de pesquisa em enfermagem (3ª ed., Vol. Artes Médicas). Porto Alegre: Ed Porto Alegre.

[3] Fernandes, D. (1991). Notas sobre os paradigmas em educação. Noesis, 18, 64-66. Porto Salvo.

[4] Estrela, A. (1986). Teoria e prática de observação de classes. Uma estratégia de formação de professores. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica.

[5] Bogdan, R., & Biklen, S. (1994). Investigação qualitativa em educação. Uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora.

[6]Fortin, M. F. (2003). O processo de investigação da conceção à realidade. Loures: Lusociência.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Nogueira, I. ; (2018) Marketing no Mercado da Arte e o Processo Artístico de Criação: Um Estudo Caso. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt