Rewarding Disobedience: um modelo para a legitimação do discurso político e ético em prêmios de design.

Rewarding Disobedience: a model for the political and ethical discourse legitimization in design awards.

Oliveira, L. Polastri, R. Rezende, E.

UEMG - Universidade do Estado de Minas Gerais
UEMG - Universidade do Estado de Minas Gerais
UEMG - Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo se propõe a discutir os conceitos de política e polícia apresentados por Jacques Rancière e desenvolver critérios de análise de premiações em design utilizando esses conceitos como base. O objetivo é construir um modelo que possa ser aplicado a diferentes prêmios a fim de situá-los em uma escala política. Os prêmios são considerados mecanismos legitimantes do campo profissional, e por esse motivo se faz importante a realização dessa análise. Este artigo aplica os critérios desenvolvidos ao prêmio Rewarding Disobedience promovido pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) por se tratar de um prêmio que expõe em sua essência características do dissenso, fator primordial para a política.

PALAVRAS-CHAVE: Ética; Premiação; Design; Política

ABSTRACT: This article proposes to discuss the concepts of policy and police presented by Jacques Rancière and to develop criterias for the analysis of design awards using these concepts as basis. The objective is to present a model that can be applied to different prizes in order to place them on a political scale. Prizes are considered mechanisms of legitimization for a professional field, and for this reason it is important to carry out this analysis. This article applies to the Rewarding Disobedience Award, promoted by the Media Institute of the Massachusetts Institute of Technology, the criteria developed by the authors, as it's an award that exposes in its essence the characteristics of dissent, a key factor for politics.

KEYWORDS: Ethics; Awards; Design; Politics

1. Introdução

Vive-se hoje em um mundo complexo em que é necessária uma visão ética e política para a discussão das problemáticas da contemporaneidade. Há embates a respeito da sustentabilidade, do papel dos profissionais no desenvolvimento humano e da legitimação de tais projetos pela sociedade e suas instituições. O design, como parte desse universo, não deve se isentar de tais questões em seus projetos, sendo importante a discussão de seu papel e do contexto no qual o mesmo se insere frente às questões e problemas de nossa sociedade.

No entanto, mesmo ao reconhecer a importância do posicionamento dos profissionais de design em tais questões, é necessário o aceite por instituições legitimantes para que tal tipo de empreitada ganhe a devida relevância dentro dos meios profissionais e acadêmicos. É a partir do encorajamento de dadas soluções que encontra-se uma ferramenta para que projetos éticos e políticos ganhem maior destaque e impacto. É à luz dessa questão, que pode ser proposta a análise de prêmios como ferramentas para a legitimação de novas formas de se pensar e de se fazer design.

Assim sendo, o objetivo desse estudo é discutir a proposta de uma metodologia de avaliação de prêmios para o entendimento de seu caráter político dentro da prática profissional e acadêmica. Para tal, foram propostos critérios de análise com base nos textos de Rancière (2006) a respeito de polícia e política, aplicando seus questionamentos ao universo das premiações.

Esta análise é pertinente pois, a partir do melhor entendimento do posicionamento político de cada prêmio, será possível oferecer aos profissionais de design um melhor panorama sobre quais prêmios participar, dependendo do intento e direcionamento de seus projetos. Apesar de ter sido analisada somente uma premiação, a partir dos critérios e pontuações propostas será possível uma posterior análise de outros prêmios, possibilitando, assim, sua comparação e consequente melhor compreensão.

Por fim, no presente artigo, o prêmio "Rewarding Disobedience", promovido pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 2017, é analisado tendo por base os critérios aqui propostos. Sendo essa uma premiação de caráter essencialmente político, explicitamente encorajadora de iniciativas de desobediência ética responsável, entende-se que a melhor compreensão dos elementos que a compõem poderá servir para o estabelecimento de uma base de comparação e análise de outros prêmios a serem vistos posteriormente. É com essa premissa que o presente estudo toma forma.

 

2. Estado da Arte

2.1 O que é polícia e política

Para compreender o caráter político de premiações, se faz necessário primeiramente estabelecer o significado da palavra política. Este artigo se baseia em uma definição proposta por Jacques Rancière (2006) que contrapõe o termo política com polícia, criando uma relação de oposição entre eles que nos será útil para realizar uma análise tanto específica quanto generalizada dos prêmios.

Segundo Rancière (2006), o termo política é associado ao consenso das coletividades, em que os poderes são legitimados de forma a organizar e estabelecer as normas as quais o coletivo se submete. É na política que são definidas as funções e o lugar ao qual os cidadãos pertencem além de gerir os sistemas como um todo. O autor propõe subverter esse raciocínio, aplicando a este o nome de polícia. Faz parte do conceito de polícia a manutenção do sistema e da ordem atual, ou seja, é a polícia quem gera o consenso e a estabilidade.

Já o termo política se apresenta com outra conotação. Para que exista política é necessário o dissenso. É o dissenso que permite romper com o que está naturalizado na sociedade, é uma “perturbação no sensível, uma modificação singular do que é visível, dizível, contável” (Rancière, 2006, p. 372).

É importante esclarecer que o termo polícia é aqui desassociado de seu significado original, além de não ser utilizado de forma pejorativa e não busca estabelecer uma oposição entre bem e mal. Assim, faz-se, nesse contexto, referência ao posicionamento diante da manutenção do sistema existente. (Rancière, 2006)

O dissenso está também alinhado ao conceito de democracia quando prevê que há igualdade entre os falantes. Nesse sentido, é de interesse do que é político dar voz aos dominados e que estes participem da construção social e que, ainda, possibilite a reconstrução e a modificação das relações existentes (Bonsiepe, 2011; Marques, 2011; Rancière, 2006).

Nesse contexto, a linguagem é ferramenta para o rompimento dessa ordem estabelecida que permite transformar o não-dito em dito assim o como o não-visível em visível gerando espaços de resistência e conflito (Marques, 2011).

É importante incluir nesse cenário a visão de poder descrita por Manuel Castells enquanto “capacidade relacional que permite a um ator social influenciar assimetricamente as decisões de outro(s) ator(es) social(is) de forma que favoreçam a vontade, os interesses e os valores do ator que detêm o poder” (Castells, 2015, p.57). O discurso é importante ferramenta de poder quando este é capaz de influenciar as ações e o modo de pensar de dada cultura restando, portanto, a compreensão da intenção política ou policialesca do mesmo.

 

2.2 Porquê é importante (o design) ser política

O design, enquanto área de conhecimento que visa a construção de conceitos e a criação de soluções lógicas e criativas na contemporaneidade, é capaz de estabelecer um discurso ativo, formar opiniões e influenciar as relações entre as pessoas e a sociedade. Ainda, o design pode ser entendido como um campo especialmente propício à criação de novas soluções que desafiem padrões de pensamento correntes (Associação dos Designers Gráficos [ADG], 2003), ação que pode ser facilmente relacionada com a ideia de dissenso proposta por Rancière (2006). Com tal capacidade, é natural que venham discussões sobre o seu papel político e de seu relacionamento com o que é do campo da polícia, como proposto pelo autor.

Assim, percebe-se no próprio Código de Conduta do profissional de Design Gráfico no Brasil, publicado em site oficial e no livro "Valor do Design", artigos que visam o exercício da profissão de forma política. No documento, no Artigo 3º do Capítulo I, Artigo 9º e Artigo 5º do Capítulo II, é mencionado o dever do profissional em "aperfeiçoar a qualidade das mensagens visuais do ambiente brasileiro" (ADG, p.47, 2003), "Interessar-se pelo bem público (...) para melhor servir a sociedade" (ADG, p.47, 2003), "contribuir para a emancipação econômica e tecnológica do nosso país" (ADG, p.01, 2003), "(...) subordinando seu interesse particular ao da sociedade" (ADG, p.50, 2003) e "contribuir para uma utilização racional dos recursos materiais e humanos, visando o estabelecimento de melhores condições sociais ambientais" (ADG, p.50, 2003). Demonstrando, dessa forma, a relevância dada pela categoria a assuntos da ordem do público, do engajamento político.

O mesmo documento também endossa algumas práticas de polícia - ou seja, de manutenção do status quo - demonstrando o convívio das duas realidades no contexto do grupo profissional. Tal questão pode ser exemplificada pelos Artigos 7º, 12º e 13º, onde são explicitadas questões relativas ao respeito aos regulamentos votados pela classe, respeito às legislações vigentes, o aceite de participação unicamente em concursos aprovados pela entidade de classe e realização de publicidade somente de maneira a não ferir ou intervir no conceito da profissão ou de colegas. (ADG, 2003)

Assim sendo, é importante entender se as práticas políticas do design são legitimadas pelas outras instituições reconhecidas pela classe, atestando seu valor para a profissão. Um dos recursos para tal certificação pode ser encontrado nos prêmios, que recompensam projetos de destaque para tal comunidade e que são melhor entendidos no tópico a seguir.

 

2.3 Os prêmios como fatores legitimantes

Por decorrência da escassez de referências específicas sobre premiações em Design, foi tomado como referência um estudo realizado a respeito de prêmios de Jornalismo. Apesar de se tratarem de campos do conhecimento distintos, entende-se que os prêmios em ambos cumprem um papel similar como fator legitimante de práticas no campo de estudo e campo profissional.

As premiações funcionam como certificados que estabelecem os padrões e normas invisíveis de determinada profissão. Além de divulgarem os influenciadores de uma época, são os próprios prêmios os curadores do que merece ser mostrado e incentivado (Foucault, 2002; Pereira, 2005 apud Dias, 2014). Dessa forma, o prêmio realiza uma influência não somente sobre os designers mas em toda a cultura que é própria da profissão, o que Traquina (1993) chama de limite cognitivo, que é a própria visão de mundo dessa classe profissional.

Aplicado ao campo do jornalismo, Pereira (2005) afirma que os prêmios "são uma forma de dar um certificado de 'bom' ou 'mau' jornalista, pois atribuem uma espécie de selo e de qualificação ao profissional [...], contribuindo para a formação das 'grifes' de jornalistas" (Pereira, 2005, p.5 apud Dias, 2013, p.106). Essa comparação dos profissionais com “grifes” pode ser percebida com certa clareza no campo do design que envolve ainda a mistificação de certos profissionais e estimula um ego criador que ultrapassa a barreira das críticas. (Bezerra, 2011)

Portanto, um prêmio é um forte influenciador na cultura do campo profissional capaz de estimular criações semelhantes, definir critérios de qualidade, criar tendências e medir a eficácia profissional. É importante objeto de análise ainda pouco explorado nas pesquisas em design.

 

2.4 Um modelo: o prêmio MIT de desobediência ética

A questão do incentivo à atitude política dentro da academia e dos meios profissionais vão muito além do design. Questiona-se como é possível ter um modelo de premiação legitimante que leve em consideração e priorize as questões relacionadas à política. Iniciativas poderiam ser encontradas fora do meio e fora do Brasil, mas, dentre elas, uma se põe em destaque: o prêmio "Rewarding Disobedience", promovido pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que tem sua primeira edição em 2017.

Nele, os organizadores argumentam que é necessária a desobediência ao status quo para a abordagem de questões "sobre as quais ninguém quer ouvir, mas que precisam de ser ditas para que a sociedade avance" (Murabi, Alla. 2017. Tradução dos autores). Aqui, a desobediência útil tem como princípios questões de não-violência, criatividade, coragem e responsabilidade. O conceito também abraça um direcionamento ético, ressaltando a importância da geração de um impacto positivo para a sociedade, o não estímulo a práticas que coloquem pessoas em risco de saúde e, ao mesmo tempo, respeite os devidos métodos científicos relacionados. O prêmio é fruto da consciência da existência de uma frustração generalizada de criação de ações que desafiem normas vigentes de maneira responsável. Assim sendo, tem por objetivo o reconhecimento de pessoas que se responsabilizam por ações que as poderiam colocar em risco de perseguição, mas que buscam um bem maior para a sociedade (Souza, 2017).

O prêmio, de caráter global, não delimita qual o campo ou escopo de atuação dos projetos a serem premiados, podendo esses terem origem na ciência, política, questões cívicas, lei, jornalismo, medicina, direitos humanos, inovação, entre outros. A ideia é premiar uma pessoa ou grupo que esteja engajado em projetos que reflitam os princípios de desobediência acima delimitados. Financiada por Reid Hoffman, membro do "Media Lab's advisory council" e cofundador e executivo do LinkedIn, a premiação será realizada na forma da recompensa financeira de 250 mil dólares, que poderão ser utilizados de forma livre pelos ganhadores (Slotnick, 2017; Souza, 2017). Dessa maneira, apesar de não ser um prêmio voltado diretamente para projetos de design, sua relevância para o campo de atuação pode ser reconhecida, visto que tal área do conhecimento pode ser abarcada pelos princípios que regem o prêmio.

Foi no encontro do prêmio pelos autores que foram levantadas as questões a respeito do papel de prêmios na legitimação e encorajamento de ações políticas dentro do campo profissional e acadêmico. Assim, a decisão de análise do prêmio "Rewarding Disobedience" veio na busca de melhor decompor e entender os elementos que fazem desse prêmio algo político. Ainda, é nessa exploração que são buscados modelos sobre os quais basear a elaboração de uma ferramenta para a avaliação de outros prêmios sob os mesmos quesitos. Assim sendo, foi criada uma sequência de critérios sobre os quais o prêmio foi avaliado e que são descritos a seguir.

 

3. Metodologia

Esse artigo propõe realizar uma análise descritiva do prêmio "Rewarding Disobedience" realizado pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) baseado nos conceitos de política e polícia apresentados por Jacques Rancière. O objetivo é analisar tanto os critérios de seleção quanto às características gerais do prêmio e da instituição realizadora, a fim de situá-la em um eixo que estabelece uma localização entre os extremos polícia e política. É importante ressaltar que é também objetivo deste artigo propor categorias de análise aplicáveis a quaisquer premiações em design (ou que possibilitem a participação do design) para que possam ser realizadas pesquisas tanto pontuais, como é o caso do presente artigo, quanto comparativas.

A edição do "Rewarding Disobedience" a ser analisada nessa pesquisa data de 2017, e teve suas inscrições encerradas no dia 1º de maio desse mesmo ano. O ganhador foi anunciado em julho de 2017, após a conclusão da presente pesquisa.

Todas as informações relativas ao prêmio em questão foram retiradas da página oficial¹ em que foram publicadas as normativas e o funcionamento do prêmio. O objetivo deste artigo é a análise do prêmio e não de seus premiados. Isso porque não é possível obter acesso aos jurados e às pontuações realizadas por eles. O que está sendo julgado é, portanto, o caráter do prêmio em sua edição específica.

Primeiramente, foram definidos três graus de pontuação para cada critério analisado. O objetivo é estabelecer os extremos e ainda uma terceira via, moderada. Dessa forma, cada critério poderá ser pontuado de acordo três variáveis:

      Zero [0]: resultado mais próximo ao conceito de polícia;

      Um [1]: resultado moderado, ou que não deixa clara a posição do prêmio;

      Dois [2]: resultado mais próximo ao conceito de política.

Para realizar a análise polícia/política, foram definidos dez critérios divididos em dois momentos: primeiramente foram definidos critérios (c1 a c5) dentro de uma questão central do conceito apresentado por Rancière de dar visibilidade e voz aos invisíveis, aos que não têm voz; em um segundo momento, os critérios (c6 a c10) foram elaborados a partir da interpretação do conceito de dissenso em que a ruptura do status quo é o foco.

 

3.1 Critérios de análise política x polícia: visibilidade e voz aos invisíveis

Critério 1 [c1]: Custos de inscrição. Visando avaliar a possibilidade de acesso ao prêmio, são pontuados com 0 prêmios que possuam um custo de inscrição único para todas as modalidades de participantes. Pontuam 1 os prêmios que diferenciam o custo de acordo às características do participante, visando maior acessibilidade, como por exemplo, isenções, descontos e bolsas. Quando não houver custo de inscrição, o prêmio é pontuado com 2.

Critério 2 [c2]: Entidade com ou sem fins lucrativos. Nesse critério, é avaliada a entidade organizadora do prêmio e não o prêmio em si. Bonsiepe (2011) traz o conflito entre interesses privados e públicos, de forma que, “ um design controlado pelo marketing dificilmente poderá contribuir para produtos emancipadores: (Bonsiepe, 2011, p.28). Portando, entidades com fins lucrativos pontuam 0; enquanto entidades mistas, como por exemplo, negócios sociais ou educacionais com fins lucrativos pontuam 1; e entidades sem fins lucrativos pontuam 2.

Critério 3 [c3]: Eixo central vs. periferia. Para a pontuação deste critério, também foi avaliada a entidade organizadora, conforme IDH da localização geográfica do realizador. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, realiza um cálculo do IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, que leva em consideração renda, educação e saúde. (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento [PNUD], 2016) Tendo portanto como base os índices de pontuação desenvolvidos pelo PNUD, são pontuados com 0 prêmios localizados em áreas de IDH superior a 0,800 – considerado um índice muito alto; com 1 quando o IDH é alto, ou seja, está situado entre 0,700 e 0,799; e com 2 quando o IDH se encontra abaixo de 0,700, considerado médio ou baixo.

Critério 4 [c4]: Impacto social positivo. São pontuados com 0 prêmios que se apresentam indiferentes ao impacto social; com 1 quando o edital encoraja o impacto; e 2 quando o impacto social positivo é objetivo do prêmio.

 

3.2 Critérios de análise política x polícia: dissenso

Critério 5 [c5]: Desmarginalização. Para esse critério foi avaliado se o edital do prêmio é indiferente à questão da desmarginalização, sendo esta situação pontuada com 0. Quando o edital encoraja, mas não tem como objetivo essa questão, o prêmio é pontuado com 1. Quando são priorizadas as pessoas situadas à margem da sociedade, o prêmio é pontuado com 2.

Critério 6 [c6]: Inovação. A inovação é elemento importante para a quebra de paradigmas e portanto importante fator para incentivo ao dissenso. São pontuados com 0 prêmios que não mencionem a inovação em seus editais; com 1, prêmios em que são valorizadas inovações incrementais; e com 2, quando há o incentivo às inovações disruptivas, como conceituado pelo Manual de Oslo (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE], 2004).

Critério 7 [c7]: Sustentabilidade. A sustentabilidade é um tema que vem sendo discutido e reformulado, ampliando sua abrangência para questões sociais, econômicas e ambientais (Oliveira, Martins, Lima, 2010). Portanto, para a presente pesquisa, são avaliados com 0 prêmios indiferentes ao tema; com 1, prêmios que encorajam a aplicação da sustentabilidade; e com 2, quando o prêmio visa menor impacto.

Critério 8 [c8]: Liberdade criativa. Para o critério c8, avalia-se com 0 quando a premissa do prêmio é considerada fechada, ou seja, quando a liberdade criativa do participante é condicionada a fatores que impedem o dissenso. São pontuados com 1 quando existem premissas porém essas não atuam de forma limitadora. Finalmente, são pontuados com 2 quando o prêmio incentiva a liberdade criativa dos participantes.

Critério 9 [c9]: Análise estética para julgamento. Assim como a liberdade criativa, a análise estética é avaliada de acordo com sua forma de atuar sobre a manutenção dos sistemas e a sua ordem funcional. São pontuados com 0 prêmios que definem critérios estéticos em edital; com 1 quando o mesmo é indiferente; e com 2 quando o edital deixa evidente o incentivo à quebra dos padrões estéticos vigentes.

Critério 10 [c10]: Composição do júri. A composição da banca julgadora, apesar de seguirem os critérios de pontuação definidos em edital, apresentam o olhar subjetivo de quem julga. Portanto, a fim de proporcionar o conflito e a diversidade entre falantes, serão pontuados com 0 prêmios em que o júri é composto somente por profissionais de uma mesma área; com 1 quando o mesmo for composto por júri misto; e com 2 quando o júri misto for qualificado, ou seja, multidisciplinar e relevante com a proposta em questão além de detalhado em edital.

 

4. Resultados

A partir do método acima pontuado, procedeu-se a análise das informações disponibilizadas pelo Media Lab (MIT) a respeito do prêmio "Rewarding Disobedience". Assim sendo, os resultados obtidos podem ser descritos pela Tabela 1.:

Tabela 1 – Pontuação Awarding Disobedience - polícia x política. Fonte: os autores

 

A partir da análise da tabela e observação das condições e critérios propostos pelo prêmio em questão, detalha-se e justifica-se a seguir cada uma das pontuações colocadas:

Critério 1 [c1]: Custos de inscrição.

O site onde se encontram as informações a respeito do prêmio não informa nenhum tipo de cobrança pela inscrição na premiação. Assim sendo, o prêmio pontua como 2.

Critério 2 [c2]: Entidade com ou sem fins lucrativos.

O MIT se trata de uma entidade de educação privada, porém sem fins lucrativos (Massachusetts Institute of Technology [MIT], 2017). Assim, é pontuado com 2.

Critério 3 [c3]: Eixo central vs. periferia.

O MIT é localizado em Cambridge, Massachussets, nos Estados Unidos (MIT, 2017), país que possui IDH de 0,920, sendo o 10º na classificação mundial, configurando como de "IDH muito alto" (PNUD, 2016). Por tal razão, se entende que a entidade que promove o prêmio é localizada no eixo central, assim pontuando 0 neste quesito.

Critério 4 [c4]: Impacto social positivo.

Segundo o site oficial, o prêmio busca primariamente a geração de impacto social positivo nos projetos avaliados, sendo consistente com seus princípios de "não-violência", criatividade, coragem e responsabilidade dos agentes por suas ações (Souza, 2017). Assim sendo, pontua com 2.

Critério 5 [c5]: Desmarginalização.

A partir do momento em que o prêmio busca a premiação de pessoas em risco de perseguição devido às suas linhas de desenvolvimento e de inovação (Slotnick, 2017), entende-se que ele visa beneficiar a marginalização. Assim sendo, pontua com 2.

Critério 6 [c6]: Inovação.

Dentre os princípios centrais que são avaliados nos premiados está a "Impacto", "Criatividade"e "Coragem" (Souza, 2017), fatores essenciais para a promoção de inovações de sucesso. Tal premiação, ainda, busca considerável interdisciplinaridade, englobando pesquisas científicas, questões de direito civil, liberdade de expressão, direitos humanos e a liberdade de inovar (Slotnick, 2017). Assim, pontua com 2.

Critério 7 [c7]: Sustentabilidade.

Ao objetivar o impacto social positivo, a responsabilidade de um indivíduo pelas suas ações e a não-violência (Souza, 2017), pode-se inferir que o prêmio valoriza quesitos relativos à sustentabilidade, principalmente no que tange o pilar social. Assim, pontua com 2.

Critério 8 [c8]: Liberdade criativa.

O prêmio não restringe de nenhuma forma o campo de atuação e de inovação de seus participantes, compondo diferentes campos do conhecimento e de expressão. Não somente isso, como ele se comporta como incentivador de soluções e criações que poderiam sofrer repressão ou perseguição em outros lugares do mundo (SLOTNICK, 2017). Assim, pontua com 2.

Critério 9 [c9]: Análise estética para julgamento.

O prêmio é indiferente à estética dos projetos premiados, não mencionando a mesma entre seus critérios. Assim, pontua com 1.

Critério 10 [c10]: Composição do júri.

O júri de avaliação dos projetos é composto por diferentes profissionais qualificados, incluindo designers, ativistas, cientistas e engenheiros (Slotnick, 2017). Assim, por possuir júri diverso e qualificado, pontua com 2.

A partir da tabulação das pontuações colocadas para o prêmio "Rewarding Disobedience", chega-se à conclusão de que o mesmo se coloca como 80% política, estando mais afastado da polícia nesse espectro, conforme mostrado no Gráfico 1.

 

Gráfico 1 "Rewarding Disobedience" na escala polícia x política. Fonte: os autores

 

Esse valor é obtido a partir da média da pontuação em todos os critérios avaliados, divididos por 2 (valor máximo da pontuação), tendo como resultado um valor de 0 a 1 (ou 0% a 100%), sendo 0% correspondente a um prêmio mais próximo de polícia e 100% um prêmio mais próximo dos princípios da política.

 

5. Conclusões

A análise mais criteriosa do prêmio "Rewarding Disobedience", à luz dos critérios levantados, possibilita o entendimento mais adequado de seu real posicionamento no espectro polícia x política. Apesar de ter sido selecionado para análise pelos autores justamente por seu alto grau político, pode-se conferir que o prêmio não cumpre plenamente todos os quesitos de análise, pontuando baixo quando questionado nos critérios c3 (eixo central vs. periferia) e c9 (análise estética para julgamento), por exemplo. Assim sendo, seria ainda possível a busca de prêmios ainda mais políticos, caso os mesmos se adequem às questões levantadas por tais quesitos.

Um dos desafios encontrados no trabalho foi a adequada mensuração dos quesitos subjetivos postos na premiação e, ainda, a transformação de dados qualitativos em índices quantitativos. Assim, poderia ser interessante a posterior análise estatística dos quesitos e pontuações propostas para que se possa aumentar a precisão dos dados computados.

O levantamento de quais itens avaliar também foi um desafio, visto que os autores analisados, como Rancière (2006) e Bonsiepe (2011), não estratificam cada um dos fatores que fazem algo se tornar político. Foi necessária a interpretação por parte dos autores do presente artigo para a elaboração dos tópicos e avaliações abordadas.

Complementarmente, entende-se que a "relevância" e impacto de um dado prêmio também é um fator importante para o melhor entendimento de seu real peso e papel enquanto fator legitimante de projetos políticos. A partir dessa ideia, poderia-se propor uma análise em que ocorre o cruzamento das pontuações de "política x polícia" com aquelas de "relevância", resultando em uma matriz que permite uma melhor visualização do posicionamento de um prêmio dentro do contexto profissional e acadêmico. No presente artigo, no entanto, foi necessária a exclusão dos critérios relativos à análise da "relevância", pois os mesmos dependem de uma base comparativa com outros prêmios, fazendo sentido somente no caso da análise de mais de um prêmio dentro da presente metodologia. Assim, um outro estudo comparativo pode ser realizado para o melhor entendimento da "relevância" e não somente da "polícia x política" do prêmio em questão.

Finalmente, a análise do prêmio "Rewarding Disobedience" é relevante, pois o mesmo demonstra a possibilidade de desempenho de um papel político por prêmios enquanto fatores legitimantes. Como possibilidade de continuidade, o método descrito no presente artigo pode, ainda, ser aplicado e adaptado para a avaliação de outros prêmios nacionais e internacionais, de maneira a possibilitar um quadro comparativo entre cada um dos eventos estudados. Assim, seria possível uma melhor compreensão de como a política ou polícia é valorizada dentro do universo de premiações e, mais especificamente, dentro do universo do design.

 

Notas

[1] Para mais informações a respeito da edição de 2017 do prêmio "Rewarding Desobedience" acessar: https://www.media.mit.edu/posts/disobedience-award.

 

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