Processo de design no desenvolvimento de uma guitarra elétrica em cortiça

Design process in the development of an electric guitar in cork

Rodrigues, J. Aparo, E.

ESTG-IPVC - Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viana do Castelo
ESTG-IPVC - Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O presente artigo tem o objetivo de apresentar uma investigação que pressupõe o desafio de materializar uma guitarra elétrica em cortiça. A ideia é cruzar o Design e a Música, mas acima de tudo, implementar a cortiça num âmbito inesperado na procura de inovação. Desta forma a investigação está dividida por quatro partes fundamentais: Primeiramente, uma análise profunda do material de forma a perceber as suas características, estabelecer limites, excluir hipóteses, enaltecer pontos como a sustentabilidade e de que forma é que o material pode servir como ponte de significados entre o que pode representar um instrumento de cortiça para um músico português e para a música portuguesa. Na segunda fase, o foco é afirmar a relação Design vs Música demonstrando a simbiose entre o trabalho artesanal na construção de uma guitarra e o processo de design. A terceira fase é unicamente de cariz experimental onde se pretende descodificar o material de forma a potenciar soluções satisfatórias no que toca a propriedades mecânicas e acústicas do instrumento. Por último, a quarta parte refere-se à materialização em si e registo de um teste profissional do produto. Com esta investigação pretende-se demonstrar o resultado do casamento entre as disciplinas Design e Música e valorizar as potencialidades da cortiça.

PALAVRAS-CHAVE: Design vs Música; Cortiça; Guitarra elétrica; Materiais; Portugal; Música portuguesa

 

ABSTRACT: This article has the objective of presenting a research that assumes the challenge of materializing an electric guitar with a cork body. The idea is to cross Design and Music, but above all, to implement cork in an unexpected scope in the search for innovation. In this way, the research will be divided into four fundamental parts: First, a deep analysis of the material in order to understand its characteristics, establish limits, exclude hypotheses, highlight points such as sustainability and how the material can serve as a bridge of meanings between what represents an instrument made of cork for the Portuguese musician and for Portuguese music. In the second phase, the focus will be to affirm the relation design vs music demonstrating the symbiosis between the artisan work in the construction of a guitar and design processes. The third phase will be experimental only in order to decode the material with the objective of promoting satisfactory solutions with regard to the mechanical and acoustic properties of the instrument. Finally, the fourth part refers to the materialization itself and registration of a professional test of the guitar. This essay intends to demonstrate the result of the marriage between the disciplines Design and Music and to value the potentialities of cork.

KEYWORDS: Design vs Music; Cork; Electric guitar; Materials; Portugal; Portuguese music.

1. Introdução

O objetivo do artigo é apresentar as bases de uma investigação em curso que surge do desafio de materializar uma guitarra elétrica em cortiça expandida. Desafio que pressupõe a exploração profunda do material e dos processos de produção de uma guitarra elétrica convencional com o intuito de criar espaço e condições para o exercício do design na busca de inovação e valorização da cortiça. Desta forma, o papel do design funciona como meio articulador de várias áreas como a engenharia de materiais e o trabalho do luthier com vista a acrescentar um valor semântico que enalteça a relação do instrumento com o músico, ou seja, o design como veiculador de cultura. 

 

2. Problema

A investigação integra-se na temática do Design e Música. Uma área que cruza duas disciplinas complexas que suscitam um bom desafio no que toca ao processo de desenvolvimento e contexto produtivo. Posto isto, o objeto de estudo é a apropriação da cortiça para a criação de uma guitarra elétrica.

Porque a música? “Desde a década de 60 que a relação entre a música e o design se fortalece com o tempo. Andy Warhol, um dos maiores ícones da PopArt, insere-se no meio musical como mentor da banda Velvet Underground sendo autor da capa do primeiro álbum. Em 1980 o caso de Farokh Bulsara também confirma esta ligação. Mais conhecido como Freedie Mercury, vocalista da banda Queen, para além de ser músico, tinha uma licenciatura em design tendo sido o próprio a desenvolver o logo da banda.” [[1]] A linha cronológica conta-nos que a música, desde os anos 60, se serve do design gráfico como forma de criar uma imagem do som para que se pudesse exprimir no silêncio, porém, raros são os casos onde o design do produto se interliga com a música. A arte de construir instrumentos sempre foi mais próxima do artesanato do que do design. As principais marcas de guitarras elétricas desenvolveram os seus modelos entre as décadas de 50 e 70 acabando por estagnar a criação de novos modelos a partir dessas datas. O design começa a surgir na construção de instrumentos no século XXI e um dos estudos caso da fusão do design e a música mais irreverentes é a guitarra Paraffina Slapster (2006) da marca italiana Noah. [2] A guitarra distingue-se pela adaptação da forma da guitarra à performance artística em palco. O arquiteto-designer e cantautor, Lorenzo Palmeri serve-se dos seus conhecimentos musicais e aplica um desenho no corpo da guitarra que favorece ergonomicamente o músico. Outro exemplo de design do produto aplicado à música é um violino em fibra de carbono concebido pela incubadora instalada há oito anos no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC). “Trata-se de um produto desenvolvido em parceria com a marca de guitarras AVA. As suas principais características são o peso, que é 10% menos que um violino normal, e a capacidade para manter elevados níveis de afinação durante prolongados períodos de tempo.” [3]

Hoje em dia a aprendizagem da música tornou-se algo fácil e ao alcança de quase todos. Com a ascensão da internet, o ensino autodidata contribuiu para um fenómeno de banalização da aprendizagem da música. As plataformas digitais acabam por massificar o ensino da música que por vezes pode ser menos bom para o convencional ensino profissional. Em Portugal, o ensino da música é incentivado desde cedo aos mais novos e “é absolutamente crucial para a formação de uma pessoa como um todo.” [4] Consequentemente, neste cenário, há um maior investimento no mercado de instrumentos musicais e um aumento de lojas online para corresponder à procura. Em 2014 registou-se que “foi no comércio para fora da EU, que o crescimento mais se evidenciou, ao subir 35,9%. Dentro deste sector foram as categorias dos produtos de relojoaria e dos instrumentos musicais que mais se destacaram, com incrementos homólogos de quase 43%.” [5]

Porquê a cortiça? Para além de todas as suas características que lhe conferem potencialidades infindas, a cortiça apresenta uma versatilidade que, ao design e/ou ao designer, suscita o desafio de ir mais longe e testar a cortiça em âmbitos improváveis. O principal objetivo da fusão da cortiça com a música é provar que, apesar de ser um material que anula a acústica é possível superar e acrescentar dessa forma valor à cortiça e ao instrumento. O portfólio de produtos em cortiça para área musical não é muito extenso existindo apenas componentes para instrumentos de sopro, no entanto, a empresa portuguesa CatDrums apresenta um revestimento em cortiça num dos seus produtos como forma de criar sonoridades mais “quentes” [6] e contidas.

A aposta em inovação por parte da indústria corticeira é também um forte indício para que os designers arrisquem com este material. Na corticeira Amorim existem dois projetos de apoio a novas ideias no setor da cortiça. São eles a Amorim Cork Ventures (ACV) e a Investigação & Desenvolvimento e Inovação (I&D+I) “que atualmente envolve um investimento financeiro de 7.5 milhões de euros/ano na descoberta de novas e inesperadas aplicações para a cortiça e a criação de um portfólio sem paralelo no setor.” [7]

À semelhança dos exemplos mencionados considera-se que uma guitarra em cortiça pode ser uma investigação muito completa na medida em que se aplicam conhecimentos de uma arte pouco divulgada em Portugal, que é a construção artesanal de guitarras, aliados a metodologias de design. 

 

Fig 1 – Paraffina Slapster (esquerda) | AVA Royale (direita).

Fonte: https://noahguitars.com/en/  |  http://www.ideiam.com/?work=ava-strings&lang=pt-pt

 

2.1. Fundamentação do tema

Esta investigação tem como alicerces quatro pontos-chave de onde parte todo o processo: São eles a Cortiça, a Música, o Design e o Artesanato. O objetivo é que no final o protótipo se sirva de todos os pontos e seja um símbolo de cultura e arte funcional no seu estado mais completo. A construção de uma guitarra elétrica surge pela apropriação de um material como meio de inovação - “Existem aproximadamente 100 mil materiais, essa gama permite que o design seja inovador a partir da exploração imaginativa dos novos e aprimorados materiais.” (ASHBY; JONHSON, cit in ALMEIDA; APARO; SILVA, 2016).

A ideia inicial partiu da desconstrução de uma atualidade onde a cortiça é utilizada de forma massificada em produtos de vários âmbitos e como consequência o objetivo primário, que era atribuir valor com a utilização de um material com uma grande conotação cultural, perdeu-se devido a uma industrialização na criação de novos produtos em cortiça. Isto levou a que os designers e a própria Amorim tivessem um papel mais imperativo no momento de criar diferenciação nos produtos. Acima de tudo, o papel do design não era travar o aumento de produtos mas sim sobrepor-se à massificação. Chiaponni afirma que “muitas vezes uma forte inovação num sector pode ser determinada pela transferência de ideias e soluções provenientes de um outro campo em que as mesmas ideias e soluções não são mais inovadoras, mas que já estão plenamente adquiridas há muito tempo.” (CHIAPONNI, cit in ALMEIDA; APARO; SILVA, 2016). É neste sentido que surge o desafio de cruzar o âmbito da música com a cortiça na procura de um meio catalisador de significados que se possam associar ao utilizador pelo conceito mas também pelos seus aspetos formais como a ergonomia e o som. A utilização de um material que já tenha uma relação muito forte com um país ou cidade vai evidenciar o genius loci como o principal significante - “conhecer e valorizar o próprio Genius Loci permite-lhes ser mais atrativos, mais credíveis, mais distintos, chegando a propor uma alternativa eficaz às segmentações clássicas de mercado (...) “ Hoje os valores locais podem ser o ponto de força de uma estratégia para afirmar produtos e/ou projetos culturalmente conotados (...) ” (APARO; SOARES, 2012). Portanto, se a este ponto de força somarmos a Cultura do Fazer defendida por Ugo La Pietra o produto torna-se em algo que vai completamente contra a massificação e a exclusividade atribui valor não de um ponto de vista superficial, ou seja, monetário, mas sim valor pelo processo e pela relação que a soma final irá proporcionar ao músico com o instrumento.

Em suma a guitarra deverá ser uma extensão da criatividade do artista mas ainda mais do que isso uma extensão de todo o plano geral do artista português da música portuguesa.

A música hoje em dia tornou-se algo bastante “descartável”. A aprendizagem musical mudou consideravelmente com o aparecimento de plataformas virtuais que promovem e facilitam o ensino autodidata. Este facto veio fazer com que a indústria de instrumentos musicais aumentasse e consequentemente as marcas tiveram de assumir um papel mais competitivo no mercado. Esta postura fez com que a indústria de instrumentos produzisse mais e em menos qualidade com o intuito de baixar preços. Toda esta industrialização fez com que o nicho de mercado das guitarras feitas à mão ficasse mais débil porém mais apetecível pelo desejo dos músicos se tornarem diferentes um dos outros e assumirem personalidade própria através dos instrumentos. As marcas onde o design está mais presente tem claramente um afastamento maior da produção em serie e procuram mais qualidade sonora, ergonómica e funcional. Qualidade que está associada ao simples facto de haver mão humana nas linhas de produção. Como afirma Catalani “É o intercâmbio entre criativos e artesãos que permite a criação de um produto de sucesso.” (CATALANI cit in APARO; SOARES, 2012).

O design dos instrumentos não se alterou significativamente ao longo dos anos. Uma guitarra clássica mantém hoje a mesma forma e processos de construção que tinha há dois séculos. Salvo raros exemplos, a construção de instrumentos não sofreu grandes evoluções. O design teve um papel de aperfeiçoamento na ergonomia, otimização de construção, qualidade de acabamento geral porém raros são so casos onde há mudança na forma ou nos materiais. Isto porque as madeiras e os metais revelaram-se ser a melhor opção, contudo, não se exclui a hipótese de existir espaço para inovação. Como afirma De Fusco, "para serem projetados, produzidos e utilizados, os materiais inovadores requerem a aplicação de grandes conhecimentos nas áreas da física dos sólidos, da química e da físico-química. O processo de produção tem um papel determinante nas propriedades finais de um material." (DE FUSCO, 2005)

Os instrumentos musicais sempre foram feitos tendo em conta, por ordem de importância, o som, a estética, a durabilidade e o conforto. A estética e o conforto foram aspetos que foram melhorados posteriormente com o tempo como comprovam o caso das marcas Emerald Guitar Company e Greenfield Guitars que tem uma preocupação com o conforto paralelamente à preocupação primária com o som. A madeira continua a ser o principal material contudo começa a existir uma grande adesão à diversificação de materiais e formas dos instrumentos como é o caso das fibras de carbono, metais e acrílico.

No que toca a valorização do material na construção de guitarras elétricas, verifica-se que existem marcas que se distinguem no mercado pela procura de exclusividade através da recolha de madeira com padrões para que o instrumento seja único e nunca repetível. Este processo é visto na marca Conklin Guitars e na divisão Custom Shop da marca americana Fender onde os materiais e padrões podem ser conjugados num produto customizado. A necessidade de individualização de cada músico leva a que a Fender produza propositadamente marcas de uso nas guitarras antes da sua venda para que estas se tornem objetos únicos.

 

Fig 2 – Fender Stratocaster Custom Shop Relic (esquerda) | Pormenor ergonómico - Greenfield Guitars (centro) | Emerald Costum X20-12 em carbono e madeira (direita).

Fonte: https://www.sweetwater.com/insync/fender-relic-guitars-how-to-pick-the-perfect-one-for-you/  |  http://www.greenfieldguitars.com/artist/max-roest/  |  http://emeraldguitars.com/portfolio/x20-12-woody-quilted-maple-vintage-amber/?v=35357b9c8fe4

 

3. Metodologia

A metodologia adotada para a investigação está dividida em duas partes: a primeira de cariz mais teórico e outra, a que terá mais peso e influência, de cariz prático onde há um acompanhamento pontual do processo experimental e de materialização do produto final. 

 

3.1. Primeira Parte: investigação teórica

Na primeira parte está a ser abordado um plano de sustentação teórica da investigação de modo a fortalecer todo o processo que se avizinha.

Visto que a investigação partiu da escolha de um material, é pertinente que se faça uma sustentação teórica do que pode representar o uso da cortiça na construção de um instrumento musical.

"Vivemos num mundo de materiais. São os materiais que dão substância a tudo que vemos e tocamos. Nossa espécie – Homo sapiens – é diferente das outras, talvez mais significativamente pela habilidade de projetar – produzir “coisas” a partir de materiais – e pela capacidade de enxergar mais num objeto do que apenas a sua aparência." (ALMEIDA, C. APARO, E. SILVA, V., 2016)

Sendo Portugal o maior produtor de cortiça do mundo há uma conotação imediata que é feita do material e do país, logo, quando aplicada cortiça num produto este fica demarcado com um cunho nacional muito forte. Existe, portanto, uma relação com o local que fortalece certos aspetos no produto, ou seja, citando Bucci, “ (…) concentrar-se a pensar em qualquer coisa de absolutamente ‘local’, ou seja, não imitável, não reproduzível. Qualquer coisa ligada à única coisa que não se pode remover: o local, a sua história, a sua paisagem exterior e inferior, físico e cultural (...).” (BUCCI cit in APARO; SOARES, 2012). Para além disso a cortiça ao ser aplicada num instrumento musical pode enaltecer a importância do material e as suas potencialidades. Este fenómeno a que Manzini chama de transfert é um veio importante para “definir soluções capazes de estimular o desenvolvimento local.” (MANZINI cit in. APARO; SOARES, 2012).

Analisando a relação que o design tem com a música, a história diz-nos que os processos aplicados na construção de instrumentos não se baseiam tanto em metodologias de design mas sim em processos fundamentados na experiência. Nesta investigação, o design, de uma perspetiva conceptual, oferece uma narrativa que unifica a cortiça portuguesa com a música portuguesa. Citando Miguel Cotta “ (…) qualquer produto musical (…) tem um lugar histórico e culturalmente determinado e poderá ser melhor compreendido (...) quando abordado sob pontos de vista histórica e cultural” (COTTA, cit in ALMEIDA; APARO; SILVA, 2016). No design, a narrativa está presente na criação da cultura material, da mesma forma que na música. Cada produto foi concebido com base em factos, pensamentos, simbologias, culturas ou lugares. Esta relação conceptual casa com uma semântica que pode relacionar a cortiça, a cultura local e a música. “Exemplo disso é a associação da guitarra portuguesa ao Fado – instrumento musical carregado de simbolismo, conotado como o modo de ser português - o seu timbre inconfundível acaba por ser associado às palavras destino e saudade." (COTTA, cit in ALMEIDA; APARO; SILVA, 2016). Em suma, esta parte de investigação teórica pretende enaltecer a possibilidade de criar uma relação de significado muito forte entre uma guitarra elétrica em cortiça portuguesa construída a pensar numa artista português ou na música portuguesa.

 

3.2. Segunda Parte: investigação prática

Nesta segunda parte serão abordados dois aspetos que correspondem à fase de materialização do protótipo final. São eles a exploração da cortiça com afinco de modo a criar condições e especificações favoráveis ao desafio e o cruzamento de metodologias produtivas – o design e o artesanato. Basicamente a investigação prática divide-se entre os testes no material e construção do protótipo final.

Primeiramente serão analisados algumas tipologias de guitarras e formas de construção para que se estabeleçam premissas e objetivos a concretizar com a cortiça. Na prática o material depois da sua transformação terá que cumprir com características mecânicas e sonoras aproximadas das que estão presentes nos materiais com que se constroem guitarras elétricas atualmente. O conhecimento do material é uma das características que permite um processo projetual adequado assim como a realização de testes na criação de “hipóteses satisfatórias” (CROSS, 1982) é igualmente importante para o processo.

 

Fig 3 – Provete de cortiça expandida (esquerda) | Provete com uma camada de resina epoxy (centro) | Provete com duas camadas de epoxy e superfície preparada para receber a terceira e última camada (direita).

Na fase metodológica há uma intenção de criar uma rede de contactos com empresas de modo a promover projetos desafiadores para a indústria e como forma de obter um resultado que seja fruto da cultura operária de cada região. Com estes contactos pretende-se fazer a ponte entre a tecnologia das empresas e o artesanato dos luthiers, no entanto sem perder nunca o contacto direito com a materialização do projeto. Segundo Dorfles, o designer, “para ser evitar ser etiquetado como artesão, perde gradualmente o contacto com a matéria e deixa a execução a outros” (DORFLES cit in APARO; SOARES, 2012). Quer isto dizer que “os designers (...) terão de tomar a atitude dos artesãos (...) compreendendo o seu método de trabalho e o seu potencial para realizar o projeto (...).” (LA PIETRA, U. cit in MOROZZI, 1997)

Em termos práticos o produto fruto desta coligação resulta na charneira entre a arte e a técnica onde o método de design e conhecimento teórico apoiam o conhecimento empírico e prático na busca de knowhow sobre a arte de construir guitarras à mão.

 

Fig 4 - Provete com quatro camadas de epoxy (esquerda) | Bloco antes de ir à cnc para ser feito o recorte do corpo da guitarra (direita).

 

4. Resultados Esperados

Visto que se trata de uma investigação a decorrer, este ponto evidência alguns dos objetivos como forma de perspetivar o futuro resultado da investigação.

Os primeiros objetivos determinam-se pelo principal material e nesse sentido esta investigação pretende:

Projetar a cortiça expandida num âmbito completamente fora do seu uso convencional com o intuito de fortalecer o seu potencial e a sua imagem;

Obter novas soluções com a cortiça expandida que possam servir e conotar com os mesmos significados produtos de outros âmbitos;

Conseguir tirar partido de características naturais da cortiça com o intuito de melhorar a performance e a qualidade do instrumento.

Desenvolver uma guitarra elétrica completamente funcional onde a cortiça se apresenta como ponto central e se assuma como driver de valores culturais locais.

 

Do ponto de vista do exercício de design estabelecem-se os seguintes objetivos:

Demonstrar que o design tem um papel fundamental na investigação dos materiais na procura de significados que se relacionem com o contexto dos produtos;

Criar uma rede semântica relacionando o instrumento português fruto da investigação, o músico português e a música portuguesa;

Potenciar o desafio e reflexão sobre a forma de ver e fazer design projetando novos produtos e/ou instrumentos musicais que estão estagnados por materiais pré estabelecidos desde a sua invenção;

Valorizar a troca de experiências entre empresas e entidades de áreas distintas de forma a desenvolver soluções e redes de trabalho que podem ser continuadas para futuros projetos.

 

 

Notas

[1] «A arte e a relação entre a música e design» - Artigo do site “O conhecimento”, publicado a 16 de maio de 2012. https://www.oconhecimento.com.br/a-arte-e-a-relacao-entre-musica-e-design/  Acedido de 28 a 29 de maio.

[2] Portfólio acedido através do site pessoal: http://lorenzopalmeristudio.it/paraffina-slapster-noah. Acedido de 28 a 29 de maio.

[3] Notícia do Público por Margarida Gomes em 29 de novembro de 2016. https://www.publico.pt/2016/11/29/politica/noticia/-reis-de-espanha-recebem-violino-em-carbono-concebido-na-universidade-do-porto-1753029  Acedido de 28 a 29 de maio.

[4] Paula Pires de Matos (Pediatra do desenvolvimento e com formação académica na área musical) em «Os efeitos da Música na infância», artigo do site educare.pt. Texto e entrevista de Sara R. Oliveira publicado a 27 de setembro de 2010. http://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=14159&  Acedido de 28 a 29 de maio.

[5] Notícia do Público por Raquel Almeida Correia, Ana Rute Silva e Rosa Soares em 18 de fevereiro de 2014.

https://www.publico.pt/2014/02/18/economia/noticia/maiores-subidas-nas-exportacoes-feitas-a-custa-dos-mercados-alternativos-1624099 Acedido de 28 a 29 de maio.

[6] Reportagem CatDrums - Jornal da Noite SIC. https://www.youtube.com/watch?v=PBZsO-nteRM Acedido de 28 a 29 de maio.

[7] Site da corticeira Amorim http://www.amorim.com/lideranca-global/i&d-inovacao/ Acedido de 28 a 29 de maio.

 

Referências Bibliográficas

ASHBY; JONHSON, 2010 cit in ALMEIDA, C. ; APARO, E. ; SILVA, V.  in I CONGRESSO INTERNACIONAL • VII WORKSHOP | SÃO PAULO • 16 A 19 DE MAIO DE 2016 | UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. Artigo: «O Design aliado aos valores culturais na construção de um instrumento para iniciação musical» in http://ppgdesign.anhembi.br/eventos/wp-content/uploads/anais-DM16_08.pdf link acedido de 20 a 22 de junho de 2017.

CHIAPONNI (1999) cit in ALMEIDA, C. ; APARO, E. ; SILVA, V.  in I CONGRESSO INTERNACIONAL • VII WORKSHOP | SÃO PAULO • 16 A 19 DE MAIO DE 2016 | UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. Artigo: «O Design aliado aos valores culturais na construção de um instrumento para iniciação musical» in http://ppgdesign.anhembi.br/eventos/wp-content/uploads/anais-DM16_08.pdf link acedido de 20 a 22 de junho de 2017.

APARO, E. ; SOARES, L. (2012), “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.44

CATALANI cit in APARO, SOARES, (2012) “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.12

DE FUSCO, RENATO 2005 in “História do design” p.178

ALMEIDA, C. APARO, E. SILVA, V. in I CONGRESSO INTERNACIONAL • VII WORKSHOP | SÃO PAULO • 16 A 19 DE MAIO DE 2016 | UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. Artigo: «O Design aliado aos valores culturais na construção de um instrumento para iniciação musical» in http://ppgdesign.anhembi.br/eventos/wp-content/uploads/anais-DM16_08.pdf link acedido de 20 a 22 de junho de 2017.

BUCCI cit in APARO, E. SOARES, L. (2012), “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.48  

MANZINI, E. (2005) cit in. APARO, E. SOARES, L. (2012), “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.92

COTTA, Miguel cit in ALMEIDA, C. ; APARO, E. SILVA, V. in I CONGRESSO INTERNACIONAL • VII WORKSHOP | SÃO PAULO • 16 A 19 DE MAIO DE 2016 | UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI. Artigo: «O Design aliado aos valores culturais na construção de um instrumento para iniciação musical»

http://ppgdesign.anhembi.br/eventos/wp-content/uploads/anais-DM16_08.pdf link acedido de 20 a 22 de junho de 2017.

APARO, E. SOARES, L. (2012), “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.73

Tradução livre do autor: CROSS, N. (1982), Designerly ways of knowing, in Design Studies

DORFLES cit in APARO, E. SOARES, L. (2012), “Seis Projetos à procura de autor”, 1ªedição, Alínea Editrice; p.73

Tradução livre do autor: LA PIETRA, U. cit in Morozzi, 1997, p.19

Reference According to APA Style, 5th edition:
Rodrigues, J. Aparo, E. ; (2018) Processo de design no desenvolvimento de uma guitarra elétrica em cortiça. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt