Inovação Socioambiental no Design: Caso de Estudo do Designer Domingos Tótora

Socio-environmental Design and Innovation: a Domingos Tótora Case Study

Teixeira, G. Paoliello, C.

FBA-ULisboa - Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
FBA-ULisboa - Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O estudo em questão tem como objetivo demonstrar as vantagens para a atividade do design em utilizar a inovação socioambiental como um diferencial para o mercado. Para representar a fundamentação teórica, selecionou-se como caso de estudo o designer Domingos Tótora - profissional brasileiro cujas criações tem como foco a redução do consumo de matérias-primas, a valorização da mão de obra local e a inspiração na natureza brasileira. A metodologia usada para o desenvolvimento da investigação envolveu uma pesquisa exploratória - para coleta de informações relativas ao caso de estudo - e o uso do método histórico - tendo em vista compreender o estado da arte da temática abordada. A sua realização possibilitou perceber o importante papel que o designer desempenha ao estimular a minimização dos impactos ambientais dos bens de consumo e a valorizar a comunidade na qual ele está inserido como um diferencial para o mercado e o consumidor.

PALAVRAS-CHAVE: Design de produto, Inovação socioambiental, Domingos Tótora.

ABSTRACT: This study purpose is to show the design advantage when the social and environmental innovation is used as a market differential. We present the theoretical basis and the study case of Domingos Tótora. He is a Brazilian designer. His creations focus on the reduction of material consumption and his inspiration is the Brazilian nature. He valorizes the local workforce. The research method was an exploratory research. We collected information related to the case study. We also used a historical method to understand the state of the art. We were able to perceive the important role that this designer plays. He stimulates the minimization of the environmental impact of consumer goods. He also gives value to the community in which he lives, as a differential to the market and the consumer.

 

KEYWORDS: Product design, Socio-environmental Innovation, Domingos Tótora.

1. Introdução

Conceber um produto de design é uma atividade complexa, cujo resultado demanda um projeto que envolve diversos aspectos de concepção. Além do fato de um objeto ou serviço ofertado ter como objetivo responder às necessidades do usuário, essa atividade de projetar tornou-se mais ampla. Ela compreende um arcabouço de elementos, como: consumidores bem informados e exigentes, fatores diversos de decisões para o designer, competitividade do mercado, além dos problemas de ordem ambiental e social (De Moraes, 2010). Esses aspectos demonstram a importância da consciência do designer sobre o papel que lhe é designado - a responsabilidade de realizar a conexão entre pessoas e objetos e de criar de modo eficaz e inteligente (Bhamran, 2007). Os projetos na atualidade carecem de um melhor e maior comprometimento, pois muitas vezes focam apenas nos critérios econômicos, contudo, necessitam das vertentes ambientais, tecnológicas, sociais e culturais – com uma essência humanista (Bonsiepe, 2011).
Considerar o ciclo de vida de um produto ou serviço e compreender os impactos que os mesmos geram ao longo da cadeia é um ponto primordial para que o designer tenha um olhar crítico sobre os projetos que desenvolve. Ao longo da vida acadêmica, se aprende sobre os diversos aspectos a serem considerados para a atividade de conceber um projeto e esse desafio deve ser encarado na prática diária do ofício. Existem exemplos importantes de marcas e projetistas que estão cientes dessas demandas e que concebem produtos ou serviços com uma resolução eficaz. 
Diante do cenário pontuado, é importante compreender como o designer pode promover a inovação com foco nas questões ambientais e sociais quando da concepção de projetos. Assim, selecionou-se como caso de estudo os projetos do designer brasileiro Domingos Tótora, que concebe os seus produtos dentro das vertentes acima pontuadas. É válido ressaltar que, para realização da pesquisa, a metodologia envolveu a definição do problema a ser estudado, a pesquisa do estado da arte, a explanação dos resultados encontrados e sua devida análise – como exemplificado nos tópicos seguintes.

 

2. Problema

Apesar do arcabouço de conhecimento gerado durante o ciclo acadêmico, nos cursos de design, e da experiência da prática de mercado, pontuam-se como problemas nessa pesquisa: (I) o fato de que poucos designers e marcas se apercebem profundamente das novas e diversas necessidades e demandas de mercado, no contexto complexo da atualidade; e (II) os impactos negativos gerados pelas atividade de produção e consumo convencionais, aliados às dificuldades de serem implantadas mudanças eficazes nesse sistema.
Diante do exposto, considera-se como questão de investigação do estudo, o seguinte: como o designer, na atualidade, pode contribuir para a inovação socioambiental dos produtos que concebe? A hipótese formulada é de que existem vantagens competitivas e um potencial diferencial mercadológico ao serem propostas inovações socioambientais em projetos para bens materiais e/ou serviços, no âmbito do design – como é o caso de estudo do designer Domingos Tótora, que desenvolve seus produtos tendo como critérios os aspectos ambientais, sociais e culturais. E essa postura projetual permite que suas criações promovam uma inovação para o consumidor. 
Acredita-se que o designer deve encontrar caminhos diversos para contribuir com o desenvolvimento sustentável, pelo uso de diretrizes que permitam gerir e repensar os processos criativos e produtivos com o objetivo de minimizar os impactos gerados (Teixeira, 2012). Nesse estudo foram analisadas as diretrizes propostas por Manzini e Vezzoli (2008); De Moraes (2010); Hawken, Lovins e Lovins (2007); e Bonsiepe (2012) com a intenção de compreender como esses princípios podem ser relacionados com os critérios de criação e produção no caso de estudo selecionado. Foi também apresentada uma análise das ações desenvolvidas na comunidade na qual o designer está inserido.

 

3. Metodologia e Fundamentação Teórica

Como base metodológica para o desenvolvimento do artigo, foi realizada uma pesquisa exploratória que visou agrupar informações relativas aos critérios de criação do designer Domingos Tótora, selecionado como caso de estudo. Também foi utilizado o método histórico para o levantamento e compreensão de textos relativos às temáticas: inovação para o design, sustentabilidade social e ambiental, cenários complexos para o design. Esses critérios metodológicos visam embasar e buscar responder ao problema de pesquisa e à hipótese formulados no tópico anterior.
Relativamente à pesquisa do estado da arte, foram selecionadas diversas teorias e seus respectivos autores. De início, vale introduzir o pensamento de Manzini e Vezzoli (2008) que propõem que o desenvolvimento sustentável seja alcançado com uma mudança no comportamento e estilo de vida da sociedade. Estes dois autores defendem a existência de dimensões para que a sociedade se torne sustentável, a saber: (a) Dimensão Física – que envolve a questão da redução do uso de matéria e energia; (b) Dimensão Econômica e Industrial – que diz respeito às novas relações entre os projetistas e produtores; e (c) Dimensão Ética, Estética e Cultural – que apresenta critérios de valor e juízos de qualidade para concepção de projetos e/ou serviços.
Ciente dessas dimensões, é preciso repensar o modelo de conexão entre o bem-estar social, os produtos disponíveis e o consumo de recursos. Chega-se, assim, ao papel do designer que é aliar o tecnicamente possível ao ecologicamente necessário e criar novas propostas que sejam social e culturalmente apreciáveis.
Ainda segundo Manzini e Vezzoli (2008), essas novas propostas podem ser alcançadas e aplicadas em quatro níveis - à curto, médio e longo prazo - como: uma fase inicial que promove a redução do consumo de energia e matéria-prima, e que busca reciclar e reutilizar os resíduos gerados; um segundo momento no qual os projetos devem apresentar as características do produto para que sejam ecologicamente mais favoráveis; uma terceira fase em que os juízos de valor para a concepção e uso de produtos e serviços tornam-se mais facilmente aceitos pela sociedade; e, a longo prazo, ou quarta fase, com a elaboração de novos critérios de qualidade para o consumo de produtos/serviços que sejam sustentáveis para o meio ambiente, socialmente aceitáveis e culturalmente atrativos. 
Assim, apresentam também cenários/estratégias para projetos sustentáveis, que compreendem respectivamente: Estratégia da Eficiência – com produtos recicláveis e que promovam a inovação técnica com um sistema de produção fechado em si, reutilizando e reciclando os materiais, sem influência do ambiente (tecnociclos); Estratégia da Suficiência – produtos biológicos que produzem radicalmente menos, promovem inovação cultural ao focar em recursos renováveis, respeitam os sistemas naturais e geram lixos biodegradáveis (biociclos); e Estratégia da Eficácia - pela redução da busca por produtos/serviços, união da inovação técnica e cultural, aumento da inteligência do sistema produtivo, redução de fluxo de energia e matéria para o funcionamento, redução da mobilidade de pessoas e de objetos (desmaterialização).
O autor De Moraes (2010) defende que no cenário complexo atual é preciso estimular e alimentar o mercado por meio da diferenciação e inovação do design, visto que esse cenário é uma fotografia da realidade: dinamismo forte, demandas variadas, necessidades e expectativas diversas do usuário. A proposta do Metaprojeto, detalhado no livro ‘Metaprojeto: o design do design’, busca compreender aspectos ou fatores antes do desenvolvimento/concepção do projeto em si, e são nomeadas por: (1) Aspectos Produtivos e Tecnológicos; (2) Sustentabilidade Socioambiental; (3) Aspectos Tipológicos, Ergonômicos e Formais; (4) Sistema Produto-Design; (5) Aspectos Mercadológico; e (6) Aspectos Socioculturais. Para o caso de estudo em questão, serão analisados os aspectos 2 e 6 do Metaprojeto, como descrito a seguir.
O aspecto da Sustentabilidade Socioambiental funciona como um instrumento para compreender e interpretar as condições produtivas e projetuais ao auxiliar o designer na criação de produtos orientados para esses critérios. De Moraes (2010) sugere que a aplicação pode ocorrer em diferentes níveis que irão evoluir de acordo com o comprometimento dos projetistas e produtores com as questões ambientais. Aplicam-se aqui vertentes também à curto, médio e longo prazo, proposta pelo uso de matérias-primas atóxicas, compatíveis entre si e biodegradáveis - inicialmente; em um segundo momento pela a análise dos inputs e outputs (entradas e saídas de matéria e energia) e dos impactos ambientais gerados; e, a longo prazo, com a proposta ao consumidor de novos cenários de estilo de vida, considerando a responsabilidade e a função social do designer.
O autor sugere a aplicação de uma tabela de coordenadas e linhas guias que visa orientar o projeto dentro dos requisitos ambientais e verificar o impacto de um produto já desenvolvido (tabela 1). Essa tabela foi aplicada ao caso de estudo dessa pesquisa e será reapresentada no tópico Resultados.


 

Tab. 1 – Tabela de Coordenada e Linhas Guias. Fonte: De Moraes (2010).

 

Os Aspectos Socioculturais envolvem a valorização do repertório estético e cultural de uma determinada localidade, com o intuito de tornar sua aplicação em produtos ou serviços um diferencial para o mercado homogêneo (De Moraes, 2010). O que tende a gerar vantagem competitiva para a marca e a consequente melhoria de vida para produtores, projetistas e a comunidade local.
Já Bonsiepe (2012) argumenta que na atualidade há uma falta de questionamentos sobre a atividade projetual e que o designer deve buscar no processo de concepção desafios intelectuais que visem interpretar as necessidades dos grupos sociais ao elaborar propostas com uma dimensão humanista. Essa dimensão possibilita uma consciência crítica para promover o socialmente desejável, o tecnicamente factível, o ambientalmente recomendável, o economicamente viável e o culturalmente defensável.
Assim, o autor propõe o que denomina de Vetores ou Forças Motrizes para a Inovação no Design, dentre as quais destacam-se para aplicação nesse estudo: a Inovação baseada na Forma – criatividade para trabalhar as questões formais e estéticas na atividade projetual; a Inovação baseada na Tradição – critérios ligados à cultura de uma região como fator diferenciador para o produto; a Inovação baseada na Ecologia – aspectos da sustentabilidade ambiental determinantes para concepção e produção de projeto em design; e Inovação baseada na Invenção – investimento em pesquisa e desenvolvimento para concepção de produtos e seus processos.
Outra teoria pertinente foi concebida por Hawken, Lovins e Lovins (2007) e é intitulada por “Capitalismo Natural”. Nela, os autores indicam a necessidade de trabalhar em equilíbrio a eficiência econômica, a preservação ambiental e a justiça social. Consideram que a economia tradicional trabalha os quatro tipos de capital – humano, financeiro, manufaturado e natural – em desequilíbrio, visto que o capital natural é usado de forma descontrolada e gera consequências danosas à humanidade. Assim, o Capitalismo Natural indica a adoção de um sistema industrial no qual sejam valorizados os capitais humano e natural.
Mas como é possível essa correta valorização? Os autores aconselham a aplicação das seguintes diretrizes: a Produtividade Radical de Recursos - que visa produzir mais com menos, pela eficiência energética e material; o Biomimetismo - que compreende aprender a química benigna dos processos biológicos e aplicá-las em produtos; a Economia de Serviços e Fluxos - com a substituição gradual de bens comprados, por bens alugados; e o Investimento no Capital Natural - pela sustentação, reestruturação e expansão dos estoques de capital natural.
O desafio em implantar essas diretrizes na atividade projetual do design reside no fato de que demandam pesquisa e desenvolvimento. Questão 
Esses autores e as diretrizes que propõem representam a importância do desenvolvimento a partir da reorientação ecológica dos sistemas de produção e consumo além da promoção do uso sustentável dos recursos físicos e sociais locais. Vale apresentar ainda uma fala de Manzini (2010) da introdução do livro de Dijon De Moraes (2010). Este autor afirma que “a próxima economia depende principalmente da inovação social” (Manzini, 2010:X). Trata-se de entender e fomentar ações que se baseiam no senso de comunidade. Aparecem novas abordagens e novas metodologias que direcionam o projetar social e que corroboram para o bem comum. Acontece a promoção de redes entre profissionais e parcerias que se baseiam em interfaces sociais capazes de alterar a economia atual.
“Para operar na economia social e promover a inovação social, o próximo design deve deixar claro (tanto dentro quanto fora da comunidade do design) que seu campo de competência é mais amplo do que aquele que tradicionalmente tem sido considerado). Em particular ele inclui serviços e redes colaborativas” (Manzini, 2010:X).
Colaborar em design é projetar em conjunto. É fazer com que o processo de desenvolvimento de um objeto ou serviço seja fruto de vários pensamentos, de várias mãos. Dizem que duas cabeças pensam melhor do que uma e assim o trabalho colaborativo tem conquistado espaço também no design. De Morais (2010) deixou claro quando apresentou que “a concepção de um produto, de forma consciente ou não, é fruto da interação dos atores envolvidos no projeto com a realidade sociocultural circundante que os influenciou” (De Moraes, 2010:70). Nesta afirmação, para além do entendimento da importância das parcerias entre designers e outros profissionais, o trabalho realizado ainda é influenciado pela sociedade ao redor, por sua história, modus vivendi, usos e costumes, ou seja, pela valorização da cultura existente.
Já há muito tempo também que o estudioso Victor Margolin tem manifestado preocupações de ordem ética e social no design. No livro ‘Design e Risco de Mudança’, ele defende que “os Designers estão certamente entre aqueles cujas contribuições são essenciais para visualizar as formas materiais de um mundo mais humano” (Margolin, 2014:18). 
Seguindo este mesmo caminho, Bonsiepe, no seu livro ‘Design, Cultura e Sociedade’, traz a palavra alteridade como pressuposto ou “disposição de respeitar outras culturas projetuais com seus valores inerentes” (Bonsiepe, 2012:38). Esta característica está relacionada com o ver o outro, com o considerar o outro, ampliando o design do ‘projetar para’ para o ‘projetar com’.
Por fim, Margolin e Margolin (2004) expõem que o design social, diferentemente dos padrões habituais de projetos desenvolvidos no âmbito do design com foco industrial e mercadológico, visa não só satisfazer as necessidades humanas, mas contribuir para a transformação de uma comunidade. É esse o lugar que Domingos Tótora atua e que ficará mais claro no tópico seguinte. 

 

Resultados: O Caso de Estudo do Designer Domingos Tótora
Esse tópico almeja demonstrar a relação averiguada entre as Diretrizes de Design apresentadas e o Caso de Estudo selecionado para o presente artigo. Visa-se compreender a importância do trabalho desenvolvido pelo designer da cidade mineira de Maria da Fé, Brasil, Domingos Tótora. As suas criações de mobiliário e objetos de decoração têm inspiração na natureza exuberante do estado de Minas Gerais e usam como matéria-prima principal o papelão reciclado (figura 1).

 

Fig. 1 – O designer Domingos Tótora com a principal matéria-prima dos seus produtos. 


Fonte: http://www.domingostotora.com.br/domingos/domingos.html (2017)

 

Diante da pesquisa realizada no estado da arte, observa-se que seus projetos têm relação com a proposta da ‘Produtividade Radical dos Recursos’ de Hawken, Lovins e Lovins (2007), posto que se desenvolve produzindo mais com menos, ou seja, com menor matéria e energia incorporada ao sistema. Isso ocorre pelo fato do designer selecionar o papelão, descartado após o uso, como matéria-prima para elaboração de uma polpa moldável (no qual também se acrescenta água e um aglutinante), com a qual são produzidas as peças moldadas à mão e que secam ao sol – medidas que reduzem sensivelmente o consumo de energia durante o processo produtivo (figuras 2 e 3) e que trazem o benefício de substituir uma matéria-prima virgem, por uma secundária pós-consumo. Constata-se também uma conexão com os Vetores de Inovação baseados na Ecologia e na Invenção (Bonsiepe, 2012) – o que ocorre pela proposta de produtos que minimizam o impacto ambiental e que estabelecem um meio de produção diferenciado na concepção de design.

 

Fig. 2 e 3 – Processo de transformação do material usado na produção das peças de Domingos Tótora e a foto de uma peça final a secar no sol.


Fonte: http://www.domingostotora.com.br/process/process5.html (2017).

 

Outra conexão com as teorias estudadas é a ‘utilização de materiais de baixo impacto ambiental’ - diretriz de design para sustentabilidade defendida por De Moraes (2010), pois Domingos Tótora utiliza matérias-primas biodegradáveis e atóxicas para criação de mobiliário de objetos de decoração. Além disso, seu design é orientado para a sustentabilidade ambiental, como demonstra a aplicação da tabela de ‘Coordenadas e Linhas Guias’ (tabela 2), usada para a análise do banco Kraft (figura 4):

 

 

Tab. 2 – Aplicação da Tabela de Coordenada e Linhas Guias para o Banco Kraft de Tótora.

Fonte: De Moraes (2010).

 

Fig. 4 – Banco Kraft pequeno - Domingos Tótora.


Fonte: http://dpot.com.br/banco-kraft-pequeno-dpot.html (2017).

 

Observa-se, com aplicação da tabela para análise do banco Kraft (figura 4), o exemplo do baixo impacto ambiental dos produtos concebidos pelo caso de estudo em questão, que se destaca por: (a) o fato da seleção da principal matéria-prima (o papelão) corresponder a um recurso secundário, ou seja, uma matéria-prima reciclada pós-consumo; (b) a redução da intensidade de material, ao serem usados poucos componentes; (c) a não utilização de plástico, que é um recurso não renovável; (d) a redução do consumo de energia incorporada ao processo, visto que o produto é secado ao sol; (e) por ser um bem durável; e (f) por ser biodegradável – o que minimiza o seu impacto ambiental ao ser descartado, após o fim de vida útil. 
A importância da valorização da cultura de região, da mão de obra local e da inspiração na natureza, são critérios dos Aspectos Socioculturais (De Moraes, 2010) e que diferencia os produtos de Tótora no mercado. As formas de seus objetos têm como inspiração primeira as formas encontradas na natureza (figura 5). A paisagem circundante aparece enquanto memória e lembrança. Suas peças são de um imenso apelo tátil, que trazem à tona lembranças não apenas visuais, mas também as corporais: do andar por estradas, do caminhar junto à terra, de suas texturas, sombras, luzes e cores (Paoliello, 2015:10). Existe a associação da cor terrosa do papelão com o barro – uma importante matéria-prima do artesanato mineiro. Além disso, o processo de elaboração das peças lhes confere um caráter artesanal, com a valorização da manualidade, da singuralidade e, por consequência, da mão-de-obra local, residente na comunidade.
 

Fig. 5 – Madala por Domingos Tótora que remete à terra arada, topografia típica de Minas Gerais.


Fonte: http-//www.domingostotora.com.br/pt/images/Designs_11.jpg (2017)

 

Entretanto, vale entender o papel social desse designer. Qual a inovação social que existe no seu fazer? Não se trata apenas de um projetista que emprega diversos trabalhadores locais em sua oficina, mas de um profissional que foi além e incentivou um grupo de mulheres a desenvolverem seus próprios dons artesanais, ou seja, possibilitou uma nova oportunidade - com a construção de um saber-fazer - a uma parcela da sociedade que muitas vezes possui limitadas opções de crescimento e de geração de conhecimento ao longo da sua vida. Ele as ensinou a técnica de transformação do papelão, inseriu um novo material na produção – a fibra de bananeira –, e conseguiu com que elas se organizassem e produzissem coletivamente. 
Em 1999, formalizou-se a Cooperativa Mariense de Artesanato. Além do trabalho de criação dos objetos de qualidade (figura 6), exclusivos e de baixo impacto ambiental, pode-se pontuar como consequência do projeto desenvolvido por Tótora: (a) a capacitação das artesãs da comunidade, (b) uma nova possibilidade de geração de renda para as mulheres e, consequentemente, para as suas famílias, (c) o empoderamento das participantes, e (d) a criação e o desenvolvimento de um fazer com uma identidade local, pela seleção da cores, formas e materiais que se concectam diretamente com a cultura do artesanato e a natureza circundante – o que serve de referência como um trabalho de inovação social no país. Diante do exposto, é possível observar uma relação com os Vetores para Inovação baseados na Tradição, na Ecologia e na Forma, além da dimensão projetual humanista pela consciência da importância dos aspectos culturais e sociais, defendidos por Bonsiepe (2012).

 

Fig. 6 – Prato produzido pela Cooperativa, com barrado colorido.  


Fonte: http://www.gentedefibra.com.br/gentedefibra/catalogo/barrado (2017).

 

Percebe-se uma diferença nas peças realizadas pelo designer e naquelas produzidas pela cooperativa. Isso ocorre devido a autonomia que o designer propricia às artesãs (Borges, 2013:12). Ele as capacitou e desenvolveu em conjunto a técnica, fez oficinas para que as mulheres envolvidas no fazer pudessem observar os signos existentes na própria comunidade e as ensinou a trabalhar com esses elementos de maneira a recolocá-los nas peças concebidas. No caso do prato com barrado colorido (figura 6), as formas e as cores, são resultado do olhar para os desenhos existentes na igreja local, por exemplo. O que demonstra, como definido nos Aspectos Socioculturais (De Moraes, 2010), que na cooperativa ocorre a promoção da interpretação da vida cotidiana e da estética da região, utilizam-se materiais particulares de Maria da Fé e favorece-se a comunidade local. Como resultado desse trabalho social e local de Domingos Tótora, pode-se afirmar que é realizada a inovação social, além da ambiental.

 

4. Conclusões

Na área do design, existe uma necessidade de constante inovação que visa responder às novas necessidades dos consumidores e que possibilita aos designers obterem uma vantagem competitiva no mercado. Os desafios são complexos, pois a atividade projetual envolve os mais diversos critérios para sua realização. Desse modo, devem ser criadas e pensadas estratégias que visem uma diferenciação e conscientização do que e de como se desenvolve e produz. Deve-se primar não apenas o aspecto econômico, mas, especialmente, as questões sociais, culturais e ambientais, para demonstrar a vertente humanista-projetual. Assim, o profissional da área precisa estar aberto às adaptações e melhorias dos processos produtivos e projetuais para responder a essas diferentes demandas que objetivam o aperfeiçoamento do produto. 
A pesquisa realizada na fundamentação teórica mostrou-se primordial para conceber um arcabouço de conhecimentos relativos às diretrizes para inovação e para sustentabilidade socioambiental – temática do estudo aqui proposto. Esse saber gerado permitiu promover uma relação direta com as iniciativas produtivas e projetuais desenvolvidas pelo caso de estudo do Designer Domingos Tótora – que alcançou na prática dessas suas atividades aspectos que concernem: a redução do impacto ambiental das peças que desenvolve, por meio da consciência na seleção dos materiais e uso reduzido de água e energia; pela aplicação de elementos estéticos-formais característicos da sua região nos produtos, promovendo a valorização da cultura e identidade local; e pelos benefícios sociais gerados para comunidade, com a criação da Cooperativa Mariense de Artesanato.
Desse modo, o caso de estudo funciona como um exemplo e confirmação de que iniciativas de design que estabelecem a inovação com base nas questões ambientais, sociais e culturais são perfeitamente possíveis de se alcançar na prática da atividade de criação. Os desafios existem, mas com pesquisa, desenvolvimento, trabalho em cooperação e consciência do fazer, pode-se promover uma relação mais humana entre projetistas, produtores, colaboradores e consumidores – que resultam em produtos que respondem a problemas de modo eficaz e inteligente.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências bibliográficas

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Teixeira, G. Paoliello, C. ; (2018) Inovação Socioambiental no Design: Caso de Estudo do Designer Domingos Tótora. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt