Lenga Lenga, Trângulo Mângulo – A construção de uma história e de um objeto gráfico baseados num tema popular e sua interpretação musical: caso de estudo no ensino do design gráfico. [1]

Lenga Lenga, Trângulo Mângulo - The construction of a history and a graphic object based on a popular theme and its musical interpretation: case study in the teaching of graphic design. [1]

Serejo, C. Tavares, V.

IPCA - Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave
IPCA - Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O trabalho apresentado foi desenvolvido em contexto académico, no 1º ano da licenciatura em Design Gráfico da Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave. 
O objetivo foi, através de um exercício experimental e meramente conceptual, introduzir as temáticas dos fundamentos do Design Gráfico junto dos alunos, tais como o uso de ferramentas de comunicação e materialização gráfica, numa narrativa textual e musical. 
O desafio lançado aos alunos foi o de partir de um tema musical baseado numa lengalenga popular –Trângulo-Mângulo do grupo musical Gaiteiros de Lisboa –  e desenvolver um objeto gráfico ilustrativo da narrativa (estória, som e simbologia) do tema apresentado. 
O projeto foi desenvolvido em três fases: a - consulta e análise do tema em estudo (interpretação da narrativa textual e musical); b - observação e análise de exemplos relevantes e consulta de bibliografia de apoio; c - desenvolvimento da proposta e sua materialização como narrativa e objeto gráfico.
Os resultados obtidos demonstraram que num contexto de abordagem introdutória e meramente experimental da disciplina, uma orientação focada na criação de objetos/suportes gráficos livres (analógicos ou digitais) com uma forte componente de "jogo" e de interação com o leitor/utilizador/jogador não só potenciam a interpretação do tema - reforçando o seu sentido musical e textual – como sensibilizam para as temáticas que se pretendem ensinar/aprender no campo do design gráfico. O sentido das práticas desenvolvidas durante o processo não são apenas muito perceptíveis para os alunos, como também constituem um campo fértil para a fundamentação teórica inerente. Promovem ainda o desenvolvimento de uma capacidade de resolução de problemas que desafia da melhor forma a criatividade das soluções.

PALAVRAS CHAVE: Design Gráfico; Tipografia; Ilustração; Narrativas

ABSTRACT: The work presented was developed in an academic context, in the first year of the degree in Graphic Design of the Superior School of Design of the Polytechnic Institute of Cávado and Ave.
The objective was, through an experimental and merely conceptual exercise, to introduce the themes of the fundamentals of Graphic Design to students, such as the use of communication tools and graphic materialization, in a textual and musical narrative.
The challenge for the students was to start from a musical theme based on a popular langalenga - Trângulo-Mângulo from the musical group Gaiteiros de Lisboa - and to develop a graphic object illustrative of the narrative (story, sound and symbology) of the presented theme.
The project was developed in three phases: a - consultation and analysis of the theme under study (interpretation of textual and musical narrative); b - observation and analysis of relevant examples and consultation of support bibliography; c - development of the proposal and its materialization as narrative and graphic object.
The results showed that in a context of introductory and purely experimental approach of the discipline, an orientation focused on the creation of free objects (graphic or digital) with a strong component of "game" and interaction with the player / user / player not only enhance the interpretation of the theme - reinforcing its musical and textual sense - as they sensitize the themes that are intended to teach / learn in the field of graphic design. The sense of the practices developed during the process are not only very perceptible to the students, but also constitute a fertile field for the inherent theoretical foundation. They also promote the development of a problem-solving capacity that best challenges the creativity of solutions.

KEYWORDS: Graphic Design; Typography; Illustration; Narratives

1. Introdução

O projeto Trângulo-Mângulo - Lengalenga e sua narrativa gráfica, foi desenvolvido em contexto académico, no âmbito do ensino dos fundamentos do design gráfico a alunos do 1º ano da licenciatura em Design Gráfico da Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave.
Consistiu na resolução de um projeto de aula cujo objetivo foi o de promover o raciocínio projetual e familiarizar os alunos nas matérias e ferramentas fundamentais da atividade do design gráfico aplicadas, neste contexto, à articulação dos materiais e tecnologias enquanto suportes de comunicação. 
Pretendia-se que os alunos apreendessem o uso de tipos, formas, formatos e materiais e verificassem a sua potencialidade como ferramentas, na construção da materialidade de uma sonoridade distinta, espelhada na sua oralidade e aplicada em diversos tipos de objecto.

 

2. O desafio

Tendo como ponto de partida um tema musical (Trângulo-Mângulo dos Gaiteiros de Lisboa) e um texto (uma lengalenga de base popular) os alunos criaram uma proposta de objeto gráfico a partir da manipulação gráfica das narrativas textuais e musicais deste tema. 
Procurava-se assim, entender a letra, a palavra, a melodia, as interpretações oral e instrumental na sua configuração gráfica (tipografia, desenho, cor, fotografia, materiais e tecnologias, etc). 
Não existiam limitações em termos de formatos, cores, materiais e tecnologias a utilizar, no entanto, os alunos deveriam ter em conta o ritmo musical e a narrativa do texto (conteúdos da mensagem) e a legibilidade e funcionalidade da solução apresentada. Não foram propostas ferramentas específicas e padronizadas (como por exemplo a recriação do storyboard implícito do tema) na análise da narrativa, para que cada aluno seguisse, da forma que entendesse o seu próprio percurso de análise.
Após o lançamento da proposta de trabalho foram apresentados, aos alunos, alguns exemplos de soluções desenvolvidas em contextos e temáticas relacionadas com narrativas e sua materialização gráfica, com especial ênfase em alguns dos nos livros infantis de Bruno Munari:
- I PRELIBRI (Itália, 1ª ed. em 1980) – composto por 12 pequenos livros, com um formato adequado a caber na mão de uma criança pequena (aproximadamente 10 cm X 10 cm). Criados para crianças pequenas que ainda não sabem ler, nem escrever, oferecem variados estímulos, emoções e sensações, resultantes da percepção de imagens, cores, texturas e também das diferentes formas de encadernação dos livros.  

 

Fig. 1 e 2 I PRELIBRI - LIBRO ILLEGGIBILE (1949)


Legenda: Série de livros, de pequeno formato, que abandonam a comunicação textual em favorecimento da função estética. Pretende-se que o leitor aprecie apenas a cor, a melodia do aspecto visual e material do livro.

 

Fig. 3 – LIBRO ILLEGGIBILE – NELLA NOTTE BUIA (1956

 

Fig. 4 – LIBRO ILLEGGIBILE – NELLA NOTTE BUIA (1956

 
 

Fig. 5 – LIBRO ILLEGGIBILE – NELLA NOTTE BUIA (1956

         
Legenda: uma história infantil, com a utilização de ilustrações simples, transparências, diferentes tipos de papel e cortantes que assumem também um papel na ilustração e enfatizam a narrativa enquanto o leitor percorre as páginas deste livro e da sua história. 
 

Fig. 6 – NELLA NOTTE BUIA

 

 

Fig. 7 – NELLA NOTTE BUIA

 

Fig. 8 – NELLA NOTTE BUIA

 

Fig. 9 – NELLA NOTTE BUIA


 

 

Alguns dos outros exemplos apresentados:

 

Fig. 10 – TRAVA-LÍNGUAS (2008, ed. Planeta Tangerina) de Dulce Gonçalves e Madalena Matoso. O texto como ilustração.

 

Fig. 11 – TRAVA-LÍNGUAS (2008, ed. Planeta Tangerina) de Dulce Gonçalves e Madalena Matoso. O texto como ilustração.

 

 

Fig. 12 – TRAVA-LÍNGUAS (2008, ed. Planeta Tangerina) de Dulce Gonçalves e Madalena Matoso. O texto como ilustração.

 

Fig. 13 – TANTOS ANIMAIS E OUTRAS LENGALENGAS DE CONTAR (2013, Planeta Tangerina) de Manuela Castro Neves e Yara Kono.

 

Fig. 14 – TANTOS ANIMAIS E OUTRAS LENGALENGAS DE CONTAR (2013, Planeta Tangerina) de Manuela Castro Neves e Yara Kono.

 

Fig. 15 – TANTOS ANIMAIS E OUTRAS LENGALENGAS DE CONTAR (2013, Planeta Tangerina) de Manuela Castro Neves e Yara Kono.

 
 

 

3. O tema de Estudo

Tal como foi referido anteriormente, o tema de estudo foi o Trângulo-Mângulo interpretado pelos Gaiteiros de Lisboa no seu disco Bocas do Inferno de 1997. 

 
Fig. 16 Capa do CD Bocas do Inferno. 

Legenda: Imagem baseada na escultura da autoria de Carlos Guerreiro, com fotografia de Rita Carmo e grafismo final de Espanta Espíritos.    

 

Fig. 17 Atuação do grupo Gaiteiros de Lisboa (foto de autor desconhecido)

Fonte: in Crónicas da Terra [em linha]. Lisboa: Crónicas da Terra - Rádio RUM, 2005-2017. [consult. 2017-01-14].  Disponível em: http://cronicasdaterra.com/cronicas/?p=3004
 

Os Gaiteiros de Lisboa nasceram em 1993 pela mão de Paulo Marinho, o homem da gaita de-foles nos Sétima Legião. Um verdadeiro grupo de luxo feito com gente que ostenta uma experiência rica que toca nas carreiras de nomes grandes da música portuguesa como José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe.
Nos temas e melodias interpretadas pelos Gaiteiros passeiam ecos da estória e o resultados de um olhar sério e profundo sobre as raízes musicais (tradicionais) portuguesas, sobre as ligações com a música tradicional europeia e mundial e também pelas possibilidade de construção de pontes para o futuro, através da invenção e re-invenção de instrumentos e sonoridades da música tradicional portuguesa, na construção de uma nova identidade musical portuguesa.
Atualmente, integram o grupo, os músicos Carlos Guerreiro (vozes, percussões, sopros e Gaita de Foles), Rui Vaz (vozes e percussões), José Manuel David (vozes, trompa, percussões, sopros, Gaita de Foles), Paulo Marinho (Gaita de Foles, sopros e vozes), Pedro Casaes (vozes e percussões) e Pedro Calado (vozes e percussões).

 

Gaiteiros de Lisboa : Trângulo-Mângulo 
Música: Carlos Guerreiro _ Letra: popular (lengalenga) Victor Almeida (Sta Marta de Penaguião)
Tinha vinte e quatro freiras 
Mandei-as fazer um doce
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão doze 

Dessas doze que ficaram
mandei-as vestir de bronze
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão onze

dessas onze que ficaram
mandei-as lavar os pés
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão dez

dessas dez que me ficaram
mandei-as pró dezanove
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão nove

dessas nove que ficaram
mandei-as coer biscoito
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão oito

dessas oito que ficaram
manei-as pró dezassete
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão sete

dessas sete que me ficaram
mandei-as contar os reis
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão seis

dessas seis que me ficaram
mandei-as pró João Pinto
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão cinco

dessas cinco que ficaram
mandei-as cortar tabaco
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão quatro

dessas quatro que ficaram
mandei-as lá outra vez
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão três

dessas três que me ficaram
mandei-as calçar as luvas
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão duas

dessas duas que ficaram
mandei-as comer pirua
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão uma

Tinha vinte e quatro freiras
fi-las andar na poeira
elas morreram-me todas
com uma grande borracheira
Tema disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eoJzqgFRHtE


4. Metodologia

O projeto foi desenvolvido por grupos de 2 alunos, em contexto de aula de projeto (atelier) com momentos de trabalho autónomo do grupo, de acompanhamento e orientação por parte dos docentes e, no final de cada fase, por momentos de apresentação e debate em turma.
Como já atrás se disse, o projeto foi desenvolvido em três fases: 
a - A primeira fase consitiu na pesquisa e contextualização do tema do projeto, através de reflexões sobre o método projetual a adotar, com a enumeração das especificidades da problemática a resolver, com a recolha de dados sobre materiais similares existentes e por fim, a reflexão e análise crítica sobre os dados recolhidos. 

 

Fig. 18 – Exemplo de mapa-estudo das recolhas e análises efectuadas e momento de apresentação e discussão em turma das recolhas e análises de informação – pesquisa.

 

 

Fig. 19 – Exemplo de mapa-estudo das recolhas e análises efectuadas e momento de apresentação e discussão em turma das recolhas e análises de informação – pesquisa.


 

b - Na segunda fase procedeu-se ao desenvolvimento de ideias e do estudo de possibilidades criativas, com apresentação e debate dos resultados; seguiram-se estudos de planificação e de produção, pesquisa e seleção de materiais e tecnologias a aplicar e ensaios exploratórios das características do material e das ferramentas utilizados.

 

Fig. 20 – Trabalho em aula

 

Fig. 21 – Trabalho em aula

 

Fig. 22 – Trabalho em aula


 

c - Na terceira fase, após a definição dos suportes a utilizar, avançou-se para o estudos de composição gráfica (elementos figurativos e elementos tipográficos) e de cor, das tecnologias a eles associados e à reprodução e produção do protótipo.

 

Fig. 23 – Momentos de apresentação e discussão dos trabalhos.

 

Fig. 24 – Momentos de apresentação e discussão dos trabalhos.

 

Fig. 25 – Momentos de apresentação e discussão dos trabalhos.

 

 

Terminadas as fases do desenvolvimento do trabalho foram feitas as apresentações e a discussão (em aula) dos resultados finais.

 

 

5. Resultados

Uma das primeiras constatações relaciona-se com a opção pela criação de suportes/objetos tridimensionais que apelam à interatividade com o leitor. Estas opções, não só indiciam a forte presença de uma simbologia que quase poderíamos apelidar de teatralidade gráfica, marcada pela igualmente forte presença de uma oralidade figurativa que apela à construção, específicamente no caso das personagens da história - as freiras - de um verdadeiro teatro de figuras, projetado para pop ups, copos, garrafas, candeeiros, jogos, livros, postais, etc.

 

Fig. 26 – Resultados 

 

Esta base tridimensional, ligada não apenas às figuras mas à dança - quer do ritmo musical, quer da própria lengalenga - foram um campo fértil para o acompanhamento  do "corpo gráfico" utilizado nessa animação. Houve assim a experimentação de soluções onde foi evidente o paralelismo entre o corpo textual e musical da narrativa e a materialidade gráfica das soluções desenvolvidas.

 

Fig. 27 – Resultados

 

Não se tratou, portanto, apenas de uma mera exploração de variadas ferramentas e tecnologias, bem como de inúmeros materiais (desenho e ilustração manual, desenho caligráfico, colagem, etc.). Esta experimentação e aprendizagem foi feita dentro de um campo já muito fértil de imaginação textual e musical. A própria ligação desta temática a toda uma simbologia de renovação da tradição, criou espaços de apropriação variados, que foram para lá do mero ensino das matérias inerentes à disciplina. Foram usados vários objetos de cariz tradicional - como por exemplo, os picotados em papel de Viana - e também se criaram objetos gráficos dentro do conceito de livro de artista. Outros conceitos como específicamente o de narrativa gráfica e sequência, saem, depois desta experiência, mais reforçados, naquilo em que conceitos como corpo visual e sonoro têm, de potencial expressivo, no desenvolvimento de uma história.

 

Fig. 28 Resultados


 

 

6. Conclusões

Com este trabalho, saíram reforçadas as minhas convicções de que a tecnologia e a sua aplicação, quando incorporada numa base simbólica e enxertada numa vivência cultural de forte qualidade artística - como é o caso desta criação dos Gaiteiros de Lisboa - não só acrescenta uma motivação muito especial ao desenvolvimento do trabalho, como as próprias soluções apresentadas passam a representar, não apenas o sinal de uma aprendizagem adquirida num campo específico, mas também, um contributo no campo da rede de encontros comunicativos ao nível da descoberta e recriação da cultura de um povo.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências Bibliográficas

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KANE, John (2005). Manual de tipografía. Editorial Gustavo Gili. Barcelona.
MUNARI, Bruno (2008). Das coisas nascem coisas. Lisboa: Edições 70. 
MUNARI, Bruno (2009). Design e Comunicação Visual. Lisboa: Edições 70.
NEWARK, Quentin (2002). Que és el diseño gráfico?. Manual de diseño. Barcelona: Ediciones G. Gili.
RICARD, André (2008). Conversando con estudiantes de diseño. Barcelona: Ediciones G. Gili.
ROCHA, Carlos Sousa (2000). Plasticidade do papel e Design. Lisboa: Ed.Plátano.
TWEMLOW, Alice (2007). Para que serve o Design Gráfico?. Barcelona: Ediciones G. Gili.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Serejo, C. Tavares, V. ; (2018) Lenga Lenga, Trângulo Mângulo – A construção de uma história e de um objeto gráfico baseados num tema popular e sua interpretação musical: caso de estudo no ensino do design gráfico. [1]. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt