Para uma teoria do estudo do Mobiliário

A contribution for a theory of Furniture studies

Pedroso, G.

ESAD-FRESS - Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Os métodos de estudo do mobiliário utilizados até há pouco tempo revelam-se inadequados face à introdução de processos industriais de produção. Racionalização, estandardização e multiplicidade obrigam a rever conceitos criativos, critérios de classificação e denominações. A necessidade de uma visão sistemática, aplicável ao mobiliário no seu todo, torna-se imprescindível.

PALAVRAS-CHAVE: Mobiliário; taxionomia; nomenclatura

ABSTRACT: The methodology of furniture studies used until recently reveals itself inadequate in face of the introduction of industrial production procedures. Rationalization, standardization and multiplicity force the revision of creative concepts as well as criteria of classification and denomination. The need of a systematic vision, appliable to furniture in its whole, becomes indispensable.

KEYWORDS: Furniture; taxonomy; nomenclature

1. Para uma teoria do estudo do Mobiliário

Os estudos de mobiliário assentam, na maioria dos casos, numa perspectiva histórica relacionada com os estilos artísticos, formas de expressão criativa de cada momento da História, que reflectem um determinado gosto colectivo e deixam antever parte do modo de vida da sociedade. Este modelo de investigação que é de grande utilidade no que respeita ao enquadramento nas diferentes épocas e no consequente relacionamento do mobiliário com outras artes, é no entanto redutor no que concerne ao entendimento da peça em si. Válido para encontrar tendências e traços característicos comuns a uma amostra não é eficaz para o entendimento do que a cada exemplar é exclusivo. 

Outra das possibilidades para o estudo do mobiliário que vem sendo utilizada centra-se no autor, seja ele entendido na forma estrita do indivíduo que idealiza e, ou realiza o móvel, quer de uma forma mais ampla, como a oficina e as diferentes corporações envolvidas, e até como a moderna fábrica. Através de um modelo de investigação desse tipo, conseguem-se obter, não só dados de importância no que respeita à constituição das peças, às soluções formais e construtivas encontradas por cada criador e à evolução dos métodos de produção, mas também um conhecimento dos regulamentos e demais condicionamentos em vigor a cada momento e do modo como a eles é dada resposta. Mas, mais uma vez estamos em presença de um método que vai ao encontro do que existe em comum dentro de uma amostra de exemplares, não evidenciando o que há de específico em cada um deles, o que obriga a complementá-lo com outras perspectivas de estudo.

De entre estas é usual a que se centra no diferente tipo de peças de mobiliário que a evolução da sociedade foi fazendo surgir, apresentando-as agrupadas de forma temática. Trata-se de um método de investigação que recorre ao mesmo modelo de aproximação, só que interpretado agora de perspectiva diferente. 

A importância de todos estes modos de estudo do mobiliário e a de inúmeros outros que os completam é evidente, mas trata-se de sistemas complementares uns aos outros, válidos quando toda a informação for cruzada criteriosamente. Importa encontrar uma metodologia de estudo que permita uma eficaz sistematização, até porque, se durante a Idade Média a variedade de móveis era reduzida, resultado de uma sociedade pouco sedentária e sem preocupações de comodidade e conforto, a diversidade destes aumenta gradualmente até ao séc. XVIII, onde o modo de vida elaborado e de intensa actividade social, adoptado pelas classes privilegiadas, levou à criação de espaços arquitectónicos de grande diversidade que careciam de mobiliário específico para todo um amplo conjunto de novas funções. É neste momento que surgem móveis para uso exclusivo da mulher ou do homem e outros especialmente destinados a determinadas divisões e usos. Toda esta multiplicidade levou ao aparecimento aleatório de inúmeras designações, para as quais nem sempre é fácil encontrar uma explicação, induzindo muitas vezes numa dificuldade de compreensão que se não coaduna com a objectividade necessária ao estudo do mobiliário. Isto resulta numa nomenclatura complexa e pouco precisa (Fig. 1).

 

Fig. 1 – Três assentos com uma única função objetiva.

Independentemente da língua, a denominação que lhes é atribuída é aleatória: Bergère – pastora (Wiegandt 1994 p. 68); Easy Chair – cadeira acessível (Hepplewhite 1969 Imagem XV); meiple – aportuguesamento de maple, marca de mobiliário, inglesa, com grande aceitação, em Portugal, em finais do séc. XIX e princípios do seguinte (Martins 2001 p.125).

Uma metodologia rigorosa para a investigação em mobiliário carece de um estudo analítico de cada peça, na multiplicidade de aspectos pelos quais esta pode ser interpretada, conducente a uma classificação do conjunto destas atendendo a critérios de semelhança, idêntica à utilizada noutras áreas do Saber como, por exemplo, a Zoologia. Esta sistematização permitirá depois a criação de uma nomenclatura lógica que permita uma fácil identificação de cada tipo de móvel e de cada tipo de componente, bem como, o entendimento do posicionamento destes na área do Mobiliário. 

Tendo em vista o que acima se propõe, importa em primeiro lugar definir com exactidão quais as diferentes perspectivas sob as quais deverá ser entendida a peça de mobiliário. Para tanto há que compreender o móvel na sua totalidade, quer física, quer imaterial. 

Uma peça de mobiliário nasce sempre da necessidade de resposta a uma determinada função. A dimensão funcional do móvel é, pois, determinante de todos os demais aspectos sob os quais este possa vir a ser estudado. Existem duas funções primordiais para o mobiliário: suportar e conter, mas logo a este nível podem detectar-se peças que acumulam ambas as funções, ainda que em muitos dos casos, uma delas seja dominante, ou porque é ela aquela que determinou a criação do móvel ou tão só, porque é aquela que ocupa maioritariamente a sua capacidade funcional. Noutras não será possível estabelecer uma hierarquia das funções, pois foi essa a intenção com que foram concebidas (Fig. 2).

 

Fig. 2 – À esquerda: móvel onde a função conter predomina sobre a função de suporte. Design: Arq. Francisco Conceição Silva (Revista Casa e Decoração, 1971, n.º 14, p.13). À direita: móvel para criança criado para ter como funções tanto o suporte do corpo humano como de objectos. Design: Cruz de Carvalho, fabrico: Interforma (1ª Exposição de design português, 1971, p.23).

 

Nas divisões funcionais que, ao longo do tempo, têm vindo a ser esboçadas, as funções ligadas ao repouso do corpo humano constituem uma categoria autónoma, no entanto, estamos igualmente na presença da função suporte, pelo que é de admitir, à mesma, uma classificação baseada em primeira mão nos dois grandes grupos acima apontados, constituindo esta última uma subdivisão dentro de um deles. Ou seja, um assento é um móvel de suporte destinado ao corpo humano, enquanto uma mesa é um móvel de suporte para objectos em geral.

Este sistema de definição funcional baseia-se numa divisão sucessiva, que vai constituindo dentro de cada categoria diferentes subcategorias, numa aproximação à especificidade de cada função. Vejamos: numa análise a um móvel são atribuídas funções de suporte, destinado ao corpo humano de forma parcial e individual, com apoio de costas – trata-se daquilo a que vulgarmente chamamos cadeira. No esquema 1, mostra-se de forma esquemática o desenvolvimento simplificado de um sistema deste tipo.

 

Esquema 1

 

A forma é, talvez, de entre todas, a perspectiva sob a qual a peça de mobiliário é observada mais regularmente. Na sua globalidade, ela constitui um resultado directo da função, mas existem outros factores que a condicionam e que são também consequência de outras vertentes da totalidade do mobiliário. As condicionantes construtivas impostas pelos materiais e técnicas utilizadas e todo um vasto conjunto de aspectos ligados à integração sociocultural do objecto, determinam-na também decisivamente. A importância do autor assume aqui, por vezes, papel de relevo pois, em última análise, é ele o responsável pelo entendimento das condicionantes em presença e pelas diferentes opções tomadas. Se, à semelhança do que já anteriormente foi proposto, entendermos o autor em sentido lato: não apenas o indivíduo que cria e realiza a peça, seja ele um mestre ou mais recentemente um designer, mas também a oficina ou a fábrica, encontraremos novos factores determinantes da forma.

Existe, porém, reciprocidade no que respeita aos condicionamentos impostos pelos aspectos construtivos à forma. A procura de soluções técnicas e de materiais adequados ao efeito formal pretendido constitui campo de observação imprescindível à compreensão da totalidade do mobiliário. A interpretação das técnicas usadas define em muitos casos a identidade das peças, quer no que respeita à determinação da época de construção, quer no que respeita à sua autoria, entendida mais uma vez em sentido lato (Fig. 3). 

 

Fig. 3 – À esquerda: desenho de assento em madeira. Técnica construtiva artesanal de furo e respiga reforçada com cavilha. Portugal, 3º quartel do século XVIII (Freire, Pedroso & Henriques, 2001, p.156). À direita: modelo tridimensional de assento com estrutura em metal. Técnica construtiva industrial. Portugal. Fabrico - Móveis FOC.

Fonte: a autora

 

Até ao séc. XX a grande maioria dos móveis era resultado de trabalhos de marcenaria, mas com o gradual aparecimento de novos materiais, obtidos por processos industriais progressivamente mais elaborados e de novas técnicas ligadas ao crescente uso de máquinas e equipamentos, muitas vezes especialmente criados para o fim em causa, vem a surgir um novo campo de estudo que engloba cada vez mais disciplinas e que pressupõe um conhecimento técnico mais alargado.

Importará destacar, de entre os diferentes aspectos ligados à concepção técnica de um móvel, aquele que se relaciona com o papel de cada componente no conjunto geral da peça. Enquanto alguns elementos existem para que esta possa desempenhar a sua função, outros há que lhes dão o apoio estrutural necessário. Por vezes, existem também elementos simultaneamente funcionais e estruturais, havendo mesmo casos em que todo o móvel é um único bloco (Fig. 4). Além destes dois tipos de elementos fundamentais à peça de mobiliário, aparecem ainda outros que lhe são acessórios e que, a maioria das vezes, têm apenas um papel decorativo.

 

Fig. 4 – À esquerda: Designer – Cruz de Carvalho. Modelo “Cadeira simples”. Fabrico - Interforma. À direita: Cadeira. Fabrico - Móveis Olaio

Fonte: a autora

 

Além dos aspetos físicos relativos à forma e à técnica construtiva e daqueles de natureza funcional existe ainda um conjunto de outros, que já têm a ver com a dimensão imaterial do mobiliário, os quais se englobam aqui sob a designação de conteúdo sociocultural do mobiliário. De modo abreviado enunciar-se-ão apenas aqueles que se relacionam com o movimento em que a produção da peça se inseriu, ou seja, os que resultam do gosto colectivo dominante, entendido como estilo, ou consubstanciado naquilo a que é vulgar chamar moda, e aqueles que estão ligados a aspectos simbólicos (Fig. 5). Uns e outros constituem também traços identificadores que importam à compreensão global das peças.

 

Fig. 5 – À esquerda: contador Indo-Português, do Norte da Índia, século XVII, com pormenor de montante em Nagini, divindade hindu, símbolo da fertilidade e guardiã dos mares (Freire et.al, 2003, p.83). À direita: assento «Gazela» inspirado em forma animal. Designer: António Garcia. Portugal, 1955. Fábrica: Móveis Sousa Braga.

Fonte: Afonso (2003, p.191).
 

Com base nos diferentes aspectos que integram a totalidade do mobiliário, a que acima foi feita uma referência sumária, será possível construir um modelo sistemático que relacione as diferentes peças entre si e os diferentes elementos componentes da própria peça. Em suma, será possível estabelecer uma proposta tipológica resultante de um estudo rigoroso e o mais exaustivo possível, determinante de uma taxionomia aplicável ao mobiliário e da sua consequente nomenclatura.

A caracterização resultante de um trabalho deste tipo deverá assentar no cruzamento ponderado da informação relativa aos diferentes contextos, o que pressupõe a atribuição de um valor relativo a cada um deles. Considerado o funcional, como foi referido, determinante primeiro da concepção da peça, parece lógico ser também este aquele que maior peso terá na estruturação dessa caracterização. Todos os restantes ser-lhe-ão complementares ainda que tal não signifique serem negligenciáveis, pois dois móveis ou dois elementos componentes diferentes, mas de conteúdo funcional rigorosamente igual possuem, por certo, traços que permitem atribuir-lhes identidade própria: ou porque são de forma diferente, ou porque são constituídos por outros materiais, ou porque utilizam uma técnica de construção distinta, ou porque foram concebidos mediante outro gosto, ou por qualquer outra ou outras razões.

 

Fig. 6 – À esquerda: estadela que provavelmente pertenceu ao rei D. Afonso V. Portugal, 2ª metade do século XV (Freire, 1995, p. 18). Ao centro: cadeira de braços para cafés e esplanadas cuja autoria é discutível. Portugal, 1940s. Fabrico: Arcalo. À direita: cadeira de braços. Designer: Joaquim Tenreiro, Brasil, 1960.

Fonte: Cals (1998, p.120).
 

A imagem 6 mostra três peças de mobiliário cuja descrição funcional é igual. Apresenta móveis individuais para suporte parcial do corpo humano, com apoio de costas e braços. No entanto são peças diferentes que possuem uma identidade própria. A primeira é conhecida como cátedra ou estadela e é integralmente realizada em madeira de carvalho. Mas mais do que o material, o que a distingue francamente das outras é a altura do espaldar que conferia dignidade ao utilizador. Este tipo de assento era usado exclusivamente por um reduzido número de pessoas de prestígio e é emblemática durante o período gótico. A segunda é, talvez, a mais popular cadeira portuguesa para esplanada. É sem dúvida a sua realização integralmente em metal pintado que a distingue das restantes. A última foi realizada para uma casa particular no Brasil e a principal preocupação foi a criação de uma cadeira mais leve, funcional e confortável - a sua forma actual distingue-a: «Afinal, o mobiliário, como muitas outras coisas que os humanos usam, tem de adaptar-se ao tempo, tomar novas direcções.» Comenta o autor a propósito dela (Soraia, 1998, p.120)

A síntese dos resultados do levantamento exaustivo de móveis, necessário a este exercício, ainda que determinada pelos mesmos parâmetros de análise, deverá ser conduzida em duas vertentes. Uma, comparativa, dirigida à procura de analogias entre as diferentes peças de mobiliário e que conduzirá à classificação destas e à consequente nomenclatura dos tipos e subtipos. Outra, intrínseca a cada peça, dirigida à sua especificidade e que conduzirá à classificação dos seus componentes e de igual modo, à nomenclatura aplicável a esses componentes (Esquema 2).

 

Esquema 2

Propor o aparecimento de uma nomenclatura como resultado de um processo deste tipo obriga a apresentar alguns esclarecimentos adicionais. Importa dizer que não seria razoável admitir o desaparecimento, ou sequer a substituição das actuais designações para as diferentes peças de mobiliário e para as suas componentes. Estão culturalmente enraizadas em cada país, em cada escola, em cada oficina ou fábrica. O que se propõe é o aparecimento de um vocabulário rigoroso, superlativo e progressivamente dominante, que constitua referência para todos os intervenientes nos processos conceptual, produtivo e de crítica do Mobiliário. 

A vantagem do método aqui proposto, assente num estudo feito a partir da peça, com recurso à Sistemática, parece inequívoca. Vem constituir um importante auxílio para os processos criativo - conceptual e produtivo, num momento em que a globalização da produção e a necessidade de estandardização ditam novas regras.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências Bibliográficas

 1ª Exposição de design português (1971). Lisboa.
2ª Exposição de design português (1973). Lisboa.
Boyce, C. (1985). Dictionary of furniture. Inglaterra: Facts on file publications. 
Canti, T. (1999). O móvel no Brasil – Origens, Evolução e Características. Lisboa: Coedição de Editora Agir e Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.
Design Lisboa 94 (1994). Lisboa. 
Freire, F. (1995). 50 dos melhores móveis portugueses. Lisboa: Chaves Ferreira publicações.
Freire, F., Pedroso, G., & Henriques, R. (2001). Mobiliário-Móveis de Assento e de Repouso. Lisboa: Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.
Freire, F., Pedroso, G., & Henriques, R. (2003). Mobiliário-Móveis de conter, pousar e de aparato. Lisboa: Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, Lisboa.
Hepplewhite, G. (1969). The Cabinet – Maker and Upholsterer’s Guide. Nova Iorque: Dover publications.
Martins, J. (2001). Daciano da Costa, Designer. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 
Afonso, R. (2003). Cadeiras Portuguesas Contemporâneas. Porto: Asa.
Raizman, D. (2003). History of modern design. Londres: Laurence King Publishing Ltd.
Revista Casa e Decoração (1971). Lisboa, n.º 14.
Roteiro da exposição de mobiliário português do Museu Nacional de Arte Antiga (2000). Lisboa: Instituto Português dos Museus. 
Cals, S. (1998). Tenreiro. Rio de Janeiro: Bolsa de Arte.
Wiegandt, C. (1994). Régence Louis XV. França : Éditions Massin..
 

Reference According to APA Style, 5th edition:
Pedroso, G. ; (2018) Para uma teoria do estudo do Mobiliário. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt