O Caderno Criativo como Ferramenta no Desenvolvimento da Coleção Jardim Fantástico

The Sketchbook as a tool for the Development of the Fantastic Garden Collection

Roman, S. Rech, S. Beirão-Filho, J. Silveira, I.

UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC - Universidade Federal de Santa Catarina
UDESC - Universidade Federal de Santa Catarina
UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo busca entender como a materialização do pensamento no Caderno Criativo, contribui para o armazenando de ideias, experimentação e formulação de hipóteses no desenvolvimento de uma coleção. Para tanto, a pesquisa qualitativa e aplicada, descritiva e exploratória, analisa os percursos de criação da série de ilustrações chamada Jardim Fantástico. Observou-se que o Caderno Criativo, documento de processo e também artefato cognitivo, exercita a autonomia, liberdade de expressão e autocrítica, conscientizando os agentes de seus próprios caminhos criativos, enquanto facilita o encadeamento de ideias, conferindo o nexo de processo às abstrações conceituais, expressas por final em produtos dotados de sentido.

PALAVRAS-CHAVE: Caderno Criativo. Processo criativo. Design. Desenvolvimento de Coleção.

ABSTRACT: This article seeks to understand how the materialization of thinking in the Sketchbook contributes to the storage of ideas, experimentation and hypothesis formulation in the development of a collection. For that, the qualitative and applied, descriptive and exploratory research, analyzes the paths of creation of the Fantastic Garden´s series. It was observed that the Creative Notebook, a process document and also a cognitive artifact, exercises autonomy, freedom of expression and self-criticism, making agents aware of their own creative paths, while facilitating the linking of ideas, attributing the process nexus to conceptual abstractions , finally expressed in products endowed with meaning.

KEYWORDS: Sketchbok. Creative process. Design. Collection Development.

1. Introdução

O processo criativo individual, ainda que voltado para projetos de Design, credita autonomia e customização ao autor, pois à primeira instância deve se fazer coerente principalmente ao sujeito, facilitando as conexões cognitivas e proporcionando a construção de uma narrativa, no caso materializada em forma de produto final, dotada de sentido. Nesse percurso de criação faz-se uso de diferentes estratégias à fim de extrair-se os conceitos e abstrações internas, inserindo-as no mundo concreto, tornando-as passíveis de sensibilidade e percepção do próprio criador e de quem observa o processo. Os documentos processuais táteis, suportes físicos ou digitais, todavia sempre tangíveis, possuem a finalidade de armazenar, cumprindo importante função na conservação da memória do processo criativo, e de experimentar, facilitando que relações se formem e novas ideias surjam.
O Caderno Criativo, chamado também de Sketchbook, é um documento de processo amplamente conhecido no meio de artistas e designers, podendo ser inserido como uma ferramenta didática e pedagógica em disciplinas curriculares em diferentes níveis educacionais, pois permite desde o registro de memórias internas aleatórias à captura de elementos externos de inspiração, presentes no mais variados ambiente e situações. 
Sob essa perspectiva, com o intuito de pensar no processo de criação adaptável às reais demandas do designer, partindo de fundamentos metodológicos projetuais, mas não se restringindo a eles, foi proposto aos alunos da  disciplina de Criatividade Aplicada ao Produto de Moda (2017/2), do Programa de Pós-graduação em Moda, Mestrado Profissional em Design de Vestuário e Moda, ofertado no Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, o desenvolvimento de um Caderno Criativo a ser utilizados como ferramenta processual no desenvolvimento de uma coleção de produtos à escolha do alunos, considerando a diversidade de formação e atuação profissional da turma. 
A partir do desenvolvimento desse exercício didático-pedagógico, reflexões foram provocada e questionamentos surgiram, como: encontra-se relevância científica analisar o documentos de processo na tentativa de entender como as relações cognitivas acontecem ante o produto final? Faz-se importante na contemporaneidade afirmar aos criadores, designers e artistas, a relevância da compreensão do próprio processo? Na formação de tais profissionais, o crescimento acontece na validação do produto final ou no percurso criativo que o formulou? Sintetizou-se essas indagações, alcançando assim a problematização a ser discutida nesse artigo: De que maneira o Caderno Criativo age como indiciador do processo criativo de uma coleção?
Objetivando-se aproximar o estudo dos processos criativos, artísticos e de design, com a ciência, essa pesquisa busca entender como a materialização do pensamento no Caderno Criativo, contribui para o armazenando de ideias, experimentação e formulação de hipóteses no desenvolvimento de uma coleção dotada de nexo. Para tanto, a pesquisa qualitativa e aplicada, descritiva e exploratória, analisa os resultados obtidos na construção de um Caderno Criativo de aluna, apresentando o desenvolvimento de uma série de ilustrações chamada Jardim Fantástico, da conceituação à exposição da coleção final em galeria. Constatou-se que o uso desse documento processual, também artefato cognitivo, serviu como suporte onde os caminhos individuais de criação puderam ser registrados e as relações do pensamento criativo construídas em rede, facilitando o encadeamento de ideias, conferindo o nexo de processo às abstrações conceituais, materializando-se por final em produtos dotados de sentido.

 

2. O Processo de Materialização do Pensamento Criativo

O processo [1]  indica movimento, um pensamento em trânsito. Quando o termo é associado à criatividade apresenta-se como um trajetória conferida de organicidade e sinuosidade, que tende a algum lugar, mas não tem um ponto de chegada determinado previamente, sendo que mudanças no caminho, o ir e vir,  são aceitos e estimulados, pois são eles que impulsionam a geração de novas ideias. Para Salles (2006), a criação, além de tender ao incerto, acontece no campo das relações, partindo da subjetividade e imaginação do autor, ganhando forma suscetível de compreensão por meio de diferentes suportes materiais, os chamados documentos de processo. As ideias registradas em tais substratos, são armazenadas, experimentadas, submetidas à análise do agente criador, sofrendo interações, combinações e sínteses. Dessa forma,  "o registro do processo possibilita o conhecimento do caminho seguido pelo cérebro na materialização de uma ideia" (Ibidem, 2009, p.16). 
Ao serem lançadas visualmente, não pretende-se alcançar linearidade ou sistematização cartesiana das informações, mas facilitar a compreensão e conferir coerência a esses conceitos abstratos e a princípios desconexos do ato criador, formando assim nós de interação. Salles (2006) aponta para a capacidade destes pontos de sentido de se ligarem, de maneira invisível, conceitual e perceptível apenas a quem observa de perto, por linhas de força a outros nós construídos no percurso, promovendo o nexo no processo em criação em rede.  A criação seria então produto de um percurso mental, todavia expresso na materialidade.
Documentos de processo são, registros materiais do processo criador. São retratos temporais de uma gênese que agem como índices do percurso criativo. Estamos conscientes de que não temos acesso direto ao fenômeno mental que os registros materializam, mas estes podem ser considerados a forma física através da qual esse fenômeno se manifesta (SALLES, 2009, p.21).

A ciência cognitiva, para Aguiar e Queiroz (2016, p.9), possui dificuldades em lidar com as dimensões da criatividade, tratando-a como "uma experiência irredutível por filósofos, antropólogos, pesquisadores das artes e dos próprios artistas, frequentemente sofrendo com a falta de sistematicidade e referências a noções que são pouco operacionais e misteriosas". Ainda que a criação seja em grupo, as conexões neurológicas dos sujeitos, as motivações individualizadas que sugerem ideias ao grupo, são desconhecidas pelo todo. Dessa maneira, a rede de criação não pode ser visualizada por completo, mas pode-se ter em mãos índices perceptíveis, materiais que registram partes que apontam para a formulação do todo. A consciência dessa parte desconhecida, intangível da criação, contribuí para que concepções errôneas sobre o ato criador sejam fortalecidas, como por exemplo a da genialidade, intuição ou dom, mas  tem-se entendimento, a partir das abordagens teóricas e da observação da prática, que além das características individuais, a perícia e treino, assim como conhecimento e uso de ferramentas, são determinantes para o desenvolvimento de uma mente criativa (AGUIAR E QUEIROZ, 2016). Para Munari:

Criatividade não significa improvisação sem método: dessa maneira só se cria confusão [...] O método de projeto, para o designer, não é absoluto nem definitivo; pode ser modificado caso ele encontre outros valores objetivos que melhorem o processo. E isso tem a ver com a criatividade do projetista, que ao aplicar o método, pode descobrir algo que o melhore (2015, p.11). 

Aguiar e Queiroz (2016, p.4), explanando a relação da geração de ideias e criação de produtos como uma habilidade mental do sujeito ou agente criativo, afirma que a introdução e manipulação de artefatos cognitivos têm papel fundamental para o desenvolvimento da criatividade, oferecendo "oportunidades para transformação de espaços conceituais ou de nichos, pela exploração do que encontra-se disponível, ou do que é projetado para manipulação, e que frequentemente são entidades e processo externos". Os artefatos "são, portanto, um fenômeno físico e/ou culturalmente situados e distribuídos no tempo e no espaço" (Ibidem) capazes de modificar as ações do sujeito, amplificando ou intensificando habilidades, tendo entre eles exemplos como: lápis e papel, anotações, mapas e os cadernos criativos. Sendo assim,  "o esboço a lápis ou a caneta pode servir ao designer de pró-memória, para registrar algo que tenha em mente, que descobriu, que quer modificar" (MUNARI, 2015, p.59).
Os artefatos, quando pensado na função de construir o pensamento criativo,  relacionam-se para Aguiar e Queiroz (2016) semelhantemente aos documentos de processo para Salles (2006), com a diferença de que para os primeiros autores, quaisquer objetos cognitivos podem despertar a pensamento criativo, assim como uma sapatilha o faz para um bailarino, enquanto os estudos de Salles (2006) concentram-se naqueles objetos que servem ao registro, a guarda da memória processual e experimentação. Nas duas abordagem pode-se inserir o artefato Caderno Criativo como um viabilizador e facilitador do processo de criação. 
Este artigo não pretende explorar as origens do Caderno Criativo, ou Sketchbook, mas apresentar argumentos que fortaleçam a sua importância na contemporaneidade quando utilizados como ferramenta, documento de processo ou artefato cognitivo, no processo de criação de uma ideia, produto ou coleção. Entretanto, algumas particularidades do objeto podem ser mencionadas, como a discussão a seguir apresenta.

 

3. O Caderno Criativo

O caderno criativo é "como um diário ou uma agenda visual . Ele é uma interpretação pessoal do mundo e pode assumir diferentes formas" (MORRIS, 2007, p.18), assim como um objeto que constitui "a coleção de pensamentos internos, percepções, imagens e fragmentos de materiais colecionados" (ERICKSON, 2015, p.22).  Sua utilização confere autonomia ao agente criador, enquanto exercita a liberdade, autocrítica, disciplina, persistência e repetição (Ibidem). 

Para algunos, los cuadernos de bocetos son un diario visual, donde las ideas se afirman, o reafirman, o descartan. Donde la repetición aporta claridad, o aturdimiento. Para otros, los cuadernos de bocetos sólo son un lugar para jugar, una sala para la libertad y una vía de escape del trabajo (BRERETON, 2009, p.6).

Mesquita, Freires e Pereira (2016), procuram analisar as relações comunicacionais presentes nos Cadernos Criativos pelo viés da complexidade dos sistemas e signos, enquanto destacam o potencial dessa ferramenta no processo no ensino-aprendizagem.  Utilizando a nomenclatura Sketchbook, caracterizam o material como um suporte para referências obtidas no dia-a-dia do aluno, artista ou designer,  servindo como registro visual do pensamento criador, a ser moldado de acordo com a necessidade do autor para compor novos projetos. O Caderno Criativo possibilita então, a reflexão e a experimentação, permitindo que conexões aconteçam, pois nele está disposto “todo o processo de elaboração de uma peça, bem como suas ferramentas e materiais, de um processo complexo de construção de conhecimento, através do percurso criativo” (Ibidem, 2016, p.4). O relato de Renato Alarcão [2], designer e ilustrador brasileiro, reforça o caráter reflexivo do Caderno Criativo:

Los cuadernos de bocetos reflejan lo que soy, mis pensamientos, lo que llama mi atención. Son un medio para para ir anotando de forma temporal los acontecimientos, las imágenes y los pensamientos. En última instancia, los cuadernos de bocetos me muestran mi progreso como ser humano o, desde un punto de vista más modesto, como artista (BRERETON, 2009, p.16).

O caderno criativo não está inserido numa área específica de criação, como Arte e Design, mas serve a qualquer sujeito. Alessi e Perroni (2014), discutem sobre a aplicação da ferramenta na Arquitetura, também chamado nesse cenário de Caderno de Desenho, afirmando que "seu grande valor reside em reter memórias, temas arquitetônicos, que uma vez revisitados, reelaborados, e combinados com outros desenhos de referência e/ou novas proposições, auxiliam e podem germinar novas propostas e composições" (2014, p.78). Os autores ainda o caracterizam como um espaço privado que garante liberdade de expressão, que quando utilizado no desenvolvimento de projetos servem como "arquivos que correspondem a um arsenal de registros e instrumentos cognitivos e recordações, que podem ser utilizadas em novas proposições projetuais" (Ibidem, 2014, p.79). Esse material pode ser consultado posteriormente, revelando a evolução do trabalho criativo no decorrer do tempo.  A relação do arquiteto, assim como do designer e do artista, com o Caderno Criativo representa um diálogo do método com a introspecção, testemunhando experiências e provocando a maturação de ideias, considerando que "ao evocar certos detalhes e omitir outros, percebe-se nesses desenhos as intenções do arquiteto; identificam-se os elementos da gênese da criação" (ORTEGA, 2005, p.1). 
Faz-se importante, todavia, que as anotações e toda a somatória de ações possíveis descritas anteriormente, sejam reunidas num caderno estruturado e não em folhas soltas, se a intenção do autor é o desenvolvimento de um Caderno Criativo ou Sketchbook, pois o transitar entre as páginas contínuas "permitirá, no mínimo a percepção da evolução de uma ideia" (ORTEGA, 2005, p.6), ainda que a construção do nexo não seja linear e o sentido do pensamento criativo seja formatado em rede. 
No Caderno Criativo voltado para o desenvolvimento de coleção, técnicas e materiais variados são combinados com a intenção de melhor expressar aquilo que a imaginação formulou. Dessa maneira, aquarela se mistura aos traços em grafite, anotações em caneta sobrepõem colagens e pintura com marcadores podem espalhar-se entre diferentes páginas do documento processual.  Mastelini e Almeida (2016, p.74), apontam para o desenho como "ferramenta que aprimora o processo criativo" e uma linguagem que permite a expressão e comunicação de ideias, agindo como instrumento de trabalho do designer. A partir do seu registro no Caderno Criativo, acontece a integração dos recursos gráficos, permitindo que um produto imaginado ganhe forma e seja analisado antes de sua produção final.

A grande expressividade dos designers, como a de outros autores, em seu constante contato com o meio, nos apresenta explorações possíveis em uma diversidade de experimentos que nos abre muitos caminhos, recomendando-nos a flexibilizar os limites na busca pela singularidade do campo como disciplina (MAGALHÃES, 2014, P.156).

No desenvolvimento de Coleção de Moda, considera-se importante que "quando se faz o projeto industrial de um produto ou de uma 'família' de produtos, é útil considerar a coerência formal das partes e do todo - das partes que formam um objeto e dos objetos que formam o conjunto" (MUNARI, 2015, p.134). Sob essa perspectiva, o uso do Caderno de Criatividade, preenchido por registros e experimentações variadas, apresenta índices que constituem os atributos conceituais ou materiais,  relacionados às cores, formas e texturas, que garantem a unicidade visual da coleção. 
As folhas em branco do Caderno Criativo são um grande território a ser explorado pelo designer em seu percurso. Ainda que o excesso de possibilidades, e a ausência de regras de uso das páginas, cause desconforto ao agente criativo, "um território é transitório por definição. Se processa continuamente e tem contornos abertos em prol da próxima invenção. O criador está sempre disposto a desterritorializar, de modo a encarar uma nova turbulência, para inventar um outro lugar e ampliar a cartografia" FRAGA (2015, p.21).
Vale ressaltar aqui, que a inserção do Caderno Criativo, ou de outras ferramentas, dentro do projeto de design não exclui a relevância dos métodos processuais , mas deve-se atentar que o uso da metodologia projetual sem reflexão, inserida somente para validar o processo como um fazer conectado à uma suposta ciência maior, "passa a desestimular outras abordagens de pensar e projetar que poderiam ser úteis para a inovação se utilizadas de modo complementar, como por exemplo, abordagens mais intuitivas ou experimentais" (MAGALHÃES, 2014, P.149). Assim, "os designers independentes, atuando como 'autores', possuem maior possibilidade de desenvolver processos distintos" (Ibidem, 2014, p.151), alcançando singularidade e promovendo inovação no desenvolvimento de produtos e coleções. 
Com o propósito de exercitar autonomia, reflexão e autocrítica no processo de criação individual, solicitou-se o uso do Caderno Criativo como ferramenta na concepção de coleção autoral na Disciplina de Criatividade Aplicada ao Produto de Moda, do Programa de Pós-graduação em Moda – UDESC. Apresenta-se, em sequência, as relações construídas na elaboração do documento de processo, Caderno Criativo, utilizado no desenvolvimento da Série de Ilustrações, denominada Jardim Fantástico.

 

4. Desenvolvimento da Coleção Jardim Fantástico

A atividade começou como uma demanda projetual, indicando o Caderno Criativo como suporte para estímulo do pensamento criativo na solução de problemas. Foi proposto às alunas da Disciplina o desenvolvimento de uma coleção, cujo o tema e o tipo de produto criado estaria a livre escolha de cada agente criador, todavia deveria respeitar as seguintes diretrizes: apresentar ao final 150 gerações de alternativas e 10 croquis finalizados; organizar em forma de Caderno, com páginas sequenciais, todos os materiais e experimentações produzidos; para aqueles que optarem pelo formato Sketchbook, favorecer a gestualidade, sendo as interações livres, rascunhadas e sem planejamentos decorativos. Ferramentas metodológicas e criativas foram solicitadas à turma, objetivando a propulsão na geração de ideias, entretanto respeitou-se as necessidades de cada projeto, sabendo-se que, por exemplo, o Draping em manequins pequenos serviriam às coleções de vestuário, mas não à concepção de joias.  
O caderno criativo, na atividade projetual em questão, além de conter as etapas de criação solicitadas em sala de aula no desenvolvimento das coleções individuais, objetivando a documentação do percurso criativo, deveria servir como uma ferramenta de registro diário de maneira que o autor lançasse de maneira rápida as ideias no papel. Para tanto, incentivou-se que as alunas os mantivessem com fácil acesso ao decorrer do dia, visto que as inspirações e insights poderiam surgir das situações, horas e locais mais inusitados. 
A coleção analisada a seguir, consiste numa série de ilustrações, visto sua criadora ser designer gráfico e ilustradora, que além de atentar aos requisitos da disciplina, deveria responder aos anseios da aluna: permitir a exploração da linguagem autoral em ilustração; ser aplicada à produtos de papelaria pessoal comercializados em feira gráfica; ter os originais exibidos em exposição artística. Para tanto, o primeiro ato presente no Caderno Criativo foi um mapa mental (Figura 1) que, devido a possibilidade de livre escolha do tema de coleção, apresentou como termo central o próprio nome da autora, pois ela desejava com esse exercício descobrir quais os assuntos são mais frequentes na sua prática como ilustradora e designer, e de que forma tais assuntos poderiam se relacionar em rede, ramificando-se para conceitos que expressam sua visão artística e preferências conceituais e estéticas. 
Após análise da atividade inicial, encontrou-se como tema para a coleção um Jardim, onde as figuras de folhas, pedras e insetos, seriam arranjadas em composições coloridas, lúdicas, imaginativas, irreais, logo Fantásticas. O sentido de dualidade surgiu repetidamente na construção do mapa mental, em conjunções como: geométrico versus orgânicos; real versus imaginário; suave versus contrastante. 

 

Fig. 1 – Mapa Mental e Pesquisa visual com tema Imaginário x Real


Fonte: Caderno Criativo de Schirlei Martins.
 

Em sequência a autora utilizou-se da colagem para arquivar as imagens coletadas na pesquisa visual, composta por referências para o Tema Jardim Fantástico, entre outras figuras atrativas à aluna por motivações pessoais. Antes de serem fixadas no caderno, as imagens impressas foram separadas por temas, na tentativa de se alcançar os primeiros nós de interações relacionais. A divisão em assuntos guiou a construção sequencial de páginas do Caderno, sendo organizados por: conceitos extraídos do mapa, como real x imaginário e lúdico; tópicos estético-estruturais, como materiais, ambiente de criação, tipos de traço, manchas, texturas e grafismos; área de inserção para os produtos criados, Homeware and Lifestyle Acessories. A intenção de cada divisão foi decoupar as informações contidas nas imagens, ou seja, extrair os elementos que se destacavam para compreender-se quais eram os focos de atenção e refletir-se sobre uma possível aderência das características elencadas na prática da aluna. Como resultado deste exercício, percebeu-se as preferências de estilo da ilustradora, ampliando sua capacidade de expressão através de uma linguagem autoral.
A seguir, o Caderno Criativo apresenta o escopo da coleção a ser desenvolvida, relacionando o tema principal, Jardim Fantástico, às características estéticas pretendidas. Nas páginas em questão registrou-se, através da escrita, ideias para os elementos figurativos, elementos de preenchimento, possíveis texturas e materiais para compor as ilustrações. Ainda encontra-se nestas listas, as inspirações de movimentos artísticos, como o surrealismo a partir dos trabalhos de Joan Miró, para texturas e linhas, e Henri Rousseau, representando elementos da flora e fauna. As obras dos artistas citados serviram como base para a prática de musas vazadas, que a princípio apresenta o desenho de croqui de moda, figura humana, como base para sobreposição, mas foi substituída pela autora da coleção pelo formato de um besouro, adequando o exercício criativo ao projeto.
A técnica de colagem foi muito exploradas no Caderno Criativo analisado. Para o estudo de formas dos insetos (Figura 2), diferentes partes de fotografias de besouros mesclaram-se, assim como esboços desenhados à mão, buscando nesses híbridos novos personagens para a coleção. Complementando às colagens, anotações diárias foram inseridas no caderno, conectando as formas dos besouros criados às ideias aleatórias da aluna, que viriam a fortalecer a narrativa visual construída em todo processo de criação da coleção.

 

Fig. 2 – Estudos para Insetos: musas vazadas (esquerda), colagem híbridas (centro) e formas finais (direita)

Fonte: Caderno Criativo de Schirlei Martins.
 

O uso de materiais diferentes foi importante para a experimentação (Figura 3). Papeis coloridos, recortados em formatos geométricos representaram as pedras, traços soltos à caneta nanquim retrataram a organicidade das folhas e flores, enquanto manchas de tinta acrílica, sobrepostas a respingos de spray garantiram o ruído nas texturas, aspecto que apresentou relevância para a autora desde os primeiros conceitos do mapa mental, também indicados nas imagens de referência, ganhando forma com as experimentações manuais realizadas nas páginas do caderno. A aluna evidenciou no processo de experimentação, com materiais utilizados em técnicas tradicionais de pintura e desenho, sua preferencia pela gestualidade no traço das figuras criadas na coleção, assim como apresentou como resultado dos processos manuais, parte das manchas gráficas utilizadas nas composições de suas ilustrações.

 

Fig. 3 – Experimentações 


Fonte: Caderno Criativo de Schirlei Martins.
 

O transitar pelas páginas do Caderno revela a criação do pensamento em rede, onde os pontos mais relevantes, aqueles que se repetem ao longo do percurso criativo, uniram-se a outros nós, tornando as informações mais pregnantes e construindo, através dessas relações, o sentido do processo criativo, seu nexo. As percepções alcançadas pela observação da criação da série Jardins Fantásticos, fortalecem a ideia de que “no fazer artístico, os processos de abordagem e os resultados não são coincidentes, porque transitam, também e essencialmente pelos campos da autoexpressão, da criação, da cultura e da subjetividade” (LOYOLA E PIMENTEL, 2017, p.2).  A coleção se materializou, por fim, na produção de 10 ilustrações que foram aplicadas  a produtos de papelaria - prints colecionáveis, cadernos de anotações e postais - enquanto 9 de seus originais fizeram parte da Exposição Artística Caleidoscópio [3] (Figura 4).

 

Fig. 4 – Originais Expostos no Museu da Escola Catarinense 

Fonte: Desenvolvido pelo autor

 

5. Conclusões

O processo de criação ainda é um ato carregado de incertezas até mesmo para a ciência. Entretanto, pela parte que se tem conhecimento, é uma atividade mental que ganha corpo na materialidade, buscando pontos de conexão relacional entre seus índices concretos para se formatar como pensamento inteligível, dotado de nexo. Para que aconteçam as ligações em rede, construídas entre as interações desse nós, o agente criador precisar lançar as abstrações no mundo real, o fazendo dos documentos processuais suportes para registrar memórias, coletar inspirações, gerar ideias e lançar suas reflexões internas e subjetivas sobre o projeto em andamento.
O Caderno Criativo apresentou-se, neste artigo, como um documento processual, assim como um artefato cognitivo, que oportuniza a transformação de um espaço ou nicho,  capaz de modificar as ações do sujeito, amplificando ou intensificando habilidades de criar. A ferramenta, que pode ser inseridas nos mais diferentes contextos profissionais, como Design, Arte, Moda e Arquitetura, também mostrou-se relevante no processo no ensino-aprendizagem, pois promove a autonomia, liberdade de expressão e autocrítica, conscientizando os agentes de seus próprios percursos criativos. 
O encadeamento de ideias, promovido pela construção e observação do Caderno Criativo, demonstrou que essa é uma potente ferramenta para o desenvolvimento de coleção. Conclui-se, através da observação da construção da Série de Ilustrações Jardim Fantástico, que o ato criador, ainda que subjetivo e intuitivo em dados momentos, envolve, em sua maior parte do tempo, esforço, intenção, experimentação e ação do sujeito diante do seu processo e que o Caderno Criativo oferece o espaço necessário para que isso aconteça.

 

Notas

[1] De acordo com Dicionário Aurélio, o termo Processo possui diferentes significados, dentre os quais a indicação de uma ação, seguimento ou curso. O termo também aponta para um método ou modo de fazer algo. Fonte: https://dicionariodoaurelio.com/processo. Acesso em: 29 nov 2017.

[2] Estudou Comunicação Visual na Escola de Belas Artes, cursou mestrado na School of Visual Arts de Nova York e frequentou o The Center for Book Arts, escola focada no livro e suas interpretações contemporâneas como objeto e suporte artístico. Desenvolveu o curso Diários Gráficos, ministrado em todo o território brasileiro. Fonte: http://alarcao.com.br/sobre/. Acesso: 30 nov 2017.

[3] Exposição Caledoscópio, realizada entre os dias 17 a 29/11/2017, no Museu da Escola Catarinense na cidade de Florianópolis/SC - Brasil, contou com as obras de 9 artistas, alunos da primeira turma de Especialização em Ilustração da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI, 2015-17). Fonte: desenvolvido pelos autores.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências Bibliográficas

AGUIAR, Daniella; QUEIROZ, João. Dancing outside the box: o papel dos artefatos cognitivos na criatividade. PÓS:Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG, Belo Horizonte, v.6, n.12, p.255-265, Nov 2016.

ALESSI, Edilene Silveira; PERRONE, Rafael A. Cunha. Os Cadernos de Desenho de Eduardo Souto de Moura. Revista: Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, FAU Mackenzie, São Paulo, v.14, n.1, p.75-88, 2014. 

BRERETON, Richard. Los Cuadernos: bocetos de disenãdores, ilustradores y creativos. Barcelona: Art Blume, 2009.

ERICKSON, Rebeca Fernandes. Sketchbook: possibilidades pedagógicas. 2015. Monografia (Licenciatura em Artes Visuais)  - Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Natal, 2015.

FRAGA, Ronaldo. Ronaldo Fraga: caderno de roupas, memórias e croquis. 2a ed. Belo Horizonte: Cobogó, 2015.

LOYOLA, Geraldo Freire; PIMENTEL, Lucia Gouvêa. O Laboratório-Ateliê: elaboração de materiais didáticos para o ensino/aprendizagem em Arte. PÓS:Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG, Belo Horizonte, v.7, n.14, p.96-107 , Nov 2017 

MAGALHÃES, Cláudio Freitas de. A Prática Reflexiva no Design Estratégico: fundamentos do Design para uma Indústria Criativa. In: COUTO, Rita Maria de Souza et al. Formas do Design: por uma metodologia interdisciplinar. 4a ed. rev. aum. Rio de Janeiro: Rio Book's, 2014.

MASTELINI, Fabíola; ALMEIDA, Ricardo Brito.  Os Diversos Desenhos no Design de Moda: a comunicação no processo criativo. Iara – Revista de Moda, Cultura e Arte, São Paulo: Centro Universitário Senac, v.8. n.2, p.73-86, Jan 2016.

MESQUITA, Valter; FREIRES, Orlando Pereira; PEREIRA, Francine Rebello. Cadernos de Processo como Ferramenta de Cerâmica e Escultura: um estudo de relações comunicativas. INTERCOM. 39O Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2016, São Paulo. Anais Eletrônicos: São Paulo: INTERCOM, 2016. Disponível em: < http://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-2226-2.pdf>. Acesso em: 26 Nov 2017.  

MORRIS, Bethan. Fashion Illustrator: manual do ilustrador de moda. São Paulo: Cosac Naif, 2007.

MUNARI, Bruno. Das Coisas Nascem Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

ORTEGA, Artur Renato. O Croqui [Sketch Book] como método de Projeto. PROJETAR 2005 – II Seminário sobre Ensino e Pesquisa em Projeto de Arquitetura, 2005, Rio de Janeiro. Disponível em: <http://projedata.grupoprojetar.ufrn.br/dspace/bitstream/123456789/1216/1/041%20ORTEGA_A.pdf> Acesso: 27 Nov 2017.

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado: o processo de criação artística. 4a edição. São Paulo: FAPESP: Annablume, 2009. 

____________________. Redes de Criação: construção da obra de arte. 2a. São Paulo: Editora Horizonte, 2006.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Roman, S. Rech, S. Beirão-Filho, J. Silveira, I. ; (2018) O Caderno Criativo como Ferramenta no Desenvolvimento da Coleção Jardim Fantástico. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt