Design no Mercado - Uma experiência de aprendizagem baseada num projeto

Design at the market - A project-based learning experience

Correia, V. Barradas, V.

ESTG-IPP - Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Portalegre
ESTG-IPP - Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Portalegre

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo apresenta uma experiência pedagógica promovida por duas docentes da licenciatura em Design de Comunicação do Instituto Politécnico de Portalegre (IPPortalegre), junto dos alunos finalistas do curso. A experiência consistiu num projeto de design destinado a criar uma solução simples de embalagem apropriada a vários produtos vendidos no Mercado de Portalegre, e que, em simultâneo, pudesse funcionar como um meio de divulgação do curso de Design de Comunicação. Como metodologia seguiu-se uma adaptação do modelo de aprendizagem baseada em projetos, procurando explorar principalmente o desenvolvimento da autonomia e a colaboração entre estudantes.

PALAVRAS-CHAVE: design de comunicação; aprendizagem baseada em projetos.

ABSTRACT: This article presents a pedagogical experience promoted by two professors of the Communication Design course, from the Polytechnic Institute of Portalegre, together with the final year students of the course. The experience consisted of a design project conceived to create a simple packaging solution suitable for several products sold in Portalegre Market, and which could simultaneously serve as a means of advertising for the Communication Design course. This pedagogical experience followed an adaptation of the project-based learning model, seeking to explore mainly the development of autonomy and collaboration among students.

KEYWORDS: communication design; project-based learning.

1. Introdução

A realização da 10ª edição da Feira de Emprego e Empreendedorismo ENOVE+, a 8 e 9 de Novembro de 2017, promovida pelo Instituto Politécnico de Portalegre (IPPortalegre) trouxe a possibilidade de desenvolver uma experiência pedagógica diferenciada com alguns estudantes da licenciatura de Design de Comunicação desta instituição de ensino. A iniciativa partiu das autoras deste artigo e de um grupo de alunos voluntários.
O IPPortalegre organiza a ENOVE+ há 10 anos consecutivos, e as sucessivas edições da feira têm sido realizadas em várias localidades do distrito de Portalegre, incluindo Estremoz (2016), Ponte de Sor (2015) e Alter do Chão (2014), entre outras. A primeira, em 2008, foi organizada pela Associação de Desenvolvimento Regional do IPPortalegre e teve lugar na cidade de Portalegre. O Gabinete de Empreendedorismo e Emprego do IPPortalegre colaborou na organização das edições de 2011 a 2013, e em 2014 passou a assumir a responsabilidade na íntegra. Num texto de apresentação pode ler-se que a ENOVE+ «é uma iniciativa inovadora e encorajadora, que surge com a perspetiva de criar oportunidades, promover e debater o ensino superior, o emprego e o empreendedorismo (…) foi desenhada para estimular uma cultura empreendedora apresentando, aos visitantes, perspetivas de formação académica e de carreira futuras. (…) assume, assim, o desafio de despertar a vontade e a capacidade de empreender na nossa região, criando, em simultâneo, um espaço de encontro para a dinamização do mercado de trabalho e para a apresentação de possíveis percursos de formação, para alunos e profissionais.» [1]
Na edição de 2017, a que se refere este artigo, a ENOVE+ regressou à cidade de Portalegre e teve a particularidade de acontecer no espaço do Mercado Municipal de Portalegre, onde decorrem regularmente atividades de comercialização de produtos alimentares produzidos na região. Neste ano o balanço realizado pelo IPPortalegre aponta para mais de cinquenta expositores, cerca de 4 mil visitantes, com grande representação das escolas do concelho. [2]
O curso de licenciatura em Design de Comunicação do IPPortalegre tem estado representado nas várias edições desta feira, com exposição de trabalhos académicos realizados pelos alunos do curso, workshops de temáticas exploradas no curso, e outras atividades. Procurando-se em todas as edições que os alunos tenham um papel interventivo nos processos e que a Feira seja espaço de partilha de conhecimento entre os alunos dos vários cursos do IPPortalegre, bem como entre os alunos e o tecido empresarial. A natureza do evento tem permitido uma troca de saberes e experiências que incentiva a pensar a cada edição uma nova forma de estar na feira e marcar a presença do curso de Design de Comunicação.
Este ano em particular decidiu-se explorar uma situação um pouco distinta das anteriores, procurando por um lado estimular um trabalho mais autónomo por parte do grupo de estudantes disponível para trabalhar nesta iniciativa e por outro, orientar a presença do curso para a interação com as atividades típicas do Mercado Municipal de Portalegre. Além dos lojistas que têm espaços comerciais em permanência neste espaço, duas vezes por semana, produtores locais ocupam o piso 0 do Mercado com os seus produtos. 
Assim, a questão colocada pelas duas docentes ao grupo de alunos foi, como é que a licenciatura de Design de Comunicação poderá estar representada nesta feira de emprego e empreendedorismo, de uma forma ativa e que promova a interação com as atividades próprias do Mercado de Portalegre? 


2. Modelo de aprendizagem baseada em projetos

A abordagem explorada nesta proposta pedagógica procurou guiar-se por alguns dos princípios propostos no modelo de «aprendizagem baseada em projetos», usando-o como um acréscimo às metodologias projetuais usualmente desenvolvidas nas atividades de ensino-aprendizagem do curso. 
A designação «project-learning» deriva do trabalho de John Dewey, e William Kilpatrick terá sido o primeiro a usar o termo em 1918. Desde então a aprendizagem baseada em projetos tende a ser vista como uma categoria ampla que pode assumir várias formas e combinações (Larmer, 2014):
. projetar e/ou criar um produto ou uma manifestação tangível;
. resolver um problema do mundo real (simulado ou autêntico);
. investigar um tópico ou um problema para desenvolver uma resposta a uma pergunta aberta.
Como vários autores fazem notar (Krauss e Boss, 2013), (Larmer, 2014), a metodologia proposta na aprendizagem baseada em projetos é facilmente confundida com outras formas de aprendizagem assentes na atividade ou na experiência. No entanto, este artigo não explora essas sobreposições e foca-se no modelo proposto pelo Buck Institute for Education (BIE) [3],  tal como é descrito no artigo de Larmer e Mergendoller (2015). Trata-se de uma atualização de modelos anteriores, que foram sofrendo adaptações resultantes da investigação contínua sobre o processo, as suas variáveis e possíveis aplicações.  
Conforme o próprio nome indica, o modelo de aprendizagem baseada em projetos organiza o processo de aprendizagem em torno do desenvolvimento de projetos. De acordo com Jones, Rasmussen e Moffitt (1997) e Thomas (2000), os projetos são constituídos de tarefas complexas, e tem por base questões desafiadoras ou problemas, que envolvem os estudantes em situações de design, resolução de problemas, tomada de decisões ou atividades de investigação, dando aos alunos a oportunidade de trabalhar de forma relativamente autónoma durante determinados períodos de tempo e culminando em produtos concretos ou apresentações realistas. Estes aspectos não são propriamente novos no processo de ensino-aprendizagem típico de um curso do ensino superior politécnico na área do Design, uma vez que o desenvolvimento de projetos é uma constante essencial à formação de um designer. No entanto, a revisão e aplicação de alguns dos princípios do modelo proposto pelo BIE (Fig.1) nesta experiência concreta permitiu realizar uma reflexão sob uma perspectiva diferenciada. 
 


3. Exploração no projeto

Começa-se por destacar um conjunto de «condições» inerentes a este modelo de aprendizagem baseada em projetos e que se mostrou apropriado à experiência pedagógica descrita neste artigo:
« . Os alunos integram-se num grupo de pesquisa e desenvolvem trabalho num contexto social;
. Os alunos são chamados a evidenciar capacidades de gestão de tarefas e de tempo quer individualmente quer como parte do grupo;
. Os alunos conduzem o seu próprio trabalho e monitorizam a sua própria aprendizagem;
. Os alunos valorizam o trabalho profissional do académico, do investigador, do engenheiro, do repórter, do planificador do gestor e de outros intervenientes.» [4] 
Estas condições foram observadas no projeto que os estudantes do curso de Design de Comunicação desenvolveram para o Mercado Municipal de Portalegre no âmbito da feira ENOVE+ de 2017. Revelaram-se importantes na definição da experiência, ajustadas ao que se esperava desta iniciativa e capazes de proporcionar bons resultados finais. 

 

Fig. 1 – Adaptação do modelo de aprendizagem baseado em projetos do BIE


 


Como foi referido acima, a questão inicial que despoletou o projeto desenvolvido pelo grupo de estudantes foi avançada pelas docentes - ao contrário de outras situações de aprendizagem que seguem este modelo, onde são os estudantes a definir temas do projeto a desenvolver, de acordo com os seus interesses. No entanto a adesão do grupo de estudantes à questão apresentada foi entusiasta, assumindo-a de imediato como sua.  
Desde o início do projeto, a investigação desenvolvida foi intensiva e iterativa, incidindo principalmente sobre as atividades do Mercado e os produtos lá comercializados, e sobre os constrangimentos materiais associados aos meios disponíveis para produção de soluções viáveis. Esta fase de pesquisa permitiu que os estudantes desenvolvessem as suas competências de investigação, que se aproximassem das especificidades do contexto social associado às atividades do Mercado e que aprofundassem conhecimentos ligados à produção de objetos de comunicação finalizados e disponibilizados ao público. O tipo de investigação desenvolvida também permitiu verificar a autenticidade dos principais fatores envolvidos neste projeto – desde o contacto prévio com profissionais de diferentes áreas, pequenos comerciantes, lojistas, com a organização da feira, com os responsáveis pela produção dos materiais finais, até à vivência das atividades dos dias em que a feira decorreu. 
Durante o decorrer  do projeto, as docentes envolvidas procuraram incentivar a autonomia do grupo de estudantes, incitando o recurso às competências e conhecimentos já adquiridos, mas não interferindo nas opções e definições criativas que conduziram ao resultado final, assegurando assim que o mesmo espelha as escolhas e a voz dos estudantes. No entanto, houve momentos de incentivo à reflexão sobre as várias opções possíveis face à questão inicial e ao reconhecimento do contexto social e dos constrangimentos materiais entretanto adquiridos. A reflexão realizada numa fase mais avançada do projeto naturalmente implicou a crítica e revisão de algumas das escolhas e propostas equacionadas, permitindo aperfeiçoar o resultado final do projeto – o produto público.


4. Resultados do projeto

A apresentação pública do produto criado aconteceu nas primeiras horas da feira ENOVE+, durante o período de maior movimento no Mercado de Portalegre. Os estudantes envolvidos no projeto fizeram a distribuição das peças pelos pontos de venda no mercado e puderam desde logo verificar a receptividade por parte dos vendedores. Mais tarde puderam igualmente constatar o interesse demonstrado pelos comparadores. Fizeram também um registo fotográfico dos vários momentos da ação no Mercado, dos quais se destacam alguns abaixo. 
 

Figuras 2 | 3 | 4 | 5  – Captação da ação no local

 

 

Face à recepção muito positiva de vendedores e compradores considera-se que as peças criadas revelaram-se eficazes, cumprindo as duas funções inicialmente previstas – uma forma de embalagem versátil, adaptável a muitos dos produtos comercializados no Mercado, e também um objecto de divulgação do curso de Design de Comunicação. 

 

Figuras 6   – Captação da ação no local


5. Conclusões

Esta experiência pedagógica revelou-se positiva sob vários pontos de vista: para os estudantes envolvidos favoreceu o sentido de autonomia e permitiu que aumentassem as suas competências de desenvolvimento de projetos em colaboração; constitui também um novo cenário de aprendizagem e de envolvimento num contexto social real, permitindo o trabalho num projeto concreto e concretizado e o contato com todo o tipo de constrangimentos associados à organização e produção associados a uma iniciativo do género; concedeu ainda aos estudantes a possibilidade de verificar presencialmente a resposta dos vários público às peças criadas. Para as docentes envolvidas proporcionou a possibilidade de participar numa experiência pedagógica diferenciada, observar de perto e analisar o desenrolar de todo o processo, verificando o interesse do modelo da aprendizagem baseada em projetos proposto pelo BIE, com muitas semelhanças às metodologias de ensino-aprendizagem desenvolvidas no curso de Design de Comunicação. Acrescenta-se ainda o contributo positivo desta iniciativa para as dinâmicas da feira ENOVE+ e do Mercado de Portalegre, e também para a representação do curso de Design de Comunicação do IPP no referido evento.

 

Agradecimentos

Estiveram envolvidos na iniciativa exposta os alunos do 3º ano do Curso de Design de Comunicação: Ana Carvalho, Andreia Loureiro, Armando Silva, Beatriz Martins, Débora Trigueiro, Inês Querido, João Melo, Lúcia Nunes, Maria Teresa Gomes, Miguel Valdez, Pavel Musteata e Tiago Borges. 
As imagens fotográficas patentes no presente artigo (figuras 2, 3, 4, 5, 6 e 7) foram captadas pelo aluno Miguel Valdez.  
Deixamos aqui registado o nosso agradecimento a todos pelo entusiasmo com que responderam à iniciativa. 

 

Notas

[1] http://www.enovemais.com/enove/apresentacao/  (acesso em Novembro 2017)

[2] http://www.ipportalegre.pt/pt/2017/11/08/10a-edicao-da-enove/ (acesso em Novembro 2017)

[3] O Buck Institute for Education é uma organização sem fins lucrativos fundada em 1987, com sede na Califórnia, beneficiária do «Leonard and Beryl Buck Trust». Desde 1998 centrou o seu trabalho de investigação e produção científica exclusivamente na metodologia da aprendizagem baseada em projetos. O trabalho que realizam nesta área é considerado uma referência, não só nos Estados Unidos da América, mas também a nível internacional.

[4] Transcrição de um documento sobre a avaliação no ensino secundário, da Direção-Geral da Educação, baseado no modelo proposto pelo BIE.
http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Secundario/Documentos/Avaliacao/aprend_baseres_probl02.pdf  (acesso em Novembro 2017)

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.


Referências bibliográficas  

Jones, B. F., Rasmussen, C. M., & Moffitt, M. C. (1997). Real-life problem solving: A collaborative approach to interdisciplinary learning. Washington, DC: American Psychological Association. 
Krauss, J. & Boss, S. (2013). Thinking through project-based learning: guiding deeper inquiry. Thousand Oaks, CA: Corwin.

Larmer, J. (2014) Project-Based Learning vs. Problem-Based Learning vs. X-BL. https://www.edutopia.org/blog/pbl-vs-pbl-vs-xbl-john-larmer  (acesso em Novembro 2017)

Larmer, J. & Mergendoller, J. R. (2015). Why We Changed Our Model of the “8 Essential Elements of PBL”, Buck Institute for Education.  https://www.bie.org/blog/why_we_changed_our_model_of_the_8_essential_elements_of_pbl  (acesso em Novembro 2017)

Thomas, J. W. (2000). A review of research on project-based learning. http://www.bie.org/images/uploads/general/9d06758fd346969cb63653d00dca55c0.pdf   (acesso em Novembro 2017)
Warren, A. (2016). Project-based learning across the disciplines: plan, manage, and assess through 1 pedagogy. Thousand Oaks, CA: Corwin, a SAGE Company.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Correia, V. Barradas, V. ; (2018) Design no Mercado - Uma experiência de aprendizagem baseada num projeto. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt