Esquissos versus Novas Tecnologias

Sketches versus New Technologies

Silva, A.

ULusíada - Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Como o designer tem de conceber e desenvolver soluções para problemas específicos que podem ser de naturezas muito diferentes, os esquissos podem constituir um suporte operativo para a reflexão conceptual, para a resolução de problemas e para a análise crítica nas várias fases do processo em design. Uma das principais questões para a qual gostaríamos de encontrar respostas é se, hoje em dia, o amplo uso das novas tecnologias não invalidará o importante papel desempenhado pelo desenho manual como instrumento estimulante no esboço das primeiras ideias e como verificação crítica das várias hipóteses. Utilizando uma metodologia baseada em inquéritos a estudantes de design e entrevistas a designers, pretenderemos verificar a permanência e a importância da utilização dos esquissos no seu trabalho quotidiano. A sobrevivência do uso do esquisso versus a actual e crescente importância das novas tecnologias é a principal questão desta pesquisa.

PALAVRAS-CHAVE: Design; Desenho; Esquisso; Novas tecnologias; Processo criativo em design.

ABSTRACT: As the designer has to conceive and develop solutions for specific problems which can be of different nature, sketches may present themselves as an operative support for conceptual reflection, problem solving and critical analyses within the several phases of the design process. One of the main questions we would like to find answers is if the nowadays wide use of new technologies doesn’t invalidate the important role played by hand drawing as a stimulating instrument when sketching the first ideas and as a critical verification of the hypotheses. Based on a survey methodology with questionnaires to design students and interviews to designers, we intend to verify the permanence and importance of sketching in their daily work. Sketching survival facing nowadays new technologies growing importance is this research main issue.

KEYWORDS: Design; Drawing; Sketching; New technologies; Design creative process.

1. Introdução

Este artigo decorre de um projeto de investigação de pós-doutoramento em Design actualmente em curso, motivado pela necessidade de produzir reflexão sobre o Desenho. O foco da presente pesquisa é analisar a importância do uso dos esquissos no decorrer do processo em design. Através do estudo de textos de vários autores, pretendemos investigar não só a permanência do uso dos esquissos no passado e no presente, mas também o seu possível uso no futuro. A partir desta abordagem teórica também pretendemos verificar a relevância do ensino de desenho manual na formação dos futuros designers, apesar das mudanças de paradigma que emergem das mudanças dos tempos. Também queremos averiguar se os esquissos podem constituir-se como estímulo mental durante o processo criativo. Com base numa metodologia de pesquisa com dois momentos diferentes, sendo o primeiro um inquérito baseado num questionário aplicado a estudantes de licenciatura e o segundo, um grupo de entrevistas semi-estruturadas aplicadas a designers, para verificar a permanência e a importância da utilização dos esquissos no seu trabalho quotidiano, apesar do uso e do progresso das novas tecnologias. Pretendemos obter algumas respostas que nos poderão ajudar a definir de uma forma mais precisa os futuros ajustes nos métodos de ensino do Desenho para os cursos de Design. Apresentamos aqui as primeiras etapas deste projecto de investigação.

 

2. Esquissos Versus Novas Tecnologias

Os esquissos tem sido usados ao longo dos tempos, especialmente desde o Renascimento em Itália quando o desenho começou a assumir um papel mais importante como base da criação. Nesse período, o desenho assumiu o seu caráter intelectual e alguns autores dessa época, como Alberti ou Vasari, consideraram o desenho como algo que previamente concebido pelo cérebro é depois expresso através da mão. (Moreira da Silva, 2010).

 

Fig. 1 – Esquissos de Leonardo da Vinci (1452-1519)  

            


 Fig. 2 – Esquissos de Michelangelo (1475-1564)            

 

Desde então, os esquissos surgem sempre como base da produção criativa não só nas artes plásticas, mas também nos projetos de arquitetura e de design. 
Encontramos referência ao Desenho na própria origem da palavra Design. 'Designare' é uma forma verbal em Latim, que abrange simultaneamente o significado de "designar algo" e o de "desenhar algo". Nas suas origens, o termo tem assim um duplo sentido: um aspeto mais abstrato de "atribuir, conceber, projetar" e outro de natureza mais concreta de "registrar, configurar, formar". (Denis, 2000)
O designer tem de conceber soluções para problemas práticos que podem ser de natureza muito diversa. Durante todo o complexo processo que vai do imaginar de um artefacto até à sua implementação, ele possui um instrumento essencial para o ajudar a desenvolver as ideias: o desenho.
Bryan Lawson (2004) após analisar o processo de trabalho dos designers na sua obra “What Designers Know” afirma que os projetistas estão inseparavelmente ligados aos desenhos ao longo de todo o seu processo criativo.

 

 Fig. 3 – Esboços para cadeiras, Charles Eames (1946)

 

Os esboços têm vindo a ser utilizados por gerações de arquitetos e de designers. Os esquissos além de se constituírem como a base inicial do processo de geração de ideias, também permitem desenvolver o projeto a partir dessas ideias iniciais. Através do desenho manual podemos facilmente criar, visualizar, analisar, combinar, cruzar, comparar, criticar, selecionar e desenvolver as ideias para futuras soluções nas várias áreas do projeto. Assim o desenho pode ser o instrumento-chave de criação e controle, também desempenhando um papel crítico no desenvolvimento dos projetos.
Nigel Cross (2005) afirma que os desenhos são a chave do processo criativo em design. Nas fases iniciais constituem uma comunicação consigo mesmo, uma espécie de pensamento em voz alta, nas fases seguintes todo o processo conceptual é baseado no desenvolvimento das ideias através de sua expressão externa em esboços.  
Ortega e Weihermann (2017) concluíram que, quando os estudantes da licenciatura fazem os seus esboços para os projetos, revelam-se novas qualidades e relações antes não imaginadas.

 

 Fig. 4 – Sketches iniciais de Mike Rohde, para a concepção de um saco (2009)

 

 Fig. 5 – Sketches iniciais de Mike Rohde, para a concepção de um saco (2009)


 

Segundo Rohde (2011) o esquisso é uma poderosa ferramenta para o pensamento visual e que adicionar esboços ao processo em design é uma excelente forma de ampliar as ferramentas de software e de hardware. Ele conclui que o uso de esboços durante o processo criativo revela o papel fundamental que o desenho desempenha no desenvolvimento de um projeto de design e a permanência da importância do desenho manual numa época dominada pelos meios digitais. Para Rohde, os esboços podem funcionar como uma ferramenta de pensamento visual e como um linguagem primária para capturar pensamentos, explorar ideias e depois comunicar essas ideias aos outros. Assim o esquisso fornece um espaço único que pode ajudar-nos a pensar de forma diferente, a gerar várias novas ideias rapidamente, a explorar alternativas e a promover discussões construtivas com colegas e clientes. 

 

 Fig. 6 – Sketches de Mike Dutton para um Google doodle. (2014)


 

O uso das novas tecnologias não invalida o papel importante desempenhado pelo desenho manual, tanto na fase inicial de registo das primeiras ideias como durante a posterior fase de desenvolvimento e, também na análise crítica das diferentes hipóteses.
As recentes mudanças nos processos em design, devido ao contexto histórico contemporâneo onde as novas as tecnologias são tão importantes, justificam uma alargada discussão sobre o importante papel desempenhado pelo desenho nos cursos de design, adaptados ao novo paradigma. (Norman, 2010) 
Para um designer, o sketchbook não serve apenas para desenhar, mas também para registar e ordenar os pensamentos, para reunir graficamente informações e para procurar soluções a um problema de design através do processo criativo.
Numa pesquisa anterior abordando esse assunto, concluímos que o desenho atinge os mais variados objetivos, tais como:
•    modo de comunicar;
•    meio de descoberta;
•    processo de interiorização;
•    método gráfico de estudo;
•    processo de observação e registo;
•    ferramenta de pesquisa;
•    meio privilegiado para a comunicação de ideias;
•    link no processo mental e criativo.
Assim, a importância do desenho assume um amplo sentido, conferindo ao ato de desenhar a capacidade de se tornar um meio de múltiplos recursos. 
Para Schön (2000), a prática do desenho manual vai muito além simples representação das ideias, abrange o desenvolvimento do conhecimento a partir da perceção e da análise do próprio desenho, considerando o esquisso como um instrumento que até permite a reflexão em ação. 
Ao analisar e comparar o desenho manual e o desenho de base digital e o processo tendo em consideração o processo criativo, Roome (2011) considera que o que é verdadeiramente interessante é a possibilidade de fertilização cruzada entre as plataformas tradicionais e as digitais.
Frank Gehry é, entre os arquitetos contemporâneos, um dos que mais utiliza as novas tecnologias para produzir as suas obras, no entanto, ele usa sempre os esquissos para desenvolver as suas ideias.

 

 Fig. 7 – Esquissos de Frank Gehry para o edifício da Fundação Louis Vuitton Paris (2006)


 

Segundo o arquiteto Jean Nouvel, a sua mais recente obra, o Louvre de Abu Dhabi inaugurado em finais de 2017, começou a ganhar forma a partir de simples esboços feitos sobre um guardanapo de papel durante uma refeição num restaurante.

 

Fig. 8 – Sketches de Jean Nouvel para o Louvre de Abu Dhabi (2011)


 

Este é um exemplo da versatilidade do desenho manual em termos de utilização: podemos desenhar em qualquer suporte e com qualquer riscador, a qualquer hora e em qualquer lugar. 

 

Fig. 9 – Sketches de Jean Nouvel para o Louvre de Abu Dhabi (2011)

Fig. 10 – Sketches de Jean Nouvel para o Louvre de Abu Dhabi (2011)


 

 

Graças às novas tecnologias, também poderemos usar um “tablet” como suporte para nossos esboços, no entanto, a mão continua a funcionar como uma extensão da criatividade humana.
Hamilton (2009), reconhece que o desenho manual está associado à criatividade e que o seu valor reside em permitir que essa nossa capacidade individual se expresse e possamos criar continuamente, ampliando a auto exploração das ideias e o nosso pensamento criativo através do ato de desenhar, juntando ideias interessantes e conhecimentos técnicos, aprimorados pela assistência e interação com as novas tecnologias.
Pedro Domingos, especialista em inteligência artificial, no seu recente livro, “O Algoritmo Mestre” (2017), fala sobre os extraordinários avanços da inteligência artificial e sobre o seu promissor futuro, mas, como ele menciona ao longo deste livro, a inteligência artificial está a desenvolver-se na direção da aprendizagem automática, mas ainda não é capaz de criar algo completamente novo, sendo essa a verdadeira essência da Criatividade. 
A aprendizagem automática baseada na inteligência artificial pode ampliar os nossos conhecimentos e integrar múltiplos componentes de aprendizagem, podendo ser muito útil para gerar pensamentos criativos a partir da pesquisa e do conhecimento, mas, a criatividade é algo mais além do saber, é uma capacidade única e especial intrínseca ao ser humano. 

 

3. Conclusões

Podemos concluir, a partir das fases iniciais desta pesquisa, que as novas tecnologias oferecem aos designers novos meios para os seus projetos, o que lhes permite economizar tempo e lhes pode facilitar muitas das tarefas da prática quotidiana, tornando-se mesmo indispensáveis nalgumas fases do trabalho. No entanto, esses novos meios não substituem o desenho manual que tem vindo a assumir-se como "camaleónico" ao longo dos vários períodos históricos, numa constante adaptação à mudança dos tempos e, especialmente, por os esquissos incorporarem uma dimensão simultaneamente criativa e crítica no processo de concepção em design.
Vários autores pesquisaram e escreveram sobre a importância do desenho manual no processo criativo em design e vários projetistas referem a permanência e a importância dos esquissos na sua prática quotidiana.
Apesar da mudança de paradigma imposta pela mudança dos tempos, o desenho manual tem permanecido inseparável do ensino dos designers e da sua prática profissional, assumindo-se um suporte operacional essencial na prática do projeto que continua a ser a base do design.
As novas tecnologias até podem constituir um estímulo para as capacidades criativas, mas não invalidam o importante papel dos esquissos no processo criativo. Ao executar um desenho o Ser Humano faz escolhas constantes, toma opções, compõe, cruza e recompõe, selecionando criticamente o que e como quer comunicar, tanto na representação da realidade como na sua transformação criativa (interpretação / invenção). Os desenhos podem mostrar as aparências das coisas como elas foram experienciadas por quem desenha, evocando alguns aspetos da existência humana e apreendendo os significados mais profundos do que está a ser objeto de análise. A experiência do desenho à mão livre também pode proporcionar uma atenta tomada de consciência e adicionar o valor da reflexão sobre as coisas.
Embora não nos seja possível prever o que o futuro nos poderá trazer no campo da inteligência artificial, a capacidade criativa que os esquissos podem desencadear não poderá ser facilmente substituída por “máquinas inteligentes” num futuro próximo.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências Bibliográficas

Cross, N. (2005) Engineering Design Methods, Strategies for Product Design, John Wiley & Sons Ltd. Chichester, England. 

Denis, R. C. (2000), Uma Introdução à História do Design, Blucher, São Paulo. 

Domingos, P. (2017) A Revolução do Algoritmo Mestre, Manuscrito Editora, Lisboa.
Hamilton, P. (2009) Drawing with printmaking technology in a digital age. http://www.lboro.ac.uk/microsites/sota/tracey/journal/dat/images/paul_hamilton.pdf

Lawson, B. (2004), What Designers Know, Elsevier, Oxford. 

Moreira da Silva, A. (2010), De Sansedoni a Vasari: um contributo para o estudo do Desenho como fundamento do processo conceptual em Arquitectura, Universidade Lusíada Editora, Lisboa.

Norman, D. (2010) Why Design Education must change. http://www.core77.com/blog/columns/why_design_education_must_change_17993.asp

Ortega, A. R., and Weihermann, S. (2017) Graphic dialogues: The progress of knowledge in design in architecture studio. In: Progress(es) – Theories and Practices. Kong, M. S. M. and Monteiro, M. R. (eds), pp. 111—114. CRC Press, Taylor & Francis Group, London, UK. 

Rohde, M. (2011) Sketching: the Visual Thinking Power Tool. http://alistapart.com/article/sketching-the-visual-thinking-power-tool

Roome, J. (2011) Digital Drawing and the Creative Process. http://www.lboro.ac.uk/departments/ac/tracey/ tracey@lboro.ac.uk

Schön, D. (2000) Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem, Artes Médicas Sul, Porto Alegre. 

http://www.saadiyat.ae/en/inspiration-details/3/Louvre-Abu-Dhabi
 

Reference According to APA Style, 5th edition:
Silva, A. ; (2018) Esquissos versus Novas Tecnologias. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (21) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt