Eu serei violinista – método de Shalman aplicado ao ensino/aprendizagem do violino

I will be a violinist– Shalman’s method applied to teaching/learning of violin

Kurtash, O. Castilho, L. Machado, J.

CMCB - Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga
IPCB/ESART / CESEM - Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco / Centro de Estudo de Sociologia e Estética Musical
IPCB/ESART - Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O Ensino Artístico Especializado foi criado com o intuito de se poder promover uma educação artística no nosso país. Existe, também, oferta de regime de iniciação (primeiro ciclo), porém, sem financiamento total, originando assim a existência de alunos com diferentes níveis no 1º grau. Os métodos de ensino do violino mais utilizados e conhecidos em Portugal não têm uma aplicabilidade eficiente para o sistema existente, pois, sendo esses de autores estrangeiros, foram criados para realidades diferentes e estão adaptados a idades mais precoces relativamente à entrada no 1º grau (5º ano de escolaridade). Teve-se conhecimento de um método criado por S. Shalman. Neste, o autor afirma que os alunos que começam as suas aprendizagens violinísticas em idades mais avançadas conseguem, com ajuda deste método, recuperar rapidamente o nível correspondente ao da sua idade. Esta investigação teve como objetivo verificar se o método é aplicável à realidade portuguesa e se consegue dar resposta às necessidades do sistema existente.

 

PALAVRAS CHAVE: Iniciação ao violino; Método; Shalman; Ensino de música; 2º ciclo de escolaridade.

ABSTRACT: The Specialized Artistic Education was created with the intention of being able to promote an artistic education in our country. There is also an initiation regime (first cycle), however, without total funding, causing the existence of students with different levels in the first grade. The most widely used and well-known violin teaching methods in Portugal do not have an efficient applicability to the existing system, because the authors of those methods were foreign, the methods were created for different realities and adapted to earlier ages than the entry into the first degree (5th grade). Being aware of a method developed by S. Shalman, a Russian violin educator, in which the author affirms that students who begin their violin learning at more advanced ages can, with the help of this method, quickly reach the corresponding level to their age. The objective of this research was to verify if this method is applicable to the Portuguese reality and if it´s able to respond to the needs of the existing system.

 

KEYWORDS: Violin initiation, Method, Shalman, Music teaching, 2nd cycle of education

1. Introdução

O estudo de investigação com o tema: “Eu serei Violinista - método de Shalman aplicado ao ensino/aprendizagem do violino” está inteiramente ligado à iniciação das aprendizagens violinísticas no 1º grau do Ensino Artístico Especializado.

Tendo em conta a dificuldade com que muitos professores de violino se deparam para levarem os seus alunos do 1º grau sem iniciação a conseguir cumprir o programa estabelecido, elaborou-se uma investigação com o objetivo de encontrar uma alternativa aos métodos que já existem no nosso país e um apoio para os docentes nesta área.

Após pesquisa, optou-se pelo método de Shalman (1987) “Eu serei violinista”, pois, segundo o seu autor, Savely Markovic Shalman, este promove uma evolução mais célere nos alunos que começam as suas aprendizagens violinísticas em idades mais avançadas. Partimos do pressuposto que este método poderia ter bons resultados, visto estar a ser aplicado, há muitos anos, pelo seu autor, na escola especial do Conservatório de São Petersburgo, na Rússia, com resultados excelentes, como o provam os vários prémios ganhos pelos seus discípulos.

Optou-se por uma metodologia de investigação-ação para verificar a viabilidade do método e a sua aplicação no Ensino Especializado da Música. Dessa forma, procedeu-se a aplicação do método a três alunos de violino do 1º grau, a começar as suas aprendizagens, em aulas de regime integrado com uma carga horária de uma aula semanal com a duração de 45 min.

Para além da aplicação, procurou-se entender como é que os professores de violino lidam com esta problemática e que tipos de metodologia aplicam, bem como apurar os resultados máximos atingidos pelos seus alunos. Para tal, foi realizado um inquérito por questionário direcionado aos professores de violino do Ensino Artístico Especializado. Essa também foi uma maneira de poder comparar os resultados obtidos durante a aplicação do método com o que tem sido feito até agora.

 

1.2. Problema

O Decreto-Lei nº 344/90, de 2 de novembro, faz uma distinção entre dois tipos de ensino de música em Portugal. No ensino regular, a música destina-se a todos os alunos, sendo parte integrante da sua formação geral, independentemente de talentos ou capacidades específicas. Já a música no Ensino Artístico Especializado é direcionada para alunos que possuem capacidades e aptidões, sendo esta uma “via de estudos artísticos aprofundados e profissionalizantes”. Esse tipo de ensino foi estruturado e uniformizado pelo Decreto-Lei nº 310/83, de 1 de julho.

Dessa forma, o ensino da música em Portugal é financiado a partir do 2º ciclo (5º ano de escolaridade). “Entende-se por educação artística vocacional a que consiste numa formação especializada, destinada a indivíduos com comprovadas aptidões ou talentos em alguma área artística específica” - Decreto-Lei nº 344/90, de 2 de novembro, artigo 11º. 

Nos ensinos da música e da dança, há uma educação artística e um adestramento físico específico, que têm de iniciar-se muito cedo, na maior parte dos casos até cerca dos 10 anos, constituindo assim uma opção vocacional precoce em relação à generalidade das escolhas profissionais, que só vêm a realizar-se cerca dos 15 ou 16 anos, na entrada para o 10º ano de escolaridade.

(Decreto-Lei nº 310/83, de 1 de julho)

 

Na maior parte dos conservatórios nacionais, bem como instituições que fornecem o mesmo tipo de ensino, mais localizado em centros de concelho, através de contratos de associação com o Ministério de Educação, existe o regime de iniciação. Este é direcionado para crianças entre 6-10 anos de idade, no entanto, não tem o total financiamento do estado, o que por sua vez limita a frequência deste regime. Nesse sentido, os alunos que frequentaram o nível de iniciação, ao entrarem para o 2º ciclo de escolaridade, já conseguem ter uma boa base de início das aprendizagens ou até mesmo apresentarem um nível técnico superior ao 1º grau.

Porém, hoje em dia, ainda é muito frequente a entrada para o ensino especializado da música sem quaisquer bases musicais anteriores. Nesta situação, é muito grande a dificuldade de cumprimento dos objetivos mínimos estabelecidos pelo programa, havendo professores que consideram o início das aprendizagens aos 10 anos como uma idade tardia. Esta idade também é considerada avançada nos países da Europa de Leste, que têm uma forte cultura musical, com base nas influências da União Soviética. As mesmas foram mantidas após o seu termo e o ensino musical é incutido e apoiado desde tenra idade.

Num estudo realizado através de entrevistas aos vários professores em 2010, Trindade concluiu que:

89% considera que o início aos 10 anos de idade é “tarde” ou “um pouco tarde” para começar a tocar violino; apenas 11% considera que é igualmente possível começar aos 10 anos assim como começar mais cedo. Para isso, basta terem força de vontade porque a maturidade supera as dificuldades técnicas, são mais rápidos a adquirirem conhecimentos, são mais cerebrais e têm mais controlo sobre si mesmos. Os restantes 89% de professores não partilham desta opinião; embora haja quem “enalteça” a democratização do ensino, alguns professores admitem constatar que para além do currículo estar desajustado, e quase obrigar estes alunos a desistirem porque não conseguem acompanhar o grau de exigência, surgem obstáculos que deveriam ter sido ultrapassados na Iniciação.

(Trindade, 2010, pp85-86)

Nogueira (2015), no seu estudo sobre ensino integrado da música, faz referência ao decreto-lei acima mencionado (Decreto-Lei nº 310/83, de 1 de julho), apresentando também vários pontos de vista de autores, como, Gordon, Ericsson, Hambrick, entre outros. A partir destes, tira a conclusão de que:

…a necessidade de precocidade está intrinsecamente relacionada com a conceção de aptidão adquirida, uma vez que, quanto mais cedo se iniciar a formação, mais cedo se acumulam as horas necessárias e se tornam possíveis as adaptações fisiológicas necessárias. Por seu turno, na conceção de aptidão inata, a precocidade prende-se com a ideia de seguir a vocação, dedicar-se ao desenvolvimento do seu talento nato.

(Nogueira, 2015, p.48)

Ao mesmo tempo que tem vindo a decorrer a situação acima descrita, existe uma carência muito grande de métodos de aprendizagem para o 1º grau adaptados à iniciação tardia à aprendizagem do violino. Este tipo de ensino exige um acompanhamento muito adequado e um percurso que seja “fácil”, rápido e eficaz nas aprendizagens, para o aluno conseguir cumprir os objetivos estabelecidos pelo programa.

Com base nesta informação, surgiram as seguintes questões de investigação:

  • Será que o método de Shalman tem aplicabilidade no ensino/aprendizagem da iniciação ao violino?
  • Se sim, será que com o método de Shalman se consegue colmatar uma iniciação mais tardia da aprendizagem do violino?

Nesse sentido, nesta investigação tem-se como objetivos:

  • Adotar o método “Eu serei violinista” para garantir uma aprendizagem progressiva para iniciação ao violino no 1º grau.
  • Procurar soluções pedagogicamente viáveis para uma evolução gradual e célere do aluno.

 

2. Metodologia

Tendo em conta o problema e os objetivos de estudo, o seu processo consistiu numa investigação-ação. Nesse sentido, a investigação foi aplicada à três alunos de violino a começar as suas aprendizagens no 1º grau do Ensino Artístico Especializado. Durante um ano letivo, foi aplicado o método “Eu serei violinista” de Shalman aos três alunos. Sendo o método constituído por 33 conversas, o livro não foi terminado nas aulas. Isso deve-se ao facto de este estar direcionado para os primeiros 4 anos de aprendizagem. Nesse sentido, este foi aplicado ao ponto de cumprir com os objetivos mínimos estabelecidos para o 1º grau.

Como instrumentos de recolha de dados criaram-se grelhas de observação que foram preenchidas semanalmente pelo professor/investigador a partir da observação direta das aulas de instrumento. Estas consistiam na observação dos conteúdos programáticos, mais propriamente as questões técnicas.

Na coluna do lado esquerdo, estão discriminados os tópicos observados, segundo as seguintes categorias: postura corporal, colocação do violino, relaxamento, braço direito, mão esquerda e questões de solfejo

A avaliação teve por base uma escala de Likert, com níveis compreendidos entre não satisfaz e satisfaz plenamente, sendo NS – não satisfaz, SM –satisfaz minimamente, S – satisfaz, SB – satisfaz bastante, SP – satisfaz plenamente e NA – não abordado.

 

Figura 1 - modelo da grelha de observação utilizada

 

No final do ano, também foi feito um pequeno relatório sobre a evolução de cada um dos alunos, no qual se descreviam os resultados máximos atingidos e a evolução que cada um teve durante o ano letivo.

Outra metodologia aplicada neste estudo foi o inquérito por questionário a professores de violino do Ensino Artístico Especializado, em que tinham de responder às questões visando um aluno do 1º grau de violino que tivesse começado as suas aprendizagens nesse mesmo grau, sem qualquer aprendizagem anterior. Tendo em conta o problema e objetivos desta investigação, o questionário teve a finalidade de aferir as metas que os alunos atingem sem iniciação musical no 1º grau do ensino vocacional, bem como as opiniões dos professores de violino sobre o ensino/aprendizagem do violino em Portugal. O inquérito era fundamental para a o cruzamento de dados entre os resultados obtidos por outros professores e os resultados obtidos pela investigação-ação baseada na aplicação do método “Eu serei violinista” de Shalman.

A nível de organização, o inquérito estava constituído por 26 perguntas subdivididas em 4 grupos, de categorias:

  • Grupo A- baseado na identificação do professor.
  • Grupo B- baseado nas perguntas sobre a prática pedagógica da pessoa inquirida.
  • Grupo C- perguntas de avaliação qualitativa dos aspetos da técnica violinística no final do ano letivo do 1º grau que tenha começado a aprender violino nesse ano.
  • Grupo D- perguntas de desenvolvimento sobre o mesmo aluno do grupo C.

 

2.1. Análise dos resultados

Conforme referido anteriormente, o método foi aplicado em três alunos, que foram denominados por aluno AS, BT e CM que frequentavam o Ensino Artístico Especializado, com o início das suas aprendizagens no 1º grau.

O método de Shalman na sua parte inicial está mais focado em exercícios técnicos, o que é muito bom para obter boas bases de postura e colocações das mãos, adquirir bons hábitos de estudo e uma rotina de execução limpa e perfeccionista. Porém, os alunos com 10 anos de idade, por norma, não têm maturidade suficiente para entender a importância da execução destes exercícios, podendo assim perder o interesse e a motivação. Nesse sentido, é através da execução de peças simples que os alunos entendem a importância, ou então, ganham necessidade para prática diária dos exercícios técnicos.

Dessa forma, o desenvolvimento da investigação não seguiu na sua totalidade o método. Achou-se por bem incluir algumas peças de outras orientações, para além das que já estão presentes no livro. Todos os exercícios técnicos, bem como as estratégias propostas pelo autor, foram aplicados e, conforme a evolução do aluno, também foram executadas peças. A escolha de repertório foi baseada no programa de violino da escola onde o método foi aplicado. Como complemento de repertório ao método, foi utilizado repertório “Stepping Stones” e “Waggon Wheels” (continuação do “Stepping Stones”) de Katherine and Hugh Colledge e “The First Year Violin Tutor” de Neil Mackay. Durante o tempo de introdução do 1º e 2º dedos, as peças que incluíam a mão esquerda eram executadas em pizzicato e com arco eram executados apenas exercícios e peças em cordas soltas. Apenas depois de o 1º e 2º dedos estarem consolidados é que se começou a juntar o arco com a mão esquerda. Após aprendido o 3º dedo, começou-se a incluir também as escalas que eram solicitadas pelo programa de violino e peças já com 3 dedos. Nesse sentido, o repertório utilizado começou a incluir também o repertório do primeiro livro do método Suzuki (Suzuki, 1978).

A recolha de dados baseou-se no preenchimento das grelhas com o registo de observação direta das aulas. Os aspetos observados são baseados em aspetos técnicos, como, as colocações de ambas as mãos, e também elementos da execução da técnica violinística, de maneira a podermos visualizar o percurso da evolução de cada aluno por período. Os resultados médios de cada período foram colocados em gráficos, para facilitar a visualização dos resultados obtidos.

A partir dos gráficos, concluiu-se que as classificações obtidas pelos alunos no 3º período em todos os aspetos técnicos variam entre satisfaz e satisfaz plenamente, exceto na questão do relaxamento, na qual o aluno CM apresentou um resultado final inferior, que corresponde a satisfaz minimamente.

Também foi possível concluir que nem todos os alunos conseguiram os mesmos resultados. De acordo com os gráficos abaixo apresentados (Gráficos 1, 2 e 3), o aluno AS é o que em média apresenta o resultado mais alto e o aluno CM apresenta em média o resultado mais baixo.

 

Gráfico 1 - Resultados finais do aluno AS

 

 

Gráfico 2 - Resultados finais do aluno BT

      

 

Gráfico 3 - Resultados finais do aluno CM

 

De forma geral, com esta investigação-ação, concluiu-se que o método aplicado promove uma evolução positiva do aluno: bons hábitos de posicionamento, colocações, afinação e bons hábitos de estudo. No caso dos alunos com dificuldades, através de indicações do autor, consegue-se promover resultados positivos na evolução do aluno. Os alunos intervenientes na investigação apresentam características muito diferentes e, mesmo assim, todos eles apresentam uma evolução positiva ao longo do ano.

No que diz respeito ao questionário, ao qual responderam 22 professores de violino, concluiu-se que, no 1º grau do EAE sem iniciação, a maioria dos professores inquiridos afirma conseguir atingir os objetivos mínimos estabelecidos pelo programa. Na questão da técnica de execução, relativamente à mão esquerda, os resultados obtidos nos aspetos levantados, como a colocação da mão e dos dedos e a afinação, apresentam resultados médios satisfatórios, com uma classificação qualitativa variável entre satisfaz-minimamente e satisfaz-plenamente, predominando a classificação de satisfaz-bastante. No que diz respeito à técnica da mão direita, os aspetos levantados foram a colocação, maneabilidade, controlo e direção do arco e cruzamento de cordas. Os resultados obtidos pelos professores nestes aspetos já abrangem uma escala com maior amplitude: entre não-satisfaz e satisfaz-plenamente. Porém, predominando sempre as classificações de satisfaz e satisfaz bastante nas respostas. Ainda assim, houve alguns inquiridos a assumir não terem abordado a questão da maneabilidade.

Averiguou-se que, durante o 1º grau, a maioria dos alunos aprende a tocar em todas as cordas, aprendendo também mais do que um golpe de arco, mais do que um padrão de mão esquerda, apenas a primeira posição e não aprendem o vibrato. Todos os professores afirmam iniciar a aprendizagem do 4º dedo ainda durante o 1º grau. Foi possível concluir que o método aplicado pela maioria dos docentes é o método Suzuki.

Para além das perguntas relacionadas diretamente com a investigação, foram feitas também algumas questões sobre o Ensino Artístico Especializado que levaram a algumas conclusões de elevado interesse. Cerca de 63,6% dos inquiridos afirmam que os seus alunos, na maioria, começaram as suas aprendizagens violinísticas em regime de iniciação.

 

Gráfico 4 - Experiência de ensino de alunos a começar as suas aprendizagens em vários ciclos de escolaridade

 

Ainda 61% dos inquiridos afirmam já ter tido ao mesmo tempo dois alunos no 1º grau com diferentes níveis. Desses, metade afirma ter utilizado os mesmos critérios de avaliação para ambos os alunos e outra metade afirmou utilizar critérios de avaliação diferentes, justificando que era uma questão muito relativa, pois o programa para o aluno sem iniciação era mais fácil ou que o aluno com iniciação foi avaliado com os critérios de avaliação do 2º grau. Para além disso, foi possível concluir que dez dos inquiridos afirmam utilizar os mesmos métodos de início de aprendizagem, dos quais alguns utilizam da mesma forma e outros utilizam de forma diferente, adaptando à idade de cada aluno. E ainda nove dos inquiridos afirmam utilizar métodos diferentes, justificando que na iniciação os alunos são imaturos e a leitura musical não é introduzida logo, existindo a possibilidade de utilização de abordagem mais abstrata, entre outros.

A partir dessas respostas, foi possível concluir que existe uma falta de uniformização destas questões a nível nacional. É claro que cada docente tem o direito de aplicar nos alunos os métodos que considera mais pertinentes, pois o mais importante é atingir os objetivos. Porém, as questões de critérios de avaliação aplicados em cada um dos casos são muito divergentes, aliás, estão mesmo divididos.

 

3. Conclusão

O presente estudo surge com o intuito de investigar a aplicabilidade de outros métodos até agora não conhecidos em Portugal, como uma ferramenta útil de apoio aos professores de violino. As questões da problemática foram levantadas com base na realidade com que nos deparamos no início da nossa carreira docente, no sentido de poder acompanhar da melhor forma os nossos alunos.

No início deste trabalho, começou-se por pesquisar e procurar entender melhor o que é o Ensino Artístico Especializado, a maneira como funciona e está estruturado no nosso país. Seguidamente, pesquisou-se os métodos mais utilizados e sugeridos pelos programas de violino dos conservatórios públicos nacionais. Assim, chegou-se à conclusão que apenas existe um método – método Suzuki e os restantes livros pedagógicos são meramente orientações tradicionais.

Um método pressupõe um conjunto de procedimentos didáticos que irão regular uma sequência de operações com um objetivo definido. “Orientações” porque não existe algo claramente estruturado, mas sim indicações que foram sendo transmitidas de professor para aluno, utilizando diferentes manuais com uma ordem arbitrária e que depende da formação e bom senso de cada professor.

(Trindade, 2010, p. 34)

Nesse sentido, concluiu-se que a melhor maneira de encontrar as respostas para as questões da problemática seria uma possível comparação com o que tem sido feito até agora (através dos questionários) e os resultados obtidos a partir da aplicação do método de Shalman (investigação-ação).

Em relação às questões de investigação “Será que o método de Shalman tem aplicabilidade no ensino/aprendizagem da iniciação ao violino?”, “Se sim, será que com o método de Shalman consegue colmatar uma iniciação mais tardia da aprendizagem do violino?”, cremos poder afirmar que o método de Shalman tem bons princípios. Os exercícios elaborados pelo autor para o início de aprendizagem do violino conseguiram garantir resposta a todos os problemas que os alunos apresentaram ao longo da sua evolução, estando, em nossa opinião, a aprendizagem muito bem estruturada com uma evolução sólida, porque se adapta ao ritmo por vezes um pouco mais lento de alguns alunos.

No que diz respeito à aplicação do método no sistema de ensino em Portugal, o método apresenta algumas deficiências no que diz respeito ao repertório. É fundamental serem executados exercícios técnicos para se obterem boas bases técnicas desde início. Este aspeto, porém, não obtém normalmente da parte do aluno uma boa resposta na questão motivacional.

A realização de peças simples é uma maneira de motivar o aluno para os exercícios técnicos. A falta de repertório é também refletida em termos logísticos no programa das provas trimestrais, pois existe uma exigência de número mínimo de escalas, estudos e peças por cada prova. A resposta encontrada durante a investigação foi a introdução de peças de outras orientações tradicionais e do método Suzuki para resolver a falta de repertório que o método apresenta no sistema de ensino em Portugal.

A segunda questão do objetivo de estudo tem a ver com o facto de o início das aprendizagens musicais ser tardio. Nesse sentido, o objetivo seria conseguir uma evolução mais célere do aluno. Porém, somos levados a concluir que o método de Shalman não dá uma resposta a esta problemática. Tendo em conta a investigação-ação, os resultados obtidos pelos alunos correspondiam apenas ao nível do 1º grau, sendo que não foi possível superar os mesmos.

Desse modo, pode-se concluir que o método de Shalman fornece boas bases para o início das aprendizagens do violino, além de promover uma evolução sólida e gradual do aluno, porém, não consegue colmatar uma iniciação de aprendizagens mais tardia.

O método em si desenvolve muito a questão da concentração e do controlo sobre os movimentos, exigência de conhecimento de todos os movimentos que o aluno deve fazer enquanto está a tocar, o que leva a bons resultados, porém, não tão céleres como foi proposto na problemática.

Também se pode concluir que o método funciona melhor em alunos que possuem mais maturidade, capacidade de organização e, principalmente, atenção. Os alunos mais atentos conseguem captar a informação mais rapidamente e no seu estudo realizar os exercícios com maior perfeição, pois possuem mais capacidade de observação e controlo dos movimentos. Acabam por ter mais noção quando fazem algo incorretamente e tentam de forma autónoma encontrar soluções para os problemas a partir das indicações captadas na aula.

Nos alunos mais “distraídos”, mas que também possuem capacidades, o método funciona bem sendo apoiados pelos pais, conforme sugerido pelo pedagogo, no estudo individual do aluno. O autor refere ainda bastantes aspetos e indicações para os Encarregados de Educação que promovem um melhor aproveitamento do estudo individual do aluno quando apoiados pelos mesmos. A presença do Encarregado de Educação na aula de instrumento é uma mais-valia, pois pode observar melhor a correta execução, chamando atenção em casa.

Nos alunos que apresentam graves dificuldades, o método funciona de forma mais lenta, no sentido em que os alunos demoram mais tempo para consolidar os aspetos técnicos. Porém, tendo em conta que o nível de dificuldade dos exercícios aumenta gradualmente, a aprendizagem acaba por ser mais simples.

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências bibliográficas

Colledge, H., & K. Colledge (1988). Stepping Stones Violin. London, New York, Berlin, Sydney: Boosey & Hawkes.

Colledge, H., K. Colledge, & Nelson, S. M. (1988). Waggon wheels: A second book of 26 pieces for beginner violinists with piano accompaniment. London, New York, Berlin, Sydney: Boosey & Hawkes Music.

Mackay, N. (1965). The first year violin tutor. London:  Stainer & Bell Ltd.

Nogueira, S. (2015). O Regime integrado de frequência do ensino especializado da música: Opção adequada para todos... ou só para alguns? Dissertação de mestrado. Porto: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Suzuki, S. (1978). Violin. Violin part volume 1. Miami: Warner Bros.

Trindade, A. S. (2010). A iniciação em violino e a introdução do método Suzuki em Portugal. Dissertação de mestrado. Aveiro: Universidade de Aveiro.

Шальман, С. (1984) Я буду скрипачом 33 беседы с юным музыкантом. Ленинград: Советский Композитор -Ленинградское Отделение[1].

 

Notas

[1] Shalman, S. (1984). Eu serei violinista 33 conversas com musico jovem. Leningrado: Compositor Soviético- Secção de Leningrado

 

Legislação Consultada

Decreto-Lei nº 344/90, de 2 de novembro, do Ministério da Educação.

Decreto-Lei nº 310/83, de 1 de julho, do Ministério da Educação.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Kurtash, O. Castilho, L. Machado, J. ; (2018) Eu serei violinista – método de Shalman aplicado ao ensino/aprendizagem do violino. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (22) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt