1927-2017, 90 Anos Depois, A Materialidade Gráfica da Revista Presença. Uma investigação com contributo histórico para o design gráfico português.

1927-2017, 90 years after, the Graphic materiality in the review Presença. A research with historical contribution to the Portuguese graphic design.

Serejo, C.

IPCA - Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O interesse, a curiosidade e a pesquisa pessoal em torno do modernismo português, em particular da revista Presença, levaram a concluir pela existência de uma lacuna ao nível do que se sabe sobre a relação entre as escolhas e decisões gráficas e o ideário modernista. Com este artigo pretende-se apresentar o essencial uma investigação de doutoramento que definiu, entre outros objetivos, o de contribuir para a história da revista Presençana perspectiva específica da área do design gráfico. Pela descoberta e clarificação de aspetos do grafismo e da expressão da tipografia foi possível evidenciar, também nesta área e a par dos conteúdos literários, artísticos e ideológicos, os fatores que permitem tê-la como exemplo do modernismo português. Na investigação apresentada, partindo do pressuposto que as capacidades compositivas e semânticas dos caracteres móveis desta revista são uma das bases da sua materialidade, procurou-se mostrar que o modo como foram utilizados, para além de visar a enfatização e o reforço dos conteúdos escritos, se constitui como uma espécie de 'narrativa paralela' de idêntico sinal estético. Em sequência, pretendeu-se também evidenciar o modernismo da revista a partir da análise crítica e interdisciplinar do seu tratamento gráfico e tipográfico. O objeto e os objetivos de investigação levaram à adoção de uma metodologia geral de estudo de caso (centrado exclusivamente na revista Presença, embora com incursões noutras revistas da época no sentido de encontrar as semelhanças e as diferenças que a confirmam como um dos exemplos do modernismo português), numa abordagem qualitativa de caráter heurístico (dada a inexistência de estudos ou de artigos sobre os aspectos gráficos caracterizadores da Presença, foi necessária a adopção de meios de procura e descoberta de informações, todas elas bastante dispersas como, por exemplo, correspondência entre os responsáveis e  com os técnicos de impressão,  conversas e entrevistas com antigos trabalhadores das oficinas gráficas, análise dos tipos de letras…), que se aproxima das preocupações filosóficas sistémicas (entendeu-se que qualquer análise, em qualquer âmbito, deveria ter como suporte todo o conjunto definidor do sistema global onde a Presença estava inserida - política e historicamente, económica e financeiramente, humana e culturalmente… - para que qualquer conclusão pudesse ter um sentido compreensível em termos mais globais e profundos do que aqueles que, por norma, oferecem as abordagens mais lineares). Para além da utilização metodologias mistas de investigação histórica em casos especificamente documentais, no âmbito geral da recolha e da análise de dados, procedeu-se à operacionalização do modelo de análise criado para organizar e relacionar a constelação dos conceitos base, cujo design se baseia na teoria da forma de Kandinsky(Bauhaus) e se configura como um diagrama multidimensional. Assim, num processo de retroalimentação das várias partes do estudo, este mesmo modelo serviu tanto ao desenvolvimento conceptual do trabalho como de guia na análise da materialidade gráfica da Presença, realçando-se o seu potencial para se adaptar à análise de outros objetos gráficos. 

PALAVRAS-CHAVE: Design gráfico, Revista Presença, modernismo, materialidade, grafismo, tipografia.

ABSTRACT: Interest, curiosity and personal research around the Portuguese modernism, particularly the magazine Presença, led to the conclusion that there is a gap in terms of what is known about the relationship between the graphic choices and graphic decisions and modernist ideas.

This study aims to contribute to the history of this magazine in the specific perspective of the graphic design area for the discovery and clarification of graphic aspects and typographic expression, also in this area and abreast of literary, artistic and ideological content, allow to have it as an example of Portuguese modernism. Assuming that the compositional and semantic capabilities of the mobile character of this magazine are one of the foundations of its materiality, we tried to show that the way they were used, in addition to aim at emphasizing and strengthening of written content, constitutes as a kind of 'parallel narrative' with identical aesthetic sign. In sequence, the aim was also to highlight the magazine's modernism from the critical and interdisciplinary analysis of its graphic and typographic treatment. The purpose and research objectives led to the adoption of a general methodology of case study, a qualitative approach of heuristic character that approximates the systemic philosophical concerns. In addition to using mixed methodologies of historical research specifically in documentation cases within the general framework for collecting and analyzing data, we proceeded to the operationalization of the analysis model created to organize and relate the constellation of basic concepts whose design is based on theory of form of Kandinsky (Bauhaus) and is configured as a multidimensional diagram. Thus, in a feedback process from various parts of the study, this same model served both the conceptual development of the work as a guide in the analysis of the graphic materiality of Presença, highlighting the potential to adapt to the analysis of other graphic objects.

KEY WORDS: Graphic Design, Presença Magazine, Modernism, Materiality, Graphism, Typography.

 

 

 

1. A Materialidade Gráfica da Revista Presença - Apresentação e enquadramento da investigação 

A revista Presença (Folha de Arte e Crítica Literária) foi-me apresentada no âmbito da minha atividade profissional de Designer, mais concretamente quando efetuava a paginação de uma revista científica: um dos seus artigos abordava esta edição do ponto de vista literário. Posteriormente, ao folhear alguns dos números da Presença, e numa observação empírica do ponto de vista gráfico, constatei que para lá da sua já demonstrada e significativa importância na cultura e literatura portuguesa, esta conceituada revista possuía também uma enorme riqueza gráfica, resultante de variadíssimos experimentalismos em termos de tipografia, de ilustração tipográfica e de tecnologias de impressão. Verifiquei igualmente, que toda essa riqueza estava em continuidade com os conteúdos literários, potencializando o aumento do efeito polissémico dos seus significados.

Esta materialidade gráficafoi o mote para o tema da minha investigação de doutoramento, que aqui se apresenta como um estudo de caso no âmbito da investigação na história do Design Gráfico Português. 

Figura 1– Capa do nº 45 da Revista Presença (1935) 

Com este tema de estudo permaneceu a motivação de contribuir para ampliar a importância histórica da Presença, acrescentando às análises existentes, sobretudo de cariz literário, uma outra, mas agora específica da área do Design gráfico. Deste modo, foi possível demonstrar que, também nesta área, se pode tomar a Presença como um exemplo significativo do modernismo português. Assim, entendemos que, ao partir do conceito de materialidade gráfica, mais facilmente se desenharão pontes entre esta investigação, assente num caso português, e as preocupações mais atuais da comunidade científica, acerca deste assunto, tanto a nível nacional como internacional.

Já há duas décadas atrás Drucker (1994, p. 11) afirmava que "to understand typographic experimentation as a theoretical practice requires analysis of specific works within the context of writings about the character of materiality in both literary and visual arts domínios".

O estudo da materialidade em diversos domínios do conhecimento tem vindo a desenvolver-se e a ganhar importância, pela recolocação da mente num corpo, de sentimento na razão e de razão no sentimento, que de alguma forma o positivismo negou ao longo dos últimos séculos.

Na área do Design, os estudos da materialidade gráfica dos objetos não se ficam pela superfície de um uso mais ou menos tradicional ou moderno de várias tecnologias. É a materialidade gráfica ela mesma, que, pela sua natureza multidimensional, exige a profundidade que repousa nas contingências dos contextos e ao mesmo tempo se transfere para a constância do presente. Sem esse traçado de viagem em espaço e em tempo, razões e processos esboroam-se e a sua (in)compreensão não ajuda, como poderia e sem desperdício, nem à reprodução, nem à inovação. 

Tanto o carácter inter e multidisciplinar, como a reconhecida necessidade de contextualização histórica do objeto literário, acaba por requerer uma leituramais holística (descoberta de informações globais), mais sistémica (descoberta de inter-relações a vários níveis), apontando para a sua materialidade enquanto parte integrante do texto, ou seja, como algo que está tão presente quanto as ideias, o espaço, o tempo, as pessoas.

O próprio conceito de presença, referido pelos ideólogos da revista como sendo o espírito da presençauma presença um presente ajuda a fundamentar este aspecto holístico, na medida em que joga, também, com a dimensão do tempo. É esse conceito de presença que acaba por dar o nome à revista, bem como um contributo decisivo para a imagem de todo um ideário.

Estudos mais atuais do conceito de presença, como os efetuados por Gumbrecht (2010), enriquecem-no com conotações mais precisas e relacionadas com todo um novo vocabulário onde se inclui o próprio conceito de materialidade.

Com formação inicial em literatura e uma progressiva e fascinante incursão por várias disciplinas ligadas à filosofia, às artes e à estética, Hans Ulrich Gumbrecht nos seus estudos mais recentes, dá uma importância central e muito significativa ao conceito de presença e à forma como a mesma se manifesta. 

Segundo ele (2010, p. 15), as formas literárias estão sempre num estado de tensão, em permanente oscilaçãoentredimensãodesentidoedimensãodepresença,dematerialidade.Desta forma, presença é a aparência textual - tudo o que se mostra aos órgãos sensoriais: visão, tato, cheiro...

A partir destas dimensões, distingue dois tipos de cultura: a cultura do sentido e a cultura da presença. A primeira tem a mente como principal referência; a segunda, envolve o corpo no sentido cultural do literário, mas não só. Na cultura da presença o homem, na sua materialidade, é parte de algo maior e não separada do mundo.

No desenvolvimento da investigação aqui apresentada, o estado de tensão e a permanente oscilação entre sentido e presença, foram vivenciados por mim de modo pleno e intenso.

De uma forma geral, foram estes três grandes pilares – visão holística, contextualização histórica e técnico-artística e carácter inter e multidisciplinar da sua produção – que presidiram ao estudo do objeto literário que é a Presença, orientando toda a investigação, das primeiras reflexões, às conclusões, passando pela revisão bibliográfica e pela concepção e construção de instrumentos de análise gráfica e tipográfica.

 

2. A Estrutura da investigação 

A organização geral da investigação aqui apresentada, A Materialidade Gráfica da RevistaPresença, conta com as seguintes partes:

–     Desenho da investigação- apresentação das bases estruturais da pesquisa, onde se inclui: a questão de partida, a definição de objetivos, a descrição e análise crítica do estado da arte, o enquadramento teórico e conceptual do estudo, a metodologia, o modelo de análise (reflete e justifica a criação do modelo - cujo design se baseia na teoria da forma de Kandinsky (Bauhaus) e se configura como um diagrama multidimensional), os instrumentos de pesquisa e o plano de desenvolvimento do trabalho.

Figura 2 – Modelo de Análise

–     Modernismo em contexto- descrição e análise crítica dos aspetos identificadores do modernismo a vários níveis, das características comuns a todas as suas manifestações e das razões que o elevam ao patamar das formas de ver e pensar o mundo, contextualizando-as social, política e culturalmente; de modo particular, inclui: a relação entre movimentos e conceitos, a educação e ensino do Design: a Bauhaus, os movimentos e objetos gráficos relações e sinergias, o Modernismo em Portugal, as revistas modernistas e a síntese conclusiva (em que se reúnem e confrontam os aspetos do modernismo mais significativos paras a discussão no âmbito desta tese, sobretudo no que respeita à redescoberta da materialidade das diferentes formas de arte, especialmente da que se impõe aos objetos gráficos).

–     A materialidade gráfica do modernismo- alinhamento e dissecação do conceito de materialidade e de materialidade gráfica, tanto no geral como especificamente nas expressões do modernismo, incluindo os seguintes pontos: materialidade, materialidade, modernismo e texto impresso, materialidade e poesia, grafismo e tipografia – a materialidade gráfica modernista.

–      RevistaPresença-apresentação essencialmente descritiva de dados provenientes do estudo aprofundado da Presença, que permitem compreendê-la em articulação com os seus conteúdos literários e artísticos e que se organizam em pontos relacionados com aspetos constituintes da sua essência enquanto revista modernista: contexto histórico, sociopolítico e artístico-literário, período pré-Presença, ideário da Presença, polémicas e afetos, ligações e influências internacionais, trajetória geral da Presença, contexto de produção.

–      Materialidade Gráfica da revista Presença- apresentação descritiva e analítica dos aspetos da edição especificamente relacionados com o objeto gráfico, no sentido de responder, à questão fundamental de investigação colocada, cujo pressuposto é o da inevitabilidade interativa entre o valor literário da Presença e o valor da sua materialidade gráfica indo ao encontro dos objetivos inicialmente traçados: o estudo dos componentes relativos ao grafismo e à expressão da tipografia no modernismo português, visando ainda a reunião de evidências que permitam relacionar os conteúdos gráficos e seu carácter interdisciplinar, com os conteúdos literários. Distribui-se pelos seguintes pontos: descrição e caraterização do objeto gráfico, relação conteúdo-grafismo-função editorial, manifestações do grafismo modernista (afina-se a análise de elementos tipicamente modernistas, com base sobretudo em evidências presentes na revista ou em fragmentos da troca de correspondência entre colaboradores, agrupados nos tópicos ensaios tipográficos, utilização do tipo Futura e o dinamismo da grelha nos textos).

 

 

3 – Grafismo Modernista na Revista Presença– evidências encontradas

Na investigação A Materialidade Gráfica da RevistaPresença,das manifestações típicas do grafismo modernista que se identificaram na análise das páginas da Presença, deixaram-se quatro para um exame mais particular: a utilização do tipo Futura, o desenho de letras (lettering), os experimentalismos tipográficos e o dinamismo da grelha. No âmbito tanto da história do desenvolvimento técnico e artístico das atividades gráfica e tipográfica, como da história do modernismo português, esses três aspetos são os que maior força representativa e identificativa possuem para evidenciar as capacidades compositivas e semânticas dos caracteres móveis da revista Presença. 

–  Utilização da Futura:

A Futura, reconhecida como uma das fontes geométricas mais comercializadas do século XX, é utilizada na revista Presença, reforçando o programa editorial idealizado pelos seus diretores – poetas modernistas.

É a procura de personalidade própria que motiva José Régio e João Gaspar Simões a encontrar novas ferramentas que possibilitem a introdução de inovações na forma de visualizar o texto e uma delas é, certamente, a escolha de uma tipografia moderna: a Futura(2ª versão). Em termos de estrutura editorial, esta nova tipografia vai ganhando pouco a pouco lugar de destaque ao longo das trinta edições em que é utilizada. 

No seu número de estreia (nº22) assume logo um lugar de relevo, pois é utilizada nos separadores de secção, títulos, subtítulos e capitulares. No seu segundo número (nº23) encontramo-la na capa como capitular aplicada no corpo do texto e nos seguintes (nº24 a nº54) por toda a revista, na identificação e autoria de ilustrações e legendagem das mesmas, na autoria de poemas e textos, na publicidade, obituários, secções de correspondência, informações e avisos editoriais. 

No nº28, ao ser utilizada na capa e mais concretamente associada ao logo, aFutura passa a ser assumida como elemento identitário a revista.

Figuras 3 e 4: (esquerda) Presença: nº 22-p.2 (1929)– primeira utilização da Futura na revista; (direita) Presença: nº 28 (1930)– primeiro número onde a Futura é utilizada na capa (cabeçalho e rodapé)

Ensaios com a Futuracomo reforço do conteúdo:

Ainda que inicialmente utilizada de forma tímida e através de alguns ensaios pouco relevantes, a Futura é gradualmente explorada nas composições espaciais, recorrendo-se para isso à manipulação das escalas, à utilização de caixas altas e baixas, espaçamento entre caracteres, ao uso da cor e experimentalismos de impressão. 

Estas animações maioritariamente aplicadas a títulos dão o mote, ou o tom, para o conteúdo do corpo do texto.

Figuras 5, 6 e 7: (esquerda) Presença: nº 41-42 - p.21 (1934)- (centro) Presença: nº 28 - p.5 (1930)- (direita) Presença:nº 34 – p.4 (1932)

Após observação e análise dos trinta números onde se supunha ser aplicada a Futura, concluiu-se que:

– a fonte utilizada é a da segunda edição da Futura(1928) – chegou-se a esta conclusão pela comparação dos espécimes da fonte (primeira e segunda edição) com as edições originais da revista Presença. Caracteres como o r, cujo desenho na primeira edição era muito peculiar, não aparecem representados nestes exemplos;

– em corpos maiores que 56 pontos, recorre-se a caracteres de madeira – esses tamanhos maiores são "contrafações" da Futura, sendo clara a tentativa de aproximação ao desenho original, mas após impressão, perceptível a simulação a um olhar mais atento;

– ao ser utilizada na capa – cabeçalho e rodapé – e por consequência associada nome da revista – elemento identitário mais importante da publicação – a fonte Futura ganha projeção, funcionando como fator determinante de identidade da Presença.

De facto, sendo a Futuraconsiderada como um dos símbolos tipográficos modernistas, então é também um elemento fundamental de caracterização da materialidade gráfica e tipográfica da Presença, enquanto expressão do modernismo português. 

–  Desenho de letras (lettering):

A par da Futura, também desempenham papel fundamental na definição do carácter modernista da Presençaa utilização indiferenciada de tipos, tamanhos ou desenhos gráficos onde a letra e a palavra assumem funções não habituais. Tal como dizArmstrong (2009, p.27) "today we have two dimensions for the word. As a sound it is a function of time, and as a representation it is a function of space. Pretende-se assim pôr em evidência a dimensão espacial dos jogos de letteringcriados para a revista, na sua relação com os sons e significados correspondentes, pela apresentação de um conjunto de exemplos comentados de letras desenhadas, procurando evidenciar a ligação entre elas e o significado literário e simbólico dos textos a que se aplicam. Sendo representações de representações a sua riqueza também se encontra no valor estético que acrescentam às páginas. 

Figuras 7, 8 e 9: (esquerda) Presença: nº 18 - p.6 (1929)- (centro) Presença: nº 17 - p.5 (1928)-(direita) Presença:nº 19 – p.5 (1929)

Todos estes desenhos de letras evidenciam a paridade da Presençacom os modelos modernistas, fortemente ancorados no simbolismo gráfico e no conteúdo dos títulos e textos a que se aplicam.

O uso de um grafismo simultaneamente pictórico e caligráfico, não só aproxima estas expressões de uma função de ilustração (pela aproximação morfológica das formas evocadas ao significado das palavras) como recorre a estilizações e geometrizações muito próprias do letteringmodernista. A irregularidade das distâncias entre as letras, os cortes inusitados dos títulos e a aplicação das maiúsculas e das minúsculas fora das regras da ortografia oficial, também aproximam a Presençadas revistas modernistas. E como já se sublinhou, Branquinho da Fonseca não só idealizou a composição gráfica dos títulos, como também os gravou em linóleo, atitude artística recorrente nos artistas modernistas.

Toda a ideia de movimento que perpassa nestes títulos reforça também, para lá do gesto do pintor, o gesto do realizador, a animação do cinema, ligada a essa outra dimensão da sonoridade da palavra, esculpida na forma gráfica que transforma o tempo do dizer, no espaço do ler.

Embora só tardiamente tivesse entrado em Portugal o uso da fotografia, da colagem, do serialismo ou do fragmento, também apanágio do modernismo, a matriz de todos estes conceitos e a sua formalização, estão já implícitos nestas soluções presencistas, tanto nas letras desenhadas, como nas composições gráficas com elas realizadas.

–  Experimentalismos tipográficos:

Como acontece com outras revistas, sobretudo as do início do século, é nos títulos e separadores, que mais se manifestam os experimentalismos que dão visualidade a uma nova imagem do texto, baseada sobretudo no movimento que a letra, a palavra e os restantes sinais gráficos protagonizam no espaço da folha.

A análise das experiências tipográficas existentes nas páginas da Presençapermite evidenciar a profunda carga fonética que preside ao desmembramento formal da palavra e dos seus potenciais significados. De facto é neste procedimento, simultaneamente gráfico, sonoro e simbólico, que se encontra a base experimental das diversas manipulações.

O potencial silábico e o espaço envolvente ligam-se aos vários usos da letra, enquanto forma, numa aparente aleatoriedade. Aparente apenas, pois de facto é desta maneira que consegue multiplicar as ligações de todos este signos visuais diversificando a sua funcionalidade e sobretudo criando uma imagem onde o ato de ler encontra múltiplas ressonâncias: ler reconhecendo signos, ler decifrando traços, ler vocalizando uma interpretação gráfica, ler enquadrando uma nova interpretação dentro de um diferente referencial semântico.

Figura 10 – Presença: nº 10 - p.2 e 3 (1928)

 

Figura 11 – Presença: nº 10 - p.4 e 5 (1928)

–  Dinamismo da grelha:

É na observação do dinamismo da grelha que se podem verificar os efeitos de uma maior desconstrução dos conteúdos literários no corpo básico dos textos. São vários os exemplos de escrita não linear, de textos que não obedecem à horizontalidade da leitura convencional. 

Tendo como ponto de partida uma opção maioritariamente a duas colunas para os textos mais literários, a duas e três colunas para os poéticos e opções muito híbridas para as restantes secções (sobretudo as dosAnúncios,AvisosePublicidade)odesafioemmatériacomposicionalé o de criar estímulos visuais, através da diversidade quer de dimensões, quer de uso diferenciado de tipos no próprio corpo do texto, quer ainda de efeitos gráficos que destacam, sublinham ou demarcam o que se pretende comunicar com cada texto.

E embora, especialmente nos conteúdos ligados aos diversos artigos literários e críticos, a mancha gráfica seja em grande parte baseada numa grelha convencional, esta atitude ajuda a reforçar o dinamismo das experiências estéticas do artista e gráfico no espaço da folha, imbuídas de uma noção parente da do arquiteto. De facto, há forças e intensidades que se expandem ou contraem, gerando mais ou menos espaço.

Figuras 12 e 13: (esquerda) Presença: nº 48 - p.4 (1936)- (direita) Presença: nº 48 - p.7 (1936); O nº48, foi o número de homenagem a Fernando Pessoa, é um dos exemplos mais brilhantes de jogo da grelha e decomposição

 

Figuras 14 e 15: (esquerda) Presença: nº 48 - p.13 (1936)- (direita) Presença: nº 35 - p.4 (1932) 

 

Há um sentimento final de que este uso do espaço gera, pela sua dinâmica, mais espaço: de leitura e de presença. A Presençausa e rejeita o estático, configurado, limitado e "conformado" espaço clássico da escrita, aprisionado de um modelo gráfico que torna as relações definidas pela forma literária numa regra de composição a seguir, para comungar do dinamismo de um espaço gerador de expressividade; para abraçar uma nova dinâmica de leitura que, se por um lado partilha da linguagem informativa jornalística, por outro desafia os conceitos científicos da crítica e análise literária e da criatividade da narrativa do romance ou da obra literária impressa. Esta postura é, por natureza, modernista.

 

 

5 - Conclusões Prévias

A questão inicialmente colocada interroga os aspetos do grafismo e da tipografia da Presençaque podem tomar-se como objeto de estudo enquanto materialidade gráfica, interrogando-os sobre a sua exemplaridade enquanto expressão do modernismo português, a par dos seus conteúdos ideológicos, artísticos e literários. 

Para responder a esta questão o propósito anunciado para esta investigação foi o de "estudar o grafismo e a expressão da tipografia, assente nas capacidades compositivas e semânticas dos caracteres móveis desta publicação, no contexto do modernismo português", concretizando-se na subdivisão em outros dois: encontrar exemplos e evidenciar, através deles, o "carácter interdisciplinar do tratamento gráfico e tipográfico" tão próprios da natureza modernista destas revistas.

Pelas evidências encontradas e apresentadas, é possível responder afirmativamente e com grande segurança à questão colocada e dar como plenamente atingidos os objetivos traçados em relação a todos os aspetos estudados, desde os que descrevem e caraterizam o objeto gráfico (contexto microssistémico; formatos, cadernos e páginas; grelha; tipografia e letra desenhada; filetes, ornatos e vinhetas; ilustração; cor; oficinas, materiais e tecnologias), que relacionam contudo, grafismo e função editorial (capas: identidade visual e ideário presencista; cabeçalhos e rodapés; ilustrações da capa), aos que evidenciam manifestações do grafismo modernista (ensaios tipográficos; utilização do tipo Futura; mancha gráfica dos textos).

Em todos estas evidências é possível encontrar traços identificadores do modernismo pelo que é possível afirmar, com segurança, que aPresençaé um exemplo bem conseguido do modernismo português, não só pelos seus conteúdos literários, ideológicos e artísticos, mas também pelos seus conteúdos gráficos e tipográficos, bem expressos na materialidade que nos traz a sua presença de cada vez que com ela contactamos.

 

Referências bibliográficas presentes no artigo 

. ARMSTRONG, H. (2009).Graphic Design Theory: Readings from the field.New York:Princeton Architectural Press.

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Outras referências 

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Serejo, C. ; (2018) 1927-2017, 90 Anos Depois, A Materialidade Gráfica da Revista Presença. Uma investigação com contributo histórico para o design gráfico português.. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (22) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt