A poesia não-verbal de Bruno Munari

Bruno Munari: The nonverbal poetry

Constante, S.

UBI - Faculdade de Artes e Letras / Universidade da Beira Interior

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Pensar o livro como linguagem visual onde a criatividade está relacionada com a experimentação e a criação de modelos que enaltecem a função comunicante do livro, deixando de configurar ao texto o papel central (objecto), torna-se preeminente na concepção de um picture book. A exploração das potencialidades dos diferentes elementos que compõem o livro, desde as características físicas à vertente conceptual / artística / didática quebram os limites impostos pela forma tradicional e estimulam o indivíduo a pensar e imaginar. Analisando os álbuns ilustrados de Bruno Munari (1907-1998), artista e designer, obtém-se um conjunto de perspectivas inteligentes e criativas, sustentadas por um processo intensivo de pesquisa, onde a narrativa, através das possibilidades visuais e tácteis e das formas claras e precisas, confere ao leitor uma experiência livre e pessoal na interpretação do livro-objecto.

PALAVRAS-CHAVE: linguagem visual; livro-objecto; mise-en-page; nonverbal; forma

ABSTRACT: Think a book as a visual language where creativity is related to experimentation and the creation of models that enhance the communicating function of the book, leaving the central role (object) to the text, it becomes pre-eminent in the design of a picture book. The exploration of the potentialities of the different elements that compose the book, from the physical characteristics to the conceptual / artistic / didactic side, break the limits imposed by the traditional form and stimulate the individual to think and to imagine. Analyzing the illustrated albums of Bruno Munari (1907-1998), artist and designer, we obtains a set of intelligent and creative perspectives, sustained by an intensive process of research, where the narrative, through visual and tactile possibilities and clear forms and precise, gives the reader a free and personal experience in the interpretation of the object book.

KEYWORDS: visual linguage; picture book; mise-en-page; nonverbal; form

1. Introdução

“Para entrar no mundo de uma criança (ou de um gato), é pelo menos necessário sentarmo-nos no chão, não interferirmos no que ela está a fazer e deixarmos que ela se dê conta da nossa presença.”  (MUNARI, 1987, p.71)

O sentido poético da arte reveste-se de uma finalidade subjectiva e de um sentido distante do literal. Procura causar prazer estético ao receptor através de uma mensagem elaborada e rica, onde os elementos — textura, forma, estrutura, módulo, movimento — que compõem o suporte visual tornam perceptível a mensagem e intensificam a comunicação. Neste sentido, explorar os álbuns ilustrados do artista totale, Bruno Munari, como objetos artísticos, é ao mesmo tempo apresentar o suporte preferencial para a exposição de ideias, crenças e formas de ver o mundo. 

Figura 1: Livro The Tactile Workshops de Bruno Munari.

 

2. A Poesia Não-Verbal

Bruno Munari, artista, teórico e designer, mestre incontestável do design italiano do século XX, deu um importante contributo na aplicabilidade e na expressão multidisciplinar da arte. Toda a sua produção, artística e industrial, teórica e prática, detém um pendor pedagógico, explícito no seu verdadeiro interesse pela construção racional de um objecto que comunica através do seu conteúdo original, criativo e fantasioso: “A criatividade é uma capacidade produtiva onde fantasia e razão estão associadas e cujos resultados são sempre realizáveis na prática. Com a fantasia pode-se imaginar tudo aquilo que se quiser; por exemplo, um relógio mole como o de Dali no seu célebre quadro; pode-se imaginar um comboio de chocolate, como nas histórias, compor uma música que ainda não exista, uma arquitectura estranha e quase irrealizável como a de Gaudí, uma novela de ficção científica, uma motocicleta líquida de secção triangular curva com travões de lã, rodas de cinza plastificada com gabropoliéster reforçado e selim de plumas de pavão” (MUNARI, 1984, p.89).

Figura 2: Più e meno, de Bruno Munari e Giovanni Belgrano, é um jogo visual composto por 72 cartões com imagens diferentes. Muitas dessas imagens apresentam fundos transparentes, para que possam se sobrepor e compor outras imagens mais complexas, estimulando as habilidades criativas das crianças.

Nos projetos dedicados à literatura para infância, a intenção poética de Munari é construída a partir de enredos visuais, mais ou menos complexos, tanto no que ao valor estético diz respeito, como no domínio dos aspectos técnicos de composição. Os seus livros apresentam uma narrativa visual coesa e potenciam o desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras. É neste sistema pedagógico que o trabalho de Munari introduz uma relação complementar de aprendizagem face aos dogmas do ensino (escolar) e da literatura clássica infantil —  em que as imagens possuem um cariz decorativo e existem em segundo plano e de forma redundante—, através de narrativas visuais não-lineares, detentoras de simplicidade e coerência que se revelam cativantes à medida que são observadas e manipuladas. Seguidor do princípio funcionalista de que “a forma segue a função”[1], defende uma linguagem visual universal assente na simplicidade e clareza da informação. A hierarquia visual estabelecida na maioria dos seus projetos editoriais é apresentada sob um layout pouco rígido onde se denota um equilíbrio visual na disposição de todos os elementos gráficos conseguidos através da preferência pela proporção quadrada ou rectangular como formato.

A transformação progressiva dos livros de Munari em objetos artísticos, intensificada pelo distanciamento da estrutura e função original, permite-lhe criar narrativas livres, sem estar sujeito a regras de leitura, onde o conteúdo figurativo se destaca nas páginas, desenvolvendo assim um novo comportamento estético em que a língua deixa de ser uma barreira. Sem qualquer pretensão quanto ao peso literário, apropria-se de uma nova bagagem instrumental e utiliza o livro como um lugar de pesquisa e de experiências. A interação entre a imagem e texto, texto e imagem, confere dinâmica e harmonia na relação gráfica, já que a imagem possui uma forte predominância na narrativa, tal como evidencia Alain Male, no livro Illustration. A Theoretical & Contextual Perspective: “Textual and visual dialogue and interaction are key aspects of maintaining an appropriate pace and flow throughout the book.This immediately alludes to the important relationship between words and imagery.” (MALE, 2007, p.156) Desta forma, trabalhar o livro do início  ao fim, implica que não haja uma separação entre o texto e ilustração, ou seja, que os dois funcionem como um todo. Pensar este formato (picture books) desde a capa, folha de rosto, guardas, cores, relação texto e ilustração é tirar proveito de todo o propósito inicialmente pensado.

Os livros podem ser classificados de enumeras maneiras dependendo do propósito e do conteúdo narrativo. De utilização distinta, estes objectos podem ser designados por: livros de leitura, livros ilustrados, livros de arte, livros-objeto (que podem ser também livros-jogo), livros de artista, flip books, livros pop-up; Todas estas “versões” obedecem a características próprias, que na sua maioria procuram fugir aos estereótipos dos livros convencionais. Nalguns casos, confrontam os limites do livro, enquanto suporte, outros deixam que dois tipos de linguagem convivam (escrita, verbal, e imagens, não-verbal), outros acabam por fazer apenas uso de uma narrativa visual, mas todos eles funcionam como veículo na transmissão de mensagens. “Presume-se, portanto, que um emissor emite mensagens e que um receptor as recebe” (MUNARI, 1968, p.90) É neste processo de comunicação visual que o designer / ilustrador funciona como um mediador de discurso transmitindo ideias e conceitos que direcionam o receptor na construção de mensagens que variam de indivíduo para indivíduo consoante os seus “filtros” sensoriais (traços físicos e sensitivos), operativos (características psicofisiológicas)  e culturais (herança do universo cultural, tradições e património). Mais do que ensinar crianças o que os distintos profissionais e mediadores pretendem é dialogar com a liberdade criativa da infância e despertar sentidos através dos significados presentes na narrativa — imagens duplas de sentido que podem ser evidentes ou apresentarem-se de forma oculta permitindo ao leitor construir uma imagem mais pessoal mediante a sugestão de outra imagem — em vez de apenas utilizar imagens para contar histórias lineares e concretas.

Figura 3: Libro Illeggibile MN1, Bruno Munari, 1943. 

 

Os Livros Ilegíveis de Munari são uma série de livros sem texto em formato quadrado, páginas de diferentes cores e cortes, destinados a crianças onde apela ao aspecto táctil e à criatividade. Segundo Maffei [2], “the idea of ‘illegibility’ is the most striking part of Munari’s research in terms of new aesthetic functions of the book (…) When the book loses its primary purpose–the text–it multiplies its morphologic and aesthetic possibilities through shape and color. The illegible book opens up new communicative properties of the book object that had never previously been considered.” (“Texture Yes, Words Not So Much: How Artist Bruno Munari Blew Up The Book”, para. 3) 

Na noite escura, é um outro exemplo de livro ilegível que toma como protagonista um gato que se deslumbra com um pirilampo e o persegue. De formato rectangular, capa dura e escura, neste objeto a narrativa inicia com folhas negras que simulam a noite na cidade, seguido de papel cinzento e rugoso com recortes que representam o escurecer na gruta e de páginas com transparências que sugerem a neblina do amanhecer. É um livro destinado ao público infantil, mas que exige um olhar atento, e talvez adulto, tendo em conta a variedade de materiais, de significados e de sentidos que estes configuram na experiência visual.

Figura 4: Edição portuguesa do livro Na noite escura, Bruno Munari, pela editora Bruuá.

 

De formato quadrado, os pré-livros, criados entre 1949 e 1952, consistem numa série de 12 livros, sem texto e com particularidades distintas. De forma a cativar as crianças à prática de leitura, Bruno Munari, concebe estes objetos, que são autênticos estímulos visuais, tácteis, sonoros, térmicos e matéricos. A experiência de leitura da criança é feita através da percepção das formas e da sensibilidade aos distintos materiais. Toda esta relação torna a experiência mais rica, desde o primeiro contacto com o livro, menos repetitiva (novidade), (re)modela a percepção sobre um determinado conceito e intervém no conhecimento e na formação de uma mentalidade mais elástica.    

Figura 5: I prelibri, Bruno Munari, editado pela primeira vez em 1980. São 12 volumes, reeditados pela editora italiana Corraini, feitos de distintos materiais (papel, cartão, plástico, ráfia, lã) dedicados às crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever.  

 

Segundo Munari, “these messages are not supposed to be finished literary stories like tales because that would have a repetitive and uncreative influence on the child…Before it’s too late, individuals must be taught to think, imagine, dream and be creative.” (BUDDS, 2015) Desta forma, ao invés de cumprir com a expectativa de que os livros de imagens sejam perfeitamente legíveis e traduções/interpretações exactas do texto, Munari, combina elementos gráficos e textuais convidando a uma exploração mais próxima e íntima dos mundos que cria.

 

3. Conclusões

A partir de formas simples e mistura de materiais num único objeto, Munari cria projetos poeticamente ilustrados. Não procura que estes poemas visuais dêem respostas mas sim que acionem no receptor possibilidades: a realidade como um manancial de possibilidades infinitas.

 

 

Notas

[1] Princípio funcionalista do design e da arquitectura do século XX

[2] Giorgio Maffei, historiador de arte especializado na história da publicação do século XX, é autor do livro Munari's Books (2015)

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Bibliografia

 

MALE, A. (2007). Illustration. A Theoretical & Contextual Perspective. Lausanne: AVA Publishing.

MUNARI, B. (1978). A arte como ofício. Lisboa: Editorial Presença, LDA.

MUNARI, B. (1981). Das coisas nascem coisas. Porto: Edições 70. 

MUNARI, B. (2011). Na noite escura. Lisboa: Bruuá Editora. 

 

Sítios Web e Documentos online

AUGUSTINE (2016). Bruno Munari (acedido em 2017) [http://indexgrafik.fr/bruno-munari/]

BRANDÃO, L. (2017) Bruno Munari, um dos principais nomes na teoria e prática do design (acedido em 2017) [https://www.comunidadeculturaearte.com/bruno-munari-um-dos-principais-nomes-na-teoria-e-pratica-do-design/]

Corraini Edizione (acedido em 2017) [http://www.corraini.com]

BUUDS, D.(2015). Bruno Munari Will Make You Fall In Love With Books All Over Again (acedido em 2017) [https://www.fastcodesign.com/3047507/bruno-munari-will-make-you-fall-in-love-with-books-all-over-again]

HART, H. (2015). Texture Yes, Words Not So Much: How Artist Bruno Munari Blew Up The Book (acedido em 2017) [https://www.fastcompany.com/3050003/texture-yes-words-not-so-much-how-artist-bruno-munari-blew-up-the-book]

LAGORIO, A. (2014). Fredun Shapur - Playing with Design (acedido em 2017) [http://www.klatmagazine.com/en/design-en/fredun-shapur-playing-with-design-library-031/36715]

LIM, M. (2017). Bruno Munari: In the Darkness of the Night (acedido em 2017) [https://designobserver.com/feature/bruno-munari-in-the-darkness-of-the-night/39678]

MAFFEI, G. (2015)  Munari's Books (acedido em 2017) [https://designobserver.com/feature/munaris-books/39014]

MASINI, P. (2017). Il Mondo magico di Bruno Munari (acedido em 2017)[http://www.quotidiano.net/speciali/arte-e-design/il-mondo-magico-di-bruno-munari-1.3365602]

Poynor, Rick (2008) Bruno Munari design as art (acedido em 2017)
[https://www.iconeye.com/404/item/3877-design-as-art]

MunArt - The most complete web site dedicated to Bruno Munari (acedido em 2017)[http://www.munart.org]

RICCI, S.(2017). L’arte e la didattica di Bruno Munari (acedido em 2017) [http://riforma.it/it/articolo/2017/11/22/larte-e-la-didattica-di-bruno-munari]

SERRANO, M. (2013) Bruno Munari's Books: Hybridization Against Linear Thinking (acedido em 2017) [http://the-publishing-lab.com/features/view/135/bruno-munaris-books-hybridization-against-linear-thinking]

Reference According to APA Style, 5th edition:
Constante, S. ; (2018) A poesia não-verbal de Bruno Munari. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (22) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt