Coaching no Processo Criativo das Artes Visuais: o Caso do Atelier de Artes em Vila Verde

Coaching in the Creative Process of the Visual Arts: the Case of the Atelier de Artes in Vila Verde

Andrade, T. Júnior, H.

IMF - UCJC - IMF Business School/ UCJC
CEFH - Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Universidade em Braga

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: A busca pictórica traz a reflexão sobre seus limites e escolhas feitas a partir de interesses e crenças, concomitantes ao processo do autoconhecimento. Ao explorar a transição entre os hábitos de reprodução de imagens à criação de composições originais, a abordagem de tutoria é trabalhada de forma diferencial, com o fim de aliar o autoconhecimento às expressões plásticas em seus elementos criativos. Um caso de estudo exploratório: coaching em experiência no Atelier de Artes Tamar Prouse, junto à comunidade da Vila Verde e Barbudo, Portugal, para que os resultados alcançassem um ciclo mais completo: inspirações na História da Arte, realização das obras e a exposição “Arte em Cores”, realizada na Biblioteca Municipal da vila, com Vernissage, presença de autoridade política, cobertura de imprensa e obras abertas a críticas e a vendas. Embora apoie como as características peculiares de cada faixa etária agregam valor a uma inserção coletiva em sua diversidade, o desenvolvimento individual se desdobra em termos de autoconhecimento e de autoestima, além da autoconfiança do artista, as motivações são ancoradas por projetos instigantes, suficientes para que se produzam resultados inspirados. Os meios poderiam ser operacionalizados com a realização de programas e concursos culturais direcionados agregados ao processo de coaching dos artistas. Essa abordagem foi limitada a um período curto, contraindicado diante do aprofundamento nas motivações e transformações do artista. Os participantes manifestaram satisfação e curiosidade sobre as questões que foram semeadas ao longo dessa jornada, porém, demandaria mais tempo e envolvimento de stakeholders potenciais para estruturação de projetos motivadores que suportassem essa conjugação elaborada.

PALAVRAS-CHAVE: Atelier de Artes; comunidade; expressão individual; processo criativo; coaching; arte e cultura.

ABSTRACT: The pictorial search brings the reflection about its limits and choices made from interests and beliefs, concomitant to the process of self-knowledge. By exploring the transition between image reproduction habits and the creation of original compositions, the tutorial approach is worked on differently, in order to combine self-knowledge with plastic expressions in their creative elements. A case study exploration: coaching in experience at the Tamar Prouse Atelier of Arts, near the community of Vila Verde and Barbudo, Portugal, so that the results reach a more complete cycle: inspirations in the History of Art, the realization of the works and the exhibition " Art in Colors ", held in the Municipal Library of the village, with Vernissage, presence of political authority, press coverage and works open to criticism and sales. Although I support how the peculiar characteristics of each age group add value to a collective insertion in its diversity, individual development unfolds in terms of self-knowledge and self-esteem, as well as the self-confidence of the artist, motivations are anchored by projects that are thought-provoking enough to inspired results. The means could be operationalized with the realization of directed cultural programs and contests in the coaching process of the artists. This approach was limited to a period of approximately two semesters, contraindicated by the deepening of the artist's motivations and transformations. Participants expressed satisfaction and curiosity about the issues that were sown during this journey, but it would require more time and involvement of potential stakeholders to structure motivating projects that would support this elaborate conjugation.

KEYWORDS: Arts Atelier; community; individual expression; creative process; coaching; art and culture.

1. Introdução

A busca pictórica traz a reflexão sobre seus limites e escolhas e também aponta evidências quanto ao fator fisiológico, a exemplo disso dispomos das situações: uma pessoa idosa, no intercurso de seu desempenho teve que fazer uma pausa para operação dos olhos, outra pessoa daltônica. A percepção e uso das cores, o detalhamento das imagens sofrem grandes alterações. Os fatores psicológicos também tem forte influência nas escolhas feitas e essas se dão pela identificação de interesses e crenças, são ainda concomitantes ao processo de aprendizado e autoconhecimento, e muitos indicadores, relativos à saúde e faixa etária.

Este estudo debruça sobre o caso do Atelier de Artes em Vila Verde, onde cidadãos da vila praticaram trabalhos artísticos de pintura e desenho e analisa o desenvolvimento das pessoas a partir da prática das artes. A partir de um curso oferecido à comunidade foi possível uma vivencia no chamado Atelier de Artes, resultando em exposição de desenhos, pinturas e esculturas. Ele aborda o impacto que as barreiras culturais e etárias influenciaram essa prática e a adaptação da dinâmica de trabalho rumo ao processo criativo e desenvolvimento individual e coletivo dos integrantes com o tratamento da tutoria de coaching, direcionado a cada jornada individual em seus confrontos e aspirações.

A dinâmica do Atelier de Artes Tamar Prouse, na Junta de Freguesia de Vila Verde, resultou em um projeto, a exposição Arte em Cores, na Biblioteca Municipal Professor Machado Vilela. Abrange, portanto, não apenas apresentar disciplinas artísticas, mas de tratar a potencialidade do exercício criativo e tratar a necessidade dos novos artistas a lidarem com a criatividade em um processo continuado, como campo aberto à imaginação, na ousadia de experimentar novos caminhos.

No âmbito da cultura, artes e sociedade, foram analisadas as barreiras culturais no sentido do bloqueio da produção artística e das peculiaridades dos indivíduos, os quais foram trabalhados como buscas específicas, instigados e compreendidos ao longo do processo, bem como as motivações da produção de arte e o desenvolvimento dos integrantes tanto no aspecto técnico e no aspecto pessoal. Para controle de feedback lançou-se mão das técnicas de coaching, e momentos de conversas individualizadas.

O artigo é dividido em cinco seções. Além da Introdução, onde se apresenta elementos relacionados à cultura, ao modo de vida e crenças localizadas como barreiras à aprendizagem, trazemos a problematização na segunda seção. A terceira é metodológica e a quarta é o estudo de caso do atelier de artes e seu detalhamento. Segue a dos resultados, conclusões e considerações finais.

Como resultado, as atividades do atelier culminaram no encerramento de um ciclo de busca e pesquisa na realização de uma exposição acompanhada por autoridades e pela imprensa local, em um total de 50 obras e identificação de uma sustentabilidade local para continuidade do processo.

 

2. Problema

2.1 Coaching aplicado às artes

A International Coach Federation [ICF] (2000) define coaching como uma contínua relação de parceria que visa apoiar o cliente na busca de resultados benéficos para sua vida pessoal e profissional, por meio do qual o mesmo amplia sua capacidade de aprender e aprimora sua performance e sua qualidade de vida. O termo coaching e mentoring é hoje comumente usado na área de administração. São termos aproximados, onde o mentoring é proveniente da Grécia antiga e o termo coaching, usado nos esportes, onde a assessoria ao atleta é personalizada para desenvolvimento do atleta em várias áreas da vida para que alcance seus objetivos.

No entanto, identificar o coach simplesmente como um treinador pode ser um equívoco, pois o processo de coaching não se reduz a um mero treinamento caracterizado, muitas vezes, pela repetição exaustiva e mecânica de um exercício, jogada, movimento ou ação.  Ernesto da Silva (2010) citando Gallwey (2004), um dos precursores do coaching, com base na Programação Neurolinguística (PNL), sinaliza que o trabalho do coach deve ter como objetivo liberar o potencial existente dentro de uma pessoa para que ela maximize seu desempenho. Nesse enfoque, o papel do coach seria o de estimular a pessoa para que seu potencial aflore. Ou seja, é mais ajudá-la a aprender ao invés de, simplesmente, treiná-la ou ensiná-la. É estimulá-la para a descoberta de novas trilhas, de forma espontânea e natural. A literatura registra que as origens do termo mentor remontam  à odisséia de Homero e tem sua origem  na lendária Guerra de Tróia, quando Odisseu (Ulisses), Rei de Ithaca, foi para a frente de batalha e conferiu os cuidados de sua família à figura do escravo de nome Mentor, que trabalhava como mestre e conselheiro do seu  filho  Telêmaco.  Logo, a palavra mentor serviria para designar um conselheiro, amigo, professor e homem sábio (Cf. Ernesto da Silva, 2010).

 

2.2. Limites da criatividade

A pesquisa que cada artista faz reflete seu mundo imaginário e de compreensão do mundo. Algumas das barreiras são as limitações técnicas e de autoconfiança. As crenças e tradições sociais acabam por modelar os propósitos individuais. As reflexões são um mergulho interior e uma jornada de autoconhecimento para que a criatividade tenha espaço e o ser se sinta liberto em seus pensamentos e expressões.

Alguns destes fatores que influenciam tais decisões dizem respeito ao indivíduo, outros ao ambiente de trabalho e ainda outros à dimensão histórica e cultural da sociedade.

Segundo Alencar & Martinez, 1998, citando Vigotsky (1931; 1932), observa-se que as primeiras pesquisas na área se restringiram sobremaneira à dimensão psicodinâmica da criatividade. Estas apontavam para características do indivíduo, estilos de pensamento, abordagens para resolução de problemas, traços de personalidade e motivação, deixando de lado as implicações do contexto sócio-histórico mais amplo. Uma exceção foi a contribuição de Vygotsky, no início da década dos 30, na União Soviética, que levou em conta o papel do social na criatividade, a partir de sua concepção sobre o desenvolvimento histórico-cultural das funções psíquicas superiores. Suas concepções gerais em relação à criatividade tiveram interessantes desdobramentos em diversos autores (Cf. Alencar & Martinez, 1998.)

Dessa forma, o facilitador e formador de arte não deveria somente abordar conteúdos, nem lançar propostas de trabalho sem antes familiarizar-se com as referências das pessoas envolvidas no processo. Barret (1979) havia escrito sobre isso. Ou seja, ele deverá incrementar práticas de ensino que vão ao encontro das expectativas e das capacidades dos alunos. No tocante às faixas etárias, ele também sinaliza utilizar estratégias distintas, pois as pessoas têm níveis distintos de aprendizagem sendo um currículo mínimo, por menor que seja, um delimitador dessa demarcação (Barret, 1979).

Na educação pela arte, o formador ou facilitador motiva o aluno para que este aborde o mundo à sua volta de forma criativa, tornando-o capaz de transmitir sentimentos, ideias, sensações através de formas e meios diversos. Seus alunos, assim, poderão exteriorizar aquilo que sentem e que pensam, vivenciando o campo da sensibilidade. Como Barret mesmo (1979) afirmara, a Educação pela Arte está intimamente ligada com o desenvolvimento dos sentidos para levar à percepção do mundo e consequentemente exprimir-se através dessa percepção. Torna-se essencial proporcionar o contato e a manipulação com diversos materiais para que possam adquirir competências que permitam resolver problemas e desafios de forma eficaz para dar-lhes autonomia. Se o aluno artista deve ser capaz de identificar um problema, como Barrett menciona e, se o aluno o fizer, será autônomo e independente.

 

2.3. Barreiras culturais ao aprendizado

O ambiente tem um papel fundamental tanto para a emergência como para a repressão da criatividade. Conforme Alencar (1998), a influência poderosa das forças adversas presentes em nossa cultura foi anteriormente discutida, além de outros autores como Rollo May (1982) e Maslow (1967) (cf. revisão de Alencar, 1998). Nas obras de Alencar “A repressão ao potencial criador” (Alencar, 1989) e “A gerência da criatividade” (Alencar, 1996) recordamos a ênfase exagerada no pensamento analítico, convergente e lógico, predominante na sociedade ocidental, paralelamente aos processos de condicionamentos sedimentados ao longo de muitos anos como responsáveis pela subutilização das possibilidades do indivíduo para criar e usufruir das fontes interiores de criação.

Apontamos, ainda, uma série de pressupostos cultivados em nossa sociedade, como, por exemplo, de que “tudo tem que ter utilidade, tudo tem que dar certo, tudo tem que ser perfeito, não se pode divergir das normas impostas pela cultura etc.”, que também contribuem para manter adormecido o potencial para criar, presente em todo ser humano, dificultando à pessoa correr o risco de experimentar, de ousar, de divergir e de fazer um uso positivo de sua imaginação.

As barreiras culturais e etárias influenciam essa prática e a adaptação da dinâmica de trabalho rumo ao processo criativo e desenvolvimento individual e coletivo dos integrantes.

Segundo Alencar & Martinez (1998), no âmbito da cultura, artes e sociedade, são analisadas as barreiras culturais no sentido do bloqueio da produção artística e das peculiaridades dos indivíduos como buscas específicas, instigados e compreendidos ao longo do processo, bem como as motivações da produção de arte e o desenvolvimento dos integrantes tanto no aspecto técnico e naquelas características do próprio sujeito que limitam a sua criatividade. Insegurança, pouca motivação, medo, dificuldade para ver um problema em diferentes ângulos, timidez etc., além de outras relativas à falta de conhecimento ou de informação, são algumas delas. Já, as barreiras sociais se identificam com aqueles elementos culturais, institucionais, grupais, ideológicos etc., que, estando presentes no contexto onde o indivíduo atua, limitam sua expressão criativa. O pessoal e o social estão fortemente relacionados (Alencar & Martinez, 1998).

No que tange à idade mais avançada, como aspecto positivo contra as barreiras de natureza fisiológica e social, a existência de uma rede social de apoio informal, constituída por familiares, vizinhos e amigos, é geralmente considerada  como  um  bom  indicador  de  saúde mental e de prognóstico de bem-estar, uma vez que serve para facilitar o confronto e resolução de acontecimentos de vida difíceis e/ou amortecer o seu impacto (Fonseca & Constança, 2004).  A prática das artes como ocupação e atenuação da doença e da sensação de isolamento e de inutilidade com base nestes indicadores é bem aplicável.

 

3. Metodologia

O objetivo do projeto foi de explorar a transição entre a prática de reproduzir imagens escolhidas por cada integrante como ferramental introdutório para o desenvolvimento de conhecimento técnico, especificamente desenho, pintura em óleo e eventualmente escultura e prosseguir em projetos de expressão individual criativo e autoconhecimento, a partir da busca plástica pictórica e composicional como elemento criativo.

Trata-se de um estudo de caso exploratório-observacional-vivencial, do Atelier de Artes em Vila Verde, Braga, em Portugal, onde cidadãos da vila desenvolveram trabalhos artísticos de pintura e desenho e analisa o desenvolvimento das pessoas, a partir da prática das artes. O estudo teve a duração aproximada de seis meses na comunidade (entre 2 de março de 2017 e 11 de agosto de 2017), ambientado por uma vivencia no chamado Atelier de Artes, que resultou em exposição de desenhos, pinturas e esculturas. Ele aborda o impacto que as barreiras culturais e etárias influenciaram essa prática e a adaptação da dinâmica de trabalho rumo ao processo criativo e desenvolvimento individual e coletivo dos integrantes. O tratamento da tutoria foi de coaching, individualizado a cada jornada individual em seus confrontos e aspirações durante a prática.

No âmbito da cultura, artes e sociedade, foram analisadas as barreiras culturais no sentido do bloqueio da produção artística e das peculiaridades dos indivíduos, os quais foram trabalhados como buscas específicas, instigados e compreendidos ao longo do processo, bem como as motivações da produção de arte e o desenvolvimento dos integrantes tanto no aspecto  técnico e no aspecto pessoal.

Inicialmente, avançou-se na revisão teórica através do levantamento de livros e periódicos com descritores na área do ensino e prática das artes plásticas, barreiras culturais e transformação pelas artes, coaching, nas plataformas Directory of Open Access Journals, Google Scholar, Google Books. Através do primeiro encontro com os alunos artistas, foi possível organizar um currículo mínimo e um programa para controle e acompanhamento dos alunos artistas.

 

4. O Estudo de Caso Atelier de Artes

Buscou-se perceber as transições entre o hábito da reprodução de banco de imagens como ferramenta para o desenvolvimento de conhecimento técnico de desenho e pintura em óleo e a expressão individual, quanto às escolhas de imagem que sucedem por identidade/interesse e o processo de autoconhecimento.

A questão do autoconhecimento estaria na escolha da cor, na identificação de limites individuais e mediante os acertos necessários nessa busca e também no fator fisiológico, que marcava as características peculiares de cada faixa etária e o convívio concomitante. A vivência discorrida do Atelier de Artes Tamar Prouse e a comunidade da Junta de Freguesia de Vila Verde e Barbudo, ocorria em encontros semanais de duas (2) horas e foi veiculada no jornal Semanário V[1], como de integrantes “de 8 a 80 anos”, uma chamada jornalística apontando as diferentes faixas etárias representadas.

 

4.1. Descrição do ambiente do Atelier em Vila Verde: a arte como realização por faixas etárias e sua aprendizagem

O local dos trabalhos foi a Vila Verde, uma vila portuguesa pertencente ao distrito de Braga, região do Norte e sub-região do Cávado, com cerca de 4 300 habitantes. É sede de um município com 228,67 km² de área e 47 888 habitantes, subdividido em 33 freguesias (Wikipedia, 2017).

O interior rural de Portugal é, na sua generalidade, uma zona um pouco mais envelhecida e menos povoada, onde muitos jovens se dirigem às maiores cidades em busca de oportunidades e para o estrangeiro, à procura de uma vida melhor.

A característica de “vila”, ou “vilarejo”, é comumente associada a cultura bairrista, onde a comunidade não é tão populosa e os hábitos estão atrelados a tradições e valores culturais em que a própria gestão local procura incentivar. São festividades regradas por uma agenda específica que busca apresentar essa identidade local.

O ambiente do atelier de Arte sugeria a prática das artes como oficina. Nesse contexto, os integrantes possuíam algum conhecimento técnico inicial e usufruíam da experiência e orientações de tutoria e pagavam uma taxa representativa. Para o desenvolvimento técnico, os integrantes escolhiam a técnica, que em geral foi tinta a óleo e desenho – grafite, nanquim e aquarelado. As esculturas ficaram por conta da tutoria, pois a estrutura física da sede era limitada.

No primeiro encontro, foi oferecido um roteiro de aprendizagem a partir de uma pauta formal embasada em bibliografia e videoaulas de pintura, desenho e escultura. A prática mostrou que o ritmo de aprendizado seria individualizado e o escopo do programa de aprendizado seria alcançado na realização prática conforme as técnicas mais adequadas a cada projeto. Foi incentivado que cada integrante construísse seu banco de imagens e, com intervalos de 3 ou 4 encontros, exibiu-se os contextos das artes e foram analisadas pinturas e produções de diferentes épocas e estilos, chegando até aos mangás (técnica de desenho japonesa) e a ilustração digital. Com esse conteúdo visual e histórico, pretendeu-se inspirar e dotar de conhecimento para incentivo da verbalização das impressões diante das imagens, do desenvolvimento do olhar e do discurso.

 

5. Resultados e Discussão

O resultado surgiu diante das escolhas dos alunos artistas ao se problematizar com os alunos artistas sobre como seria produzir arte com as limitações culturais no sentido da idade, tradição e dos hábitos.

Nessa didática de coaching, as buscas dos alunos artistas passaram a ser mais sofisticadas e personalizadas. Como exemplo, a imagem religiosa tornou-se um cenário onde as personalidades bíblicas são retratadas como pessoas do dia a dia. A imagem de rosto de pessoa que inicialmente era um retrato de político passou a ser uma imagem que retratava uma mulher a chorar (figura 1), refletindo o momento emocional da autora da obra. O desenho simples de mangá passou a ser uma produção temática para concorrer em concurso próprio para idade adolescente (figura 2).

 

Figura 1 - exemplo de transição pelo autoconhecimento 1

Fonte: Elaborada pelo primeiro autor

 

Figura 2 - exemplo de transição pelo autoconhecimento 2

Fonte: Elaborada pelo primeiro autor

 

Diante dessas características apresentadas por parte dos trabalhos dos alunos artistas, constatou-se que a vivência prática e coletiva com apoio individualizado/coaching realmente é eficaz para o desenvolvimento do aluno, tanto no nível técnico quanto na busca estético- individual. Foram seis meses de experiência, desde o projeto até o amadurecimento, culminando em resultados positivos. Ao final do projeto, os integrantes estavam capacitados a compor seus projetos com mais liberdade de expressão.

A visualidade contemporânea convoca pontos de intersecção entre histórias e geografias relacionando o local e o global. Mas, uma barreira cultural é a da produção local onde é valorizada a produção artesanal. Em Vila Verde existe a chamada marca “Namorar Portugal”, que é um programa de incentivo à produção local de artesanato com essa temática, valorizando a tradição, história, cultura e turismo. Tratando-se de produção de arte, isso se reflete como uma barreira cognitiva, pois a criação, em certa medida, está em aplicar essa temática em produtos variados, mas não na criação original de expressão.

O capital criativo é um fator-chave na economia sustentável. Uma boa educação através da arte pode ajudar os estudantes a verem melhor, a serem persistentes, ousados, e a aprenderem com os erros, fazendo juízos críticos e sabendo justiçar as sãs opiniões, tal como foi explicado pela equipe de investigação de Ellen Winner e Lois Hetland, da Universidade de Harvard (Hetland et al., 2007).

Com isso o atelier teria que passar por um processo de socialização com uma abordagem de marketing e sensibilização para aumentar o número de adeptos e evidenciar os efeitos positivos de trabalhar a criatividade de forma a transpor a barreira do conhecimento técnico e da influência cultural no sentido de reprodutibilidade em contraposição à originalidade.

Verificando-se os ícones clichês dos trabalhos apresentados, percebeu-se que a identificação sociocultural dos alunos artistas estava fortemente presente (Tabela 1).

Tabela 1 - Temática predominante no banco de imagens, por faixa etária


Fonte: elaborada pelo primeiro autor

Cabe ressaltar que foi observada uma dificuldade visual no decorrer do curso e, no tocante aos idosos participantes e a alguns de faixa etária inferior, a perda de visão é uma das principais causas de incapacidade, perda de independência e redução de qualidade de vida. Embora a probabilidade de perda de visão aumente com a idade, existe o falso estigma de que esta é uma causa decorrente do processo de envelhecimento. É igualmente traumatizante perder a visão durante a velhice ou em etapas mais precoces da vida, podendo mesmo ser um dos problemas de saúde mais grave que os idosos enfrentam. O efeito psicossocial da perda de visão em idosos pode ter consequências muito graves[2].

Embora apoie como as características peculiares de cada faixa etária agregam valor a uma inserção coletiva, o desenvolvimento individual se desdobrou não apenas em termos de autoconhecimento, mas de autoestima, pois os membros participaram de um processo completo entre aprendizagem, execução e a exposição, ainda que este processo de busca individual seja continuado e os meios para que ele se desenvolva por si sempre existam.

 

6. Considerações finais

Considerando as transformações ocorridas ao longo do curso no sentido do desenvolvimento individual, a escolha da abordagem de distinguir o desenvolvimento técnico do desenvolvimento de expressão aconteceu de forma frutífera, uma vez que, na busca de uma identidade artística personalizada, mesmo em banco de imagens ou fotografias pessoais, os alunos artistas mostraram interesses, linguagem própria e felicidade, no sentido de realizar, concretamente. Esse exercício realizado no Atelier de Artes Tamar Prouse, na Junta de Freguesia de Vila Verde e Barbudo, monitorado e acompanhado individualmente, resultou  em  uma  mostra  de  Artes na Biblioteca Municipal de Vila Verde, com Vernissage, presença de personalidades da gestão pública e cobertura de imprensa[3].  Os objetivos iniciais foram obtidos parcialmente diante dos resultados: desenvolvimento individual e resultado coletivo. A metodologia de coaching no processo de busca no Atelier de Artes Tamar Prouse foi satisfatória, pois a produção de arte requer além de conhecimento técnico, um desenvolvimento individual e certa organização para que isso aconteça. Esse acompanhamento mais intensivo e inspirador despertou notadamente o desempenho dos artistas participantes tanto em motivação quanto em resultados na vida pessoal e artística. Embora o caso tenha sido parcialmente eficiente e eficaz, o processo de coaching demanda maior espaço de tempo e uma projeção/reflexão para médio prazo, pois o coaching inspira e instiga à mudanças e isso requer tempo. Num escopo restrito a aulas na Junta de Freguesia local, o aspecto da assiduidade e continuidade é frágil colocando a aplicação desse processo em risco. Outro aspecto analisado numa perspectiva mais ampla, alguns direcionamentos poderiam acontecer para a integração social, por exemplo: em Vila Verde acontece a Bienal de Arte Jovem. Esse processo, se aplicado de forma direcionada e apoiada por stakeholders essenciais como a Câmara Municipal de Vila Verde e o apoio do Ministério da Cultura, o processo de coaching no desenvolvimento criativo das artes plásticas teria outros resultados em mais amplo aspecto.

 

Notas

[1] - Cf. http://vilaverde.net/2017/08/11/tamar-prouse-brasileira-com-sangue-estoniano-mas-

escolheu-pintar-vila-verde/

[2] - Cf. http://comfortkeepersportugal.blogspot.pt/p/perda-de-visao.html.

[3] - Cf. http://www.ovilaverdense.com/noticia.php?n

 

Acknowledgments

This paper was presented at 6th EIMAD – Meeting of Research in Music, Art and Design, and published exclusively at Convergences.

 

Referências

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Andrade, T. Júnior, H. ; (2018) Coaching no Processo Criativo das Artes Visuais: o Caso do Atelier de Artes em Vila Verde. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL XI (22) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt