Os Primeiros Projectos de Mobiliário Dobrável - Um Hibridismo Primitivo [1]

The First Projects of Folding Furniture - A Primitive Hybridism [1]

Cunca, R.

FBAUL - Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: O texto apresenta um percurso pelo mobiliário dobrável, desde os primeiros exemplares do período egípcio, até às patentes registada nos EUA, durante a segunda metade do século XIX. Neste percurso, ilustram-se as soluçõees técnicas dos objectos e a sua tendente evolução como objectos plurifuncionais, inaugurando através da especialização um hibridismo funcional.

PALAVRAS-CHAVE: Design; Design industrial; Teoria do design; História do design; História do Mobiliário; Cultura material; Cultura do habitar.

 

ABSTRACT: The text presents a route through the folding furniture, from the first copies of the Egyptian period, to the patents registered in the USA, during the second half of the 19th century. In this course, we illustrate the technical solutions of the objects and their tendency to evolve as multifunctional objects, inaugurating through functionalism a functional hybridism.

KEYWORDS: Design; Industrial design; Theory of design; History of design; History of Furniture; Material culture; Culture of living.

A ideia de movimento empregue no mobiliário, no que toca a alguns dos seus elementos constituintes, ou na completa redução dos assentos a uma superfície próxima do plano, encontra-se já nos móveis da remota civilização egípcia. O desenvolvimento das práticas de marcenaria é bem patente nos processos de construção destes móveis que, graças à sua permanência no interior dos sepulcros, foram descobertos em excelente estado de conservação. A madeira era o material utilizado na estruturação dos objectos, deixada em cru nos exemplares mais populares, enquanto que os que equipavam a morada dos faraós eram revestidos a ouro e prata, conciliando ainda a pintura, os relevos e os embutidos, na sua ornamentação. O couro, as fibras vegetais e as almofadas envolvidas por tecidos cobriam as superfícies de contacto com o corpo, nos assentos e móveis de repouso. Os métodos de ensamblamento e preparação dos elementos do mobiliário demonstram o elevado grau de aperfeiçoamento atingido no período,  incluindo cavilhas e encaixes colados, esquadros, dobradiças, ferragens e eixos de metal, sem esquecer o curvar da madeira e a produção de compensados, nos quais o acabamento do material era provocado pelo atrito da pedra-pomes.

No que diz respeito à mobilidade dos elementos no mobiliário, apesar de alguns modelos anteriores ao reinado de Tutankhamon exibirem esta característica (como o baú com gaveta e a tampa móvel da Décima Segunda Dinastia) foi no túmulo deste faraó que foram encontrados os exemplos mais significativos. Descoberto em 1922, e completamente explorado em 1924, de entre os mais de cinco mil artefactos quotidianos e religiosos que constituem o esplendoroso espólio do soberano para a sua viagem futura, o mobiliário assume um especial relevo. 

 

Fig. 1 – Banco dobrável pertencente ao espólio de Tutankhamon, datado entre 1400 e 1350 a. C.

 


Do conjunto, faziam parte alguns objectos dobráveis, incluindo um banco, datado entre 1400 e 1350 a.C.,fig. 1, no qual a relação entre a estrutura e o movimento resulta num todo compacto. Os seus elementos de suporte cilíndricos estão agrupados em duas peças, cada uma composta por dois apoios curvados que, na sua extremidade inferior, terminam com a configuração de uma cabeça de pato, ensambladas perpendicularmente a uma travessa. Na extremidade oposta aparecem fixos a uma ripa de secção rectangular que estrutura o assento em couro. As duas peças encontram-se cruzadas em forma de X, no lado menor do objecto, e quando rebatem uma sobre a outra fecham o banco. A solução construtiva descrita foi amplamente reproduzida em vários modelos de mobiliário até à actualidade, fazendo lembrar os assentos e planos dobráveis empregues ainda hoje em situações maioritariamente exteriores. 
Observa-se uma elementaridade idêntica num leito fig. 2  e num apoio de cabeça pertencentes ao conjunto. No leito, a superfície paralela ao solo é formada por uma moldura de madeira revestida por cordas de fibra vegetal entrelaçadas, dividida no sentido longitudinal em três secções justapostas por dobradiças de cobre. As charneiras e a flexibilidade da fibra possibilitavam a sobreposição das diferentes partes, reduzindo a sua dimensão para um terço do comprimento. Os apoios de cabeça substituíam as actuais almofadas e, dado o seu carácter íntimo, exibiam materiais mais nobres. A capacidade dos móveis diminuírem de dimensão facilitava o seu transporte e indicia a sua utilização fora dos aposentos do faraó, possivelmente em acontecimentos públicos e acampamentos, visto o Egipto ter sido importunado pela guerra no período correspondente à liderança de Tutankhanom.

 

Fig. 2 – Leito dobrável pertencente ao espólio de Tutankhamon, 1360 a. C.

 


Durante a Antiguidade Clássica, na Grécia, o uso deste tipo de móvel é assinalado em representações contidas em frescos e peças de cerâmica. Apesar dos poucos exemplos de mobiliário que chegaram até aos nossos dias, as composições ilustram os assentos num ambiente quotidiano, como uma taça do século IV a.C. fig. 3, onde um grupo de homens prova vestuário e calçado, encontrando-se entre duas das figuras um assento dobrável, sobre o qual está colocado o traje de um deles. O desenho do banco demonstra a mesma simplicidade construtiva dos anteriores modelos egípcios, embora o assunto pintado manifeste a aplicação do objecto em meios mais comuns. Na época da antiga Roma, os altos funcionários com competências judiciais ou administrativas utilizavam este tipo de assento no desempenho das suas funções. O «sella curulis» [2] rapidamente ascendeu a símbolo do poder romano, sendo, por isso mesmo, a cadeira escolhida pelas autoridades que o representavam. Contudo, o tamborete apresentava algumas diferenças em relação aos exemplos anteriores. Os elementos que constituem a estrutura são de dupla curvatura em forma de S e, quando cruzados, os segmentos superiores excedem o plano do assento.  Os posteriores suportam um encosto baixo em tecido ou couro e servem também de apoio para os braços. A configuração superior da cadeira, semelhante a um semicírculo, proporcionava uma maior adequação ao corpo humano e, consequentemente, uma postura mais cómoda. A sua analogia com os faldistórios de apoios curvados da Idade Média ultrapassa os aspectos formais e funcionais, visto o objecto ter sido instituído como assento episcopal, embora a influência seja igualmente evidente na cadeira italiana do século XV, denominada  Dantesca, que equipava os recintos monásticos.

 

Fig. 3 – Assento representado na pintura de uma taça, Grécia, séc. IV a. C. 

 


No mobiliário romano, o movimento é também aplicado aos suportes das mesas de campo em bronze cinzelado fig. 4. Num destes modelos, encontrado em Pompeia, as quatro  “pernas” estão estruturadas por perfis cruzados em forma de X, com os eixos superiores rotativos cravados a uma peça nos apoios, enquanto os inferiores aparecem fixados a argolas que deslizavam segundo segmentos verticais, situados na parte inferior dos mesmos apoios. O sistema permitia flectir a estrutura, reduzindo ao mínimo a distância entre os suportes, e aumentar a amplitude da articulação no decorrer da acção que correspondia à abertura da mesa. Para proceder à operação inversa, era necessário aproximar em dois momentos distintos os planos formados pela estrutura, o que diminuía significativamente a dimensão do objecto.

 

Fig. 4 – Mesa de campo dobrável, construída em bronze cinzelado, Pompeia.

 


Na Idade Média, a generalidade do mobiliário assume um carácter rígido e pesado, visualmente percepcionado pelos seus planos ortogonais maciços. O facto está sobretudo relacionado com os processos de marcenaria que durante o período românico eram ainda muito primitivos, limitados às junções de topo e na perpendicular. Contudo, os móveis deste período, dada a escassa diversidade de modelos, respondiam a várias solicitações, como a arca que, para além de assegurar a função de conter objectos, roupa, alimentos e cereais, servia igualmente de banco ou de mesa e equipava as casas senhoriais, do povo e as igrejas. Este móvel é talvez o mais característico da época. No período gótico, o seu painel posterior eleva-se de modo a formar um espaldar, assim como os laterais que se convertem em apoios para os braços, transformando-se o artefacto num banco-arca fig. 5. O armário é também um sucedâneo do objecto em causa devido, essencialmente, ao seu desempenho como contentor.

 

Fig. 5 – Banco-arca gótico.

 


Apesar dos métodos de construção primários, a maioria do mobiliário era desmontável ou possuía pegas para facilitar o transporte, como é o caso das mesas, constituídas por um conjunto de tábuas justapostas, apoiadas sobre cavaletes. A circunstância devia-se à instabilidade vivida no período e ao facto de os móveis equiparem as diversas moradas do seu proprietário que, ao deslocar-se para outra residência, transportava consigo todos os seus bens. 
A maioria dos exemplos de mobiliário medieval é de origem eclesiástica e, por consequência, os modelos dobráveis equipavam também os espaços do clero. Assim, tal como noutras áreas, desde o conhecimento à arte, era nos mosteiros que se discutiam os assuntos, e o mesmo acontecia em relação à produção dos móveis que haveriam de influenciar os demais em uso na sociedade feudal. As cadeiras de cerimónia utilizadas pela dignidade  clerical eram o setial e o faldistório. O primeiro, de espaldar alto e recto e com o assento móvel, em alguns dos exemplos, daria origem ao cadeirado do coro das igrejas góticas. A sua semelhança com algumas cadeiras nobres, como a cadeira de D. Afonso V de Portugal, datada do século XV e pertencente ao espólio do Museu de Arte Antiga, demonstra a importância deste modelo, não só a nível da Igreja, mas também no seio da realeza. O setial estabeleceu-se como um dos modelos mais característicos do período gótico, embora em relação à flexão dos elementos nos móveis, o faldistório demonstrasse, de forma mais evidente, essa intenção.

 

Fig. 6 – Faldistório da Catedral de Bayeux, séc. XIV.

 

Fig. 7 – S. Mateus sentado num banco de apoios cruzados, iluminura do séc. IX.

 

Fig. 8 – Anjo sentado num faldistório e móvel com atril rotativo, pormenores do Cordeiro Mistico  de Hubert e Jan Van Eyck, 1432.

 

Fig. 9 – Anjo sentado num faldistório e móvel com atril rotativo, pormenores do Cordeiro Mistico  de Hubert e Jan Van Eyck, 1432.

 


No período românico, os faldistórios eram construídos em madeira, tal como a maior parte dos móveis deste estilo, com os apoios rectos decorados e o assento em tecido. Durante o período gótico, alguns dos artefactos são executados em metal, dos quais se destaca o assento episcopal da Catedral de Bayeux fig.6. A reduzida secção dos seus elementos curvos em ferro forjado, desprovidos de ornamentação, atenua a expressão da estrutura e acentua a elementaridade construtiva em relação aos exemplos anteriores. Apesar dos existentes no período medieval, o uso de faldistórios é igualmente notório nas representações contidas nos evangeliários e, mais tarde, nas pinturas. Num dos manuscritos pertencentes à Corte de Aix-la-Chapelle, datado do século IX, encontra-se uma iluminura com S. Mateus sentado num banco fig. 7, enquanto escreve num livro colocado sobre um atril. O assento, de apoios trabalhados, cruzados na diagonal, é análogo aos faldistórios românicos e o facto do evangelista se encontrar a executar a tarefa no exterior sugere que o modelo é dobrável. Posteriormente, e já no século XV, o Retábulo do Cordeiro Místico figs. 8 e 9, dos irmãos Hubert e Jan Van Eyck, apresenta na composição um assento com as mesmas características. Numa das tábuas do painel lateral, situado à direita no tríptico, figura um grupo de anjos tocando diferentes instrumentos, entre os quais se destaca o organista, sentado num faldistório de apoios curvados. A distância de seis séculos que medeia entre as duas representações e a inclusão do objecto em ambientes de carácter religioso demonstram o seu longo ciclo de aplicação nos meios eclesiásticos. Porém, no tríptico flamengo e na tábua precisamente oposta à descrita, um outro grupo canta, seguindo a melodia por um livro apoiado sobre um atril em forma de prisma triangular. O elemento faz parte de um móvel, e roda em torno de uma peça  cilíndrica de metal fixada ao plano superior do paralelepípedo formado pela base. O plano era a superfície utilizada para escrever, enquanto a base servia, por certo, de estante para livros. Embora o objecto agregue elementos móveis e fixos, o que atesta a evolução das técnicas de construção no final do período gótico, o seu aspecto peculiar baseia-se na necessidade de conciliar diferentes usos num só móvel, relacionados com o exercício de uma determinada actividade. A produção de mobiliário “plurifuncional” é referida por Giedion quando o autor descreve a aplicação de peças com uma certa mobilidade nos artefactos deste período: «Fabricavam-se também  móveis mistos, que serviam ao mesmo tempo de apoio para livros, secretária e armário.» [3]
Ao mesmo contexto, pertencem as cadeiras, Dantesca e Savoranola, figs. 10 e 11 a primeira já mencionada neste texto como sucedânea do assento romano. Apesar de os seus nomes aludirem a duas personalidades italianas, assumindo a segunda, na íntegra, o apelido do dominicano Girolamo Savonarola, a sua principal diferença em relação à Dantesca consiste na sobreposição vertical de secções paralelas de madeira, recortadas em forma de dupla curvatura, tal como os quatro apoios da anterior. A rotação dos elementos da estrutura, em cada um dos casos, processava-se através de um eixo situado abaixo do plano do assento. Estes dois modelos equipavam as celas dos mosteiros e, embora não fossem os únicos exemplares de assentos dobráveis na época, converteram-se nos mais comuns. Para o facto, contribuiu a sua ampla difusão na Europa, que perdurou até ao Renascimento, e a extensão a outros espaços como o doméstico.

 

Fig. 10 – Cadeira tipo Savoranola e Dantesca, séc. XV

 

Fig. 11 – Cadeira tipo Savoranola e Dantesca, séc. XV

 


A inclusão deste mobiliário nas habitações aparece de novo assinalada na pintura flamenga do século XV. Em dois retábulos atribuídos ao mestre de Flémalle, a fidelidade com que são representados os ambientes domésticos burgueses constitui um excelente testemunho para a avaliação dos móveis da época. No painel de Santa Bárbara fig. 12, surge, em segundo plano, um pequeno assento de construção idêntica à cadeira Savoranola, que  serve de suporte a um jarro, no qual foi colocado uma flor, enquanto que, em  primeiro plano, aparece um banco comprido, colocado ao lado da lareira e possuindo como apoio de costas um perfil de secção octogonal que, através de uma ferragem, descrevia um movimento de rotação entre a parte posterior e anterior do banco.

 

Fig. 12 – Banco com espaldar reversível, pormenor do painel de Santa Barbara, mestre de Flémalle, 1438

 


O banco de origem alemã, denominado Tisch-bank, e uma cadeira inglesa da época renascentista exibem uma solução semelhante para rodar os seus altos espaldares rectos.  Com o mesmo sistema que o anterior, o encosto rebatia sobre os apoios de braços, onde estava situado o eixo, embora nestes dois modelos a acção fosse realizada quando se pretendia converter  o banco ou a cadeira em mesa, atribuindo aos objectos uma dupla utilização.
A conciliação de duas funções nestes artefactos parte de um princípio construtivo elementar e hábil, ao potenciar uma configuração estrutural comum, apta a sustentar os planos de cada um dos modelos. O banco-mesa seria posteriormente recuperado nos EUA. Giedion refere a introdução do objecto pelos «colonos da Pensilvânia» [4] e no Catálogo de Equipamentos para a Casa de 1881, da empresa Simmons Hardware Company, um dos exemplares aparece descrito como banco e mesa para cozinha.[5] fig. 13

 

Fig. 13 – Banco-mesa de construção idêntico ao Tich-bank de origem alemã, comercializado pela empresa americana Hardware Company e 1881

 

 

Fig. 14 – Projecto de cadeira de inválido para Filipe II de Espanha

 


Apesar dos escassos modelos existentes, o mobiliário com peças móbiles ou geradoras de movimento tende lentamente a adequar-se a circunstâncias cada vez mais particulares. Um destes casos é o original projecto da cadeira de inválido para Filipe II de Espanha fig. 14. No desenho, figura uma perspectiva e três vistas do assento com anotações sobre os vários movimentos, elucidando claramente as intenções do seu autor. A cadeira ,com espaldar, apoio para pernas e pés articulados por meio de guias dentadas, dispunha ainda de pequenas rodas colocadas nas extremidades dos suportes.

Durante as últimas décadas do século XVIII, os principais protagonistas desta actividade em Inglaterra começaram a projectar alguns exemplares de mobiliário com peças móveis. De destacar os trabalhos de George Hepplewhite e Thomas Sheraton que, juntamente com Robert Adam, pertenciam ao grupo de promotores de objectos para os interiores burgueses e aristocráticos [6]. Ao conjunto, pertence uma mesa de Sheraton que, através de um sofisticado mecanismo, possibilitava armar um escadote para biblioteca, recolhido por baixo do tampo em duas fracções fig. 15. Quando montado, os três degraus inferiores ficavam abaixo da superfície da mesa, enquanto que os superiores, munidos de um apoio posterior, utilizavam o mesmo plano como base de suporte. O tema dos escadotes dissimulados em vários objectos, construídos para alcançar os livros das últimas prateleiras das bibliotecas nas habitações aristocráticas, originou exercícios pragmáticos como a cadeira-escadote de Benjamin Franklin. Na poltrona, debaixo do assento, encontravam-se fixados os degraus que ao serem rebatidos sobre o espaldar, se colocavam numa posição apta para o seu uso. Um exemplar com características semelhantes fig. 16 faria parte dos produtos comercializados, cerca de um século depois, por uma empresa americana, a Montgomery Ward [7].

 

Fig. 15 – Mesa-escadote de Thomas Sheraton, 1793

 

Fig. 16 – Cadeira-escadote comercializada em 1895, pela Montegomery Ward & Co,

 


Outro, elemento muito comum no século XVIII, no seio das classes mais abastadas, é o toucador. Os diferentes modelos para dama ou cavalheiro de estrutura paralelepipédica e apetrechados com gavetas, que, no caso dos modelos femininos, integravam recipientes para a higiene, pertencem igualmente ao grupo dos móveis com movimentos. No álbum de desenhos para marcenaria e decoração de Helpplewhite com o título Gabinet-Marker’s and Upholsterer’s Guide, publicado em 1787, figurava uma mesa-toucador fig. 17 com tampas nas gavetas que serviam também de espelhos quando colocadas na vertical. Estas descreviam ainda um movimento de rotação, através de um eixo apoiado numa esquadria de madeira, para se ajustarem à posição correcta durante o acto de embelezamento. Ainda que os sistemas implantados nos objectos descritos [8], especialmente nestes últimos, possam ter constituído uma importante influência para o mobiliário patenteado que surgiu nos EUA na segunda metade do séc. XIX, devido à sua proximidade no tempo, não passaram de um ponto de partida ao sugerirem este procedimento no projecto e também na prática construtiva. No espaço norte-americano, o aspecto alcançou uma nova dimensão, não só ao nível da frequência com que surgiram as soluções, mas também no âmbito do seu desígnio, ao associar os vários mecanismos aos diferentes requisitos de uso.

 

Fig. 17 – Toucador publicado no álbum de desenhos de George Hepplewhite intitulado Gabinet-Marker's and Upholsterer's Guide, 1787.

 


Os projectos procuravam, acima de tudo, ir ao encontro das necessidades do seu tempo e, em muitos casos, excederam as expectativas dos observadores da época. A mobilidade aplicada aos artefactos com um objectivo preciso pretendia dar resposta a um determinado critério de utilização. Alguns modelos exibiam um ambicioso programa que conciliava os diferentes usos com a intenção de atribuir várias ocupações aos espaços de áreas diminutas. Nos assentos, as superfícies articuladas e o acoplamento de mecanismos alteravam a sua estrutura de acordo com as posturas, ao converter cadeiras em espreguiçadeiras ou ao adequar o sentar a tarefas mais específicas. Os móveis com camas e banheiras que rebatiam sobre roupeiros, ou consolas com esquentadores, constituíam uma engenhosa solução para as casas de dimensões reduzidas.


O interesse pelo apelo dos objectos surgiu no seio da classe média nos EUA, rejeitando um possível gosto imposto pelos ambientes dos meios mais abastados, como sucedeu na sua homónima europeia. Constitui uma completa reviravolta nos critérios de selecção dos artefactos, que prescindem da aparência estilística ditada pela moda em favor dos atributos utilitários, especialmente entre as décadas de sessenta e oitenta, período que corresponde à sua maior difusão. Deste modo, o mobiliário patenteado instala-se em diferentes esferas da actividade, num movimento de projecto comum, influenciando reciprocamente as várias tipologias. Das casas aos escritórios, carruagens ferroviárias, barbearias e, posteriormente, às salas de operação, os modelos dobráveis, articulados e com superfícies que se podem rebater ou móbiles, equipavam a grande maioria dos espaços.

Os inventores, ao potencializarem os projectos para melhor desempenharem as suas funções e adequarem a estrutura dos assentos a posturas mais cómodas, concebiam diferentes construções para conferir mobilidade aos elementos ou gerar movimentos. Na maioria dos móveis, a relação entre os aspectos formais e as engrenagens era perfeitamente coerente, o que demonstrava, por um lado, o domínio técnico alcançado pelos projectistas e, por outro, a sua simplicidade funcional. Embora algumas das soluções dos mecanismos possam ser relacionadas com os processos implementados nos objectos dobráveis anteriores, a evolução dos sistemas adicionava aos móveis novas prestações, sem com isso perderem a elementaridade que os caracterizava.

Um dos exemplares que melhor corresponde à descrição acima mencionada é a Sitting Chair fig. 18. Patenteada em 1853, o seu autor, Peter Ten Eyck, desenvolveu um mecanismo que combinava duas acções. Este permitia que a cadeira de braços descrevesse um movimento giratório sobre um eixo roscado situado na base, com quatro apoios munidos de rodas e, ao mesmo tempo,  inclinar o assento sob o qual estava colocado o sistema que permitia o movimento basculante. Na cadeira de madeira, o espaldar demonstrava uma construção idêntica à popular Windsor. Era formado por elementos cilíndricos torneados, fixados ao assento na vertical, enquanto as suas extremidades superiores sustentavam uma peça curvada que constituía o apoio para as costas e braços. O modelo foi projectado para melhorar o conforto na casa embora a sua semelhança com as actuais cadeiras de escritório leve a sugerir a sua influência nos assentos deste espaço. O mecanismo reflectia a intenção do seu inventor em adaptar a cadeira a situações mais estáticas e, simultaneamente, mais dinâmicas, decorrentes das várias posições que a postura assume durante o sentar, embora os modelos rotativos eclesiásticos do século XVI evidenciassem já esta opção. Eyck, ao associar três tipos de movimento num único objecto, dado o facto da estrutura dispor igualmente de rodas para a sua deslocação, criou um sistema que ultrapassou a simples utilização doméstica para  se instalar de forma directa no escritório. Giedion, ao descrever o projecto como produto do «cruzamento» entre a cadeira de baloiço e a cadeira giratória,  refere o carácter híbrido da sua mobilidade: «Aquilo que os americanos conseguiram fazer mais tarde de modo bem sucedido com a hibridação das plantas, aparece aqui no domínio da mecânica.» [9]

 

Fig.18 – Cadeira giratória e basculante Sitting Chair, 1853.

 

Fig. 19 – Cadeira para costurar à maquina, 1871. 

 

Fig. 20 – Cadeira para dactilografia, 1896.

 

Fig. 21 – Cadeira de dentista hidráulica, 1879.


Deste modo, era inaugurado o percurso que dirigia os assentos para tarefas cada vez mais específicas. Convém, no entanto, salientar o início das experiências com os bancos ferroviários conversíveis, iniciadas igualmente na década de 50. Provavelmente, as concepções aplicadas às carruagens contribuíram, no meio desta  efusiva atmosfera mecânica, para a miscegenação de engrenagens e tipos que, ao desempenharem funções um tanto ou quanto similares, em espaços distintos, vocacionavam o conforto em função dos requisitos exigidos por cada um dos usos. Assim, as cadeiras para coser à máquina, para dactilografar e de barbeiro, figs. 19, 20 e 21entre outras, adaptaram-se, progressivamente, às exigências de cada actividade. Na década de 70, um modelo para costurar aferia a inclinação do assento e espaldar compactos de acordo com as características físicas dos utilizadores, enquanto que os modelos que apetrechavam as barbearias, de construção mais elaborada, articulavam os seus elementos para ajustarem a postura dos clientes aos diferentes actos inerentes à profissão, dedicados não só à beleza, mas também à medicina. O aperfeiçoamento do assento está associado à separação das ocupações, dando lugar à cadeira de dentista que começa a empregar a força hidráulica para coadunar os movimentos. Numa destas cadeiras de dentista, registada em 1879, a coluna central regulava, por meio de alavancas, a altura e rotação do assento que possuía espaldar, apoio para cabeça e pés ajustáveis, sendo a sua constituição idêntica às que encontramos, ainda hoje, nas antigas barbearias. Semelhantes preocupações antropométricas surgem na cadeira para dactilografar de 1896, apesar de a solução ter aparecido vinte e três anos depois da prática máquina de escrever, Modelo 1, produzida pela Remington [10]. O seu apoio dorsal, suportado pelo assento rotativo, possibilitava acomodar a distância e a posição correctas, em relação às costas do indivíduo, através da sua deslocação horizontal e vertical. Todos estes projectos partilhavam a mesma intenção de introduzir significativos benefícios nas áreas de trabalho. Mas, no que diz respeito ao espaço doméstico, e depois da Sitting Chair, foi a popular cadeira de braços Wilson, registada em 1871 com o nome do seu autor, que adquiriu esse estatuto fig. 22.

 

Fig. 22 – Desenho da patente da cadeira de braços Wilson, 1871

 


Alguns ensaios com modelos dobráveis, datados do período que medeia as duas patentes, basearam no processo dos eixos cruzados na diagonal do banco egípcio para converterem cadeiras em espreguiçadeiras. Em contrapartida, a Wilson desmultiplicava-se em movimentos. Dividida em várias secções, articuladas entre si, possuía vários apoios para as diferentes partes do corpo e definia uma série de posições, desde o sentar até à completa horizontalidade dos seus planos. A estrutura era, na maioria, constituída por barras de metal; nos apoios, a sua sobreposição formava uma malha ortogonal, enquanto que nos suportes, onde se encontrava o dispositivo basculante do assento, eram curvadas em forma de semicírculo e unidas por quatro varões. Finalmente, todas as superfícies estavam cobertas por almofadas estofadas que davam à cadeira um maior conforto. A configuração do assento, do espaldar e do apoio para braços, pernas e pés regulava-se por meio de uma alavanca que accionava as engrenagens e permitia ao utente ajustar os vários planos à forma desejada, apenas com a deslocação de um manípulo.

Wilson apercebeu-se que a ideia de um assento totalmente articulado poderia ser aplicada ao espaço doméstico e abranger um maior número de utilizadores. Simplificou o sistema e fundou a Wilson Adjustable Chair Company para produzir o assento com um indubitável sucesso, a avaliar pelo avultado número de exemplares vendidos. Ao mesmo tempo, instaurou um novo conceito de cadeira, que ainda hoje equipa os lares americanos, mais ou menos exuberante, com sofisticados processos de aquecimento e massagens, monitor e computador.

A data da última patente surge nas vésperas da Exposição Universal de Filadélfia, realizada em 1876 para comemorar o primeiro centenário da independência do país. No espaço expositivo, destaque para a apresentação do telefone da autoria de Alexander Graham Bell, registado nesse mesmo ano, e que constitui uma das atracções da exposição e, ainda, para os produtos americanos como as ferramentas, máquinas, instrumentos agrícolas e objectos de uso diário, entre eles os relógios de bolso. Estes objectos demonstravam, de acordo com os registos sobre a efeméride [11], uma directa e surpreendente conformidade com os usos para os quais tinham sido projectados, expressa na sua depuração formal. Igual característica exibia o mobiliário americano apresentado na exposição. Os modelos patenteados impressionaram também os observadores pela sua simplicidade e adequação funcional, em comparação com os europeus, excessivamente decorados.

 

Fig. 23 – Desenho da patente da cama-armário, 1859.


No período, era inegável a diferença de orientação seguida pela indústria norte-americana em relação à europeia, mais interessada em vocacionar a sua capacidade mecânica para a reprodução de objectos ornamentados. 
Entre os móveis patentes na exposição, havia uma cama que rebatia sobre a  cabeceira, exibindo as suas qualidades economizadoras de espaço, e que, depois de fechada, simulava um guarda-roupa. Estes móveis, fig, 23 que equipavam as salas de estar, constituíam um segundo leito para visitas ou eram usados pelos próprios membros da família, o que permitia solucionar o problema da falta de quartos para dormir nas pequenas residências da classe média, lembrando a aplicação atribuída hoje em dia aos sofás-camas. O móvel foi amplamente explorado pelos  seus inventores, durante a segunda metade do século XIX, e o crescente desenvolvimento de projectos nesta direcção originou o aparecimento de alguns modelos prematuros que conciliavam formas por vezes incongruentes apenas com a intenção de comportarem um extenso programa de utilizações fig. 24. Mais uma vez, no catálogo da empresa Montgomery Ward, sediada em Chicago, encontram-se ilustrados alguns exemplares destas camas, embora a sua data corresponda já à parte final do período da expansão do mobiliário patenteado.

 

Fig. 24 – Cama-piano, 1866.

 

Fig. 25 – Vários modelos de camas dobráveis à venda em 1895 no catálogo da empresa Montgomery Ward & Co.


O extenso inventário denota nas suas páginas o gosto importado da Europa pelos móveis de estilo, com cadeiras, canapés e sofás, contendo elementos ornamentados e estofados com tecidos ricamente decorados. Contudo, no final do catálogo, aparece um segundo conjunto de modelos mais depurados, executados em madeira. Nesta sessão, dedicada ao mobiliário, surgem as camas dobráveis que mediavam os dois conjuntos fig. 25. Os primeiros, de construção mais simplificada e de menor custo, eram seguidos no elenco por modelos que imitavam lareiras quando fechados ou comportavam roupeiros no lado oposto ao leito. Existiam ainda várias combinações que conciliavam cama, estante e guarda-roupa ou escrivaninha, como a popular Success, distinguida com um prémio na World’s Columbian Exposition de Chicago, em 1893. Devido à sua aplicação nas salas de estar das habitações, a proposta “plurifuncional” dos últimos exemplos era não só compatível com os diferentes usos, como também atestava um certo pragmatismo em justapor, na estrutura paralelepipédica, módulos correspondentes a cada um dos desempenhos, reduzindo, deste modo, o número de peças do mobiliário. O catálogo apresentava, na secção dedicada aos acessórios de canalização e equipamento sanitário, alguns exemplos de banheiras móveis que rebatiam  como as camas fig, 26 e demonstravam o mesmo princípio de rentabilização das áreas domésticas.

 

Fig. 26 – Banheira com esquentador comercializado pela Montgomrry Ward & Co. em 1895.


Mais uma vez se verifica a já referida circunstância dos móveis conversíveis acompanharem as necessidades da época, ao proporcionarem soluções dirigidas às residências da classe média, apesar de a construção em madeira apresentar uma certa elementaridade na estruturação dos vários painéis constitutivos do objecto que, tal como nos leitos, simulavam armários quando fechados. A legenda dos móveis mais dispendiosos revelava a possibilidade de adornar o painel frontal com «chapa de espelho biselado à francesa, 34x16, imitação de gavetas, natural, antigo ou do século XVI.»[12]

Em conclusão, neste ambiente pleno de entusiasmo pelas inovações técnicas, as soluções aplicadas ao mobiliário eram numerosas e abrangiam uma diversidade de tipos, desde os assentos domésticos e ferroviários, a utilizações mais exclusivas, como camas e banheiras que se rebatiam, mesas extensíveis e marquesas para cirurgia, só para citar alguns exemplos. A inovação introduzida por estes objectos não suscita quaisquer dúvidas, mas é na sua adequação anatómica e na resolução de problemas específicos, como no caso das cadeiras e camas articuladas ou dobráveis e dos vagões para passageiros, que os projectos assumem a sua maior aplicabilidade.

 

Notas

1 - O presente texto teve por base a investigação desenvolvida para o livro: Raul Cunca, Territórios Híbridos, Lisboa, UL-FBA, Biblioteca d'Artes, 2006.
2 - Uma moeda romana datada de 40 a.C. apresenta numa das suas faces dois exemplares deste tipo de assento. A ilustração faz parte do álbum organizado por Per Mollerup, Collapsibles, Londres, Thames & Hudson, 2001, p.175. 
3 - Siegfried Giedion, La Mécanization au Pouvoir, Tomo II, Paris, Danöel Gonthier, 1983, [1ª edição, Londres/Nova Iorque/Toronto, 1948], p. 30.
4 - Idem, p. 161.
5 - Este objecto pode-se encontrar na compilação dos inventários de produtos domésticos de algumas empresas americanas da segunda metade do século XIX organizada por Ronald Barlow, Victorian Houseware and Kitchenware, Nova Iorque, Dover Publications, 2001, p. 95. 
6 - Algumas das gravuras dedicadas a este tipo de móveis, pertencentes aos livros de modelos de Hepplewhite e Sheraton, encontram-se publicadas no extenso estudo sobre o mobiliário inglês do século XVIII, compilado por Elizabeth White, Pictorial Dictionary of British 18th Century Furniture Design - The Printed Sources, Suffolk, Antique Collectors' Club, 2000, pp. 123, 213, 215, 219, 222, 254 - 258, 292, 311 e 447.  
7 - Montgomery Ward & Co., Nova Iorque, Dover Publications, 1969, [Fac-simile da 1ª edição de 1895], p. 620.
8 - Um vasto conjunto iconográfico de modelos de mobiliário, desde os exemplos egípcios até ao final do século XIX, encontra-se no estudo publicado em 1946 de Luis Feduchi, Historia del Mueble, Barcelona, Blume, 1998. 
9 - Idem, p. 142.
10 - Sobre a evolução destes produtos veja-se, The Typewriter, An Illustrated History, Nova Iorque, Dover Publications, 2000, [1ª edição de 1924]. 
11 - Excertos dos textos da autoria de von Falke e Reuleaux encontram-se transcritos em Siegried Giedion, Espacio, Tiempo …, pp. 351-352. 
12 - Ibidem.

 

Referências Bibliográficas

BARLOW, Ronald, Victorian Houseware and Kitchenware, Nova Iorque, Dover Publications, 2001.

BÜRDEK, Bernhard, Disenõ. Historia, Teoría y Prática del Diseño Industrial, trad. esp., Barcelona, Gustavo Gili, 1999.

CUNCA, Raul, Territórios Híbridos, Lisboa, UL-FBA, Biblioteca d'Artes, 2006.

FEDUCHI, Luis, Historia del Mueble, Barcelona, Blume, 1998, [1ª edição de 1946].

FUSCO, Renato De, Storia del Design, Roma, Laterza, 1998.

GIEDION, Siegfried, Espacio, Tiempo y Arquitectura, trad. esp., Madrid, Dossat, 1980, [1ª edição de 1941];
—, La Mécanization au Pouvoir, 3 tomos, trad. franc., Paris, Danöel Gonthier, 1983, [1ª edição de 1948].

MOLLERUP, Per, Collapsibles, Londres, Thames & Hudson, 2001.
Montgomery Ward & Co., Nova Iorque, Dover Publications, 1969 [Fac-simile da 1ªedição de 1895].

RYBCZYNSKI, Witold, La Casa - Historia de una Ideia, trad. esp., Madrid, Nerea, 1997.

SIMONDON, Gilbert, Du Monde d'Existence des Objects Techniques, Paris, Aubier, 2001, [1ª edição de 1958].
The Typewriter, An Illustrated History, Nova Iorque, Dover Publications, 2000, [1ª edição de 1924].

Reference According to APA Style, 5th edition:
Cunca, R. ; (2008) Os Primeiros Projectos de Mobiliário Dobrável - Um Hibridismo Primitivo [1]. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL I (2) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt