Luxury Branding: Marca e Design

Luxury Branding: Brand and Design

Polo, C. Gomez, L.

LOGO - Laboratório de Orientação Gráfica Organizacional
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este estudo contém uma investigação através de pesquisa bibliográfica sobre os temas luxo, mercado do luxo, luxury branding, e como o Design Gráfico pode apoiar as ações desses. São abordados assuntos como a conceituação de luxo, a participação das marcas de luxo no mercado mundial, o comportamento dos consumidores de marcas de luxo e também a participação do Design Gráfico nas ações de luxury branding. Para isso, é feito um levantamento entre autores de administração, branding, design e também de filosofia, história e economia. Conclui-se tentando demonstrar a participação do Design Gráfico no processo emocional das marcas de luxo.

 

PALAVRAS-CHAVE: Luxo; Luxury Branding; Design Gráfico.

ABSTRACT: This study it contains an inquiry through bibliographical research on the subjects luxury, market of the luxury, luxury branding and as the Graphical Design can support the actions of these. They are boarded subjects as the conceptualization of luxury, the participation of the brands of luxury in the world-wide market, the behavior of the consumers of luxury brands and also the participation of the Graphical Design in the actions of luxury branding. For this, it is made a survey between administration authors, branding, design and also of philosophy, history and economy. It is concluded trying to demonstrate the participation of the Graphical Design in the emotional process of the luxury brands.

 

KEYWORDS: Luxury, Luxury Branding, Graphic Design.

1. Introdução

A gestão de uma marca de luxo engloba particularidades. A marca de luxo deve criar um elo emocional muito forte com o consumidor pois, como Marc Jacobs (diretor de criação da Louis Vuitton) diz: “Para mim, o luxo contemporâneo tem a ver com agradar a si mesmo e não se vestir para os outros.” (in: THOMAS, 2008, p.15). Porém, por mais que a pessoa se sinta feliz com o que está ‘usando’, a sociedade tem-lhe impingido a necessidade de fazer parte de ‘tribos’ e, para isso, mostrar a todos porque essa felicidade se faz imprescindível. Sendo assim, os consumidores de marcas de luxo ‘exigem’ que, por mais discretas que desejem ser, elas sejam facilmente reconhecidas pelos que o cercam. O designer gráfico, dentro de suas competências ligadas à comunicação, pode gerenciar um conjunto de qualidades tangíveis e intangíveis que fazem uma conexão emocional entre marca, consumidor e a sociedade em que ele quer participar.
O objetivo desse artigo é analisar e reconhecer os conceitos de marca de luxo, de mercado do luxo e sua relação (Luxury Branding), apresentando qual a participação do design gráfico nessa relação. Este estudo contém uma investigação através de pesquisa bibliográfica sobre os temas luxo, mercado do luxo, luxury branding e como o Design Gráfico pode apoiar as ações desses.

 

2. O conceito de luxo

Uma das dificuldades em se compreender a gestão de uma marca de luxo advém da dificuldade de conceituação do que seja luxo. Analisando diversos autores, pode-se afirmar que essa conceituação é complexa e não existe unanimidade em sua definição. As contradições já se iniciam na origem da palavra luxo.
“Luxo” e “luz” têm a mesma origem. Etimologicamente vêm do latim “lux”, que significa “luz”. Isso explicaria características típicas dos objetos chamados de luxo: o luxo brilha e tem uma queda pelo ouro, as pedras e os brilhantes; por extensão, cada objeto torna-se quase uma jóia em si (KAPFERER, 2003, p. 73). Mas, essa origem é contraditória. Para Castarède (2005), “luxo” vem do latim “luxus” (abundância, refinamento) e não “lux”. Concordam Lipovetsky e Roux (2005, p. 115), “luxo é derivado do latim “luxus” (a uma só vez substantivo e adjetivo), oriundo do vocabulário agrícola, que incialmente significou ‘o fato de crescer de través’, depois ‘crescer em excesso’, para tornar-se ‘excessivo em geral’ e, enfim, significar “luxo” a partir do século XVII.” Segundo os autores, entre os derivados de luxus encontra-se igualmente luxuria, “exuberância, profusão, luxo”.
Na língua portuguesa, o termo luxo (do latim luxu) segundo o dicionário Aurélio (2004) [1]: 1. Modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer; fausto, ostentação, magnificência; 2. Caráter do que é custoso e suntuoso; 3. Bem ou prazer custoso e supérfluo; superfluidade, luxaria. São definições que remetem à raridade, ao prazer, à exceção, ao desejo, ao refinamento e à sofisticação.
A palavra luxo constitui um problema por ser “ao mesmo tempo um conceito (categoria), um sentimento subjetivo e um termo que carrega crítica subjacente, uma contestação no plano moral.” (KAPFERER, 2003, p. 72). Para Kapferer (2003, p. 73), “o luxo define o belo e é arte aplicada aos objetos funcionais” e para Castarède (2005) a multiplicidade de sentidos conferida ao luxo concorre para que outros termos expressem melhor o que se deseja ressaltar: bom gosto, refinamento, conforto, elegância, qualidade de vida, exigência.
O tema luxo foi estudado por diversos autores que o conceituaram de maneiras diferentes. Assim como existem muitas definições do que é luxo, não há um acordo nas ciências sociais sobre o significado de necessidade e de bens de luxo (LUNT; LIVINGSTONE, 1992). Segundo McKendrick (1982), o conceito de consumo de luxo é dinâmico, justificado pelo fato de objetos tidos como “de luxo” em uma época, posteriormente terem sido enquadrados em outras categorias – como conforto básico ou necessidade – à medida que seu consumo se democratizou e ampliou. O produto ou serviço migra de categoria a partir do momento em que deixa de representar uma distinção social.
Em se tratando de gestão de marcas, Lipovetsky e Roux (2005, p. 132) esclarecem que o termo “luxo” corresponde à “altíssima qualidade, preço muito elevado e o efeito de prestígio da marca”.

 

3. O Mercado do Luxo

Como setor econômico e industrial, o luxo foi plenamente reconhecido desde o final dos anos de 1980, década em que o consumo de produtos de luxo passou por um grande desenvolvimento internacional. Nessa época, em torno de diversificadas marcas de luxo, constituiram-se e desenvolveram-se grandes grupos comerciais (LIPOVETSKY; ROUX, 2005).
Para Lipovetsky e Roux (2005), desde a fundação das grandes casas no século passado, e principalmente nos dez últimos anos, o setor do luxo passou por uma grande mutação. Em apenas uma década, passou de uma lógica artesanal e familiar a uma lógica industrial e financeira. Como exemplo, a marca Louis Vuitton Malletier, quando ainda era uma pequena empresa familiar com um montante de negócios de 32 milhões de euros, torna-se, em 1997, com 1 bilhão e 300 milhões de euros, a filial mais lucrativa do líder mundial dos produtos de luxo: o grupo Louis Vuitton-Moët Henessy (LVMH). Esse grupo, depois de menos de quinze anos de existência, realizava, no fim de 2001, mais de 12,2 bilhões de euros de montante de negócios, apoiando-se em 51 marcas presentes em 65 países. No mesmo ano, o montante de negócios do grupo Estée Lauder elevava-se a 4,6 bilhões de dólares e a do Pinault-Printemps-Redoute a 2,5 bilhões de euros (LIPOVETSKY; ROUX, 2005). Criado em 1987, o grupo LVMH possui atualmente 60 marcas, mais de 2000 lojas, e o faturamento no ano de 2007 foi de 16,5 bilhões de euros [2].
Há uma forte expansão do mercado de luxo. Segundo a Eurostaf [3], o mercado mundial em 1998 foi estimado em 90 bilhões de Euros (LIPOVETSKY; ROUX, 2005). Os dados do Boston Consulting Group (BCG) calculam que o faturamento estimado saltou para U$400 bilhões de dólares, em 2006, com crescimento médio anual de 15% [4]. As previsões para 2010, segundo a mesma consultoria, estimam que o faturamento mundial pode chegar a U$1 trilhão de dólares[5].
Em 2007, segundo dados da Agência Estado (2008), o mercado de luxo movimentou cerca de 170 bilhões de dólares no mundo, dos quais 38% na Europa e 33% na América do Norte. Para 2008, a expectativa de crescimento global é de 6,5%, mas com taxas de crescimento menores nos mercados maduros dos Estados Unidos, Europa e Japão. Ainda assim, essas cifras estão longe de revelar o mercado em sua totalidade, pois não integram os números relativos ao setor de automóveis.
Muitos estudos confirmam uma expansão ainda maior do luxo, baseados em alguns fatores como: a emergência de novas classes sociais, a globalização e a abertura da lista de novos países com acesso ao luxo. O Japão é agora o primeiro mercado para as marcas de luxo e responde sozinho por um terço de negócios do setor (LIPOVETSKY; ROUX, 2005).
Três grandes grupos empresariais, segundo Castarède (2005), dominam esse mercado: LVMH – grupo criado pelo engenheiro francês Bernard Arnaud, que investe nos setores de vinhos e bebidas, vestuário, acessórios e bagagens, perfumes e cosméticos, relógios e joalheria e seu faturamento anual estimado é em torno de 14 bilhões de euros; Gucci Group – criado por François Pinault – detém as marcas Gucci, Yves Saint Laurent, YSL Beauté, Bottega Venatta e seu faturamento anual é em torno de 3 bilhões de euros; Richemont – criado por Rupert – possui Cartier e Montblanc como algumas de suas marcas, esse grupo alcança resultados financeiros anuais em torno de 3,717 bilhões de euros (CASTARÈDE, 2005).
O universo do luxo é composto de um grande número de setores de atividade, todos muito diferentes quanto as suas origens (ALLÈRÉS, 2006). D’Angelo (2004), apresenta uma listagem com a descrição dos setores que foi elaborada a partir de três fontes principais: a análise setorial da consultoria McKinsey publicada em 1991 (e referida pela THE ECONOMIST, 1992), a proposição de Castarède (1992) e o trabalho da professora francesa Danielle Allèrés (1999, 2000). A listagem apresenta uma divisão em oito categorias principais:

  • Alimentos – Bebidas (especialmente vinhos e champanhes) e especiarias;
  • Imóveis – Mansões, apartamentos, propriedades territoriais (ilhas, fazendas);
  • Lazer – Coleções, esportes (pólo, equitação, turismo, cruzeiros, etc);
  • Mercado cultural – Objetos de arte;
  • Meios de transporte – Automóveis, iates, aviões particulares;
  • Objetos de decoração e equipamentos domésticos em geral – cristais, porcelanas, artigos de prata, antiguidades, faiança;
  • Produtos de uso pessoal – Vestuário e Acessórios (alta costura e prêt-à-porter), bagageria, calçados, cosméticos e perfumaria, relógios, artigos de escrita, joalheria e bijouteria;
  • Serviços – Hotéis, restaurantes, spas, vôos de primeira classe, etc.

Interessante observar que a atual flexibilização das formas de pagamento juntamente com certa “democratização” do luxo, foram características responsáveis por uma mudança de perfil dos consumidores: divididos antes em consumidores e não-consumidores, agora são classificados em consumidores regulares, consumidores eventuais e não-consumidores (D’ANGELO, 2004; DUBOIS; LAURENT, 1995). Esse binômio diversificação/democratização permite que consumidores sem recursos para adquirir um produto da linha principal de uma marca de luxo, comprem itens que podem ser caros em comparação a similares de marcas inferiores, mas não em termos absolutos (TWITCHELL, 2002). Um exemplo principal dessa tendência são os perfumes, que representavam, segundo dados do Comitê Colbert[6], em 1995, 36% do faturamento da indústria de luxo francesa (CASTARÈDE, 2005).
Segundo Serralvo (2008), o mercado de luxo está em processo de redefinição. O autor observa que o consumidor pode, ao mesmo tempo, consumir itens de luxo em algumas categorias, como residências e carros, e não consumi-los em outras categorias, como roupas, móveis ou alimentação. O contrário também pode ser verdadeiro. Para Lipovetsky (2005, p. 15), em nossos dias, o mundo do luxo aparece “como uma síntese inédita e antinômica de lógica financeira e de lógica estética, de imposições de produtividade e de savoir-faire tradicional, de inovação e de conservação de herança.” O autor afirma que o mercado do luxo se constrói sistematicamente como um “mercado hierarquizado, diferenciado, diversificado, em que o luxo de exceção coexiste com um luxo intermediário e acessível.”
Porém, o mercado de luxo em 2008 também não ficou alheio à crise mundial. A LVMH teve aumento em seus resultados quase nulos como apresenta seu balanço de 5 de fevereiro de 2009, os fabricantes de champanhe anunciaram queda nas vendas de 6% entre janeiro e novembro de 2008, a Cartier informou que reduzirá sua força de trabalho por três meses e a Chanel prevê cortes na folha de pagamento. A inglesa Burberry demitirá 540 empregados e a norte-americana Saks, 1,1 mil. A Tiffany também fará cortes de pessoal, e a britânica Bentley, do grupo Volkswagen, cujos automóveis podem custar até 260 mil euros, interromperá a produção durante seis ou sete semanas [7].

 

4. Luxury Branding e o Design Gráfico

As contradições na definição do que seja luxo, refletem também na dificuldade de categorização de marca de luxo. Kapferer (2003, p. 71) afirma que “há uma dificuldade crescente de diferenciação entre a categoria de luxo e a de marcas caras (comparativamente a outros produtos similares no mercado), ou importantes”. Segundo o autor, a maioria das organizações que trabalham com o luxo tornou-se parte integrante dos grandes grupos empresariais, que operam com a lógica do marketing de massa.
Nos relatórios oficiais do Comitê Colbert e em outros relatórios do setor, não existem classificações de marcas de luxo. Na literatura, também não há uma classificação objetiva e de consenso quanto às marcas de luxo. Na análise de Kapferer (2003), o autor sugere uma classificação em três níveis. No alto da pirâmide se situaria a griffe – que é a assinatura do criador colocada sobre obras únicas. O segundo nível seria a marca de luxo, quando ela assina pequenas séries e o seu modo de produção referencial é ainda a manufatura. O terceiro nível seria o da produção racionalizada em série. Nesse nível, de uma verdadeira indústria, a marca é fonte de valor agregado para objetos caros e de qualidade bastante elevada, mas que se tornam comparáveis uns com os outros.
O preço elevado poderia naturalmente definir a participação de uma marca no segmento de luxo. Se compararmos as políticas de preço das marcas de luxo às do mercado de massa, observamos uma relação de “pelo menos uma para quatro, entre um champanhe dito de “preço inicial” e um milléssime[8] de grandes marcas como Veuve Clicquot ou Moët et Chandon.” (LIPOVETSKY; ROUX, 2005, p. 96). Em uma perspectiva de preço, como a do relatótio McKinsey sobre as marcas francesas de luxo - definindo-as como aquelas que puderem justificar ao longo do tempo um preço elevado, ou seja, superior a produtos com funcionalidades tangíveis comparáveis – a indefinição se mantém (CASTARÈDE, 2005). Como um exemplo, Castarède (2005) compara que um “Jaguar”, embora sempre tenha sido mais barato que um “Porsche”, com funcionalidades tangíveis comparáveis, não deixa de ter uma imagem de luxo mais forte que a do desportivo alemão.
Para Castarède (2005), “a marca de luxo tem uma forte especificidade” e, para Roux (2005), a partir de uma qualidade de execução única, da legitimidade e do talento renomado e exclusivo de um criador, o desenvolvimento e manutenção de um imaginário coerente, identificável e único, todos os elementos da cadeia de valor – criação, produção, mix-produto, preço, distribuição e comunicação – reforçam a marca tanto no tempo como no espaço. Para a autora, os fatores-chave do sucesso de uma marca de luxo supõem: uma identidade clara e legível projetada de maneira criativa e coerente no tempo e no espaço, um ou mais produtos facilmente identificáveis e atribuíveis à marca e uma cultura inovadora associada a processos de gestão rigorosos.
A qualidade intrínseca também é um fator importante nesse mercado. Mas, não é suficiente possuir a melhor matéria-prima, a melhor tecnologia ou o design mais avançado: é preciso comunicar isso ao cliente (D’ANGELO, 2004). Para que essa comunicação seja coerente, segundo Martins (2006), é necessário gerenciar os diversos discursos da marca, através do branding. Roux (2005, p. 94) concorda evidenciando que, com a constante evolução do luxo e dos consumidores de bens de luxo, as marcas inseridas nesse setor tiveram que implementar uma “rigorosa gestão de suas marcas”.
O preço e a qualidade podem ser apenas alguns dos componentes de uma marca de luxo. As marcas de luxo diferem das marcas de alto consumo principalmente pelos benefícios intangíveis. Segundo Roux (2005, p. 136) enquanto os produtos de consumo recorrente oferecem benefícios de tipo funcional, as marcas de luxo “remetem a benefícios simbólicos e, cada vez mais, a benefícios ditos “experienciais”, isto é, que implicam, no cliente, uma busca de experiências e de emoções fortes e exepcionais.” Kapferer (2003) concorda que elas sugerem, mais do que objetos, uma referência de gosto. Por essa razão, o luxo não se gerencia unicamente questionando aos consumidores aquilo que eles esperam. O acesso ao luxo supõe os meios monetários ligados ao preço da qualidade e a um gosto que permite apreciar a dimensão artística do objeto, indo além da simples funcionalidade. O objeto de luxo é fonte de prazer agregado, agradando a vários sentidos ao mesmo tempo (KAPFERER, 2003).
Antes de pensar na relação entre preço e qualidade, o consumidor atual tem afinidades e identificações afetivas com as marcas que sabem projetar sua identidade. O consumidor se pergunta qual é o valor simbólico, afetivo e emocional, que justifica o diferencial de preço; se pergunta também, qual é o sentido desse valor e conteúdo e em que legitimidade ele se apóia (LIPOVETSKY; ROUX, 2005).
Gobé concorda que proporcionar aos consumidores uma experiência emocional é a chave para conseguir o tipo de contato memorável que estabelecerá sua preferência e criará a fidelidade. O autor acredita que esse elo possa ser criado pelo design e afirma que “o design seja a expressão mais potente de uma marca e que, trazer à vida idéias poderosas, seja a melhor maneira de criar um elo duradouro” entre uma marca e o consumidor (GOBÉ, 2002, p. 157). Essa ligação emocional entre a marca e o consumidor é compartilhada por Strunck (2007), ao afirmar que a escolha do que se vai comprar é baseada em valores subjetivos relacionados às marcas. Grande parte das decisões de compra é feita por impulso, de forma irracional e instintiva. Para o autor, marcas vencedoras apresentam, além de benefícios funcionais, benefícios emocionais que levam à sua fidelização. Esses benefícios advêm das experiências entre a marca e o consumidor, que são cuidadosamente planejados e administrados para se instalarem da forma correta nas mentes das pessoas (STRUNCK, 2007).
Para Castarède (2005, p. 28), o luxo “é indispensável porque atende uma necessidade psicológica e biológica”. Allérès (2006, p. 70) concorda que “os ‘bens de luxo’ traduzem o domínio dos desejos e ambições, que conferem ao produto um valor quase mágico.” Roux (2005, p. 145) concorda com essa abordagem emocional da marca de luxo e esclarece que a estética do luxo é a do refinamento, da sutileza e da busca de perfeição. “Define-se como uma abordagem do universo do sensível, ou seja, dos sentidos, implicando uma visão do mundo e da relação de si com o mundo, capaz de comunicar uma emoção.” Segundo ela, o caráter acabado do trabalho, o efeito de totalidade ou autonomia do objeto, bem como a coerência das diversas formas sensíveis pelas quais este se manifesta – a coerência de seu toque, forma, cores, peso – definem todo universo de luxo e, por conseqüência, uma marca de luxo.
De fato, o luxo pode responder a uma necessidade de realização de desejo. Segundo Dubois e Paternault (1995), toda marca de luxo pode ser posicionada em termos de relação lembrança-compra-sonho. Kapferer (2003, p. 72) afirma que “a marca de luxo é definida por seu programa interior, sua visão de mundo, o sistema de gosto que ela promove e a busca de seus próprios padrões, independentes das normas.”
Para Kapferer (2003) existe um paradoxo na gestão de marcas de luxo sendo que, é preciso que a marca de luxo seja conhecida e desejada por todos, mas não atingível pela maioria. O autor cita um estudo realizado pelo Research Institut on Social Change (RISC)[9], no plano europeu, que constatou que existe uma forte relação entre o potencial de sonho da marca e sua notoriedade.
Allèrés (2006) concorda com Kapferer (2003) complementando que a gestão da marca deve ser cada vez mais elaborada para a manutenção de sua imagem. Segundo a autora, toda estratégia assume a ambigüidade de manter a identidade em cada um dos produtos e de compor a homogeneidade global da marca, fazendo os ajustes necessários, em função da evolução da concorrência nacional e internacional e das novas expectativas dos compradores em potencial. Lipovetsky e Roux (2005, p. 99) esclarecem a importância da capacidade da marca de comunicar um imaginário forte, coerente, reconhecível e único. E consideram que “por definição, o domínio do luxo é o da excelência e da emoção.”
O design pode ajudar a criar e manter a imagem da marca, seus valores e sentimentos que ultrapasam a mera percepção dos benefícios funcionais dos produtos. Gomez (2007) afirma que  “as peças gráficas são fundamentais na apresentação da marca, explorando aspectos simbólicos e, assim, promovendo a lealdade do consumidor, criando vínculo emocional para vender o valor da marca.” Roux (2005, p.136) concorda ao afirmar que “a imagem de uma marca corresponde, então, ao conjunto das associações estocadas na memória do consumidor”. Como um sinal perceptível, a marca leva o consumidor a reconhecer algo simbólico além de sua aparência, sobrepondo aos produtos uma outra marca ideal, afetiva e conceitual. Essa última resulta do conjunto de percepções do consumidor, que é decorrente do seu convívio com as estratégias de divulgação da marca e também do uso de seus produtos e serviços (SOUSA, 2001, p.34). 
O profissional do design gráfico conta com uma ampla gama de atividades para desenvolver e atuar junto a gestores de marca na criação de valor para marcas e produtos. Segundo o Centro Português de Design (1997, p.34), “os designers gráficos são especialistas na criação de elementos que permitem uma determinada identificação e diferenciação dos aspectos visuais da empresa, contribuindo, por meio deles, para a política e estratégia de comunicação da mesma.”
De acordo com Strunck (2007), marca é um nome, normalmente representado por um  desenho (logotipo e/ou símbolo), que, com o tempo, devido às experiências reais ou virtuais, objetivas ou subjetivas que vamos relacionando a ela, passa a ter um valor específico. É um artigo intangível, cuja vida é indeterminada, desde que bem administrada por seus gestores.
Usando esses dois conceitos para  encontrar a participação do Design Gráfico no processo de construção e promoção de marcas afim de posicioná-las no imaginário dos consumidores, pode-se ter a clara noção da importância de sua participação. Criar os elementos de identificação adequados baseado em informações subjetivas pode ser considerada a forma mais efetiva de apoio a fixação das marcas no pensar do consumidor. A imagem apresentada no cotidiano nas mais diversas formas como em mídias, nas embalagens, nos produtos, nas vitrines, entre outros, entra no imaginário das pessoas, fazendo-as sonhar em ter ou usar, esta ou aquela marca.
E, quando se fala em imagem, o poder do Design Gráfico se torna evidente. É lógico que o Design Gráfico não consegue apenas com sua competência em uso das formas visíveis transformar qualquer marca em sonho. Porém, apoiado nos conceitos mais amplos, como o de DNA de marca [10] (COELHO e ROCHA, 2007) e por informações obtidas de outros profissionais como os de comunicação e os de marketing, é muito provável que uma marca bem trabalhada consiga construir um conceito comercial afetivo com seu consumidor ou pretenso consumidor.
A marca de luxo projeta um valor simbólico, afetivo e emocional, que justifica o diferencial de preço tendo seu conteúdo apoiado na legitimidade de sua identidade que remetem a benefícios simbólicos e, cada vez mais, a benefícios ditos “experienciais” (ALLÈRÉS, 2006; LIPOVESTKY; ROUX, 2005; KAPFERER, 2003).
Diante da grande complexidade da operação de gerenciamento de marcas de luxo, o design pode ser um aliado, comunicando a identidade da marca, desenvolvendo e mantendo um imaginário único e coerente, identificando produtos e, principalmente, projetando valores simbólicos, afetivos e emocionais.

 

Notas

1 — FERREIRA, Aurélio B. H..Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. São Paulo: Positivo, 2004.
2 — LVMH. Disponível em <http://www.lvmh.com>. Acesso em: 07 agosto 2008.
3 — É uma instituição de estudos estratégicos e financeiros do mercado de luxo. Existe há 20 anos e está situada em Paris, França. Disponível em <http://www.eurostaf.com>. Acesso em: 05 set. 2008.
4 — MEYER, Carolina. O efeito Daslu nas marcas de luxo. Revista Exame. São Paulo: Editora Abril, n. 891, ano 41, n. 7, p. 82-83, 25 abril 2007.
5 — CAROZZI, Elaine M. F. Mercado de Luxo no Mundo e no Brasil. Revista da ESPM. São Paulo: Editora Referência, n. 1, ano 11, vol. 12, p 110-115, jan/fev 2005.
6 — O Comitê Colbert é formado por 69 empresas de luxo e 11 instituições francesas. Disponível em <http://www.comitecolbert.com>. Acesso em: 13 set. 2008.
7 — Jornal Gazeta Mercantil  - http://www.gazetamercantil.com.br/GZM_News. acesso em 20 abril 2009.
8 — Champanhe proveniente de uma colheita de qualidade superior, de um único ano.
9 — Instituto de pesquisa sobre o comportamento do consumidor, com base na França. Já conduziu aproximadamente 1.500.000 entrevistas em 50 países ao redor do mundo. Disponível em <http://www.risc-int.com>. Acesso em: 10 out. 2008.
10 — O “DNA” da marca refere-se ao seu caráter distintivo, novidade e atributos, quando comparados com a concorrência.

 

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Polo, C. Gomez, L. ; (2009) Luxury Branding: Marca e Design. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL II (3) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt