A leitura da cidade pelos seus símbolos gráficos

Reading the city by its graphic symbols

Fragoso, M.

CIAUD - Centro de Investigação Arquitectura, Urbanismo e Design

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: A cidade é um sistema complexo que se dá a conhecer sob inúmeras formas. Os símbolos gráficos municipais, no sentido de concentrarem na expressão visual, conhecimentos da história, da geografia, do património e das actividades económicas das cidades, constituem um destes veículos de transmissão de identidade e, por essa razão, são uma referência importante na formação da imagem que fazemos dela.
Por outro lado, a diversidade cultural da aldeia mundial coloca a identidade de cada cultura em risco. Nesta perspectiva global, é importante não desprezarmos as nossas heranças culturais. Os símbolos gráficos da cidade, como elementos de identidade cultural, poderão constituir um mecanismo de centralidade, imagens de referência numa sociedade afectada por transformações radicais em todos os seus sectores, em que o vazio existencial decorrente da ruptura do enquadramento social, político, económico, religioso, espiritual, origina uma grande variedade de expressões culturais.
Mas a herança cultural e o seu entendimento reflecte-se no nível de civilização de uma cidade. Observem-se as cidades do 3º mundo e constate-se a pobreza de símbolos de conteúdos colectivos, indicadores de um nível civilizacional muito afastado das desenvolvidas cidades europeias como Londres, Amesterdão ou Viena, que promovem a excelência do seu património gráfico através de programas de planeamento e coordenação do grafismo municipal estabelecidos por comissões autárquicas.
Também o município de Lisboa deverá afirmar-se como pólo cultural, planeando, coordenando e conferindo eficiência visual aos seus símbolos. Não é aceitável que uma cidade que deseja um elevado nível de qualidade de arquitectura e espaço urbano aceite a insuficiente e pobre realidade de símbolos gráficos que é oferecida!

PALAVRAS-CHAVES: Lisboa; Símbolos Gráficos Municipais; Identidade Visual.

ABSTRACT: The city is a complex system that is known in innumerable ways. Municipal graphic symbols, in the sense of concentrating on visual expression, knowledge of history, geography, heritage and economic activities of cities, constitute one of these vehicles of identity transmission and, for this reason, are an important reference in the formation of Image we make of it.
On the other hand, the cultural diversity of the world village puts the identity of each culture at risk. In this global perspective, it is important not to overlook our cultural heritage. The graphic symbols of the city, as elements of cultural identity, may constitute a mechanism of centrality, images of reference in a society affected by radical transformations in all its sectors, in which the existential void arising from the rupture of the social, political, economic, Religious, spiritual, originates a wide variety of cultural expressions.
But the cultural heritage and its understanding is reflected in the level of civilization of a city. Look at the cities of the third world and see the poverty of symbols of collective contents, indicators of a civilizational level far removed from the developed European cities like London, Amsterdam or Vienna, that promote the excellence of its graphic heritage through programs of Planning and coordination of municipal graphics established by local committees.
Also the municipality of Lisbon should assert itself as a cultural pole, planning, coordinating and giving visual efficiency to its symbols. It is not acceptable for a city that desires a high level of quality of architecture and urban space to accept the insufficient and poor reality of graphic symbols that is offered!

KEYWORDS: Lisbon; Municipal Graphics Symbols; visual identity.

1. Enquadramento

Lisboa, como cidade, não é um simples dispositivo administrativo ou um mero órgão de serviço público. Lisboa, como cidade, contém uma colossal carga histórica e afectiva, até a nível mundial, gerada e acrescentada ao longo dos séculos. Os símbolos gráficos municipais são parte integrante deste património histórico e cultural da cidade e, por essa razão, requerem uma gestão e coordenação extremamente cuidadas. 
O município de Lisboa tem recorrido, ao longo dos anos, à comunicação dos seus produtos e serviços de uma forma fragmentada, criada por pessoas diferentes e originando uma grande quantidade de ambiguidades visuais. Esta dispersão de comunicações, às vezes contraditórias entre si, confunde o citadino, dificultando a identificação da organização.
A ausência de uma estratégia de planeamento e coordenação da imagem da cidade é também visível no ambiente visual que se manifesta nas legendas, letreiros e publicidade. Os bons modelos dissipam-se num panorama visualmente degradado e anárquico.

 

2. Vantagens de uma unificação

Num mundo de enorme concorrência visual da publicidade comercial e política e da agressão visual do corporate design das grandes empresas, é fundamental que as cidades procurem uniformizar e dar eficiência visual aos seus símbolos. A sua imagem deve ser clara e precisa de forma a que a população reconheça sempre a mesma entidade. 
Mas criar uma imagem municipal não pode ser meramente um trabalho criativo que não contemple a história, o presente, os objectivos da instituição. É preciso conhecê-la bem, analisar a sua personalidade! Ela deve obedecer ao conceito de imagem coordenada de empresa (corporate identity), que tem como fundamento a sintonia entre a identidade e a imagem. Uma imagem coordenada facilita a comunicação entre os cidadãos e a instituição e promove o respeito pela organização.
Dada a variedade de situações de aplicação dos símbolos gráficos municipais, decorrente mesmo da própria variedade de funções exercidas pela entidade municipal, uma correcta realização concreta da imagem coordenada nos seus aspectos plásticos exige uma abordagem altamente profissionalizada e um perfeito domínio dos problemas técnicos envolvidos. Não é, portanto, coisa que possa ser deixada ao simples arbítrio e opinião de qualquer responsável camarário, ou ser executada burocraticamente por um qualquer funcionário «jeitoso», no meio de outras tarefas da sua função.
Implica um levantamento exaustivo das situações em que a imagem pode ser aplicada, a natureza dos suportes em que vai ser usada, as escalas, distâncias de observação, técnicas de execução oficinal ou fabril, os custos, modos e estratégias das operações de substituição.
Implica igualmente um estudo da «concorrência» com situações congéneres no País e no estrangeiro, de forma a evidenciar a sua singularidade e, por outro lado, um cuidadoso estudo das referências históricas para evitar anacronismos ou erros factuais.

 

4. Requisito de eficácia funcional

A imagem coordenada de uma instituição não é vazia de intenções ou resultado de simples gosto ou moda ou obrigação legal - destina-se a actuar, a servir uma finalidade, a atingir um objectivo definido. Essa intenção é clara: tornar identificável a presença da instituição municipal aos olhos do público, e dentro deste, com primazia, o conjunto dos munícipes.
As empresas, públicas ou privadas, lutam pela afirmação de uma presença num mercado duramente concorrencial, e têm por isso de buscar permanentemente formas de visibilidade cada vez mais competitivas no plano visual e da comunicação discursiva. A fusão de empresas cada vez mais frequente, a internacionalização dos complexos empresariais e a saturação do ambiente informacional da sociedade contemporânea a isso obrigam.
Mas um município não está no mercado. Um município não «concorre», nos termos em que as empresas o fazem. Um município representa uma permanência e uma estabilidade, a sua imagem deve ser «securizante» e representativa de valores colectivos e intemporais com os quais a comunidade se identifique e sinta como seus.
A percepção da modernidade, da eficácia da gestão, da capacidade de resposta concreta aos anseios e necessidades dos munícipes deve ser obtida através da «praxis», do bom exercício das funções, da confiança inspirada - e não através das técnicas de persuasão próprias da concorrência empresarial no mercado.
Isso aponta claramente para a necessidade de que a imagem, sobretudo visual, da entidade municipal não concorra com as imagens projectadas pelo mundo empresarial, antes se afaste completamente delas, e se afirme com unidade.
Assiste-se entre nós à deplorável situação causada pela indisciplina ou desgoverno que permite que no enquadramento do Estado Português se multipliquem as imagens privativas de Ministérios e até de Direcções Gerais e orgânicas secundárias. Numa altura em que, até pelo facto de procurar não perder identidade visual dentro da União Europeia, os países mais atentos estão a reforçar os cuidados com a manutenção da unidade e força da sua imagem, o que se passa entre nós não pode deixar de causar inquietação.
Do mesmo modo, num tempo em que a concorrência entre cidades, europeias ou não, tende a agudizar-se, e em que Lisboa se deseja ver como um importante pólo da Fachada Atlântica da Europa, parece claro que uma identidade visual forte é essencial.
A intervenção do designer é fundamental no estabelecimento de um programa de Identidade visual que dignifique os símbolos da cidade, e o espírito do lugar, e que promova a diferenciação e enriquecimento culturais. Espera-se dos responsáveis o reconhecimento desta necessidade como urgente.

 

Referências bibliográficas

Barata, José Pedro Martins (1989) - Pensar Lisboa, Lisboa, Livros Horizonte.

Branco, João (1996) - «A Importância da Imagem Coordenada Empresarial», in Cadernos de Design, 13-14, pp. 96-99. Lisboa, Centro Português de Design.

Fragoso, Margarida Ambrósio (2002) - O Emblema da Cidade de Lisboa. Suporte Comunicacional da Identidade Municipal. Lisboa, Livros Horizonte.

Raposo, Daniel (2008) - Design de Identidade e Imagem Corporativa. Branding, história da marca, gestão da marca, identidade visual corporativa. Castelo-Branco, edições IPCB

Reference According to APA Style, 5th edition:
Fragoso, M. ; (2009) A leitura da cidade pelos seus símbolos gráficos. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL II (3) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt