Design e Educação: Análise Quantitativa do Material Escolar Em Uma Instituição Pública de Minas Gerais

Design and Education: Quantitative Analysis of School Material in a Public Institution of Minas Gerais

Paula, A. Marques, C. Paschoarelli, L. Silva, J. Silva, D.

UNESP - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, Campus de Bauru
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Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: A Ergonomia está sendo considerada uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, visando o bem-estar no trabalho. A abordagem preventiva da Ergonomia tem potencial de desenvolvimento e mudança cultural. Especialistas defendem a idéia de que o desenvolvimento sustentável do Brasil depende da mudança cultural e social sobre a ergonomia. Assim, o design assume uma posição estratégica, com a finalidade de conceber e desenvolver soluções sustentáveis que auxiliem os indivíduos a melhorar seus contextos físicos e sociais de vida. Vários países têm concentrado esforços na área da saúde pública, quanto à prevenção de alterações posturais, principalmente a escoliose em crianças e adolescentes. Devido à relevância do tema, tem sido dada ênfase à redução do peso da mochila escolar, mediante providencias de caráter preventivo, em âmbito educacional: disposição de armários nas escolas; promulgação de leis estaduais e municipais com normatização do peso máximo de transporte de material escolar; organização da estrutura curricular de forma a reduzir o material de uso diário, a fim de contribuir para a melhoria da saúde coletiva e individual. Novas tecnologias estão sendo introduzidas na educação, como o uso de materiais audiovisuais, computadores, softwares. Apesar de todos esses avanços, o livro didático ainda continua sendo o material mais útil e difundido. No Brasil, poucas são as referências sobre o valor da carga a ser transportada através de mochilas escolares, sem prejuízo para a saúde das crianças. Em uma tentativa de suprir essa demanda, a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro sancionou uma lei que determina que o peso do material escolar não deva ultrapassar 5% do peso da criança (1ª a 4ª série) e 10% do peso do pré-adolescente (5ª a 8ª série). O presente estudo objetivou qualificar, como apropriada ou não, a carga imposta pelo peso da mochila transportada por alunos de uma instituição estadual e quantificar o peso absoluto do material escolar, relacionando-o à massa corporal. Participaram deste estudo 115 estudantes, sendo 57 (49,6%) do gênero feminino e 58 (50,4%) do gênero masculino. Para a coleta dos dados referentes à massa corporal e peso do material transportado pelos participantes, foi utilizada uma balança digital. Os alunos que foram pesados estavam vestidos somente com o uniforme escolar, sem acessórios, e retiraram o calçado que estavam usando. Em relação ao material escolar transportado, todos os itens foram pesados conjuntamente. Os alunos foram pesados em duas condições; sem portar a mochila e portando sua respectiva mochila. A estatística descritiva foi realizada e pôde ser observado que, dos 115 alunos, 60 indivíduos (52, 17%) com idades entre 10 a 16 anos (média 12,15 + 1,51 SD), transportavam o material escolar acima dos 10% da massa corporal permitida, com carga variando de 10,16 a 26,52% (média 15,04 + 4,85 SD). Esses resultados demonstraram que o peso do material escolar transportado pela população avaliada não é apropriado, o que expõe essas crianças a um maior risco de lesão na coluna vertebral.

 

PALAVRAS-CHAVE: Design; Ergonomia; Mochila Escolar.

 

ABSTRACT: Ergonomics is being considered a tool for sustainable development aiming at the well-being at work. The preventive approach to ergonomics has potential for development and cultural change. Experts dispute the notion that sustainable development of Brazil depends on the cultural and social change on the ergonomics. Thus, the design assumes a strategic position, in order to design and develop sustainable solutions that help persons to improve their physical and social contexts of life. Several countries have concentrated efforts in the area of public health and the prevention of postural changes, especially scoliosis in children and adolescents. Due to the relevance of this issue has been emphasized to reduce the weight of school bag, by preventive actions in educational context: provision of lockers in schools; enactment of state and local laws, with normalization of maximum transportation weight of school materials, curriculum organization in order to reduce the material of daily use, in order to contribute to the improvement of collective and individual health. New technologies are being introduced in education, such as the use of audiovisual materials, computers, software. Despite all these advances the textbook still remains the material more useful and widespread. In Brazil there are few references about the value of the cargo to be transported via school bags, without health losses for children. In an attempt to meet this demand, the Legislative Assembly of Rio de Janeiro signed a law that determines the weight of school supplies should not exceed 5% by weight of the child (1st to 4th grade) and 10% by weight of the pre adolescent (5th to 8th grade). This study aimed to describe, as appropriate or not, the load imposed by the weight of the backpack carried by students at state institutions and quantify the absolute weight of school materials, relating it to body weight. The study included 115 students, 57 (49.6%) were female and 58 (50.4%) were male. A digital scale were used to collect data on body mass and weight of equipment carried by the participants. Students who were weighed were dressed only with the school uniform, without accessories and withdrew the shoes. Regarding to school supplies transported, all items were weighed together. Students were weighed on two conditions, without carrying a backpack and carrying their respective backpack. Descriptive statistics were performed and could be observed that out of 115 students, 60 individuals (52, 17%) aged 10 to 16 years (mean 12.15 + 1.51 SD), carrying school supplies over 10% of body weight allowed, with the load variing from 10.16 to 26.52% (average 15.04 + 4.85 SD). These results showed that transported material weight by the school population tested is not right, what faces these children with a increased risk of spinal injury.

 

KEYWORDS: Design; Ergonomics; Backpack.

1. Introdução

Desde a revolução industrial, nós, seres humanos, vimo-nos diante de um paradigma: a incompatibilidade da oferta de recursos naturais frente às demandas crescentes das atividades humanas e aumento exponencial da população mundial. Vive-se a transição de velhos para novos estilos de vida, rumo ao chamado desenvolvimento sustentável (LEPRE et al, 2009).
O desenvolvimento, para ser sustentável, requer o equilíbrio entre crescimento econômico, desenvolvimento social e limites de resiliência do planeta, o que exige mudanças radicais nos sistemas sociais atuais para as quais o design é considerado um potente facilitador. Diversas ferramentas que apóiam o desenvolvimento de produtos sustentáveis são adaptadas de outras áreas do conhecimento (HALEN et al, 2005;LEPRE et al, 2009).
A Ergonomia, na atualidade, está sendo considerada uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, visando o bem-estar no trabalho.  A abordagem preventiva da Ergonomia tem potencial de desenvolvimento e mudança cultural.   Especialistas defendem a idéia de que o desenvolvimento sustentável do Brasil depende da mudança cultural e social sobre a ergonomia. Assim, o design assume uma posição estratégica, com a finalidade de conceber e desenvolver soluções sustentáveis que auxiliem os indivíduos a melhorar seus contextos físicos e sociais de vida.                                                                                                                                                        
O denominado Design Sustentável baseia-se em conceitos e diretrizes, que orientam estratégias nas dimensões: econômica, social e ambiental, de projetos de produtos, sistemas e serviços. O design com forte ênfase ergonômica tem por princípio o desenvolvimento de produtos e sistemas tecnológicos caracterizados pela usabilidade, segurança, satisfação e conforto de seus usuários. Sua aplicação é, especialmente, nas áreas de interface entre o objeto e o usuário (ser humano), e depende de procedimentos metodológicos específicos de avaliação do produto para ser analisado e efetivado (LANUTTI et al, 2009; LEPRE et al, 2009).
Entretanto, o progresso e os tempos modernos têm proporcionado à população melhores condições de vida e atividades, porém, em contrapartida, surgem objetos, bens e mobiliários que, criados para dar às pessoas conforto e descanso, tornaram-se incômodos, agredindo a sua estrutura física, convertendo-se em agentes causadores de conseqüências danosas ao corpo humano.
A mochila escolar que, aparentemente, foi projetada para trazer facilidade e conforto no percurso do domicílio à escola para conduzir o material escolar, na realidade é abusivamente utilizada e submete crianças e adolescentes a incalculáveis e sérios desvios de postura. Os indivíduos que utilizam mochilas com design de fixação dorsal ou escapular podem apresentar um conjunto de alterações posturais que desencadeiam prejuízos significativos às estruturas músculo-esqueléticas, devido ao fato que ajustes posturais e ações compensatórias surgem diante da aplicação de cargas assimétricas (Brackley et al, 2004; De Vitta et al, 2003).
A ergonomia tem-se interessado cada vez mais pelas atividades de ensino, procurando torná-las mais eficientes, tanto do ponto de vista biomecânico, quanto do design de mobiliários e mochilas ergonomicamente corretos. Esse interesse é relevante, porque é uma atividade que existe no mundo todo e consome boa parcela dos orçamentos governamentais. A partir de estudos na área da ergonomia, antropometria e biomecânica é que se fundamentam as discussões a respeito da complexidade das tarefas na sala de aula e os comportamentos dos alunos, advindo de sua interação com o transporte de material escolar (Nogueira et al, 2003).
De acordo com Sacco et al (2003), os casos de algias na coluna vertebral vêm crescendo, consideravelmente, entre crianças e adolescentes. É comum nesta faixa etária a exposição a sobrecargas crescentes, tais como o excesso de massa corporal e o suporte de mochilas escolares de maneira assimétrica e inadequada.
É importante notar ainda que, do nascimento aos 20 anos, principalmente entre os sete e 14 anos, é que as deformidades ósseas se desenvolvem, sendo essa faixa etária um momento propício para correções posturais, uma vez que a estrutura óssea se torna mais rígida à medida que a idade cronológica aumenta (Nordin, 2003). 
O excesso de peso e o transporte inadequado do material escolar, o tamanho e forma da carga, o tempo de transporte, o terreno utilizado para deslocamento até a escola, a ausência de atividade física específica, hereditariedade, os mobiliários inadequados à necessidade do escolar e posturas incorretas adotadas durante as aulas e em período extra-escolar são fatores predisponentes que podem levar a um desequilíbrio na musculatura do corpo, que tende a produzir desvios posturais (Negrini et al, 2002).
As mudanças posturais ocorridas em seres humanos submetidos a sobrecargas com mochilas são visíveis e até mesmo palpáveis. Com o objetivo de garantir equilíbrio, o corpo faz ajustes constantes, mudando a posição da cabeça, tronco e membros, toda vez que o centro de massa é deslocado, tornando a postura humana essencialmente dinâmica. O tronco tende a flexionar anteriormente cerca de 6 graus, quando uma carga é colocada nas costas. Estas ações compensatórias são diretamente proporcionais ao aumento da carga, o que leva a um aumento do esforço muscular. Isto afeta o sistema locomotor e, em algumas situações, pode determinar o aparecimento de diversas algias localizadas, principalmente na coluna vertebral (Whitfield et al, 2005).
A vigilância de pais e professores é de especial importância na correção atempada desses desvios, a fim de se evitar a evolução e deformidades permanentes. A detecção das alterações posturais em fase inicial poderá resultar em prevenção de anormalidades estéticas perceptíveis, dor e complicações cardiopulmonares e neuromusculares, além de menor custo final de tratamento. Observa-se o aumento gradual de livros e cadernos que as crianças e adolescentes levam à escola em suas mochilas, desde o ensino fundamental, até o ensino médio. Diante deste fato, é importante buscar subsídios para explicitar os problemas ocasionados à coluna vertebral, decorrente de hábitos prejudiciais, postos em prática pelas crianças desde tenra idade (Sheir-Neiss, 2003).
Ao quantificar o peso do material escolar, é possível verificar a necessidade de uma intervenção preventiva para impedir ou minimizar as possíveis alterações da postura e estrutura da coluna vertebral das crianças e adolescentes, uma vez que as verbas públicas, sendo cada vez mais escassas, devem ser aproveitadas com maior eficiência
Dentro desta proposta, o delineamento desse estudo fundamentou-se no uso inapropriado da mochila de acordo com dados da literatura e embasado na Lei Promulgada n° 2772, de 25 de agosto de 1997, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Esta lei propõe que o peso do material escolar não pode ultrapassar 5% da massa corporal da criança do pré-escolar e 10% da massa corporal do aluno do ensino fundamental. O presente estudo objetivou verificar e qualificar, como apropriada ou não, a sobrecarga imposta pelo peso da mochila transportada por alunos de 5ª a 8ª série do ensino fundamental de uma Escola Estadual em Minas Gerais.


2. Materiais e Métodos

Foram incluídos neste estudo 115 estudantes de ambos os sexos, sendo 57 do gênero feminino e 58 do gênero masculino, com variação da idade de 10 a 17 anos, matriculados e regulares no ano letivo de 2008, em uma Escola Estadual em Minas Gerais. A instituição de ensino analisada conta com quatro turmas de 5ª série, cinco turmas de 6ª série e 7ª série, seis turmas de 8ª série, perfazendo um total de 685 alunos do ensino fundamental. Uma turma de cada série participou do estudo, sendo as mesmas selecionadas por meio de um sorteio aleatório. A diretora da instituição foi acionada a fim de se obter uma autorização escrita para a realização do estudo.
Os responsáveis pelos indivíduos da amostra assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, que explicava o objetivo e as etapas da pesquisa. Somente os alunos que retornaram com a autorização de seus pais ou responsáveis assinadas participaram da pesquisa. Os dias e horários da coleta respeitaram o critério conveniência.
O material e os equipamentos utilizados para o desenvolvimento deste estudo descritivo e corte transversal foram uma balança digital, da marca Plenna Slim, modelo MEA – 02510, com capacidade de  0 - 150 kg e precisão de 100g; protocolos para o registro dos dados sócio-demográficos - idade, sexo, turma, peso dos indivíduos, peso do material escolar e tipos de equipamentos utilizados para o transporte do mesmo (mochila ou fichário). Estabeleceu-se, como critério, que os alunos a serem pesados deveriam estar trajando o uniforme de educação física, sem acessórios (relógio, carteira, celular) que poderiam alterar a massa corporal total. As medidas de massa corporal e peso do material foram obtidos em única coleta. Tanto o material escolar como os alunos foram pesados na mesma balança. Para não interferir na rotina de aula, foi determinado que os alunos levassem todo o seu material para a quadra esportiva e saíssem em grupos de oito. Os dados foram analisados e interpretados através de estatística descritiva para averiguação das médias, desvio padrão (SD) e freqüência percentual
 (%), utilizando o programa SPSS versão 10.00 (SPSS Inc.).
 

3. Resultados

Participaram deste estudo 115 estudantes, sendo 57 (49,6%) do sexo feminino e 58 (50,4%) do sexo masculino. As idades variaram de 10 a 17 anos (média 12,73 + 1,48 SD) e o peso da mochila de 3,49 a 26,52% da massa corporal (média 11,16 + 5,47 SD) (Tabela1).

 

Tabela I – Análise Descritiva das Variáveis Idade e Percentual do Peso da Mochila para a População Total Avaliada

 


Da população total avaliada, 60 indivíduos (52,17%) com idades entre 10 a 16 anos (média 12,15 + 1,51 SD), transportavam  o  material escolar  acima dos  10% da massa corporal permitido, com carga variando de 10,16 a 26,52% (média 15,04 +  4,85 SD) (Tabela 2).

 

Tabela II – Análise Descritiva das Variáveis Idade e Percentual do Peso da Mochila para a População Classificada com Excesso de Material Escolar Transportado 

 

 

Na figura 1, está representado o percentual da mochila pela idade. Foi observado que os indivíduos com idade entre 10, 11 e 16 anos tenderam a transportar uma carga que excedeu os 10% do peso corporal.  Os indivíduos da faixa etária entre 12, 15 e 17 anos apresentaram valores médios de carga transportada inferior a 10% da massa corporal.

 


Fig.1 – Relação entre percentual da mochila e idade

 

A figura 2, ilustra o design dos métodos escolhidos pelos estudantes para o transporte do material escolar. Da população representada, 113 indivíduos utilizavam somente mochila de fixação dorsal como forma de transporte do material e 2 utilizavam o fichário como forma de transporte. O design do objeto de transporte esteve associado ao percentual da carga transportada, já que os valores médios aproximados a 10% estiveram relacionados à presença da mochila.  O uso do fichário esteve associado a valores médios de percentual da carga transportada inferior a 10% da massa corporal.

 

Fig. 2 – Relação entre percentual da carga e design do objeto de transporte

 


A figura 3, faz uma comparação dos indivíduos que transportaram mochila acima de 10%, separados por gênero para a população total. Foi possível observar que o gênero feminino tendeu a transportar uma carga que excedia os 10% da massa corporal permitido.

 

Fig. 3 – Relação entre percentual da mochila e sexo

 

A figura 4 demonstra a análise comparativa da sobrecarga do material escolar transportada por séries. Um total de 38 indivíduos frequentava a 5ª série, sendo 21 do gênero feminino e 17 do gênero masculino. Destes, 36 transportava excesso de carga (media 16,79%, 5,39 SD) e 2 transportavam carga não excedendo 10%. Os alunos da 6ª série totalizaram 34 indivíduos, sendo 11 do gênero feminino e 23 do gênero masculino. Destes, somente 3 transportavam excesso de carga (6,92%, 1,88SD) e 31 transportavam carga que não excedia 10% da massa corporal.  Os alunos da 7ª série foram 22, sendo 13 do gênero feminino e 9 do gênero masculino: Destes 50%, transportava carga acima de 10% da massa corporal.  Da 8ª série, 21 alunos participaram do estudo, sendo 12 do gênero feminino e 9 do gênero masculino. Destes, 10 transportavam  excesso de carga e 11 transportavam carga não excedendo 10% da massa corporal.

 

 

Fig. 4 – Relação entre percentual da mochila e turma


4. Discussão

Vários países têm concentrado esforços na área da saúde pública, quanto à prevenção de alterações posturais, principalmente a escoliose em crianças e adolescentes. Devido à relevância do tema, tem sido dada ênfase à redução do peso da mochila escolar, mediante providências de caráter preventivo, em âmbito educacional: disposição de armários nas escolas; promulgação de leis estaduais e municipais com normatização do peso máximo de transporte de material escolar; organização da estrutura curricular de forma a reduzir o material de uso diário, a fim de contribuir para a melhoria da saúde coletiva e individual.
Novas tecnologias estão sendo introduzidas na educação, como o uso de materiais audiovisuais, computadores, softwares. Apesar de todos esses avanços, o livro didático ainda continua sendo o material mais útil e difundido (Iida, 2005).
De acordo com Altman (2002), médico ortopedista, alguns dados extraídos do dia-a-dia e da literatura ortopédica em geral mostram que a fase de crescimento da criança e  do pré-adolescente é um período bastante dinâmico, sobrecarregando músculos, ligamentos, tendões e ossos, principalmente na coluna vertebral. Esta sobrecarga será agravada se o indivíduo tiver um excesso de peso em suas costas, porque na fase de crescimento há um estímulo do desenvolvimento global das estruturas. Toda criança pode sofrer danos na coluna vertebral, se continuar a carregar a mochila nas costas com material escolar excessivo.
Segundo Forjuoh et al (2004), o valor de 5% e 10% da massa corporal é justificado como massa limítrofe a ser transportada por estudantes do ensino fundamental e médio. No presente estudo, 60 estudantes (52,17%), utilizava mochilas que pesavam em média 15,04% da massa corporal. Esses dados excedem os valores encontrados na literatura e estabelecidos pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Nossos achados corroboram parcialmente com os de Negrini et al (2002), que encontraram uma carga média diária transportada por estudantes italianos, durante a semana, maior do que 30% do peso corporal em 34,8% de um grupo de 237 estudantes.
Whittfield et al (2005) observaram a prevalência de sintomas músculo-esqueléticos, devido ao uso da mochila, em 140 estudantes, com idade média de 13-17 anos, em cinco escolas da Nova Zelândia, onde o peso da mochila variou de 10,3 a 13,2% do peso corporal. Os sintomas músculo-esqueléticos foram relatados por 71% dos estudantes. Apesar de os achados serem de origem multifatorial, carregar mochilas com excesso de carga, parece ser um fator contribuinte e representa acréscimo ao estresse físico na coluna para estes estudantes. Em particular mochilas com sobrecarga podem contribuir para um aumento constante da pressão nas articulações e ligamentos, iniciando um processo lesivo na coluna vertebral.
No presente estudo, os indivíduos com menor idade (10 e 11 anos) tenderam a transportar maior carga, em comparação com os de maior idade. Quanto menor a idade, maior a chance de desenvolver alterações posturais.  Estes dados  confirmam os achados de De Vitta et al (2003).
Verificamos que houve diferença  do gênero feminino em relação ao masculino em transportar uma carga excedendo 10% da massa corporal, diferentemente do estudo realizado por Rebellato et al (1991), com 197 crianças de 8 a 14 anos de idade, matriculados em escolas particulares da cidade de São Carlos/SP, que constatou a predominância do gênero masculino em transportar carga excessiva. No estudo realizado por De Vitta et al (2003), ocorreu, também, a predominância do gênero masculino no transporte da carga excedendo os 10% da massa corporal. Não foram encontrados dados que justifiquem essa predominância.
Em nosso estudo, foi observada uma diferença significante na forma de transporte do material escolar. 98% dos estudantes utilizavam a mochila com fixação dorsal e 2% utilizavam somente fichário. Grandjean e Kroemer (2005), relataram que os estudantes que carregavam o material escolar em uma das mãos têm um gasto de energia superior em duas vezes àqueles que carregam a pasta nas costas. Este aumento de consumo de energia deve ser atribuído ao trabalho estático nos braços, ombros e tronco.  Os indivíduos que utilizavam como forma de transporte do material escolar a mochila de fixação dorsal tenderam a transportar uma carga próxima e que excedia os 10% da massa corporal permitido. Rebelatto et al (1991) verificaram, também, que as crianças que transportam o material escolar com o uso de mochilas com fixação dorsal realizam flexão anterior de tronco com aumento da demanda da musculatura lombar e do nível de compressão intradiscal em L5-S1 e aquelas que usam mochilas de fixação escapular realizam inclinação lateral de tronco com menor compressão intradiscal, se comparada as de fixação dorsal. No entanto, ambas podem determinar algias por alterações metabólicas e tensionais dos músculos da coluna vertebral.
Segundo Noone et al (1993), o transporte de uma carga externa assimétrica, durante um tempo significativo, por crianças e pré-adolescentes, seria um dos fatores contribuintes do aparecimento de curvas escolióticas. Negrini et al (2002), sugerem que, para prevenção de possíveis alterações estruturais da coluna vertebral causada pelo excesso de carga, as crianças não devem transportar em suas mochilas peso superior a 10% da massa corporal.


5. Conclusões

As ferramentas da Ergonomia e da Usabilidade, aplicadas ao design sustentável, são importantes para orientar os problemas existentes da interface usuário-produto, no caso, as mochilas escolares. Isto contribui para o design de produtos sustentáveis pois, produtos com difícil interface, inseguros ou que causem desconfortos tendem a ser descartados precocemente, levando à necessidade de substituição, com todos os input e outputs de um novo produto, além dos impactos gerados pelo fim do ciclo de vida. Produtos confortáveis, adaptáveis e seguros, ao contrário, tendem a ser mais duráveis estendendo seu ciclo de vida e reduzindo seus impactos econômicos, ambientais e sociais.
Problemas identificados no projeto de mochila escolar fazem refletir sobre a durabilidade e a usabilidade deste produto. Entre os objetivos deste projeto, está a utilização dos procedimentos metodológicos do design para o desenvolvimento de produtos sustentáveis, ou seja, que minimizem seus impactos sobre o ambiente e recursos naturais durante todo seu ciclo de vida. Assim, a aplicação de materiais ecologicamente sustentáveis, a simplificação de processos de fabricação e a diminuição da quantidade de materiais usados contribuem neste sentido, sem, no entanto, abandonar aspectos de conforto, usabilidade e estética. A apresentação de um novo design promove uma otimização no ciclo de vida do produto, atuando desde a origem da matéria-prima até o seu descarte, minimizando assim seu impacto sobre o ambiente e recursos naturais.
O presente estudo identificou que o material escolar transportado pela maioria dos alunos do ensino fundamental (52,17%), da instituição analisada, encontra-se acima dos padrões estabelecidos pela literatura e Lei n° 2772, de 25 de agosto de 1997, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Todavia, de todos os resultados obtidos, há que se preocupar, principalmente, com o fato de os alunos de menor idade (5ª série) transportarem carga superior a 10% da massa corporal, o que expõe estes indivíduos a um maior risco de lesões na coluna vertebral.
Esses dados são de grande importância no aspecto preventivo para a população estudada, assim como para outras da mesma faixa etária, a fim de que possam ser assessoradas quanto à abolição desses fatores de risco. Este estudo pode fornecer conhecimentos sobre as variáveis que podem estar atuando sobre a coluna vertebral das crianças em idade escolar, possibilitando futuros estudos e ampliando a atuação do ergodesign nessa área.


6. Aplicação Prática e Sugestões Futuras

Para minimizar ou solucionar  os efeitos adversos do excesso da carga transportada, deveria  a instituição de ensino apostilar as matérias de forma prática ou organizar os horários de forma que o estudante não tenha que transportar um excesso de carga para um mesmo dia. Os pais e os alunos devem selecionar o material escolar, organizando somente o necessário para cada dia de aula com a intenção de eliminar materiais e objetos supérfluos.
De todos os resultados apresentados, há que se preocupar com o fato  dos estudantes de menor idade transportarem maior carga; deve-se, portanto, criar projetos de educação postural direcionados, principalmente, para a faixa etária de 10 a 12 anos.
Deveria promover-se a utilização de escaninhos, como fator preventivo, de acordo com padrões americanos, para que os estudantes não sejam obrigados a transportar o material diariamente.


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