O Design da Paisagem Citadina enquanto Espaço Cultural e Emocional

The Design of the City Landscape as Cultural and Emotional Space

Nunes, C.

CIAUD - Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Em Portugal, a disciplina académica da arquitectura paisagista é impulsionada pelo Professor Caldeira Cabral. É a arte de organizar o espaço exterior em relação à necessidade e vontade do Homem, em equilíbrio e harmonia com a Natureza. Um espaço bem concebido confere bem-estar ao seu visitante. No que concerne ao design de espaços exteriores, existem algumas premissas a ter em conta, em termos de satisfação das necessidades, limitações, capacidades e motivações do sénior. Neste sentido, mencionam-se alguns estudos significativos na área.

 

PALAVRAS-CHAVE: Arquitectura Paisagista; Design; Idoso.

 

ABSTRACT: In Portugal, the academic discipline of landscape architecture is promoted by Professor Caldeira Cabral. It is the art of organizing outer space in relation to the human need and will, in balance and harmony with Nature. A well-designed space provides well-being to your visitor. With regard to the design of outdoor spaces, there are some premises to take into account in terms of meeting the needs, limitations, capabilities and motivations of the senior. In this sense, we mention some significant studies in the area.

KEYWORDS: Landscape Architecture; Design; Elderly person.

Pretende o presente texto reflectir e aproximar algumas áreas do conhecimento, no que concerne à temática «Homem, satisfação e bem-estar».
Afinal, o que é a qualidade de vida de que tanto se fala hoje em dia?

“Qualidade de vida é definida como o grau de gratificação percebido de uma experiência contextual, incluindo a satisfação física, emocional, social e espiritual das condições ambientais” [1].

Possuindo o investigador uma formação base em arquitectura paisagista e entrando, há poucos anos, na área do design, nomeadamente do Design Inclusivo, esta questão, é do seu ponto de vista, uma das mais importantes, levando-o a continuar a investigar no campo.
Quando «experiencia a Urbe», frequentemente surge-lhe a seguinte questão: “será que os designers, paisagistas, arquitectos, urbanistas e demais, estão a criar a paisagem ideal para o ser Humano viver?”
Segundo o geógrafo chino americano Yi-Fu Tuan (n.1930), os seres humanos estabelecem uma relação afectiva com o lugar em que habitam e as suas componentes, sendo esta relação denominada por topofilia.

“ [Topofilia] pode ser definida em sentido amplo, incluindo todos os laços afectivos dos seres humanos com o meio ambiente…” [2].

Assim, é necessário tentar criar um ambiente próximo ao lugar em que se vive para ir ao encontro das necessidades/satisfação do Homem [3].
Estas necessidades passam pela transmissão de sentimentos ou evocações (emoções), uso, eficacidade técnica  [4], protecção, etc., no entanto, estas variam em função do meio ambiente/cultura, como nos revelam os estudos «Proxémicos» [5].
«Proxemia» é um neologismo criado para designar o “conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico” [6].
Investigações proxémicas indicam que os indivíduos que pertencem a culturas diferentes habitam mundos sensoriais diferentes. Assim, os ambientes arquitecturais e urbanos gerados pelo Homem em diversas partes do mundo demonstram essas mesmas diferenças, resultado dum processo de filtragem cultural [7].

“Só quando compreendemos o nosso lugar, estaremos [projectistas] em graças de participar criativamente e de contribuir para a sua história” [8]

– nesta frase está presente o conceito de Genius Loci [9], que se situa ao mesmo nível do conceito de topofilia. Ambos os conceitos reportam para a aproximação das características/raízes históricas, identitárias e relacionais do lugar onde se habita ao lugar que se pretende criar [10]. Segundo Lawrence Durell, no livro Genius Loci, “...todos os factores determinantes de uma cultura formam o espírito do lugar” [11].
Segundo Schulz, a orientação espacial (propriedades formais dum sistema de relações), no que respeita à estrutura do lugar artificial/criado, constituem a imagem do lugar, permitindo a orientação das pessoas e ajudando à construção do sentimento de identificação com esse lugar [12].
Os parâmetros do design, como forma, dimensão, cor, luz, etc. (aplicados ao mobiliário e equipamento urbano, ao pavimento, aos percursos e demais componentes do espaço exterior) contribuem para a qualidade, ou não, de um lugar e induzem a maneira como o indivíduo interage com o espaço.
Por exemplo, um espaço grande é qualificado de vazio, frio, desértico, induzindo a sentimentos de perda; já um espaço pequeno é íntimo, caloroso, lá, sentimo-nos reconhecidos [13].
Por forma de se ir ao encontro das «exigências» e satisfação do transeunte, torna-se necessário aferir, mediante questionários (descritivos/qualitativos), a população em questão e na vizinhança do local em estudo (desta forma, toma-se consciência da experiência directa e pessoal de quem usa o espaço no seu quotidiano, e de que resulta uma consciência parcial sobre a interacção do mesmo no ambiente).
Trata-se, pois, de um método de tomada de consciência das necessidades locais (e à qual se pode adicionar um estudo, mediante observação comportamental em situação dos utentes e, deste, retirar conclusões), contribuindo para descrever o Genius Loci, identificando a identidade do lugar, em termos físicos, históricos e culturais e sofre os quais se irá intervir.
A partir da análise do mesmo, é possível tirarem-se ilações, conjuntamente com a análise de campo, individual e sensorial do designer, arquitecto, paisagista, etc. Do cruzamento da “informação”, com as ideias do proponente (se existir), é possível orientar as escolhas projectuais do técnico.
O cumprimento da legislação da acessibilidade (Decreto-Lei nº 163/2006, 8 Agosto) é igualmente importante, no sentido que tem por objectivo criar espaços acessíveis, mas que por si só não consegue dar resposta a muitos aspectos sensoriais ou ligados ao conforto, como, por exemplo, os problemas associados à orientação espacial pelo idoso (e no qual intervêm os sentidos, os quais são afectados pelo processo de envelhecimento de células e órgãos) [14].
Conceber o espaço exterior Urbe trata-se de uma questão muito complexa e na qual várias áreas do conhecimento deverão ser “ouvidas”, tanto na área projectual (aquela que executa o projecto, como planos gerais/específicos e pormenores construtivos), como na área da saúde, como psicólogos ambientais, médicos, ergonomistas, etc.

 

Notas e Referências bibliográficas

[1] CRIST, P.A. (1999). Does Quality of Life Vary with Different Types of Housing Among Older Persons? A Pilot Study. Aging in Place: Designing, Adapting, and Enhancing the Home Environment. The Haworth Press, Inc, p. 102

[2] http://www.calazans.ppg.br/miolo02c02.htm (in YI-FU TUAN (1980). Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Ed. Difel, SP, p. 107).

[3] YI-FU TUAN (1974). Topophilia. A Study of Environmental Perception, Attitudes, and Values. New York: Columbia University Press.

[4] Esta designação refere-se à concepção urbanística/arquitectónica de espaços de modo a que corresponda às expectativas e limitações do utente (por exemplo, um utente em cadeiras de rodas procura usufruir do espaço exterior sem barreiras ambientais).

[5] MAGALHÃES, M. M. (1996). Morfologia da Paisagem. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, p. 31.

[6] HALL, E. T. (1986). A Dimensão Oculta. Relógio D´Água Editores, p. 11.

[7] Idem, Ibidem, pp. 12-13.

[8] NORBERG-SCHULZ, C. (1986). Genius Loci – Paesaggio Ambiente Architettura. Milano: Electa, p. 202.

[9] Segundo Magalhães (1996), o Genius Loci ou «Espírito do Lugar», é dotado de uma linguagem simbólica própria de cada cultura e à qual se deve ter presente na criação do «lugar criado»/«lugar artificial» de modo a que as pessoas se identifiquem/relacionem com este, sentindo-se bem na sua utilização. O conceito de Lugar resulta da combinação das necessidades humanas com o sítio natural. O Genius Loci confere a esse lugar um carácter único que o distingue dos outros (in MAGALHÃES, M. M. (1996). Morfologia da Paisagem. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia, p.158)

[10] AUGÉ, M. (1994). Não-Lugares – Introdução a uma antropologia da sobremodernidade. Venda Nova: Bertrand Editora, p. 59.

[11] NORBERG-SCHULZ, C. (1986). Genius Loci – Paesaggio Ambiente Architettura. Milano: Electa, p.18.

[12] Idem, Ibidem, p. 18.

[13] FIHER, G-N. [s.d.]. Psicologia Social do Ambiente. Lisboa: Perspectivas Ecológicas, Instituto Piaget, Vol.5, pp. 203 e 196.

[14] LAURIA, A. (2000, Jan.-Fev.). Il Rilievo Ambientale. Uno Strumento di Supporto delle Decisioni nei processi di Transformazione degli Habitat. Paesaggio Urbano, pp.16, 17, 19.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Nunes, C. ; (2009) O Design da Paisagem Citadina enquanto Espaço Cultural e Emocional. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL II (4) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt