Identidade como Fator de Valorização do Território

Identity as Territory Appreciation Factor

Reyes, P. Balem, T.

UNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos Sinos
UNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo pretende levantar questões acerca do tema identidade e da possibilidade de se valer desse tema para a valorização do território de uma cidade. Inicia-se com uma discussão teórica sobre os processos de desterritorialização gerados pela globalização, focando no conceito de identidade como fator de valorização e de reterritorialização. O artigo se desenvolve, apontando alguns aspectos de falência do território a partir das lógicas de mercado globalizado, apoiado teoricamente em Sassen. Em seguida, apresenta-se a necessidade do território se posicionar em um mercado global, a partir do conceito de identidade em Hall e Castells. No desdobramento teórico, considera-se a análise de alguns municípios gaúchos, discutindo imagem, identidade e etnia, centrando foco no caso de Porto Alegre. Por fim, propõe-se uma abordagem transdisciplinar, a partir do resgate do conceito de design como processo de projeto estratégico.

 

PALAVRAS-CHAVE: Identidade; Território; Posicionamento; Imagem; Porto Alengre.


 

ABSTRACT: This article intends to raise questions about the identity theme and the possibility of using this theme for the valorization of the territory of a city. It begins with a theoretical discussion about the processes of deterritorialization generated by globalization, focusing on the concept of identity as a factor of valorization and reterritorialization. The article develops, pointing out some aspects of bankruptcy of the territory from the logics of globalized market, supported theoretically in Sassen. Next, it is presented the need of the territory to position itself in a global market, from the concept of identity in Hall and Castells. In the theoretical development, we consider the analysis of some Gaucho municipalities, discussing image, identity and ethnicity, focusing on the case of Porto Alegre. Finally, a transdisciplinary approach is proposed, starting from the rescue of the concept of design as a strategic design process.

KEYWORDS: Identity; Territory; Positioning; Image; Porto Alengre.

1. Considerações iniciais

Este artigo pretende levantar questões acerca do tema identidade e da possibilidade de se valer desse tema para a valorização do território de uma cidade. Para isso, trataremos do tema a partir do território de Porto Alegre, cidade reconhecida internacionalmente pelas preocupações com a cultura, como agente de mobilidade social. Parte-se dos seguintes pressupostos: a cidade, hoje, sofre um processo de desterritorialização e esvaziamento econômico; a cidade necessita ser pensada em termos de atração de recursos externos; a cidade precisa ser posicionada com uma imagem clara; e, por último, especificamente a cidade de Porto Alegre pode ser pensada e posicionada a partir de seus aspectos culturais.

 

2. A falência do território

Quando falamos em território, estamos nos referindo ao território de uma cidade. Esse espaço, que compreendemos como o espaço coletivo, vem sendo submetido às novas dinâmicas e desdobramentos provocados pela globalização e pelas novas tecnologias. Esse novo contexto social reposiciona a cidade, num panorama em que esta necessita de uma articulação com o ambiente externo. Portanto, a cidade não pode ser pensada única e exclusivamente como um território circunscrito pelos seus limites administrativos. Mais do que nunca, precisa de um posicionamento que permita a geração de uma nova dinâmica que estabeleça uma sustentabilidade do próprio território.
Há um forte processo de desterritorialização das economias, interferindo nas economias nacionais. “As empresas correspondentes a ramos de atividades mais rotineiras, com mercados predominantemente regionais ou nacionais, parecem ter cada vez mais liberdade na hora de deslocar ou instalar suas sedes centrais fora das cidades. Porém, as empresas correspondentes a ramos de atividade altamente competitivas e inovadoras e/ou com uma forte orientação ao mercado mundial parecem beneficiar-se de estarem localizadas no centro de distritos de negócios com importância internacional, independentemente dos custos que isso acarreta” (SASSEN, 2004, p.137).
Então, o processo é de desterritorialização, pois a lógica de mercado está mais fortemente ligada à lógica das empresas do que conectadas com o desenvolvimento local de um território específico. Pelo contrário, as empresas se fragmentam em seus processos produtivos para facilitar e aumentar seus lucros. Em tempos de globalização dos mercados e de alta tecnologia, a situação física da empresa é relativa. Ela necessita de um centro globalizado para instalar seu núcleo “duro” de gestão em pontos estratégicos do planeta, tais como Nova York, Londres, Tókio, mas já pode ter seus processos de produção nas periferias mundiais de países do terceiro mundo. Essas cidades, que Sassen chama de Global Cities, não só se constituem como “nós de coordenação dos processos, mas são também lugares de produção. São lugares para a produção de serviços especializados e para produção de inovações financeiras e para a construção de mercados, ambos centrais para a internacionalização e expansão da indústria financeira” (SASSEN, 2001, p.05).
Esses novos processos de mercado e comunicação alteram a maneira de se relacionar no território, ampliando os limites das relações sociais que antes aconteciam e estavam relacionados intrinsecamente a esse. A ocupação das cidades sempre foi potencializada por questões de trocas. Contudo, o que assistimos hoje no território é sua desintegração como articulador dessas relações de troca, pois essas hoje acontecem independentemente dele, ou seja, interessa menos ao sistema capitalista o local onde a produção será realizada. Sendo assim, como aponta Sassen, uma empresa pode muito bem manter sua produção em um local devido à disposição de mão de obra barata e ter seu escritório em outra cidade com vocação central para os mercados em relação ao mundo.
Se o mercado já está globalizado e as grandes empresas já têm seu território espalhado por todo o globo, resta às médias e pequenas empresas os territórios urbanos. Os territórios urbanos, não só servem e dão condições de sobrevivência a essas empresas, como também se preparam para atrair as grandes economias flutuantes no mercado global. Parece uma ironia da globalização, pois, ao mesmo tempo em que se nega a necessidade do território, busca-se por ele de maneira específica, ou seja, é o retorno ao território – a reterritorialização.
Nesse contexto, “da nova ordem econômica, determinada fundamentalmente pela globalização dos mercados, do impulso dos intercâmbios comerciais e do aumento da competitividade empresarial, tem-se criado um novo marco de referência para o funcionamento das bases econômicas das cidades. Até poucos anos, as preocupações econômicas dos líderes municipais se restringiam a procurar postos de trabalho, atrair investimentos exteriores e captar ajudas públicas. Na atualidade, esses mesmos líderes invocam a necessidade de melhorar o nível de competitividade das empresas locais, a inversão em inovação tecnológica, a penetração nos mercados exteriores e a capacitação da mão de obra” (GÜELL, 1997, p. 44). 
O que se estabelece aqui é o antigo manifesto das minorias periféricas em relação aos seus centros desenvolvidos, ou seja, o esforço das economias periféricas para reverter a lógica econômica baseada na inversão de valores. É a periferia se qualificando para atrair os investimentos hoje localizados nos centros. Esse movimento é tão forte e tão necessário para a sobrevivência dessas economias que Güell fala em “estratégias de venda” para as cidades como estratégias de crescimento. Segundo ele, “frente às mudanças operadas pelo entorno econômico e suas implicações no desenvolvimento urbano, hoje em dia vender a cidade se converteu em uma das funções básicas dos governos locais e em um dos principais campos de concentração público-privado. A intensa competência que começam a experimentar as cidades para captar, ou inclusive reter, atividade econômica obriga os dirigentes locais a elaborar fortes campanhas de promoção que ressaltem todos os atrativos de sua oferta urbana e os diferenciem aos competidores mais próximos” (GÜELL, 1997, p.44). Esse é o principal mote dos processos de reterritorialização. Nessa perspectiva, o território da cidade passa de um organizador das trocas de mercado e transforma-se no próprio produto dentro de uma lógica de globalização.
Nesse contexto de globalização, em que as cidades se obrigam a prospectar o mercado externo como forma de reativar a sua economia interna e dar condições de sustentabilidade aos mercados internos em uma relação de interdependência com os novos mercados emergentes, Güell (1997, p.48) chama a atenção para alguns desafios a que as cidades devem estar atentas.  

  1. as mudanças atualmente em curso não afetarão somente as grandes cidades, também produzirão efeitos significativos nas cidades medianas e inclusive nas pequenas;
  2. há uma crescente preocupação pela magnitude das tensões sociais que está provocando a nova ordem econômica, entretanto, não se dispondo, todavia, de instrumentos eficazes para prevenir a possível fratura social;
  3. há uma forte rivalidade entre os centros urbanos, traduzida em investimento em infra-estruturas, equipamentos e campanhas de marketing, que nem sempre estão ao alcance de todos os municípios, para aproveitar as oportunidades que oferece o entorno e assim posicionarem–se vantajosamente nos mercados cada vez mais abertos, dinâmicos e fortemente competitivos;
  4. se percebem claramente os benefícios econômicos e sociais de uma adequada difusão das novas tecnologias, mas seguem existindo obstáculos para as levar a cabo nas cidades de médio e pequeno porte;
  5. o ritmo rápido com que se sucedem os acontecimentos obrigam a abordar processos de reflexão e gestão estratégica com uma agilidade e presteza desconhecidas no passado de nossa história urbana.

Essa inversão de função porque a cidade passa – de espaço-mercadoria à cidade-mercadoria – no atual estágio da globalização, nos obriga a repensar os processos de organização e desenvolvimento estratégico das cidades. A cidade, apesar de ter sua sustentabilidade nos processos econômicos de mercado, não pode ser restringida somente a esse olhar. Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, Sánchez argumenta que “o valor de troca, impresso no espaço-mercadoria, se impõe ao uso do espaço, e assim os modos de apropriação passam a ser determinados cada vez mais pelo mercado. Dessa forma, o acesso ao espaço se realiza pela mediação nos modos de uso e consumo, com o aprofundamento da separação entre espaço público e espaço privado” (SÁNCHEZ, 2003, p.45).

 

3. A necessidade de se posicionar

O atual cenário do mundo conectado e globalizado faz as cidades competirem mundialmente na tentativa de atraírem investimentos, consumidores e empresas. Nesse contexto e face aos crescentes desafios impostos pela aceleração da globalização e pelos novos paradigmas de competição, as cidades precisam se posicionar para ganhar espaço frente ao paradoxo dos mercados flutuantes. As economias se tornaram independentes dos territórios de origem. Isso significa que o território é compreendido, hoje, como um produto passível de ser posicionado estrategicamente para poder captar a atenção e ativar seu crescimento econômico e social de maneira sustentável, ou seja, a cidade é mais que só o mercado.
Se a cidade não pode ser vista só pelo segmento de mercado, é fundamental que os processos de desenvolvimento passem por todos os segmentos sociais. E isso significa dizer que é necessário que se compartilhe um projeto comum estratégico que contemple a maioria dos agentes sociais da cidade e construa coletivamente uma marca socioespacial que dê sustentabilidade a esse novo processo de reterritorialização.
O entendimento do crescimento territorial como responsabilidade de todos e da cidade como bem comum são fundamentais para o desenvolvimento social e para que todos os segmentos da cidade sintam-se fazendo parte desse projeto coletivo. É definitivo que a sociedade como um todo, ou pelo menos na sua grande maioria, se sinta reconhecida e representada por esse projeto, que é mais do que um projeto político de governo, mas uma construção de uma marca social coletiva no território. A idéia de marca é significativa, no sentido de que os habitantes da cidade se reconheçam através dela como algo que valoriza a cultura local e que possa constituir uma identidade forte.
A partir dessa crença, desse “estar de acordo”, os segmentos sociais se sentem fazendo parte de um único projeto agregador do coletivo social. É como se o valor agregado ao território não fosse só o valor individual do território privado, mas o valor que traz elementos de todas as partes da cidade, sejam elas privadas ou públicas, materiais ou imateriais. O que está em jogo não é o bem estar de um grupo específico, mas o bem estar e o desenvolvimento de toda a comunidade local. Assim, a cidade se reconhece como um todo e gerencia sua própria sustentabilidade.
E no momento em que se reconhece como algo que tem valor, e, portanto, que tem orgulho de fazer parte desse coletivo, a comunidade local não se fecha mais em si mesma, mas se oferece e se abre ao olhar e ao investimento externo. A cidade passa a ser orgulhosa das suas potencialidades e agrega valor nisso, oferecendo, como valor de troca com o visitante, o próprio território, consolidando um novo processo de reterritorialização.
Aqui, há uma inversão no olhar sobre a cidade-mercadoria. É o coletivo da cidade que, orgulhoso do seu valor cultural, transfere isso ao exterior como fonte de sustentabilidade através do mercado e não o mercado globalizado que impõe o novo caráter econômico-social. São esses valores que, primeiro, são reconhecidos internamente como fazendo parte da identidade local e que podem ser, posteriormente, produto de troca com agentes externos. Então, o território urbano é menos um objeto de disputa ou uma mercadoria para o consumo e deleite de poucos, mas um produto da ação coletiva de muitos para muitos.
A valorização do território pela ótica estratégica é uma prática viável para estruturar o crescimento que gera riqueza para todos. Para que isso aconteça, é necessário reconhecer qual o valor que caracteriza o território e se esse é reconhecido pelos seus stakeholders (investidores, residentes, visitantes, entidades públicas, empresas e outros). Segundo Gaio e Golvea (2007, p.27), esse é “o pressuposto de que o alcance de uma performance territorial competitiva está em larga medida na dependência daquilo a que denominamos atratividade integrada do território”.
Com isso, “valorizar o território” significa gerar um posicionamento que amplie o potencial competitivo da cidade. Essa valorização diz respeito a uma definição nos aspectos de imagem e identidade, que devem ser analisados em âmbito multidisciplinar e com os stakeholders, para então aplicar modelos que favoreçam o desenvolvimento, melhoria da qualidade de vida e, simultaneamente, potencializem a competitividade. Reposicionar a identidade da cidade significa “marcar” os valores já anunciados no território, mas que talvez não estejam evidentes. Sendo assim, na orientação do território, nessa perspectiva estratégica, a marca passa a ser uma ferramenta pertinente com vista a construir e reforçar a imagem da cidade em uma perspectiva de competitividade, com base nos valores de atratividade e identidade do território. Como observa Gaio e Golvea (2007, p.28), “assume-se então como um processo dinâmico que toma por base a identidade e ativos físicos e psicológicos do território em toda a sua complexidade que visa a configuração de uma dialética entre os elementos emissores e receptores do território.”

 

4. Construindo uma imagem a partir da identidade 

O conceito de identidade, é por si só, um conceito problemático. Vários autores já evidenciaram esse problema, mas um em especial tem avançado nessa discussão – Stuart Hall. Na construção da noção de identidade, Hall chama a atenção para o equívoco de se posicionar identidade como uma totalidade.
Com esse sentido de identidade, Hall (2006, p.10) apresenta a noção de sujeito originária no Iluminismo. No Iluminismo, “o sujeito estava baseado em uma concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa.”
Em contraponto a esse sujeito, centrado e que não altera sua identidade ao longo da vida, Hall apresenta a noção de sujeito sociológico. Nessa concepção de sujeito, a idéia de um núcleo interior autônomo e auto-suficiente não se sustenta, pois o sujeito se constitui na interação com o outro, mediando os valores culturais. No entanto, Hall argumenta que, mesmo atravessada pela cultura, essa noção de sujeito ainda posiciona o sujeito constituído com um núcleo real, verdadeiro.
Então, nem o sujeito iluminista, nem o sujeito sociológico servem para a compreensão da noção de sujeito contemporâneo. O sujeito contemporâneo não seria o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, mas, pelo contrário, o sujeito contemporâneo está se tornando fragmentado “composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas” (HALL, 2006, p.12). Essa noção de sujeito se aproxima da noção de “persona” em Maffesoli (2002) e da idéia de construção de uma identidade em Castells (1999).
Em Maffesoli, a idéia de “persona”, mais do que “indivíduo”, permite a flexibilização da noção totalitária da identidade. A persona é muito mais flexível e pode participar simultaneamente de diversas identidades. Para ele, “no quadro de uma sociedade complexa, cada um vive uma série de experiências que não têm sentido senão dentro do contexto global. Participa de uma multiplicidade de tribos, as quais se situam umas com as outras. Assim cada pessoa poderá viver sua pluralidade intrínseca, ordenando suas diferentes “máscaras” de maneira mais ou menos conflitual, e ajustando-se com as outras máscaras que a circundam” (2002, p.207).
Para Castells, “a identidade é o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual (is) prevalece (m) sobre outras fontes de significado”. E ele ainda diz que “toda e qualquer identidade é construída” (1999, p.22). Ao afirmar que toda identidade é construída e que se vale de fatos históricos, geográficos, biológicos, memórias, instituições, possibilita que se pense na elaboração estratégica da imagem da cidade, utilizando essas referências como construto. Essa construção passa pelo resgate de atributos materiais e imateriais que constituem a memória coletiva do território local.
As cidades e regiões possuem identidades com atributos que, segundo Gaio e Golvea, são da ordem tangível e intangível. Ou seja, os aspectos físicos, patrimoniais e de infraestrutura, bem como, os aspectos de ordem imaterial como as relações e símbolos estão ligados assim à cultura local e constituem um instrumento ao serviço da competitividade e reafirmação do local através do auto-reconhecimento que a população tem dos seus atributos territoriais.
Como esclarece Castells, “quem constrói a identidade coletiva, e para quê essa identidade é construída, são em grande medida os determinantes do conteúdo simbólico dessa identidade, bem como de seu significado para aqueles que com ela se identificam ou dela se excluem” (1999, p.23). Nesse contexto, o envolvimento da população é fundamental para a consolidação de uma imagem coletiva, pois reforça hábitos sociais que valorizam o território.
Considerando, assim, identidade como algo em construção, podemos utilizar o conceito de identidade de projeto em Castells. Para ele, “quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social, constroem novos significados em torno da identidade de projeto” (2000, p.24). Mas, mesmo que se acredite em uma identidade em construção, ela sempre será móvel, pois “a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente” (HALL, 2006, p.13).
Essa noção de identidade aberta tem características positivas. Hall desarticula as identidades estáveis do passado e, com isso, abre a possibilidade de novas articulações e a criação de novas identidades. Esse conceito nos liberta da noção de uma identidade fundante, ou seja, um mito de origem.
Esse é o caso de muitas das pequenas e médias cidades do Rio Grande do Sul que se desenvolvem ainda em torno da imagem de uma identidade relacionada a uma etnia fundante da comunidade. Muitas das cidades gaúchas tiverem sua origem nos processos migratórios, gerando cidades italianas, alemãs, portuguesas e espanholas. No entanto, o posicionamento dessas cidades nem sempre se relaciona diretamente às imagens das culturas originais. Algumas conseguem manter seu desenvolvimento econômico e social apoiado nesses valores, mas outras tantas há muito não conseguem mais ter algum tipo de referência no mito original.
Trata-se, para Hall, citando Benedict, de uma “comunidade imaginada”, que tenta em uma estratégia discursiva construir a perpetuação de uma identidade baseada no passado deslocada para o futuro, recriando uma realidade folclórica, fantasiada “constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade” (2006, p.62).
A questão aqui em pauta, não é o fato de que as populações residentes nesses territórios tenham que rejeitar seu passado para avançar em um projeto futuro. Antes pelo contrário, a idéia é a de que se entenda a identidade como algo que se constitui ao longo de uma vida e que está em constante transformação. Dito isso, argumenta-se que muitas dessas cidades perderam a possibilidade de reverter sua lógica de desenvolvimento econômico e social, por não apostarem em outras imagens que pudessem reposicionar o território de uma maneira mais eficiente, gerando sustentabilidade do próprio território.
Cidades com mesma origem que investem em um mesmo posicionamento enfraquecem sua identidade, pois centram seu foco de desenvolvimento nos mesmos atributos materiais e imateriais. É importante que esses territórios sejam valorizados por especificidades que possam ser identificadas como complementares. Por outro lado, cidades que investem no reforço de uma identidade original, mas que há muito tempo já não têm referências desses valores, acabam por construir uma imagem falsa sobre a sua própria cultura original. Mais ainda, cidades que têm seu território valorizado pelo patrimônio cultural e histórico como um simples cenário, pouco conseguem gerar como sustentabilidade econômica do território. Inúmeros casos ilustram essas teses.
Em tempos de globalização em que as cidades precisam se posicionar para além de seu território, não é mais possível que as imagens que geram esse posicionamento ainda girem em torno de uma redução imagética do que seja a cultura de um povo. Reduções como uva e vinho para a cultura italiana, enxaimel e cerveja para a cultura alemã, doces para a cultura portuguesa, a culinária e a dança para a cultura espanhola, não são mais suficientes para sustentar um desenvolvimento econômico e social. As cidades precisam se reinventar.
Portanto, como observado em Hall, quando trata da identidade cultural e discute conceitos dos quais chama de “identidades nacionais”, a etnia é tratada como fonte de apelo de significados e de representatividade com as quais somos propensos a nos identificarmos para nos localizarmos enquanto pertencentes de um grupo com um teto comum. Porém, tanto Hall como Castells concluem que etnias não sustentam um significado que perdura como identidade, pois sofrem intersecções diversificadas, conflitantes e ambíguas “quando extraídas de seu contexto histórico, como base para a reconstrução do significado em um mundo de fluxos e redes, de novas combinações de imagens e novas atribuições de sentidos” (CASTELLS, 2000, p.78).
Caxias do Sul teve que se diferenciar de Bento Gonçalves, em relação ao seu posicionamento referente à cultura da uva e do vinho, apesar de ambas originariamente fundamentarem sua identidade nessa cultura. Para Bento Gonçalves, o posicionamento da “cultura vinícola” foi reforçado através da construção da rede de vinícolas intitulada “Vale dos Vinhedos” e, mais recentemente, tem investido também no agro-negócio, apoiando os pequenos produtores. Para Caxias do Sul, o posicionamento foi em torno da indústria metalúrgica através da construção do “pólo metal-mecânica”. Ainda em relação à cultura da uva, Garibaldi ficou com um posicionamento em torno da produção do “espumante”.  Sem sair da cultura italiana, Antonio Prado ficou com o melhor exemplo de arquitetura da imigração, tendo seu patrimônio histórico valorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Como exemplo da cultura alemã, a cidade de Gramado por muito tempo tentou se estruturar a partir da imagem da arquitetura enxaimel e da comida típica alemã e da neve. Se isso suportou, por um tempo, o desenvolvimento da cidade, não foi suficiente. A cidade conseguiu se posicionar associando vários fatores: frio, comida típica e o caráter hospitaleiro. Esses fatores só foram suficientes no momento em que eles estruturaram uma rede de eventos que suportasse o desenvolvimento econômico e social durante todo o ano, e não ficasse mais restrito somente aos meses de inverno. Hoje, Gramado consegue se posicionar, senão internacionalmente, pelo menos em todo o território nacional, como um dos melhores lugares para sediar eventos.
Com isso, queremos dizer que é importante que os valores dessa comunidade sejam de fato reconhecidos e expressos de maneira evidente e clara, e ainda, não é possível inventar valores inexistentes. Todos os exemplos anteriormente citados reforçam essa tese.

 

5. Porto Alegre, cultura: uma identidade possível

Porto Alegre, devido à sua dimensão e complexidade, não consegue ter um posicionamento vinculado a seu mito de origem: cultura açoriana. Se, por um lado, isso possa parecer um problema, por outro lado, torna-se evidente a necessidade de se posicionar através de valores já conquistados ao longo do tempo.
É evidente que a cultura de um território é híbrida e diversificada. Conforme Hall (2006, p.62), “em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade”. Assim, acredita-se que quaisquer que sejam os valores que pautem a construção de uma imagem, reforçando uma identidade local e funcionando como uma mola geradora de desenvolvimento social e econômico, devem ser pensados como valores híbridos e diversificados.
Porto Alegre, por muito tempo, foi reconhecida por imagens que pouco geraram um fator de desenvolvimento econômico e social. Imagens como: “O Gaúcho, representado pelo Laçador” e todas as imagens derivadas daí - chimarrão, churrasco, CTG -; “Pôr-do-sol” e seus derivados, Lago Guaíba, Usina do Gasômetro e Ipanema como locais de contemplação, são todas imagens que não sustentam o desenvolvimento do território. Se essas imagens parecem excessivamente bucólicas e serviriam apenas para alimentar o universo poético da capital gaúcha, outras imagens já tiveram maior sucesso em termos de geração de posicionamento, como foi o caso do Fórum Social.
Segundo a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, datada de 08.06.2002, o “Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra” [1].
Com o Fórum Social, Porto Alegre ganhou visibilidade internacional como sendo uma cidade que valoriza a diferença e se constitui como um pólo de resistência ao modelo econômico internacional de globalização. Pelos anos em que ocorreu o Fórum Social, a cidade conseguiu gerar uma dinâmica que posicionava a cidade no circuito de interesses internacionais. Com o fim do Fórum em Porto Alegre, se perdeu a oportunidade de consolidar essa imagem. No entanto, nem tudo está perdido.

Porto Alegre tem vivido sistematicamente um processo de desenvolvimento econômico e social com pauta em processos culturais. Haja visto eventos com reconhecimento nacional como a Bienal do Mercosul,  o Porto Alegre Em Cena, a Feira do Livro, o Acampamento Farroupilha, e mais recentemente, o Museu Iberê Camargo. Sabe-se que tais Instituições Culturais esforçam-se por demais na construção e efetivação desses eventos. No entanto, na maioria das vezes, tais eventos ocorrem isoladamente de uma política cultural que pense neles de forma articulada, não potencializando a imagem de Porto Alegre como uma cidade cultural.
É notório que as cidades hoje necessitam da visualização externa para dinamizar sua economia. Por isso, tais eventos deveriam ser pensados como agregadores de valor para a Imagem Cultural de Porto Alegre. As Instituições Culturais de Porto Alegre contribuem para gerar dinâmica no território da cidade e podem constituir uma rede que trabalha cooperativamente e articulada para o fortalecimento da dinâmica do território, através da potencialização desse valor cultural promovido e transformado em marca, capaz de ser objeto de projeto e comunicação.

 

6. Abordagem do território pelo Design

É através da noção de “projeto” que essa valorização da imagem cultural de Porto Alegre pode ser pensada. Projeto aqui compreendido na acepção flusseriana. Flusser desenvolve a noção de “Projeto” a partir da palavra inglesa “Design”. Segundo ele, “a palavra design funciona, indistintamente, como substantivo e como verbo. Como substantivo significa, entre outras coisas, intenção, plano, propósito, meta, conspiração malévola, conjura, forma, estrutura fundamental, e todas essas significações, junto com muitas outras, está em relação com ardil e malícia. Como verbo – to design – significa, entre outras coisas, tramar algo, fingir, projetar, rascunhar, conformar, proceder estrategicamente” (1999, p.23).
Se quisermos compreender a noção de estratégia que vem sendo aplicado ao design, devemos seguir um rastro deixado por Flusser. Além da distinção entre substantivo e verbo, propomos que se reagrupem as palavras, marcando sentidos diferentes que se anunciam nessa lista apresentada por ele. Se destacarmos os substantivos, forma e estrutura fundamental, e os verbos, projetar, rascunhar e conformar, podemos derivar o sentido amplamente reconhecido no mundo do design de Forma e Projeto (aqui compreendidos em diferentes escalas, objeto, edifício, cidade). No entanto, logo em seguida, ele deixa que percebamos um outro sentido: como substantivo, conspiração malévola, conjura, intenção, plano, meta, e como verbo, tramar algo, fingir e proceder estrategicamente. Disso, derivamos uma outra noção pouco reconhecida dentro da área do design, a de Estratégia.
Com essa acepção e evidenciando que se pense nas diferentes escalas, tradicionalmente tratadas por diferentes disciplinas – design, arquitetura, urbanismo -, é que se propõe pensar esse problema de maneira transdisciplinar. E, nesse sentido, a idéia de projeto estratégico articula as diferentes disciplinas.
Recupera-se então Design como projeto e como estratégia. Essa ação estratégica pelo viés do design faz com que se pense o território de maneira articulada e integrada com os diversos públicos e com as diversas disciplinas. Essa abordagem do território, pelo viés do design estratégico, propõe que se pense a cidade a partir de um olhar transdisciplinar que considere as áreas de arquitetura e urbanismo, planejamento estratégico, gestão e marketing e comunicação. Nessa perspectiva, a cidade passa a ser percebida como um produto que pode ser operado pelo design a partir da articulação das competências das áreas já mencionadas. A contribuição de cada área pode ocorrer da seguinte maneira:

  • arquitetura e urbanismo – foco na materialidade do território, reconhecendo o valor de identidade local, é um olhar de dentro para dentro;
  • planejamento estratégico – foco no processo de desenvolvimento do território com uma visão ampla de futuro, reconhecendo a perspectiva temporal do espaço, é um olhar de dentro para fora;
  • gestão de marketing – foco no processo de promoção do território, relacionando o valor intrínseco e o valor de mercado, é um olhar de fora para dentro;
  • comunicação – foco na organização do material de promoção e de propaganda, reconhecendo a tendência de mercado, é um olhar de fora para fora.

 

7. Conclusões

Com isso, o design territorial passa a ser uma ação de intervenção sobre o território, em diferentes escalas, tendo por finalidade a geração de valor associada a uma identidade promovida para além dos seus próprios limites, construindo um novo posicionamento e gerando sustentabilidade econômica, social e ambiental. E a maneira como o design territorial intervém é:

  • visualizando pontos de força;
  • ativando um processo de antecipação crítica;
  • gerando visões e construindo cenários;
  • identificando estratégias e possíveis parcerias;
  • transferindo inovação de outras áreas.

Assim o a abordagem do design ao território efetiva-se como uma ação que seja capaz de acrescentar valor e que permita a compreensão e o envolvimento dos mais diversos segmentos sociais a fim de transformar o espaço urbano em marca coletiva e significativa da cultura local. O design territorial concentra-se na maneira de prestigiá-lo para fora da cidade, ocupando-se no reconhecimento de valores internos, na transformação do território em produto, na possibilidade de comunicá-lo externamente e no potencial de atratividade que o território passa a ter. Sendo assim, as organizações percebem a atuação estratégica do design como um espaço de agregação de valor e de diferenciação. Tal sistema é potencializado a partir da visão estratégica que considera variáveis internas e externas para a viabilização da atividade do design.


Notas

[1]http://www.forumsocialmundial.org.br/


Referências Bibliográficas

Castells, M. O poder da identidade. São Paulo; Editora Paz e Terra, 1999.
Flusser, V. Filosofia del Diseño. Madrid: Editorial Sintesis, 1999.
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Maffesoli, M. O tempo das tribos. Rio de janeiro; Forense Universitária, 2002.
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Reference According to APA Style, 5th edition:
Reyes, P. Balem, T. ; (2009) Identidade como Fator de Valorização do Território. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL II (4) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt