O processo semiótico da identidade televisiva no canal brasileiro GNT

The semiotic process of television identity in the Brazilian GNT channel

Ponte, R. Niemeyer, L.

EBA-UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
ESDI - Escola Superior de Desenho Industrial

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Utilizando os conceitos da semiótica do americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), este artigo busca apresentar como a identidade televisiva, composta pelas vinhetas interprogramas de identidade, pode ser compreendida como um objeto semiótico. O estudo de caso do canal GNT visa observar, na experiência, como as relações entre os diferentes tipos de signos da identidade televisiva – sonoros, visuais e verbais – impactam nas significações que desejam ser transmitidas pelo canal a seu público-alvo.

 

PALAVRAS-CHAVE: Identidade Televisiva; Semiótica; Canal GNT.

 

ABSTRACT: Based on Charles Sanders Peirce´ Semiotics, this paper aims to present how television identity, consisting of on-air vignettes, can be understood as a semiotic object. The analysis of GNT case aims to observe, in experience, how the relationship between different types of signs – sounds, images and text – impacts on the meanings the channel wishes to transmit to its target.

 

KEYWORDS: On-air; Semiotics; GNT Channel.

1. Delimitação do caso

 Composta pelas vinhetas de identidade, também chamadas de on-air, a identidade televisiva visa criar uma sólida imagem organizacional. Signo composto por signos sonoros, visuais e verbais, ela veicula significações a seus consumidores.
O objetivo desta pesquisa é analisar como cada matriz da linguagem e pensamento (Santaella, 2005) impacta nas demais matrizes quando inter-relacionadas, ampliando o poder significativo das vinhetas. A teoria norteadora deste estudo foi a Semiótica de Peirce, um ferramental teórico adequado à análise de um meio híbrido por excelência – a televisão.
Essa análise parte do pressuposto que, como signo, a identidade televisiva é contituída por representâmen, objeto e interpretante. Entendemos o aspecto manifesto das vinhetas – sons, imagens e textos – como representâmen; aquilo que ela representa – os conceitos de marca – como objeto; e o efeito que ela causa na mente do telespectador, como interpretante.
Escolheu-se o GNT por ser ele um canal fechado, isto é, por seu público-alvo mostrar-se mais segmentado, permitindo maior controle da informação veiculada. Além disso, ele teve sua identidade televisiva reformulada recentemente, em 2008. Por isso, foi possível ter acesso a documentos e fazer entrevistas com os profissionais desse projeto.

 

2. Metodologia

Por não haver bibliografia sobre o GNT, houve a necessidade de coletar dados primários. O principal método utilizado foi entrevistar os profissionais do canal a fim de levantar informações sobre seu histórico, base para a determinação da marca, e sobre seu processo de modernização da identidade televisiva, representâmen sonoro, visual e verbal. Foram selecionados como população: 

a) Ricardo Moyano (Coordenador de Videografismo da programadora Globosat).
b) Rodrigo Leme (Designer da Globosat).
c) Ivan Lee (Coordenador de Marketing do GNT).
d) Denise Nunes (Redatora do Departamento de Promoções da Globosat).
e) Rafaela Ferraz (Locutora do GNT).
f) Lucas Marcier (Músico, sócio da empresa ARPX).
g) Rodrigo Marçal (Músico, sócio da ARPX).

Para essas entrevistas, criou-se um roteiro com perguntas-chave, tendo-se a preocupação em criar perguntas diretas com vocabulário adequado (Gil, 2002, p.116). Além desse método, realizou-se a coleta de documentos relativos ao processo de criação. Ricardo Moyano cedeu parte do material que orientou a modernização, como briefings, storyboards, estudos, etc.
Importante destacar que a análise das vinhetas baseou-se na semiótica peirciana e, portanto, focou na peça em si mesma, independentemente da intenção do emissor. Por conseguinte, as respostas compiladas nesse levantamento contribuíram para determinar apenas o conceito do canal. A análise das vinhetas fundamentou-se na Gramática Especulativa.
Pela complexidade do representâmen, que conta com a articulação de signos sonoros, visuais e verbais, optámos por assistir a cada matriz separadamente, para então avaliarmos a vinheta como um todo. Esse procedimento de observação é chamado de mascaramento.

Exiba uma determinada sequência várias vezes, às vezes assistindo a som e imagem em conjunto, por vezes mascarando a imagem, outras cortando o som. Isso dá a oportunidade de ouvir o som como ele é, e não como a imagem o transforma e o disfarça. Isso também permite que se veja a imagem como ela é, e não como o som a recria [1] (Chion, 1994, p.187).

Depois, descrevemos como cada matriz se apresenta. No som, qual intensidade, duração, timbre, ritmo, entre outros signos, da palavra falada, dos efeitos sonoros e da música. Na imagem, quais cores, formas, texturas, dimensões etc. No verbal, como aparecem os textos no sonoro e no visual. Além disso, é importante verificar os pontos de sincronismo entre som e imagem e as inter-relações entre as matrizes. A partir dessa descrição, e pautando-nos no objeto representado, é que se pôde fazer a análise dos interpretantes.

 

3. Estudo de caso

 

3.1 Objeto: a marca GNT

O GNT é um canal por assinatura brasileiro produzido pela Globosat. Foi um dos primeiros criados pela operadora e, como nos contou Ivan Lee, visava posicionar-se como o canal de jornalismo da TV paga. Em 1996, com o crescimento da TV por assinatura no Brasil, a Globosat lançou a GloboNews, um canal de jornalismo 24 horas. O GNT tentou reposicionar-se perante a GloboNews, começando a produzir séries, minisséries e documentários. Porém pesquisa realizada pelo Departamento de Marketing mostrou que o GNT não conseguia se colocar no mercado adequadamente. A pesquisa revelou, todavia, um aspecto que poderia ser trabalhado: detectou que a maior parte do público era composto por mulheres devido a um amplo número de produções relacionadas ao universo feminino.

A partir desses dados, Ane Vilete e o Núcleo de Criação Digital da Globosat estabeleceram um reposicionamento radical da marca, mudando completamente a identidade visual do canal GNT. Mas com um desafio: o canal deveria ressaltar suas características femininas, mas não se tornar um canal exclusivamente voltado ao público feminino (WEB1).

Em 2003, optaram finalmente por abraçar assuntos desse universo, mudando seu posicionamento. Para mostrar ao público sua nova imagem, desenvolveram novas vinhetas de identificação. A assinatura visual foi modificada pela que segue.


Fig. 1  Logotipo atual do GNT


O lançamento da nova identidade televisiva foi realizado em 20 de setembro de 2003. As principais características, segundo Moyano, eram as mulheres nuas, as cores institucionais branco, cinza e laranja e o aspecto clean, delicado e leve.
Em 8 de março de 2008, uma nova modernização da identidade televisiva do GNT foi veiculada. Ao contrário das reformulações anteriores, essa mudança foi feita para atualizar as vinhetas, de forma a reafirmar o posicionamento da emissora. O público-alvo continuou o mesmo de 2003: mulheres de 19 a 49 anos das classes A e B.

 

3.2 Representâmen

A diretoria do canal sintetizou um briefing segundo o qual a nova identidade deveria ser, além de leve, moderna, feminina e clean – características das vinhetas desde 2003 –, colorida, dinâmica, flexível, caleidoscópica, multifacetada.
Esse briefing foi encaminhado para o departamento de videografismo, a fim de gerarem ideias iniciais em stills (imagens paradas). Após a avaliação feita pela equipe, criaram-se novas propostas em storyboard. Depois de aprovado o layout, definiram-se os padrões a serem seguidos de forma a sistematizar as informações e garantir a padronização das peças.


Fig. 2 – Referência de cores

 

 

Fig. 3 – Referência de fonte



Fig. 4 – Referência de diagramação

 

Após essa etapa, os músicos contratados – a Globosat não dispõe de uma equipe própria de músicos – receberam as vinhetas já finalizadas e o briefing.
Ao todo, criaram-se três tipos de vinhetas de identidade em três opções de cores – vermelho, azul e laranja – e duas opções de fundo – preto e branco:
a) Vinhetas de identificação
b) Vinhetas de retenção: a seguir e vertical a seguir.
c) Assinaturas

As vinhetas de identificação são aquelas que comunicam os valores de marca, mas não informam a programação.
 


Fig. 5 – Vinheta de identificação


As vinhetas de retenção cumprem a função de informar os telespectadores sobre a programação recente do canal. Os dois principais tipos dessas vinhetas veiculadas pelo GNT são a seguir e vertical a seguir. A seguir tem duração menor (5’’) e contém apenas a informação sobre o programa subsequente. Já vertical a seguir (10’’), informa os três próximos programas da grade.


Fig. 6 – Vinheta de retenção a seguir

 

Fig. 7 – Vinheta de retenção vertical a seguir

 

 

Por fim, as vinhetas de assinaturas são aquelas que enfatizam o logotipo do canal. No GNT, elas duram 5’’ e apresentam o slogan você vê a diferença, que o canal mantém desde 2003.



Fig. 8 – Vinheta de assinatura


Iniciaremos a descrição de cada matriz por tipo de vinheta. A matriz verbal será abordada ao longo da sonora e da visual pelo tênue limite que elas possuem, transparecendo, portanto, a alta hibridação que as constituem.

 

 

3.2.1 Matriz visual

3.2.1.1 Identificação

O elemento mais identificador do canal por seus consumidores são as imagens das mulheres. As diversas figuras femininas – uma modelo diferente para cada uma das seis vinhetas de identificação – postam-se nuas de maneira estática. A nudez, porém, não nos permite ver suas partes íntimas, sempre estrategicamente cobertas. Elas se movimentam pouco e o plano de filmagem é aberto (figura 5).
Outro elemento característico da nova identidade são as formas orgânicas que aparecem, crescem e se dividem em duas. Sua importância na composição é tamanha que seu movimento de desprendimento participa da composição da nova assinatura visual animada. Essas formas assemelham-se a células ou a gotas. Podemos observar, nas formas que transitam soltas, detalhes das modelos: pedaços de face e de corpo.
As cores são outro signo importante. Além do laranja institucional, um signo simbólico já presente no on-air anterior, as vinhetas apresentam ora predominância do azul, ora do vermelho. Como as três cores podem ser aplicadas sobre fundo branco ou preto, gerando seis variações para cada tipo de peça, as combinações veiculam significados diferentes. Essas cores aparecem apenas nas formas orgânicas. As mulheres, filmadas em cores, apresentam uma variação na saturação, transformando-se suavemente em tons de cinza.
A movimentação dos elementos sempre ocorre na direção horizontal. As imagens das mulheres passam em panorâmica. As formas também se movimentam nessa direção, bem como a assinatura visual do canal.
As vinhetas concluem com a assinatura visual. Um semicírculo gira no sentido anti-horário, descortinando o logotipo. Toda essa sequência ocorre dentro de uma forma orgânica, que se desprende e finaliza em um círculo colorido. Abaixo dela, podemos ler Canal Globosat, como uma chancela que legitima o produto.
A matriz verbal presente nas vinhetas de identificação restringe-se à matriz visual, pois não há locução.
Devemos abordar ainda a edição, que inscreve ainda mais o tempo nas imagens em movimento. Nessas vinhetas, não se percebe nenhum corte, sendo a animação um plano sequência.
Um outro dado interessante nas vinhetas de identificação é a perda de escala e de dimensão das mulheres. Elas são recortadas sobre um fundo sem referência de horizonte ou de quaisquer objetos reais. Por só interagirem com formas e não terem um chão no qual se apoiarem, perdemos a noção da sua dimensão e localização no espaço.

 

3.2.1.3 Retenção: a seguir

Possuem um enquadramento mais fechado (figura 6). Por estarem muito mais próximas visualmente, podemos ver com mais clareza a maquiagem das mulheres. Nas peças com predominância do branco, maquiagem e penteado naturais. Nas peças em preto, maquiagem e penteado sofisticados.
Ainda que essas vinhetas não possuam cortes de edição, podemos observar duas cenas distintas dentro da mesma sequência – as mulheres em close e o plano médio das modelos com a informação da programação – separadas por uma meia-lua que descortina a tela.
Na segunda cena da vinheta, as modelos situam-se no terço esquerdo da tela, enquanto o texto ocupa o restante do quadro. Ocorre variação do foco quando elas aparecem: elas ganham nitidez aos poucos.
A matriz verbal é trabalhada com mais ênfase, visto ter essa vinheta um caráter informativo. O texto transmite apenas duas informações: a seguir e o nome do programa. A seguir aparece na cor de destaque da peça na parte superior de uma linha da mesma cor, alinhado à esquerda. Essa linha horizontal possui uma terminação em forma de gota que cresce. Na parte abaixo da linha, surge em fade in o nome do próximo programa alinhado à direita. Todos os textos são escritos na fonte Conduit (figura 3), uma letra leve e sem serifa, em caixa alta.
Por fim, vale frisar que as vinhetas a seguir são as únicas que não apresentam a assinatura visual animada do canal.

 

3.2.1.4 Retenção: vertical a seguir

Possuem algumas características decorrentes da apresentação de maior número de informação textual na tela (figura 7). Como deve ser dado um tempo maior para a apreensão de maior quantidade de texto – informam-se os três próximos programas da grade –, elas têm duração maior: 10 segundos. A cena constitui um grande plano sequência.
As imagens das mulheres transitam em uma direção horizontal, saindo do campo de visão a fim de deixar a tela disponível para a informação. Elas sofrem também mudança de saturação e são encobertas pelas formas que trazem detalhes de seu corpo. O fio colorido com terminação em gota vai aparecendo na metade superior da tela, com espaço para a aparição em fade in dos três programas.
Como nas vinhetas a seguir, a chamada da próxima atração alinha-se à direita com corpo maior que o dos demais textos. As duas outras atrações, em corpo menor, alinham-se à esquerda com o texto a seguir, para melhor hierarquização da informação. Apenas a seguir e os horários são mostrados na cor predominante.
A vinheta finaliza dando ênfase à assinatura animada do canal. No canto superior direito, a forma desprende-se da lateral em direção ao canto oposto e descortina o logotipo.

 

3.2.1.5 Assinaturas

Visam reforçar a assinatura visual do canal (figura 8). A forma orgânica entra na tela pela lateral, desprendendo-se, rumo ao centro do quadro, onde irá descortinar a assinatura. No plano de fundo, as formas movem-se com direção circular. Há pouco contraste nos tons de cinza do fundo, em uma textura em dégradé.
Nas assinatura, ocorre um desvio do padrão de cores adotado pelo canal (figura 9). Se nas demais vinhetas há a combinação de azul, laranja ou vermelho com fundo preto ou branco, nesse tipo encontramos uma versão cujo fundo é laranja. Nessa variação, a assinatura visual finaliza na aplicação tradicional do logotipo: laranja e cinza sobre fundo branco, e não na sua versão vazada, como acontece nas demais vinhetas. Atribuímos essa variação à necessidade de fortalecimento dos signos simbólicos já relacionados ao canal, como forma de manter a familiaridade do consumidor com o GNT.
No final, aparecem signos verbais na matriz visual: o slogan do canal.


Fig. 9 – Assinatura: branco com laranja




 

3.2.2 Matriz sonora

Podemos destacar três tipos de signos: a palavra falada – uma hibridação da matriz verbal com a sonora –, os efeitos sonoros e a música.

 

3.2.2.1 Identificação

Existem quatro versões de composição sonora para as seis vinhetas, porém com mesma estrutura: uma primeira parte com ênfase na música e uma segunda com ênfase nos efeitos sonoros.
Segundo os músicos Lucas Marcier e Rodrigo Marçal, a composição criada utiliza instrumentos acústicos que foram posteriormente sampleados. Os signos de durações, tons, alturas e instrumentos sugerem um estilo musical eletrônico, com elementos de jazz e de lounge. Pela pouca duração das peças, optou-se pelo uso do movimento de looping, que repete as formas musicais da composição. O andamento é lento e a tonalidade predominante é menor.
A essa música, sobrepõe-se um efeito sonoro característico da identidade televisiva anterior: o sopro. Ele inicia aumentando lentamente a intensidade, em um ataque suave, dá saltos de intensidade por duas vezes e decresce em força novamente. Ao fim desse efeito, surge um novo, criado para esse novo on-air: o som agudo e com eco de uma gota caindo em uma superfície líquida finaliza a composição sonora.
Não há locução nesse tipo de vinheta.

 

3.2.2.2 Retenção: a seguir

Existem duas opções de composição: uma para as de fundo branco e uma para as de fundo preto. Elas também mantêm o mesmo estilo musical com seus signos sonoros identificadores e possuem estrutura semelhante. Há um início com ênfase na música, sobrepõe-se a ele o efeito sonoro do sopro e, depois do primeiro pico de intensidade desse efeito, é feita a locução das informações sobre o próximo programa com a principal característica de ser uma voz feminina, com uma frequência média alta (240 Hz), isto é, não muito aguda (Rodríguez, 2006, p.225).
A locutora Rafaela Ferraz executa uma voz soprosa – coloca um pouco de ar na voz –, de intensidade mais baixa, em uma altura mais grave. A narração de “a seguir: nome do programa” não visa destacar nenhuma palavra ou sílaba, mantendo pouca variação de alturas.  A velocidade da locução é determinada pelo tamanho do nome do programa. Se o nome é maior, o texto é pronunciado de forma mais rápida. Para um nome menor, pode-se pausar mais na enunciação de cada palavra.

 

3.2.2.3 Retenção: vertical a seguir

Possuem duração maior que as vertical: 10 segundos. Portanto as músicas das de menor duração constituem um trecho editado das mais longas. Essas vinhetas não possuem palavra falada. Com relação aos efeitos sonoros, podemos perceber que elas apresentam dois sopros, um no início e outro no final da composição, fechando com o som da gota.

 

3.2.2.4 Assinaturas

Há quatro opções de composição sonora com estrutura semelhante. O início da composição dá-se por acorde ou notas em um ataque suave para, a seguir, predominar o efeito sonoro do sopro, que possui apenas um pico de intensidade. Finaliza-se a composição sonora com uma outra versão de gota, um pouco mais grave que a das vinhetas das mulheres, que possui eco, simulando a sensação de um ambiente fechado.

 

3.2.3 Relações entre as matrizes

A matriz verbal está intrinsecamente relacionada com a sonora e a visual, pois o signo verbal, para ocorrer, deve materializar-se em imagem ou som. Observamos, no caso GNT, que há um predomínio do verbal no visual, pois, no sonoro, existe primazia dos efeitos sonoros e da música em detrimento da palavra falada.
Por ser um meio audiovisual, a relação entre som e imagem torna-se muito importante. A acusmatização – mascaramento visual da fonte sonora – permitiu novas relações entre eles.

Quando se tornou possível trabalhar à vontade com uma nova recomposição entre som e imagem e, consequentemente, com uma recomposição virtual entre som e fonte sonora, ampliaram-se extraordinariamente as possibilidades expressivas do universo audiovisual (Rodríguez, 2006, p.43)

Porque entendemos um evento visual, cujo início e fim se mostram sincronizados com uma sonoridade, como fonte sonora desse som, podemos gerar combinações novas entre objetos e sons que não existem no mundo real. O efeito sonoro do sopro, por exemplo, possui um sincronismo com as formas orgânicas no ato de desprendimento. Ainda que não existam tais formas no mundo real, passamos a entendê-las como origem do som do sopro. O mesmo ocorre com a gota, sempre sincronizada com o desprendimento da forma orgânica, que carrega a assinatura visual animada.
Com relação ao som da gota, devemos frisar ainda outo fato. Ao descrever as formas orgânicas pelo mascaramento, afirmamos que elas se assemelhavam a células ou a gotas, pelo caráter icônico, que possibilitava uma ampla gama de interpretação. Ao ser sincronizada à sonoridade de gota, porém, podemos afirmar ser a forma uma gota, pois o caráter indicial do som restringe a amplitude interpretativa da imagem.
Outra particularidade interessante do som é a de poder recriar, por suas características sonoras, um ambiente. O som comporta-se de forma diferente de acordo com o material do qual é composto o espaço e de acordo com o tamanho do ambiente. Por exemplo, as gotas das assinaturas são graves e possuem ressonância e eco que transmitem a ideia de um espaço pequeno, fechado. Como escreve Rodríguez (2006, p.50-51), “pela análise de alguns dos parâmetros acústicos do espaço [...], é possível dominar minuciosamente a situação espacial em que desejamos que o espectador se sinta enquanto escuta”.
Uma última relação de hibridação a ser destacada é a questão do ritmo no som e na imagem. Quando temos imagens em movimento, “[...] a temporalidade do som combina-se com a temporalidade já presente na imagem [2]” (Chion, 1994, p.14). A música lounge possui um andamento lento, realçado pela repetição de seus temas, pela batida eletrônica bem marcada, e pelo efeito de looping. Como afirma Chion (1994, p.15), “um som com uma pulsação regular [...] é mais previsível e tende a criar uma menor temporalização que um som irregular e, por isso, imprevisível […]”. [3] Assim, as músicas das vinhetas do GNT ralentam ainda mais as imagens já compostas por signos associados à suavidade e à vagarosidade.

 

3.3 Interpretante

A principal característica das vinhetas do GNT é a idealização da mulher e isso pode ser depreendido da conjunção de diversos signos. A primeira questão refere-se à imagem das figuras femininas. Todas as modelos possuem corpo e rosto adequados ao padrão de beleza desejado pela sociedade ocidental contemporânea. Elas são extremamente magras e jovens.
A nudez é tratada de forma sofisticada, pois há uma preocupação em não deixar em evidência, de forma vulgar, as partes íntimas. A sofisticação também decorre da posição e da pouca movimentação das mulheres. Elas posam como modelos artísticos, remetendo às imagens de nu feminino na história da arte ocidental. Esse referencial visual é compatível com o público-alvo do canal: mulheres das classes A e B.
Além disso, a falta de referência espacial decorrente da ausência de um horizonte e de outros elementos reais na cena aumenta essa idealização. Essa perda da referência somada ao movimento de câmera “panorâmica” faz com que elas pareçam flutuar etereamente sobre um fundo.
A suavidade de movimentação das mulheres é reforçada por signos sonoros, visuais e verbais. As transições delicadas (os fades nos textos e a mudança de foco das imagens das modelos), o elemento repetitivo da música lounge, o andamento lento, a voz soprosa de intensidade baixa, os degradés, e o tipo de edição são coordenados de forma a amplificar a fluidez da cena.
A idealização da mulher também pode ser compreendida pela atmosfera supraterrena das vinhetas. Observamos que as formas orgânicas tiveram sua interpretação direcionada pela associação da sonoridade de gota. Porém, na matriz visual, a gota possui uma movimentação horizontal, contrariando a lei natural da gravitação. Na Terra, um líquido é atraído em um movimento vertical para baixo pelo planeta. A gota do GNT subverte essa lógica: ela se desprende para o lado, criando uma percepção de flutuação. Essa fuga da lógica terrena gera um novo mundo, nada mundano, em que habitam mulheres idealizadas.
As figuras femininas não se resumem, porém, à sua beleza. Outras facetas da mulher podem ser captadas por meio dos diversos signos. A sofisticação, já anunciada em sua nudez artística, também transparece na escolha musical. No Brasil, nesta primeira década de 2000, houve uma difusão do estilo lounge por grupos mais modernos, geralmente na faixa de seus 20-30 anos, alinhados com comportamentos contemporâneos, em locais cool.
Além de sofisticada, a mulher é multifacetada e adaptável. A combinação de três cores sobre dois fundos possibilitou a criação de seis variações para cada tipo de vinheta, cada qual com uma atmosfera diferente, sugerindo uma noção de que o sexo feminino possui uma multiplicidade de estados de espírito. Para cada um desses climas, as mulheres aparecem com um estilo de maquiagem e penteado, podendo estar naturais ou produzidas, alegres – dadas as expressões das modelos – ou misteriosas.
Essa capacidade de adaptação também é sugerida pelos pedaços das figuras que aparecem nas formas de gotas. Além de visualizarmos a mulher integralmente, vemos seus detalhes, dando a impressão, para o interpretador, que ela não se esgota no todo, mas que tem nuances que podem ser destacadas.
Devemos ainda destacar o signo mais representativo dessa capacidade de adaptação: as imagens de gotas. Os líquidos se moldam ao seu continente, adaptando-se ao seu entorno. Não por acaso, a assinatura visual animada finaliza dentro de uma gota que se desprende. Ainda que adaptáveis, as figuras femininas possuem uma estabilidade, sugerida pela direção horizontal que predomina nas vinhetas. As direções horizontais e verticais são consideradas as mais estáveis (Munari, 1997), pois o equilíbrio do homem baseia-se no eixo vertical sobre um eixo horizontal, o chão. Desta forma, a manutenção do eixo horizontal nas movimentações confere uma estabilidade à peça, enquanto o dinamismo é transmitido pela animação das formas e pela sonoridade. Isso gera um equilíbrio entre adaptação e segurança.
Outra interpretação decorre dos dois principais efeitos sonoros em sincronismo com a imagem: a mulher pode ser compreendida como fonte de vida, estabilidade e segurança de onde surgem dinamicamente novas formas. Nas vinhetas, as formas que acompanham as mulheres crescem, desprendem-se, formando dois novos elementos. Sincronizado a esse movimento de desprendimento, há o som de um sopro. “O sopro tem, universalmente, o sentido de um princípio da vida” (Chevalier & Gheerbrant, 1994, p.850). Por sua vez, a assinatura animada finaliza com o efeito sonoro da gota caindo em uma superfície líquida. Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza o princípio da criação e tem origem divina (Chevalier & Gheerbrant, 1994, p.17). Nas assinaturas, devemos destacar o fato de a gota ter muito eco, transmitindo a sensação de que se trata de um ambiente fechado, acolhedor, tal qual uma caverna com água, a que podemos associar também a ideia do útero materno repleto de líquido. Portanto, a assinatura visual do canal é sonorizada com dois signos sonoros cuja simbologia remete à criação de vida em diversas civilizações.

 

4. Conclusões

Pudemos notar a importância de se coordenar adequadamente os diferentes tipos de signos que compõem a identidade televisiva. O designer, em conjunto com o músico, deve criar signos sonoros, visuais e verbais que se reforcem, de forma que todos remetam ao mesmo objeto: a marca da emissora. As vinhetas do GNT possuem um alto grau de coerência entre os diversos signos que comportam.
Identificamos, porém, uma única inadequação de relação entre signos verbais e visuais, que gera um conflito na mensagem a ser transmitida. O slogan “Você vê a diferença” faz menção não só à diferença entre o GNT e os demais canais de TV por assinatura, mas também à pluralidade feminina. Não por acaso, houve a intenção em apresentar mulheres que representassem os diferentes tipos étnicos: loira, mulata, morena. Porém a escolha por modelos de mesma faixa etária e mesmo physique du rôle contradiz, em parte, o slogan. O público-alvo do canal varia dos 19 aos 49 anos e não há, entretanto, figuras femininas representativas das telespectadoras de maior idade. Da mesma forma, o público-alvo do GNT não se restringe a mulheres com estereótipo de modelos. Portanto, podemos perceber que a veiculação dessas modelos privilegia um tipo específico de mulher, criando e, principalmente, reproduzindo uma idealização da figura feminina.
Gostaríamos de destacar, portanto, neste trabalho a importância da coerência na relação entre as diferentes matrizes como forma de reforçar e melhor transmitir o objeto do signo, a fim de gerar interpretantes condizentes com a intenção da peça de design.

 

Notas

[1] “Screen a given sequence several times, sometimes watching sound and image together, sometimes masking the image, sometimes cutting out the sound. This gives you the opportunity to hear the sound as it is, and not as the image transforms and disguises it; it also lets you see the image as it is, and not as sound recreates.” [tradução livre das autoras].

[2]  “[...] sound´s temporality combines with the temporality already present in image” [tradução livre das autoras].

[3]  “a sound with a regular pulse [...] is more predictable and tends to create less temporal animation than a sound that is irregular and thus unpredictable […]” [tradução livre das autoras].

 

Referências bibliográficas

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Ponte, R. Niemeyer, L. ; (2010) O processo semiótico da identidade televisiva no canal brasileiro GNT. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (5) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt