A Personagem Erda na Tetralogia de Richard Wagner

The Erda Character in Richard Wagner's Tetralogy

Popolin, D. Fiorini, C.

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Dentro da obra de Richard Wagner, consta a Tetralogia O Anel do Nibelungo, composta por quatro histórias correlacionadas por uma mesma trama. O tema é mitológico e envolve personagens do universo nórdico. Este artigo abordará uma das protagonistas da história, Erda, como é denominada no drama musical. O artigo será composto por um levantamento de questões imprescindíveis à compreensão da mesma, como conhecimento da personagem e seu papel na trama, tipo vocal a ela destinado e a correlação entre seu Leitmotiv e a costura musical feita pelo compositor, além de abordar outros temas que fazem relação direta com o mesmo.

 

PALAVRAS-CHAVE: Richard Wagner; O Anel do Nibelungo; Erda; Leitmotiv.

 

ABSTRACT: Among Richard Wagner´s work output one finds the Tetralogy The Ring of the Nibelung, composed of four stories interconnected by the same plot. The theme is mythological and involves dramatis personae taken from the nordic universe. This article examines Erda, one of the protagonists of the story as she is called in the musical drama. This article will consist of a series of pertinent questions posed in order to fully understanding of the character and its role in the plot, the vocal type assigned to it and the co-relation between its Leitmotiv and the musical interweaving created by the composer, besides exploring other themes that bear direct relationship with the same.

 

KEYWORDS: Richard Wagner; The Ring of the Nibelung; Erda; Leitmotiv.

1. Introdução

O Anel do Nibelungo é considerada uma das mais importantes óperas [1] dramáticas de toda a História da Música. Sua relevância se dá não apenas pela riqueza musical, mas também pela grandeza de seus textos e enredos, além de seu caráter de drama que contradizia os moldes da tradicional Ópera Italiana: O objetivo de Wagner era restabelecer o equilíbrio entre texto-música-espetáculo...a perfeita relação entre os diversos elementos...que se fundem para formar o conjunto do drama lírico.[2] Composta por Richard Wagner entre os anos de 1848 e 1874, o drama é baseado em lendas nórdicas e faz referência aos heróis da Saga dos Volsungos.
O drama inicia com o roubo do ouro do Reno por um nibelungo: Alberich. Com o ouro roubado, o anão forja um Anel, capaz de lhe dar poderes infinitos sobre todos os seres. Alberich renuncia ao amor e torna-se uma ameaça para todo aquele que desejar possuir o anel. A trama, então, transcorre com a busca incessante do poder pelos deuses e pelos nibelungos, até a recuperação do ouro e do anel pelas filhas do Reno.
Dentro da mitologia nórdica, encontramos diversos personagens centrais. Entre esses, destacam-se alguns nomes que permeiam toda a Tetralogia, por vezes em cena ou sendo apenas citados por outros personagens, através de alusões com uso de motivos recorrentes que se tornam condutores das melodias, tão explícitos no drama de Wagner. Como protagonistas da lenda do Anel, destacam-se Wotan, Alberich, Siegfried, Brünnhilde, Hagen e Erda.
As personagens femininas têm presença marcante na obra, são 21 ao todo (Erda, Brünnhilde, as outras oito Valquírias, Sieglinde, Gutrune, as três Nornas, Fricka, Freia, Flosshilde, Woglinde, Wellgunde, além do Waldvogel, o Pássaro da Floresta, interpretado por uma voz feminina), o que garante a elas certo destaque na trama. Este artigo tem por objetivo tratar dos assuntos relacionados à personagem Erda e os fatores inerentes ao processo de sua concepção: sua função na trama, sua voz de contralto e seu tema principal original e transformado.
 
 

2. A obra

Escrita em alemão, língua materna de Wagner, O Anel do Nibelungo possui música e libretto do próprio compositor. Forma uma Tetralogia, com a junção de quatro dramas interligados entre si pelo tema mitológico. São elas: Das Rheingold (O Ouro do Reno); Die Walküre (A Valquíria); Siegfried (Siegfried) e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses).
A obra começou a ser escrita em 1849, sendo que, um ano antes, Wagner já iniciara o trabalho de pesquisa sobre os Nibelungos. Apenas em 1874 é que termina Götterdämmerung, completando a Tetralogia. Foram necessários exatos 26 anos para que Wagner pudesse conceber toda a obra.
A riqueza da música de Wagner se dá pela sua orquestração e pelo uso dos Leitmotive que permeiam toda a peça, possibilitando o efeito de música contínua entre as cenas. Carl Dalhaus destaca a teoria do próprio compositor sobre sua técnica de composição: A técnica do Leitmotiv instaura o princípio por trás de uma forma artística unificada, que se estende não apenas por trechos restritos do drama, mas sobre o drama inteiro, interligando-os. [3]
A orquestra, de grandes proporções, conta com a presença de instrumentos pouco usuais para a escrita da época. Um exemplo disto é a inclusão da tuba wagneriana, que amplia o naipe dos metais, além do trompete baixo. Conta também com 4 harpas em Götterdämmerung e 7 em Das Rheingold (6 no fosso e 1 no palco). Destaca-se, além disso, a presença de 18 bigornas, servindo como instrumentos para o tema dos nibelungos. Para equilibrar essa grandiosidade orquestral, Wagner escreve a obra para mais de 30 cantores solistas, além do coro.  Das Rheingold é o prólogo da Tetralogia. É formado por um único ato com 4 cenas com duração de cerca de 2 horas e quarenta minutos. Todos os outros três dramas são escritos em 3 atos, sendo que apenas Götterdämmerung é precedido por um prólogo. Ao todo, são quase 15 horas de música e cena interligadas numa mesma narrativa.
 
 

3. A personagem Erda 

Erda, a Deusa Primitiva, também denominada Mãe-Terra, segundo a mitologia nórdica, é aquela a quem pertence o passado, o presente e o futuro. Conhecida por vários nomes (Eartha, Erce, Erda, Fjorgyn, Jörd, Hlodyn ou Nerthus), é denominada por Wagner como Erda na Tetralogia, nome que vem de Erde, que significa Terra, em alemão. É a deusa mais antiga dos povos germânicos. Existem referências de culto a essa deusa desde a Idade das Pedras, correlacionando a personagem à idéia de que à terra tudo pertence: a vida e a morte. Os que dela nascem, também a ela retornam.
Segundo a lenda, Erda é mãe das três Nornas, representantes do destino, que foram geradas antes da criação do mundo e que recebem os seguintes nomes: Urd, Verdandi e Skuld. Elas foram personificações, respectivamente, do passado, presente e futuro, como citado no livro de Hélène Adeline Guerber, sobre os mitos dos Eddas.[4] As Nornas aparecem somente no final da tetralogia, na primeira cena do prólogo do Crepúsculo, tecendo os fios do destino que logo será rompido, impedindo assim que elas possam prosseguir com as previsões. Erda também é mãe das nove Valquírias com Wotan, o deus dos deuses. Como diz a lenda, as Valquírias eram jovens guerreiras que, montadas em seus cavalos alados, tinham o dever de recolher almas de nobres guerreiros.
Da mesma forma como os outros protagonistas, Erda é uma personagem muito citada em toda a obra, sendo enfatizada pela sua aparição em cena ou simplesmente pela sua alusão. Por ser conhecedora do presente, passado e futuro, ela antevê os acontecimentos e prenuncia a Wotan sua derrota. O papel desempenhado por ela é determinante na trama, já que ela guarda toda a sabedoria. Erda sempre aparece em momentos de grande indecisão de Wotan, como se ele necessitasse de seus conselhos. Dessa forma, sua personagem está inteiramente ligada aos momentos de reflexão e decisão que permeiam toda a narrativa.
 
 

4. A relação da voz de contralto com a personagem

Devido à amplitude da orquestra de Wagner, as vozes utilizadas em seus dramas devem possuir grande potência sonora. Sua escrita dá ênfase às regiões centrais como uma forma de não cansar os cantores, já que suas óperas são longas. Desse modo, é comum encontrarmos vozes mais pesadas como as de Soprano Dramático, Baixo-Barítono e mesmo a de Tenor Heróico (Helden Tenor), devido à sua potência e amplitude de tessituras. No Anel destacam-se alguns personagens com essas vozes: Siegfried como Helden Tenor, Wotan como Baixo-Barítono e Brünnhilde e Sieglinde como Sopranos Dramáticos.
Já a relevância da personagem Erda se faz não apenas pela sua antiga origem e sabedoria: na trama, Wagner apresenta Erda como uma das únicas personagens com voz de contralto em toda a Tetralogia (além de Erda, temos a presença de Urd, primeira filha de Erda, que aparece no Götterdämmerung), designando a ela um caráter ímpar de dramaticidade e mistério. A voz de contralto, em O Anel do Nibelungo, é tratada de forma especial por Wagner. Ao todo são, 21 vozes femininas, incluindo Waldvogel como voz feminina. Dessas 21 vozes, apenas duas são contraltos, Erda e Urd, sendo as outras 19 distribuídas em sopranos e meio-sopranos.
É importante salientar que Wagner destina a voz de contralto para personagens idosas e de caráter misterioso: Erda, a mais antiga das deusas e Urd, primeira das Nornas, divindade representante do passado. Outro ponto a destacar é que, por se tratar de apenas duas contraltos em toda a obra, em algumas montagens do Anel do Nibelungo, Erda e Urd são executadas pela mesma solista, já que as duas personagens aparecem em dramas distintos (Erda está presente em Das Rheingold e em Siegfried e Urd apenas em Götterdämmerung).
Essa voz de contralto marca o lado sombrio e misterioso das personagens na obra, em especial Erda, através de suas aparições e predições aos deuses. Outro recurso utilizado por Wagner para a composição da personagem é a utilização de harmonias sombrias e tempos mais lentos, numa escrita mais densa. A tessitura escrita por Wagner para a personagem Erda vai de Sol# 2 a Láb 4. Já a tessitura de Urd abrange as notas entre Lá 2 e Mi 4. Abaixo, estão exemplificadas as tessituras de Erda e de Urd.
 
 
 
Fig. 1 – Erda     

   

 

Fig. 2 – Urd

 

 

A escrita vocal da personagem prioriza a região grave e média, quase sempre composta por melodias descendentes, assim como seu tema. Também é bastante recorrente o uso de intervalos de 2a menor e 5a diminuta em sua melodia, um recurso utilizado para ampliar a dramaticidade através dos intervalos dissonantes. Outra peculiaridade de sua escrita é a presença marcante de amplos saltos melódicos, em especial os saltos de 8a. Se compararmos as duas cenas do drama em que Erda aparece (em Das Rheingold e em Siegfried), podemos encontrar diferentes abordagens melódicas e vocais. Em Das Rheingold, quarta cena, sua participação é menor, se comparada à  Siegfried, com apenas 50 compassos de escrita para a personagem. Nesta cena, a extensão vocal aplicada a ela também é reduzida, compreendida entre si# 2 e mi 4. Apesar disso, há predominância dos intervalos melódicos de 4a e 8a, ascendentes e descendentes. Já em Siegfried, no Terceiro Ato, em sua segunda e última aparição em cena, sua extensão vocal é bem mais explorada indo de sol# 2 a láb 4, provavelmente devido à dramaticidade da cena. Neste episódio do drama, Erda é acordada de seu sono profundo por Wotan e eles dialogam durante um longo período. Aqui, ela também realiza vários saltos de 8a, ascendentes e descendentes, além de saltos de 10a e do inesperado salto de 12a descendente (láb 4 para ré 3) – intervalo composto de 5a diminuta, ao proferir com ira a palavra Meineid (inverdade, perjúrio).
Já as tessituras das três Nornas diferem entre si. A primeira Norna, Urd, possui tessitura grave e reduzida: lá 2 a mi 4, devendo ser interpretada por uma contralto. A segunda Norna, Verdandi, voz de meio-soprano, com tessitura média que vai de lá# 2 a sol 4. (A nota lá# 2 é utilizada apenas uma única vez, no momento em que as três Nornas cantam em uníssono: Zu End’ ewiges Wissen! - O conhecimento eterno chegou ao fim!). Skuld, terceira Norna, possui voz de soprano e sua escrita compreende as notas entre lá# 2 e sib 4 (como Verdandi, Skuld também canta a nota lá# 2 apenas no trecho final).
 
 
 

5. Motivo Recorrente e Leitmotiv

Como citado anteriormente, a riqueza da escrita de Wagner encontra-se principalmente no modo em que tece os motivos recorrentes dos personagens, costurando-os, de forma a transformá-los em Leitmotive que permeiam toda a peça. Nesse ponto do estudo, daremos enfoque ao tema de Erda, e na forma como o compositor o modifica ao longo da trama, transformando-o em outros temas, relacionados à personagem.
Dahlhaus descreve os motivos de Wagner da seguinte maneira: 
“Em O Anel, o movimento ascendente significa a evolução e o descendente o declínio: o motivo da natureza é invertido para criar o motivo da queda dos deuses, onde o brilho aparente do modo maior é obscurecido...”  [5]
Como visto anteriormente, a personagem Erda aparece em cena apenas no Das Rheingold, na quarta cena, e em Siegfried, no Terceiro Ato, primeira cena, sempre acompanhada da presença de Wotan, mas é citada e lembrada por várias vezes em Die Walküre através de seu tema e em Götterdämmerung (aqui sua alusão é realizada através das três Nornas).
Em Die Walküre, durante o segundo ato, segunda cena, os temas de Erda, do Crepúsculo e da Inquietação, são utilizados como motivos condutores durante o longo diálogo entre Wotan e Brünnhilde, onde ele descreve à filha o motivo de seu sofrimento e sua decisão em torná-la uma mortal e adormecê-la até que um guerreiro a desperte e a tome por esposa. Já em Götterdämmerung, primeiro ato, seu tema é escrito já durante os primeiros compassos do prólogo. Também acontece aqui outra referência a Erda através da presença das três Nornas que tecem o fio do destino em busca de revelações.
O tema de Erda é originado no da Natureza, um dos primeiros temas do drama  de Wagner que aparece já no início de Das Rheingold. Justamente por ela ser considerada a Mãe-Terra, Wagner faz uma relação entre seu motivo e o da Natureza. Esse tema da natureza é escrito com uma melodia ascendente em modo maior, contendo intervalos harmônicos de 3ª, 4ª, 5ª e 6ª, caracterizados pela execução aos pares de trompas naturais. 
 
 
Fig. 3 – Tema da Natureza [6]

 
 
O Leitmotiv de Erda é escrito em modo menor, em movimento ascendente por graus conjuntos, com uso de notas pontuadas, com predominância de sobreposições dos mesmos intervalos harmônicos do tema da Natureza, conforme citado anteriormente.  Podemos verificar na figura 4 o motivo referente à personagem.
 
 
Fig. 4 – Tema da Erda

 
Outra importância do Leitmotiv de Erda é que é gerador do motivo do Crepúsculo dos Deuses, que agora aparece em modo maior e em movimento descendente, demonstrando a queda dos deuses.
 
 
 
Fig. 5 – Tema do Crepúsculo dos Deuses

 

 

Além do motivo do Crepúsculo dos Deuses, é perceptível a relação do tema de Erda com o tema da Inquietação de Wotan, ouvido pela primeira vez em Das Rheingold, demonstrando a agitação de Wotan após ouvir as profecias de Erda. Este tema, também escrito em tom menor, é iniciado pelo tema da Erda em diminuição.
 
 
 
Fig. 6 – Tema da Inquietação de Wotan

 
 
 
Também é notório que, para Wagner, o mais importante em toda a Tetralogia era fazer a ligação entre os dramas, para que houvesse uma correlação direta entre seus acontecimentos. Essa prática foi possível devido às alusões temáticas que Wagner realizava ao longo da música, interligando cenas e personagens através dos temas dos mesmos. Um bom exemplo dessa prática é a utilização do tema da Natureza, que percorre toda a trama através das costuras melódicas desse tema com outros que vão surgindo ao longo da música.
O tema da Erda, proveniente do tema da Natureza, aparece pela primeira vez na quarta cena do Das Rheingold, juntamente com sua aparição em cena. O motivo fica explícito na primeira ópera e é executado durante toda a Tetralogia quando surge uma alusão direta ou indireta à Erda. O tema do Crepúsculo dos Deuses, originado do tema de Erda, também aparece pela primeira vez na quarta cena do Das Rheingold precedido pelo tema da Erda. A alusão à personagem está sempre presente no prólogo do Götterdämmerung.
A ligação entre os dois temas se faz pela previsão de Erda sobre o fim da era dos Deuses e a destruição do Walhalla. Dessa forma, há uma intensa relação entre a previsão do Crepúsculo feita por Erda e o tema da própria personagem.
O tema da Inquietação, citado por Dahlhaus em seu artigo sobre Wagner de Motivo da peregrinação sem paz de Wotan, [7]  representa uma diminuição rítmica do motivo da Erda e também será utilizado em diversos trechos da obra como motivo condutor.
 
 
 

6. Erda e sua função no enredo

As cenas em que Erda aparece são poucas, mas de extrema importância para o enredo. Seu personagem perdura por toda a obra, devido à sua vasta sabedoria e necessidade de Wotan em buscá-la nos momentos de indecisão.
Em Das Rheingold, quarta cena, Erda realiza sua primeira aparição. Sua participação é curta, mas importantíssima para a trama. Nessa cena, Wotan é aconselhado por todos ao seu redor a abandonar o anel, mas ele recusa: “Deixai-me! Não cederei o anel!” [8]. Após essas palavras, a orquestra inicia uma sonoridade grave e profunda para anunciar a chegada de Erda. A cena escurece e surge Erda de seu sono profundo, vinda das profundezas, de dentro de uma fenda que se abre no solo. Sua figura aparece somente até a cintura, numa misteriosa emersão. Aqui, ela profere a Wotan o fim do tempo dos deuses, devido ao anseio do mesmo pela busca do poder. Nessa cena, Erda aconselha Wotan a desfazer-se do anel a fim de evitar um fim trágico: “Cede, Wotan, cede! Foge à maldição do anel!”. Wotan volta-se para ela e diz: “Quem és tu, admoestadora mulher?” Erda expõe a grandeza de seus atributos: “Enxergo tudo o que foi, o que é e o que está para ser". Nesse momento, ela prossegue com a seguinte fala: “Ouve! Ouve! Ouve! Tudo o que hoje existe tomará um fim. Um dia sombrio se abaterá sobre os deuses: eu te aconselho: renuncia ao anel!”. Wotan se mostra perturbado com suas revelações e pede que ela fique. Ela, porém, adverte Wotan que é necessário apenas que ele reflita sobre seus anúncios. Depois disso, ela imerge novamente em seu sono profundo. Suas ameaças do fim dos tempos irão concretizar-se no final da Tetralogia, com o Crepúsculo dos Deuses, conforme havia dito a Wotan em Das Rheingold.
Em Die Walküre, é realizada uma alusão a ela no 2o Ato com a utilização de seu tema, na 2ª Cena. Aqui acontece uma cena entre Wotan e Brünnhilde, a filha preferida das nove Valquírias por Wotan. Durante a narrativa de Wotan, ele conta a Brünnhilde que Erda lhe advertiu que o anel traria o fim dos deuses: “Saiba-o bem que um outro desastre foi profetizado para o Walhalla.” Nesse momento, o tema de Erda é também utilizado como costura melódica, juntamente com o tema da Inquietação de Wotan, tema esse que aparece aqui pela primeira vez e acompanhará Wotan durante todo o seu discurso, especialmente nos momentos de maior indecisão. O tema do Crepúsculo também é ouvido nesta cena, juntamente com o tema de Erda, quando Wotan profere: “Se a sombra inimiga do amor cria um filho em sua cólera, o fim dos deuses não deve tardar.”
Sua próxima aparição se dá durante a primeira cena do Terceiro Ato de Siegfried. Nesse momento da trama, Wotan está disfarçado de andarilho (Wanderer) e sai à procura de Erda invocando seus conselhos. Nessa cena, Wotan exalta Erda por sua sabedoria. Ela, por sua vez, narra ter sido conquistada por Wotan e ter dado à luz nove Valquírias. Depois, reprime Wotan por ter condenado Brünnhilde ao sono profundo e à mortalidade: 

“Para Wotan eu dei à luz uma criança sonhada: ele deu a ela a incumbência de trazer para si os heróis mortos em batalha...A Valquíria... foi castigada com os laços do sono enquanto a mãe que tudo sabe dormia?”

Neste ponto, Wotan se revolta e despede-se para sempre de Erda, ignorando suas previsões, dizendo que o tempo de sabedoria da Mãe-Terra está prestes a terminar: Tu não és o que presumes ser! A sabedoria da mãe-terra está prestes a se findar... Para baixo, então, Erda... para o eterno sono! Erda volta para seu sono profundo e não aparece mais em cena.
Em Götterdämemerung, aparecem as três Nornas, filhas de Erda. Durante a primeira cena do prólogo de Götterdämemerung, a música se utiliza por vários momentos do tema de Erda como recurso de costura melódica, como que completando a idéia o tema do Crepúsculo com a menção do seu tema.

 
 

7. Orquestração 

Para a composição da personagem ser completa, Wagner utiliza um ambiente sonoro criado a partir de uma escrita orquestral sombria. Esse caráter é possível devido a alguns recursos utilizados: redução do tamanho da orquestra, alargamento da escrita rítmica, escrita em decrescendi e predominância da dinâmica em piano, além do amplo uso de ritenuti. Também a melodia escrita para Erda provém desse ambiente, com reduzida extensão vocal e predominância de saltos descendentes.
Em Das Rheingold, essa escrita é perceptível: na quarta cena, após a dinâmica ff acontece um piano súbito com redução da orquestra para madeiras e trompas e o tema da Erda é exposto pelos fagotes e trombones. Logo após a exposição, Erda aparece emergindo das profundezas. Todo esse trecho é acompanhado pela redução orquestral e dinâmica em piano contendo seu tema transcrito ora para cordas, ora para madeiras e metais, intercalado com o tema do Crepúsculo.
É interessante notar que, durante este trecho, a escrita orquestral transparece a sobriedade da cena, enquanto Erda adverte Wotan. Esta sobriedade é quebrada apenas no momento em que ela pronuncia: Escuta, escuta, escuta! Aqui, Wagner escreve um fortissimo para metais e madeiras além da nota mais aguda da tessitura de Erda, até então, seguida de um salto descendente de oitava. Quando ela declama: Um dia sombrio se levanta para os deuses: eu te aconselho, foge do anel! o tema do Crepúsculo é ouvido nas cordas pela primeira vez, seguido novamente pelo tema da personagem. Ao ser chamada por Wotan, ela insiste: Reflete, em inquietação e medo. Em seguida, o tema da Inquietação soa nas madeiras.
Como citado anteriormente, em Die Walküre é realizada apenas uma alusão à Erda, sem sua presença em cena. Essa referência, que acontece no 2o Ato, especificamente na 2a cena, traz o tema de Erda soando nas madeiras e trompas. Curiosamente, percebe-se que todo este trecho, mesmo não pertencendo à fala de Erda, vem em um ambiente restrito com a orquestra reduzida somente com clarinetas, fagotes, trompas e cordas graves, todos em tessituras graves e com dinâmica reduzida. De certa forma, esta redução colabora na menção à personagem.
Em Siegfried, terceiro ato, o tema de Erda aparece como motivo condutor já nos primeiros compassos do prelúdio que antecede a primeira cena, sendo costurado com o motivo do Crepúsculo. No início da cena, Wotan chama por Erda em busca de seus conselhos. Durante todo o trecho da fala de Wotan, a orquestra toca em tutti. No momento em que ele profere seu nome, o tema de Erda é ouvido e prolongado por vários compassos. Novamente a presença de Erda em cena é acompanhada por uma mudança na dinâmica: há uma ruptura da escrita para Wotan, sucedido por 7 compassos de súbito piano para a entrada de Erda, com redução da orquestra. Aqui, é importante assinalar que Wagner descreve o diálogo auxiliado por recursos distintos: alargamento da dinâmica, com crescendi e fortissimi e presença de notas curtas nas cordas para Wotan; diminuendi, redução orquestral e alargamento da escrita rítmica para Erda.
Após isso, no Götterdämmerung, a escrita orquestral para as três Nornas também apresenta uma redução da orquestra com predominância da dinâmica em piano. Dentre as três Nornas, Urd é quem apresenta um caráter mais sombrio, com linhas curtas e predominância na região grave e média. Dessa forma, durante os momentos em que Urd canta, é possível se remeter à personagem Erda.
 
 

8. Conclusões

Dentre os protagonistas do drama de Wagner, Erda se destaca, sem sombra de dúvida, por seu caráter misterioso e por sua presença contínua em toda a trama. Sua personagem é responsável pelos momentos de reflexão na história, sugestionando-nos uma figura repleta de sabedoria devido ao seu conhecimento do passado, presente e futuro.
A riqueza da música é expressa durante toda a obra, mas conclui-se que o compositor guarda os momentos mais obscuros e sombrios de escrita musical para Erda, possibilitando uma maior dramaticidade e mistério em suas cenas. Este trabalho pôde verificar a relevância da personagem na história e na música do Anel do Nibelungo, motivado pelo estereótipo da mulher e sua função na obra de Wagner: para o compositor a mulher tem várias atribuições, como as de aconselhar, instigar ou até mesmo de confundir o homem, mesmo numa lenda mitológica. A personagem Erda demonstra esta habilidade através de sua sabedoria e de sua influência sobre Wotan.
Também ficou perceptível a presença marcante da mulher na obra de Richard Wagner, acentuada, não apenas pela quantidade de personagens femininas, mas também pelos papéis de protagonistas a elas destinados, além da notável importância dada às suas vozes e a relação das mesmas com cada perfil.
Conclui-se que, dentro da narrativa da lenda do Anel, a personagem Erda é tida como personagem central da trama, acentuado por suas curtas participações em cena em Das Rheingold e em Siegfried. Wagner consegue destacar a personagem através do tipo vocal escolhido cuidadosamente para ela, a orquestração que a acompanha, linhas melódicas e tempos lentos ou mesmo pela construção e desenvolvimento de seu Leitmotiv, de forma a reservar, somente a ela, esse caráter misterioso e reflexivo da trama.
 
 

Notas

[1] COELHO, L. M. A Ópera Alemã. São Paulo: Perspectiva; 2001. 565 p.
[2] Neste trabalho será utilizado o termo Ópera apenas com o intuito de se padronizar uma nomenclatura viável. Vale lembrar, entretanto, que Wagner se utiliza do termo somente até a composição de Lohengrin. Após isso, passa a fazer uso do termo Drama Musical. 
[3] DALHAUS, C. & DEATHRIDGE, J. Wagner - Série The New Grove. Porto Alegre: L & PM Editores S/A. 1980. 190 p.
[4] GUERBER, H. A. Myths of the Norsemen: from the Eddas and Sagas. New York: Courier Dover Publications; 1992. 396 p.
[5] DALHAUS, C. & DEATHRIDGE, J. Wagner - Série The New Grove. Porto Alegre: L&PM Editores S/A. 1980. 190 p.
[6] Os motivos aqui utilizados são baseados no material didático do professor Carlos Fernando Fiorini, apresentados na disciplina de Tópicos Especiais em Práticas Interpretativas no 1o semestre de 2009.
[7] DAHLHAUS, C. & DEATHRIDGE, J. Wagner - Série The New Grove. Porto Alegre: L&PM Editores S/A. 1980. 190 p.
[8] As traduções utilizadas neste artigo são fundamentadas no libretto de Ramar da Costa Nunes “O Anel do Nibelungo”.
 
 

Referências Bibliográficas

COELHO, Lauro Machado. A Ópera Alemã. História da Ópera. São Paulo: Editora Perspectiva; 2000. 
DEATHRIDGE, John & DAHLHAUS, Carl. Série The New Grove - Wagner. Tradução: Marija Mendes Bezerra. Porto Alegre: L & PM Editores S/A; 1988.
GUERBER, Hélène Adeline. Myths of the Norsemen: from the Eddas and Sagas. New York: Courier Dover Publications; 1992. 396 p.
MILLINGTON, Barry. The Wagner compendium: a guide to Wagner´s life and music; 1995, 520 p.
MOOSBURGER, Théo de Borba. Saga dos Volsungos. Anônimo do séc. XIII.  São Paulo: Hedra, 2009.
NUNES, Ramar. O Anel do Nibelungo. Rio de Janeiro, 2003. 232 p.
SHINODA-BOLEN, Jean, O Anel do Poder. Editora Cultrix.
WAGNER, Richard, Opera and Drama. Translated by William Ashton Ellis. University of Nebraska, 1995. 416 p.
WAGNER, Richard. Der Ring des Nibelungen (DVD). Regente: James Levine. Deutsche Grammophon, 2002. 7 discos.
 
Artigos consultados: 
GUTIÉRREZ, Fatima. El Alma Antigua del mondo. Nº 102. Zaragoza, Julho de  2009.
 
Sites consultados:
http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/wagner .html
http://larryavisbrown.homestead.com/ files/Ring/Ring1_Rhinegold.html
http://omacl.org/Volsunga/
Reference According to APA Style, 5th edition:
Popolin, D. Fiorini, C. ; (2010) A Personagem Erda na Tetralogia de Richard Wagner. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (5) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt