O Anel do Nibelungo: uma comparação entre o libreto de Wagner e a Canção do Nibelungo

The Ring of the Nibelung: a comparison between Wagner's libretto and the Song of the Nibelung

Garbuio, R. Fiorini, C.

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Para desenvolver o libreto de sua tetralogia O Anel do Nibelungo, o compositor Richard Wagner utilizou três lendas medievais como base de sua história. Uma das lendas é o poema A canção dos Nibelungos que faz parte da literatura medieval germânica. O objetivo desse artigo será traçar uma comparação entre essas duas histórias através das personagens principais comuns aos dois enredos, relacionando seus papéis e os principais elementos.

 

PALAVRAS-CHAVE: Wagner; O Anel do Nibelungo; Ópera; Mitologia

 

ABSTRACT: In order to develop the libretto in his Tetralogy The Ring of the Nibelungen, composer Richard Wagner utilized 3 medieval legends as basis for his dramas. One of these is the poem The Song of the Nibelungen that is part of germanic medieval literature. The objective of this article is to trace a comparison between this poem and the the argument developed by Wagner through their main characters that are common to both plots, with the purpose of relating its roles and the principal elements of the stories.

 

KEYWORDS: Wagner; The Ring of the Nibelung; Opera; Mithology

1. Introdução

O ciclo intitulado “O Anel do Nibelungo” é um dos principais trabalhos do compositor alemão Richard Wagner, que entre 1848 e 1874 desenvolveu o libreto e a música dessa grandiosa obra, resultando em cerca de 15 horas de música e drama. Exemplo da concepção artística denominada, pelo próprio compositor, de Gesamtkunstwerk [1], onde a intenção seria agrupar diferentes manifestações artísticas, como música, texto e encenação, para dar origem à “obra de arte total”. A tetralogia, formada por um prólogo e três noites (ao todo quatro óperas), conta o desenrolar de uma historia que envolve elementos mitológicos e medievais, através da saga de personagens de diferentes raças, como os deuses, os Nibelungos e os humanos. Para dar origem a essa história, Richard Wagner se baseou em três lendas medievais: a Edda, que é uma coleção de poemas noruegueses antigos, a Volsunga Saga, lenda Islandesa datada do século XIII, e A Canção dos Nibelungos, que é um conjunto de poemas épicos da literatura medieval alemã [2]. O plano inicial de Wagner seria um único drama intitulado A morte de Siegfried, que corresponderia ao que hoje conhecemos como a última noite O Crepúsculo dos Deuses. Porém, feito o libreto para esse drama, Wagner sentiu necessidade de uma obra precedente que explicasse as origens do personagem principal Siegfried. Diante disso, programou um outro drama que se chamaria O jovem Siegfried [3]. Mas ainda não estando satisfeito com apenas essas duas obras, e ambicionando uma história completa que abrangesse toda a saga dos personagens, Wagner acabou escrevendo as quatro histórias que compõem o ciclo O Anel do Nibelungo, de forma que cada drama acabou se apoiando mais em uma lenda diferente: o prólogo, O ouro do Reno, é baseado no Edda; a segunda noite, A Valquiria, é baseada no Volsunga Saga, a terceira noite, Siegfried, baseia-se na Canção do Nibelungo e no Edda, e a última noite, que encerra o ciclo, O crepúsculo dos Deuses, é completamente baseado em A Canção dos Nibelungos. Sendo nesse texto, datado também do século XIII, que Wagner se aproveita das principais personagens, para contar a história de O Anel do Nibelungo. É nesse contexto que se faz pertinente uma análise da relação entre os mesmos personagens em cada uma das duas histórias, O Anel do Nibelungo e A Canção dos Nibelungos, e também dos elementos e objetos que são utilizados.
 


2. A canção dos Nibelungos

Das lendas utilizadas pelo compositor Richard Wagner como base de sua tetralogia, a Canção dos Nibelungos é onde a maioria das personagens principais, em especial as da última noite, O Crepúsculo dos Deuses, se encontram. Esse poema épico, que tem como titulo original Das Nibelungenlied, foi provavelmente escrito por volta do século XIII, mas só foi redescoberto no século XVIII, quando os manuscritos, que somam mais de trinta, foram encontrados. A história, de autor anônimo, como era costume nos poemas épicos, é dividida em trinta e nove aventuras, ou capítulos, com cerca de 2400 estrofes, e o idioma utilizado nos manuscritos era o alemão corrente do século XIII, também conhecido como Médio-Alto Alemão. A história tem como pano de fundo as migrações germânicas do período, de onde resultaram muitos relatos heróicos e apaixonados. O foco principal de Canção dos Nibelungos é a destruição do reino da Burgúndia com a ajuda dos exércitos Hunos [4]. A narração gira em torno de três povos: o chamado povo dos “Paises Baixos”, de onde veio o herói Siegfried; os Burgúndios, que mais tarde serão também chamados de Nibelungos, tendo como centro a cidade de Worms próxima ao Reno onde se encontra a rainha Uote e seus filhos, dentre eles a rainha Kriemhild [5]; e ainda o reino dos Hunos, tendo como rei o nobre Etzel, onde a narração conheceria seu fim.
A história pode ser dividida em duas grandes partes, cada uma com um eixo central, que acontecem em dois reinos distintos. Na primeira, parte é narrado o aparecimento do herói Siegfried para o povo Burgúndio, seus grandes feitos, seu casamento com a Rainha Kriemhild e seu assassinato. Já na segunda parte, a narração gira em torno da vingança de sua viúva que se utiliza do poder dado a ela pelos Hunos, através de seu casamento com o Rei Etzel, para se vingar do assassino de seu marido, e dessa forma acaba arrasando seu reino materno e seus irmãos.
Não se deve esquecer que, durante muito tempo, essa história foi transmitida por tradição oral, o que acaba imprimindo no enredo distorções e variações consideráveis, tanto que, dos 35 manuscritos conhecidos desse épico, apenas onze acabam sendo utilizados por terem uma concordância com os rumos da história. O que temos de concreto é uma representação do conflito que estaria em curso dentro do poder feudal. O rei Gunther, irmão de Kriemhild, representa o poder adquirido por sua posição de chefe de estado, enquanto Siegfried encarna o clássico nobre, dotado de grandes qualidades de onde conquista sua autoridade. A relação de vassalagem entre os dois, pode ser considerada o ponto principal do desenrolar da historia. Existem também claras alegorias religiosas que deixam nítido o conflito cristão/pagão, pelo qual os povos germânicos passaram no seu processo de migração e unificação. A doutrina cristã, que é a grande vencedora nessa disputa, mostra suas marcas no texto quando o rei pagão Etzel e todo o seu povo se auto-avaliam pouco merecedores da rainha Kriemhild, pelo fato de não serem batizados, o que ele se presta a fazer em nome de seu matrimônio. Aspectos da mitologia germânica também explicam as misturas de raças que acontecem ao longo da narração. Os Nibelungos, que pela tradição germânica são povos que habitam as regiões geladas do norte, são conhecidos por possuírem um tesouro muito grande em forma de ouro. No momento da história em que os Burgúndios, liderados pelo herói Siegfried, tomam posse desse ouro e o escondem, eles passam a ser chamados de Nibelungos, pois agora possuem o tesouro.
 


3. O Anel do Nibelungo

A partir do poema A Canção dos Nibelungos, juntamente com as demais fontes que utilizou, Wagner pôde manipular as histórias, assim como seus principais elementos e personagens, para construir o seu libreto. Apesar da forte influência germânica no resultado final da história, é evidente a intenção do compositor em forjar, dentro do pano de fundo mitológico e medieval utilizado, um drama que ultrapassasse os limites temporais e geográficos, para assim atingir um efeito universal, onde o drama humano seria o grande material a ser trabalhado. Para isso, ele uniu na mesma história mitologia pré-cristã, lendas medievais cristãs e tradições pagãs, construindo assim uma história recheada de elementos simbólicos. Assim, no texto da A Canção dos Nibelungos encontramos raças distintas, mas na obra de Wagner essa diversificação da origem dos personagens vai além das diferenças geográficas, e temos uma situação um pouco mais complexa, pois Wagner descreve raças muito diferentes que se encontram em pontos opostos do universo tratado pelo compositor.
A distribuição geográfica da história contada na obra de Wagner teve seu principal apoio na lenda norueguesa Edda, onde o conceito de “centro” do mundo é explicado através da idéia do freixo, ou árvore da vida, que ficaria exatamente no ponto central do universo, que era tido como uma grande ilha cercada por mares, em cujo centro se encontrava a árvore. E é a partir dessa idéia que Wagner distribui seus personagens como sendo os humanos (Valsung, Gibicungos, etc) que habitam a terra, os Nibelungos, que se encontram embaixo da terra, os Deuses, que ficam no alto das montanhas, e os gigantes que habitam outras terras além dos mares.
Utilizando-se de personagens oriundos desses povos, Wagner constrói uma história que tem como tema central a disputa de poder. Um poderoso anel é forjado a partir do ouro roubado por um Nibelungo das águas do rio Reno, e quem portar esse anel terá poder suficiente para dominar todo o mundo.  Esse motivo desperta o interesse do deus Wotan, que, para resgatar o anel, passa a preparar um verdadeiro herói que desconheça o medo e recupere o anel que é guardado por um dragão. Esse herói vem a ser Siegfried, filho dos irmãos Siglinde e Sigmund, da raça dos Volsunga, também filhos de Wotan com uma terrestre.
Essa utilização de elementos mitológicos e folclóricos europeus pelo compositor nesse ciclo não deixa dúvidas de sua intenção de retratar a grandiosidade da cultura germânica através da universalidade. Wagner expande os limites geográficos das histórias originais escolhidas por ele, não só para além dos territórios germânicos, mas também para além do mundo terreno, criando um ambiente universal. A solução do drama, alcançado pelas mãos de um verdadeiro herói filho, de um casal de irmãos descendente dos deuses, reforça a idéia de raça pura ou de supremacia de um povo sobre outros.
 


4. Comparação

Mesmo levando-se em consideração todos os outros elementos e influências que Wagner absorveu das outras lendas utilizadas para a construção do libreto do O Anel do Nibelungo, é possível entender o ciclo como uma releitura da A Canção dos Nibelungos através de seus principais personagens e símbolos. A manipulação que Wagner fez desse material tem como princípio a utilização de alguns personagens e de alguns elementos importantes, uma vez que o desenvolvimento da história se baseia em objetos lendários como a espada, o tesouro, o anel, etc., não necessariamente com a mesma função ou na mesma ordem cronológica em ambas as histórias. O primeiro grande exemplo é a transformação do fim de uma história no início da outra, mesmo que o enredo principal continue seguindo quase que a mesma ordem, pois, no final de A Canção dos Nibelungos, o tesouro desse mesmo povo acaba escondido no fundo do rio Reno, sendo que todos os personagens que sabiam disso acabam morrendo, o que condena, dessa forma, ao esquecimento e, consequentemente, à perda desse tesouro. Na história de Wagner, o início é justamente o roubo desse tesouro das águas do Reno, por um Nibelungo, o que já representa uma alteração direta do papel desse povo, que passa de verdadeiro detentor do tesouro, em A Canção dos Nibelungos, para o primeiro a roubá-lo, no ciclo de Wagner. Ainda no início da história do ciclo, que seria no prólogo O Ouro do Reno, também se faz referência a dois Nibelungos presentes nas duas histórias, o próprio Alberich, que é o guardião do tesouro do texto de A Canção dos Nibelungos e o que rouba o tesouro no ciclo, e Mime, que nas duas histórias tem o papel de ensinar Siegfried e forjar sua espada.
O personagem Siegfried assume a mesma função em ambas as histórias, a de herói corajoso e destemido. Em AA Canção dos Nibelungos ele é o filho de Sigmund e Siglinde que são reis de um próspero reino nos Países Baixos, e tendo se apaixonado por Kriemhild, que é a bela princesa Burgúndia de Worms, conquista o amor dela e o respeito de seu povo através de seus grandes feitos e bravuras e, por várias vezes, ajuda a defender o povo de sua amada. Apesar de sua bravura, Siegfried é assassinado por um traidor, que se aproveita da confiança de Kriemhild, fazendo-a contar o ponto fraco de seu marido a ele, pensando estar protegendo-o. Na história de Wagner, Siegfried também é o herói capaz de recuperar o anel, porém sua origem que é a mesma, filho de Sigmunde e Siglinde, fica envolta em dramas muito mais sérios, pois ele é fruto de um amor proibido entre dois irmãos, o que determina o abandono de Wotan, o deus supremo do Valhalla, em ajudar no seu destino. Mas, nessa história, Siegfried também é retratado como um herói puro, que realmente desconhece o medo, sem ao menos saber do que se trata esse sentimento. E dessa forma, em busca de saber o que é o medo, ele vence o perigoso dragão e se apodera do valioso anel. Sua morte também é tramada por um traidor que reconhece o ponto fraco do herói pelas informações recebidas de sua amada, que nessa historia é a personagem Brünnhild6, uma das nove Valquírias filhas de Wotan.
A morte de Siegfried é sem dúvida um dos pontos altos nas duas histórias, e Wagner encaminha o processo da mesma forma que na lenda, mas com pequenas adaptações. No texto de A Canção dos Nibelungos, um personagem citado desde o inicio da trama é Hagen de Trojen, um dos melhores guerreiros do reino, sempre a disposição de seu rei Gunther. Pois será ele que, incitado pela rainha Brünnhild, irá tramar e executar o assassinato de Siegfried. O motivo aparente seria a grande ofensa sofrida por Brünnhild causada pela desonra de ter sido conquistada por Siegfried e não por Gunther, como lhe é desvendado. Mas o verdadeiro motivo é o desejo de Hagen, e também da rainha, em ficarem com a posse do tesouro dos Nibelungos que Siegfried conquistara antes de chegar a Worms. O assassinato se dá quando Hagen descobre através da inocente Kriemhild, o ponto fraco de Siegfried, onde ele poderia ser atacado, e em uma caçada em Worms aproveita o momento em que o jovem herói vai beber água e o fere mortalmente. No texto de Wagner, os mesmos elementos são tratados com pequenas alterações. O motivo principal do assassinato é o mesmo, o anel que o Nibelungo forjou a partir do ouro do Reno, mas o personagem de Hagen tem nessa história um papel estrutural,ele é o filho do próprio Nibelungo que, assim como Wotan, tem um filho na terra para executar seu plano de recuperar a jóia. Sua aparição se dá apenas na última noite, O Crepúsculo dos Deuses, onde a família dos Gibicungos é apresentada. Seu reino, localizado perto das margens do Rio Reno, apresenta a família que seria o paralelo dos Burgúndios no texto do libreto.  Os irmãos Gunther e Gutrune são filhos da rainha já falecida Grimhilde (Kriemhild com o nome e o papel alterado) e vivem com seu meio irmão Hagen, filho da rainha morta e do Nibelungo Alberich. É através dessa família que se executa um plano arquitetado pelo Hagen de destruição de Siegfried para assim conquistar o anel.
A ação utilizada para esse fim é a mesma nas duas histórias, porém com contextos diferentes. Em AA Canção dos Nibelungos, Siegfried, logo no início da narrativa, conquista Brünnhild, disfarçado de Gunther, por conta do Elmo mágico, para assim entregar a rainha virgem a Gunther e ter concedida a mão de sua amada Kriemhild. Resolvido essa parte, os dois casamentos, Gunther e Brünnhild, Siegfried e Kriemhild, acontecem. Porém, ao descobrir que foi Siegfried que a conquistou e não Gunther, Brünnhild, diante de sua desonra, trama com Hagen a morte do herói. Já no texto de Wagner, toda essa ação se dá desde o principio, já fazendo parte de um plano dos Gibicungos para recuperar o Anel. Siegfried, que já conquistara o amor de Brünnhild é enfeitiçado por uma poção mágica que o faz esquecer-se dela e se apaixonar por Gutrune, irmã de Gunther e Hagen, e em troca de ter concedida a mão da jovem, realiza a mesma função do outro texto, conquistando Brünnhild para Gunther, fazendo uso do Elmo mágico. Diante do acontecido, o desenrolar é o mesmo, mas envolvendo personagens diferentes. Em A Canção, diante do impasse causado pela revelação de que Siegfried usou o Elmo para se passar por Gunther, sua amada Kriemhild, com medo de que alguém fizesse mal a ele, confia a Hagen o segredo da vulnerabilidade do corpo de Siegfried para que assim ele possa defendê-lo. Diante do relato da rainha, Hagen descobre que o corpo de Siegfried é protegido pela magia do sangue de um dragão que o impede de ser ferido, porém um pequeno pedaço às costas ficou desprotegido e nesse local que Hagen o fere. No texto de Wagner, o relato do ponto vulnerável no corpo do herói é entregue pela própria Brünnhild, quando essa acredita que Siegfried a traiu.
Além dos personagens, e de alguns objetos como o Elmo, o ouro do Reno, e o próprio Anel, que Wagner aproveita de A Canção dos Nibelungos, na história de seus dramas, também é possível traçar paralelos em algumas cenas importantes nas duas histórias. Como, por exemplo, a viagem que Siegfried faz em, A Canção dos Nibelungos atrás, de seus vassalos, em que encontra o gigante guardião do ouro, que é descrita na oitava aventura, também é aproveitada por Wagner na Viagem de Siegfried ao Reno, onde o compositor descreve musicalmente por quase 10 minutos com um interlúdio musical (sem cena) o trajeto que o herói percorre. Mas, principalmente na reta final das duas histórias encontra-se uma cena muito importante, diferentemente tratada, mas com o mesmo objetivo. No final de
A Canção dos Nibelungos, quando os Burgúndios, agora chamados de Nibelungos, estão na terra dos Hunos atendendo a um chamado da rainha Kriemhild e seu esposo Gunther, e acabam caindo em uma grande emboscada que lhes custará à vida, eles se refugiam dentro do salão do castelo tentando resistir aos gigantescos ataques Hunos. Já quase prestes a serem derrotados, mas diante da coragem e da bravura dos mesmos, a rainha Kriemhild ordena que o salão seja incendiado para que assim acabe de vez com os últimos guerreiros. No entanto, esse fogo que consome o salão prova a grandeza dos guerreiros que, uma vez mais, conseguem se defender e resistem por mais um tempo depois da ação. Porém, Wagner se aproveita dessa cena para criar uma nova atmosfera em seu libreto em dois outros importantes momentos de seu drama.  O primeiro momento é quando já prevendo o fim de sua raça, os deuses, Wotan reúne no salão de seu castelo, o Valhalla, os seus guerreiros e ordena que circundem o palácio com a lenha retirada da arvore do freixo do mundo, e fica aguardando notícias enviadas por dois corvos para saber o que está acontecendo na terra. A intenção é aguardar, através das notícias trazidas pelos corvos, a confirmação do que já fora profetizado, a morte do herói Siegfried, e, consequentemente, o fim da raça dos deuses, diante disso Wotan ordenaria que se ateasse fogo em tudo. E, em um segundo momento, também na cena final quando se dá a devolução do anel às águas do Reno, o fogo consome todo o Valhalla e demonstra o fim do reino dos Deuses. Isso prova que Wagner utilizou o mesmo recurso dramático contido na lenda, para demonstrar o final de sua história, o fogo, que pode ser entendido como o elemento que destrói e purifica tudo.
Também vale destacar certas ações que ocupam significados iguais nas duas histórias. Como, por exemplo, a conquista da personagem de Brünnhild pelo herói Siegfried. Em A Canção dos Nibelungos, Siegfried, utilizando o elmo mágico, e assumindo a forma do Rei Gunther, vence um duelo proposto por ele com a brava rainha, demonstrando assim toda sua bravura e coragem. Já em O Anel dos Nibelungos, quando o mesmo personagem atravessa o círculo de fogo que protege o corpo da Valquíria colocada para dormir por seu pai, também está demonstrando sua coragem em não temer o perigo do fogo. Sendo assim, a idéia principal da ação, é a mesma nas duas histórias, pois só através da coragem e da ausência do medo, é que se consegue conquistar o amor da guerreira.
Além de todos esses elementos que permitem a comparação entre as duas histórias, os finais encontrados em ambas também sugerem um paralelo. No texto de A Canção dos Nibelungos, depois de derrotados os guerreiros Burgúndios na terra dos Hunos, a guerra é encerrada com uma grandiosa quantidade de mortos e a destruição de dois grandes reinos, os Hunos, que diante da bravura de seus oponentes foram muito afetados perdendo grandes homens, e os Burgúndios, ou Nibelungos, que tiveram a maioria de seus guerreiros assassinados nessa última viagem. Além disso, o grande motivo que provocou toda essa disputa, o ouro do Reno, acabou sendo esquecido no fundo do rio, pois todos que sabiam de seu esconderijo acabaram morrendo em combate, o que tornou todos os últimos acontecimentos inúteis e sem vencedores. Na história da tetralogia de Wagner, o final se dá quando o anel é finalmente devolvido às guardiãs do Reno, mediante a morte de Siegfried e o fim da raça dos deuses. O que torna essas duas histórias como sendo um grande drama de ganância e cobiça, encerradas sem vencedores e com muitas mortes.
Mas sem dúvida, uma das comparações mais interessantes de como Wagner manipulou as lendas em sua tetralogia, são os papéis femininos exercidos por Brünnhild, Kriemhild e Gutrune, nas duas histórias, com os quais o compositor inverte as funções mesmo tendo mantendo algumas ações.
 
 

 

5. Comparação das personagens femininas

5.1. Brünnhild

No texto de A Canção dos Nibelungos, Brünnhild aparece no sexto capítulo, ou aventura, como é chamado, sendo uma poderosa e muito temida rainha da Islândia. Sua fama é de ser uma rainha virgem a qual nenhum homem conseguiria conquistar por conta de seus grandiosos feitos como guerreira, de forma que só alguém que a vencesse em batalha poderia desposá-la.  Siegfried passando-se pelo Rei Gunther, através de um Elmo mágico capaz de fazê-lo assumir a forma de qualquer coisa que queira, vence Brünnhild e o rei desposa a brava rainha, que é levada a Worms para reinar junto a seu marido Gunther. A principal ação de Brünnhild nessa história é desencadear uma briga com a esposa de seu irmão, Kriemhild, que resultaria no assassinato de Siegfried. Já em O Anel do Nibelungo, a personagem Brünnhild desenvolve uma história bastante diferente. Também aparece como uma brava e destemida guerreira, mas dessa vez sendo uma das nove Valquírias, filhas de Wotan e de Erda, uma semideusa que habita o centro da terra. Sua função como cavaleira alada é a de levar os guerreiros que tombam em combate para o Valhalla, morada dos Deuses, e dessa forma ajudar seu pai Wotan. Mas Brünnhild, por amor a seu meio-irmão mortal, Sigmund, desobedece às ordens de seu pai e, como castigo, é colocada para dormir dentro de um circulo de fogo de onde só poderia ser acordada por um verdadeiro herói, o qual iria desposá-la, o que irá acontecer no final da terceira noite quando Siegfried a encontra. Brünnhild assume então o papel referente ao de Kriemhild em A Canção dos Nibelungos, sendo o verdadeiro amor do herói Siegfried, e também por contar o ponto fraco de seu amado ao traidor que irá feri-lo mortalmente.

 

5.2. Kriemhild

A personagem de Kriemhild em A Canção dos Nibelungos é de total importância para toda a obra, sendo ela a grande heroína da primeira parte da história, e transformando-se na verdadeira vilã no desfecho da mesma. A grande motivação para suas ações é sempre o amor pelo herói Siegfried, que, sendo um amor correspondido, leva Siegfried para o povo dos Burgúndios juntamente com o ouro dos Nibelungos. Após o assassinato de seu marido, Kriemhild passa a desenvolver outra ação que moverá a trama, que é a de executar um plano de vingança contra seu próprio povo, os Burgúndios, por culpar-lhes pela morte do seu amado. Já no libreto de Wagner, o papel de Kriemhild é exercido pela personagem Brünnhild, que, neste caso, é o verdadeiro amor de Siegfried. No entanto, Wagner utiliza o nome de Kriemhild (com algumas alterações) para exercer o papel de Griemhilde, que vem a ser a humana com a qual Alberich tem um filho, Hagen. Apesar de ser uma personagem que na verdade não aparece em cena, sendo apenas citada, Griemhilde também é de suma importância para o desenrolar da história, pois foi ela quem gerou o anti-herói Hagen que irá tramar o assassinato do herói Siegfried. O paralelo de Griemhilde, em A Canção dos Nibelungos, também é uma personagem apenas citada, conhecida como a Rainha Uote, mãe de Kriemhild e do Rei Ghunter, já falecida desde o início da narração.

 

5.3. Gutrune

A terceira personagem feminina, que fecha esse triângulo de heroínas e anti-heroínas resultante das duas histórias, é a personagem de Gutrune. No libreto de Wagner, é a irmã de Gunther, e meia-irmã de Hagen, o filho do Nibelungo. É por essa personagem que Siegfried fica apaixonado depois de ter tomado, por engano, a poção mágica servida a ele por Hagen, fazendo com que o herói se esquecesse de seu verdadeiro amor, Brünnhild, e dessa forma conduzisse todo o desfecho da história que resulta em seu assassinato. Apesar de ser uma personagem sem ações importantes na história, é através dela que se dá o plano armado por Hagen, para a recuperação do anel mágico, tornando essa personagem, na história de Wagner, uma das partes do que coube a Kriemhild e a Brünnhild na lenda A Canção dos Nibelungos.
O que fica evidente nessa comparação, é que Wagner, mais do que inverter os papéis femininos em sua história, divide alguns papéis em mais de uma personagem. Quando, por exemplo, ele distribui o papel que coube a Kriemhild, em A Canção, para Brünnhild e Gutrune em sua história, pois Brünnhild passa a ser o grande amor do herói, e Gutrune a irmã de Gunther e princesa do clã dos Gibicungos, que é o paralelo aos Burgúndios na primeira história, portanto, o mesmo papel de Kriemhild. E o mais complexo dessas adaptações feitas pelo compositor, é que ele mantém a outra personagem, Kriemhild, mesmo com um papel trocado e o nome alterado para Griemhilde.
De qualquer forma, nas duas histórias, o elemento que desencadeia todo o desfecho, são as ações promovidas pelas personagens femininas. E, mesmo tendo seus papéis trocados, muitas vezes as ações são as mesmas, mas em contextos diferentes. A ação de entregar a Hagen o segredo da vulnerabilidade do corpo de Siegfried e por consequência entregar a vida do herói, é desempenhada por Kriemhild em A Canção, e por Brünnhild em O Anel, portanto é realizada pela personagem feminina que tem a mesma função nas duas histórias, o de verdadeiro amor do herói. Mesmo que, no caso de Brünnhild, isso tenha sido feito conscientemente por ela, que achava nesse momento, ter sido traída pelo seu amado.
 

 

Fig. 1 – Personagens femininas que trocam de função entre as duas histórias

 

 

Fig. 2 – Personagens comuns às duas histórias

 

 

6. Conclusões

Alguns aspectos importantes têm de ser levados em consideração ao concluir o processo de manipulação da lenda “A Canção dos Nibelungos” pelo compositor Wagner ao desenvolver seu libreto. Um deles é a moral Cristã que ele emprega na tetralogia, mesmo se tratando de uma história pagã, e sua intenção de revelar a grandiosidade da cultura dos povos germânicos através de suas tradições orais.
Esses aspectos aparecem em pontos muito importantes da história que dizem respeito principalmente ao surgimento de um herói, filho de um amor incestuoso entre dois irmãos, o que resulta no abandono desse herói pelo deus Wotan, alterando assim todo o rumo da história planejada pelo poderoso deus. Esse dilema colocado por Wagner em um ponto importante da história revela, de certa forma, uma moral cristã empregada nas idéias do compositor. Também as idéias de raça pura e de superioridade de uma raça sobre a outra são nítidas na história do compositor quando ele coloca as diferentes raças tratadas no libreto em pontos estratégicos de sua geografia, o centro da terra (mortais), os abaixo dela (Nibelungos) e os acima (deuses), o que pode ser visto como uma nítida alegoria ao conceito de raças melhores ou piores que outras.
E por último, e talvez o mais importante, é o conceito de riqueza que se apresenta nas duas histórias, pois o paralelo do anel mágico na história de Wagner é o tesouro dos Nibelungos, na lenda. Quando os deuses, os Nibelungos, os Gigantes e as demais raças de O Anel do Nibelungo ambicionam e temem o poder de um anel capaz de controlar todos os povos de seu mundo, estão realizando a mesma função que faz com que os Burgúndios e os Hunos briguem pelo tesouro dos Nibelungos, pois o poder do ouro em um mundo feudal do período medieval é o mesmo o do anel na história de Wagner, o de conquistar e dominar todos os povos.
 


Notas

[1] História da Música Ocidental, Donald Grout e Claude Palisca, Ed. Gradiva, 3ª Edição, 2005, pp.646
[2] Wagner`s “Ring” and its Symbols The Music and the Myth, Robert Donington, London, pp 15- 32
[3] Cooke, Deryck, I saw the World End: A Study of Wagner´s Ring. New York: Oxford University Press, 2000 pp. 74-88
[4] Cooke, Deryck, I saw the World End: A Study of Wagner´s Ring. New York: Oxford University Press, 2000 pp. 74 - 88
[5] A grafia do nome dessa personagem é feita der acordo com a edição de A Canção dos Nibelungos feita pela editora Martins Fontes, tradução de Luís Krauss, São Paulo, 2001
[6] Idem
 

 

Referências bibliográficas

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Garbuio, R. Fiorini, C. ; (2010) O Anel do Nibelungo: uma comparação entre o libreto de Wagner e a Canção do Nibelungo. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (5) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt