Desenho de Jardins Históricos

Drawing of Historic Gardens

Nunes, C.

CIAUD - Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Apresentam-se algumas das etapas de jardins históricos, em que se demonstra a importância (do significado) das plantas na concepção de jardins (elemento fulcral num espaço verde), assim como do seu desenho e a preocupação do Homem em criar espaços estéticos e utilitários, proporcionando o seu bem-estar.

 

PALAVRAS-CHAVE: Jardim; Desenho; Bem-estar.

 

ABSTRACT: This text presents some of the steps of historic gardens in which it demonstrates the importance (meaning) of plants in the garden conception (a key element of green space), as well as its design and human concerning in creating aesthetic and utilities spaces, providing their well-being.

 

KEY WORDS: Garden; Drawing; Welfare.

1. Introdução

O Homem usa e selecciona as plantas que encontra na natureza desde tempos imemoriais. No Paleolítico, enquanto recolector, alimentava-se do que encontrava; a partir do Neolítico, sedentariza-se e desenvolve a agricultura, iniciando a domesticação das plantas.
As plantas, para além de serem utilizadas na alimentação, possuíam poderes curativos. Assim, surgem sociedades que viam nestas toda a essência e explicação da vida. Os Druidas (sociedade Celta) eram instruídos em assuntos de astrologia, magia e em tudo o que estivesse relacionado com as plantas, especialmente árvores [1] (fig. 1). Sociedades antigas incorporavam as plantas nos seus mitos, lendas, etc.
Na visão bíblica da sociedade cristã e pré-cristã, o primeiro Homem e jardineiro (Adão) nasceu após a criação das plantas, e tinha por missão cultivar e guardar o Jardim do Éden: “O Senhor Deus plantou um Jardim no Éden, ao Oriente, e aí colocou o homem que modelara...para o cultivar e guardar.”[2]

Talvez tenha sido inspirado por aquelas palavras que tantos homens pertencentes a povos diferentes tentaram de uma maneira ou de outra recrear paraísos, todos eles contribuindo para a História da Arte dos Jardins”.[3]

Na história, existem três atitudes na relação do Homem com a natureza e que se reflectiram na arte dos jardins: o medo, o domínio e a paz. [4]
O medo: Desconhecendo a causa dos fenómenos da natureza, o Homem tendia a adorá-la ou a prestar-lhe culto a oferecer-lhe sacrifícios para aplacar as forças naturais quando destrutivas, ou as atrair em seu favor quando benéficas. É a atitude do Homem primitivo da pré-história que possuía a crença de que a fonte da qual brota toda a vida humana é igualmente a fonte de toda a vida vegetal e animal, fruto da grande Deusa Mãe. Assim, santuários como Stonehenge (fig. 1), estatuetas associadas a símbolos naturais como animais, água ou árvores, túmulos e ritos (danças, cânticos), foram erguidos em sua homenagem (e.g. Jardim Egípcio).

 

 

Fig. 1 – Recriação do Culto Celta no Santuário de Stonehenge (Sul de Inglaterra), no dia do Solstício de Verão, o qual incorporava as plantas nos seus conhecimentos de astrologia e magia

Fonte: autora, 2002

 

O domínio: Quando o Homem descobriu, através da ciência, os segredos e o modo de funcionamento dos processos naturais, passou a controlá-los e produzi-los segundo a sua vontade. Essa atitude desenvolveu-se depois no sentido de uma provocação da natureza e do seu «extenuamento» e «esgotamento» até chegar à situação contemporânea (e.g. Jardim Barroco em França).
A paz: Sabendo que não pode dominá-la, o Homem aprende a jogar com a natureza que o transcende e ultrapassa, conforme o reconhece a actual consciência científica. Em vez da provocação e da agressão, o Homem deve celebrar como que um pacto com a natureza, em que reconheça os direitos desta ou em que pelo menos reconheça as suas próprias responsabilidades em relação a ela (e.g. Jardim Paisagista Inglês).

 

2. Os Jardins ao Longo da História

O jardim é definido como:

Espaço ordinariamente fechado, onde se cultivam árvores, flores e plantas de ornato”.[5]

É um objecto de arte e de cultura concebido como um espaço para o uso privado ou público, onde prevalecem elementos naturais da paisagem, articulados com elementos construídos”. [6]

Porção de espaço exterior que o homem mais intensamente amoldou às necessidades e prazeres...não é apenas o prolongamento da casa, é ainda mais o elemento de ligação entre esta e a paisagem”.[7]

Destina-se a estar e a viver, é essencialmente humanizado...” [8]

O uso de plantas nos jardins esteve sempre presente ao longo da história da arte dos jardins acompanhando a sua evolução. Por proporcionarem o bem-estar, os jardins assumiram importância terapêutica ao longo dos séculos até ao aparecimento de um tipo específico de jardim - o Jardim Terapêutico (presente em Hospitais, Lares, etc.).
Seguidamente, apresentam-se algumas características do desenho e importância das plantas nas diferentes fases da evolução da arte de jardins consideradas importantes para o tema da comunicação.

 

2.1. Jardins da Babilónia

Os Jardins da Babilónia, junto às margens do Eufrates, contam-se como os mais antigos na história dos jardins (604-562 a. C.). Recriavam a ideia de oásis, sendo construídos em terraços sobrelevados (fig. 2) onde eram plantadas, entre outras espécies, alecrim, açafrão, jasmins, rosas, lírios e túlipas, sob a sombra protectora das palmeiras (as tamareiras eram consideradas ricas em benção divina), e também choupos, pinheiros e de grandes técnicas de irrigação e de drenagem. Os Jardins Suspensos da Babilónia são considerados como uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo [9]. Contam-se cerca de 250 espécies vegetais nos seus jardins [10].

 

 

Fig. 2 – Representação do Jardim Suspenso da Babilónia, mandado construir pelo rei Nabucodonosor, com árvores e ervas aromáticas plantadas num canteiro de terra acima duma coluna

Fonte: Wright, 1934

 

 

2.2. Jardim Egípcio

As plantas aromáticas e medicinais – rícino, dormideira, hena, cárdamo, funcho, etc.[11] -, nativas ou exóticas, eram dedicadas a uma personalidade divina. A carga religiosa e simbólica das plantas constituía um importante parâmetro na selecção e organização do jardim.
Os túmulos dos nobres situavam-se nos jardins e estes dispunham de todos os elementos necessário para o prazer após morte. O Jardim Egípcio localizava-se também perto de templos ou residências junto do Rio Nilo, ou canais dele derivados, e consistiam principalmente em hortas e pomares regulares de forma quadrada ou rectangular e rodeados por muros. Existiam avenidas de palmeiras (Phoenix dactylifera, Hyphaene thebaica) e sicómoros na aproximação ao templo. Figueiras, acácias, tamargueiras, lentiscos, alfarrobeiras, zimbros, romãzeiras e bordos davam sombra e frescura. A floricultura foi tida em grande mérito, como o lírio e muitas espécies arbóreas de origem exótica, trazidas por expedições e que se aclimataram e difundiram, como a oliveira, cerejeira, choupo, plátano e carvalho. Frequentemente, havia um lago central em forma de “T” de peixes e patos, com papiro, lótus e/ou lírios de água (fig. 3). A vinha era muito cultivada em latada e conduzida em arco (fig. 4). [12]

 

 

  Fig. 3 – Representação do Jardim Egípcio - Lago de peixes em “T” com lótus e alameda de palmeiras - no qual cada planta era dedicada a uma personalidade divina

 

Fonte: Wilkinson,1998

 

 

Fig. 4 – A latada de vinha conduzida em arco constituía um elemento decorativo e atractivo no Jardim Egípcio

Fonte: Wilkinson,1998

 

 

2.3  Jardim Persa

A civilização Persa deu grande importância aos jardins, sendo considerada a responsável por termos relativos a flores e ao tratamento de jardins. O estimular dos sentidos – olfacto, audição e visão – constituíam importantes objectivos dos seus jardins, os quais estavam associados a funções sociais de lazer e descanso. As plantas possuíam uma forte carga simbólica associada à ideia da recriação do Paraíso na Terra.
Os primeiros jardins, ou horto-jardins, foram fortemente marcados por uma necessidade de produção agrícola, daí que o Jardim Persa fosse um pequeno oásis agrícola de desenho geométrico: a água dividia em quatro partes, representando os quatro cantos do mundo e os quatro rios do Paraíso (Pichon, Guion, Tigre e Eufrates), à semelhança do jardim do paraíso (GN. 2,2)[13] - fig. 5.

 

 

Fig. 5 – Tapete Persa estilizando o Jardim Persa dividido por rios (ao centro) em quatro partes e subdividido em secções regulares irrigadas, dispondo de flores e árvores (nas bordaduras do tapete) que possuíam uma forte carga simbólica associada à ideia da recriação do Paraíso na Terra

Fonte: Thacker, 1992

 

 

O jardim era servido por canais de irrigação e jogos de água que lhe conferiam som e frescura. Era fechado dentro de altas paredes protectoras, contendo culturas arvenses e canteiros de pomares (representam a vida e a fertilidade), entre elas as laranjeiras, limoeiros, romãzeiras, pessegueiros, videiras, pistácias, castanheiros, cerejeiras, marmeleiros, ameixeiras, amendoeiras, figueiras e nogueiras, plantas ornamentais e odoríferas, respectivamente, túlipas, narcisos, jacintos, jasmins e açucenas, loureiros, roseiras e murtas, ciprestes (representam a morte e a eternidade), tamareiras (representam a vida eterna), plátanos, pinheiros, cupressos, ulmeiros, freixos, lentiscos, carvalhos e áceres.[14]

 
 

2.4. Jardim Grego

Inicialmente, não se conheciam jardins propriamente ditos, mas sim pomares (macieiras, pereiras, romãzeiras), olivais, vinhas e figueirais, até que, com as colonizações gregas na Ásia Menor e Nilo e com o contacto com culturas mais avançadas, como as do Oriente, tomaram conhecimento da diversificada flora, tendo, a partir do Séc. VI a. C., evoluído a arte dos jardins.
Estes passam a ter uma componente religiosa, dada a necessidade de culto, localizando-se perto dos templos (fig. 6) e estando cada planta associada a uma divindade mitológica.

 

 

Fig. 6 – Templo de Zeus Olímpico em Atenas com capitéis coríntios lembrando a folha do acanto (primeiro plano) e na sua envolvente o Jardim Grego no qual cada planta se associa simbolicamente a uma divindade mitológica

Fonte: Ferrão, 1996

 

 

Os jardins possuíam características próximas das naturais e eram simples, desenvolvendo-se em recintos fechados onde se plantavam as plantas úteis e hortas. A introdução de colunas e pórticos fazia a transição harmoniosa entre o exterior e o interior e o jardim era o prolongamento das partes da casa às quais se ligava. Muita da estatuária e da arquitectura realçava o jardim e era inspirada nas plantas, como o acanto cuja beleza da folha inspirou a decoração do topo das colunas coríntias. Eram plantadas grande variedade de flores e muitas árvores de ornamento, como ciprestes, salgueiros, choupos e a videira [15]. Contam-se cerca de 600 espécies de plantas medicinais nativas e exóticas, nos seus jardins.[16]
 

 

2.5. Jardim Romano

Até ao Séc. I d.C., só a horticultura merecia apreço dos romanos, até que as conquistas (da Europa à Mesopotâmia e Egipto) lhe, ditaram a riqueza e o luxo, sob o qual se construíram vilas faustosas e esplêndidos jardins. A casa de habitação dispunha, em seu redor, vinhedos, prados e culturas. As vedações que delimitavam a vila eram habitualmente dissimuladas por loureiros e outras plantas de ornamento.[17]
A partir do século I d.C. é que o Jardim Romano se assume como jardim propriamente dito, com função de lazer, servindo de cenário às festas e despertando os sentidos, nomeadamente a visão e o olfacto, através da utilização das plantas.
Era regular, ordenado e simples – fig. 7 - e desenvolvia-se em pequenos pátios e terraços (em terrenos desnivelados) com esculturas, fontes centrais, jogos de água, tanques, piscinas, termas, teatros, grutas, pavilhões, pórticos, canteiros, sebes podadas. A topiária (fig. 8) principalmente de buxo (também cipreste e loureiro), fez com que o arbusto passasse a ser um elemento escultórico de grande versatilidade e essencial num jardim.

 

 

Fig. 7 –  Vila Romana Chedworth (Inglaterra) combinando elementos: jardim, pátio e corredores (ao centro), gruta com estatuárias (no topo), horta e pomar (no topo esquerdo)

Fonte: Hoadley, 1996

 

 

Fig. 8 – O topiárius moldando arbustos em figuras de variados formatos. O arbusto passou a ser um elemento escultórico e essencial num Jardim Romano por despertar o olhar

Fonte: Hoadley, 1996

 

 

O uso de arbustos de cheiro era constante: alecrim, alfazema, rosa, loureiro, menta, murta, timo, etc.[18] Possuía carvalhos, azevinhos, plátanos, choupos, castanheiros, acácias, figueiras, amendoeiras, pessegueiros, macieiras, videiras, ciprestes e pinheiros mansos. Utilizavam-se bastante na ornamentação dos jardins narcisos, papoilas, peónias, acantos, violetas, heras, maravilhas, goivos, açucenas, lírios, aloés e íris. Exemplos são a Vila Laurentina, perto de Roma, e a Vila Adriana, em Tivoli (figs. 9 e 10).[19]

 

 

Fig. 9 – Alameda de Ciprestes - Vila Adriana

Fonte: autora, 2005

 

 

Fig. 10 – Canopo (espelho de água de 119mx18m) e estátuas - Vila Adriana

Fonte: autora, 2005

 

 

Contam-se 73 ervas e 16 árvores de fruto entre a lista de plantas decretadas por Carlos Magno, imperador em 800 d.C., para que todas as cidades do império tivessem, nos seus jardins, as plantas necessárias à alimentação e saúde, entre as quais salva, funcho, malvas, rosmaninho, arruda, orégão, cidreira e romãzeira.[20]

 

2.6. Jardim Islâmico

No Jardim Islâmico, profundamente influenciado pelo Jardim Persa, as plantas assumem importância por despertarem os sentidos - visão e olfacto - e por possuírem uma carga simbólica associada à ideia da recriação do Paraíso na Terra.
O Islamismo marcou presença nas culturas dos Sécs. VII-XIV da Ásia à Índia, do Norte de África e da Península Ibérica. De uma simplicidade de desenho, à semelhança do Jardim Persa (fig. 11), o seu jardim possuía plantas de potencialidades ornamentais e olfactivas, tais como: rosas, buganvílias, romãzeiras, jasmins, loureiros, murtas, lavandas, mentas, basílicos, citrinos, madressilva, cravos [21], etc. Vasos com flores enfeitavam as casas (fig. 12) e ladeavam as peças de água – aliando a visão e o som para o desfrute dos sentidos. As árvores eram principalmente as de clima mediterrâneo e os arbustos, como os loendros, floriam propositadamente na altura do ano em que a corte Moura chegava ao palácio Generalife, em Granada. O jardim era pequeno na dimensão, sem ostentação, usando o elemento água, cor e perfume, com o objectivo de sedução e encantamento e era destino à vida familiar. Este povo introduz na Península Ibérica a laranjeira azeda, o limoeiro, a alfarrobeira e a amendoeira.[22]

 

Fig. 11 – O Jardim Islâmico era dividido por canais de água e possuía plantas de potencialidades ornamentais e olfactivas

Fonte: Thacker, 1992

 

Fig. 12 – No jardim Islâmico vasos de flores enfeitavam as casas – Palácio em Sevilha

Fonte: autora, 2006

 

 

2.7. Jardim Medieval

Com o Jardim Medieval, assiste-se à mistura do papel utilitário do jardim, no qual se destaca o jardim farmacêutico, com a função estética proporcionada pelas plantas, e no qual a horticultura é vista como uma forma de arte. As plantas assumem igualmente um papel simbólico.
O Jardim da Idade Média caracteriza-se pelo cultivo de pomares (pereiras, limoeiros, etc.), plantas medicinais, aromáticas e gastronómicas. Decresceu o uso de plantas ornamentais, limitando-se o elemento flor a servir de ornamentação dos altares. No entanto, a topiária de buxo, teixo e murta continuaram a proliferar, formando muros de verdura. Localizava-se geralmente fora das muralhas dos castelos ou em pátios interiores e abadias [23].
Nesta altura, assumiu grande importância o jardim utilitário como local de recolhimento: o hortus conclusus era protegido do mundo exterior por altas paredes, possuía um relvado central com uma fonte e era rodeado de plantas aromáticas, árvores de fruto e pérgolas de vinha [24] (fig. 13). Até ao séc. XI, com as cruzadas regressadas do Oriente, novas espécies de plantas são introduzidas nos jardins: lírios, narcisos, acantos, orquídeas, heras, rosas, açucenas, violetas, alecrins, gladíolos, rosmaninhos e funchos eram dispostos em canteiros rectangulares alinhados [25]. Também as árvores (ulmeiros, pinheiros, etc.) se alinhavam denunciando o triunfo do simetrismo [26].

 

Fig. 13 – O Jardim Medieval era um jardim de lazer, enclausurado com altas paredes protectoras e rodeado de plantas aromáticas e árvores de fruto

Fonte: Thacker, 1992

 
 

2.8. Jardim Renascentista

Com o Renascimento, dá-se a redescoberta da Natureza (no Humanismo acrescenta-se a ideia de que o Jardim é a celebrização do Homem sobre a natureza), levando à criação dos primeiros jardins botânicos de plantas exóticas e a uma nova moda de jardins que se difunde por toda a Europa, tendo o seu auge em Itália e França.[27]
O Jardim Renascentista era construído para projectar o poder do Homem face à natureza, e caracterizava-se pela sua artificialidade e organização que não se encontrava nos jardins das épocas anteriores, apontando assim para a extrema racionalidade que se fazia sentir nesta época. As plantas embelezavam os jardins e eram usadas para demonstrar a superioridade do Homem e seus conhecimentos, exemplos disso eram o recurso à topiária e aos parterres.
Primava por uma simetria rígida de arruamentos, talhe excessivamente geométrico das árvores alinhadas, complicados jogos de água, canteiros geométricos de flores e dispunha-se em terraços ligados por ampla escadaria formando anfiteatros [28]. Usavam-se materiais e elementos imutáveis (plantas de folha persistente, esculturas de santos ou divindades mitológicas, escadarias e pérgolas em pedra) e semi-imutáveis (água parada ou em movimento provenientes de fontes, cascatas ou repuxos) [29] – Figs. 14-16.

 

 

Figs. 14 a 16 – Fonte de Pégasos, Fonte da Natureza, Cem Fontes na Vila d´Este, em Tivoli

Fonte: autora, 2005

 

 

Os Jardins Italianos foram inspirados nos da Roma Antiga. Na Itália, os Jardins possuíam flores como lírios, roseiras e craveiros [30]. Outras plantas compunham os Jardins: violetas, túlipas, gladíolos, mais tarde aparecem hortênsias e petúnias e posteriormente magnólias, gardénias e begónias [31]. A topiária era de buxo e constituía o elemento mais trabalhado do jardim. Possuía ainda canteiros de azevinho e cipreste, pinheiros, oliveiras, loureiros e limoeiros [32] - fig. 17.
Em França, os «parterre de broderie» de buxo (fig. 18), iniciados no séc. XVII, caracterizavam os seus jardins. As bordaduras eram compostas por buxo, murta, alfazema e alecrim, e os compartimentos dos tabuleiros por flores, manjerona, tomilho, serpão, salva, etc., e areias coloridas.[33]

 

 

Fig. 17 – O Jardim Renascentista Italiano (Villa d´Este, Tivoli). Como qualquer Jardim Renascentista, caracterizava-se pela sua artificialidade e organização dos seus elementos e no qual as plantas assumiam um papel importante na composição

Fonte: Jellicoe, 1996

 

 

Fig. 18 – Representação de um «parterre de broderie» (França) de desenhos arabescos preenchido por flores e areias coloridas e que demonstra a vontade do homem em dominar a natureza segundo os seus conhecimentos e técnicas

Fonte: Jellicoe, 1996

 

 

2.9. Jardim Barroco

À semelhança do Jardim Renascentista, mas de uma forma mais exacerbada, o Jardim Barroco era construído para evidenciar o poder do Homem e era dotado de uma artificialidade extrema, funcionando o jardim como um palco. Através da ciência da óptica, dispunham-se as plantas de modo a dirigirem o olhar do espectador e criarem ilusões para as distâncias parecerem maiores ou menores. Destaca-se neste período André Le Nôtre (1613-1700) que organizava a paisagem para um forte cenário que expressasse a dignidade e elegância do Homem e deleitasse os seus sentidos.
A topiária atinge, principalmente em França e com Versalhes (figs.19 e 20), o auge com os elaborados e complexos desenhos de sebes e de árvores e arbustos, com a função de criar eixos e formas geométricas [34]. As perspectivas alongam-se, rodeadas de fortes massas de arvoredo sob declive ou terreno plano, sem prejudicar os diferentes pontos de vista. Por toda a extensão do jardim arrelvados, espalham-se «quincôncios» e bosquetes que enchem os vazios deixados entre alamedas.[35]

 

Figs. 19 e 20 – Plano e perspectiva do Jardim de Versalhes projectado por Le Nôtre e encomendado por Luís XIV. São evidentes as grandes formas e amplas perspectivas constituindo um cenário espectacular criado para o deleite dos sentidos e evidenciar o poder real

Fonte: Jellicoe, 1996

 

 

2.10. Jardim Inglês

O Jardim Paisagista Inglês do século XVIII surge com um conceito diferente em relação à Natureza, no qual o Homem não se impõe mas se harmoniza e admira (paisagismo); que a ideia do belo encontra-se no natural e livre e não no artificial e forçado dos parterres franceses, os quais são substituídos por relvados e suaves modelações de terreno, permitindo a visão de belas perspectivas, tornando-se dinâmico o traçado do jardim, sempre procurando imitar a natureza: disposição orgânica de árvores e arbustos, caminhos sinuosos, água correndo naturalmente ao sabor do declive [36]. A ruína era a única presença arquitectónica do Homem na paisagem. Utilizavam-se inúmeras plantas ornamentais, vindas de grandes expedições da América, Austrália, Oriente e Norte de África, e variedades produzidas pelo Homem. Surgem os Jardins Paisagistas, que evocavam bosques e colinas de formas harmoniosas. William Kent (1685-1748), Lancelot ´Capability` Brown (1716-1783) e Humphry Repton (1752-1818) notabilizaram-se neste tipo de jardim.[37]
Com o Jardim Paisagista, as plantas deixam de possuir um significado individual para possuir um significado colectivo, no qual a visão permite o desfrute das grandes panorâmicas para a paisagem e o descanso do espectador numa perfeita harmonia com a natureza (fig.21).

 

Fig. 21 – Vista parcial para o Jardim Paisagista ´Stourhead` em Inglaterra  (projectado pelo banqueiro Henry Hoare) no qual as plantas assumem um significado colectivo ao proporcionarem o desfrute de  espectaculares panorâmicas para a paisagem

Fonte: autora, 2002

 

 

2.11. Jardins do Séc. XIX

Em Inglaterra, surge no jardim o conceito de bordadura vivaz (mixed-border) – fig. 22, - no qual o elemento flor se assume importante, utilizando-se mistura entre espécies de épocas de floração diferentes e de fácil manutenção (herbácea, de bolbo ou rizomas). O ritmo de plantação associa-se ao contraste flores–folhas-cor-forma (prímulas, lírios, rododendros, peónias, etc.) em maciços e bordaduras, dentro de um traçado bem definido [38]. Neste contexto, destacaram-se os trabalhos de William Robinson e Gertrude Jekyll.[39]
É no Séc. XIX que surgem os grandes parques urbanos abertos ao público, fruto da necessidade de lazer, educação e de hábitos higienistas que se faziam sentir nos grandes centros industriais urbanos e desempenhando um importante papel terapêutico por promoverem o bem-estar do indivíduo. O Central Park (Fig. 23), em Nova Iorque, projectado por Olmsted e Vaux, terá sido o precursor de muitos destes parques até à presente época.

 

Fig. 22 – Bordadura vivaz em Wakehurst (Inglaterra), plantado à maneira de Gertrude Jekyll, usando principalmente rosas e púrpuras estimulando a visão num jardim

Fonte: Lancaster,1984
 
 

Fig. 23 – Vista aérea para o Central Park (Nova Iorque, EUA), projectado por Olmsted e Vaux, em 1858, e que surgiu da necessidade de o indivíduo citadino usufruir de espaços verdes para a promoção do seu bem-estar

Fonte: store.yahoo.com

 

 

3. Conclusões

É de conhecimento geral que as plantas sempre tiveram um papel importante na vida do Homem. Foram ou são utilizadas na alimentação, revolucionada com os descobrimentos, como abrigo (e.g. casas de folhas e madeira dos indígenas), na criação de espaços (e.g. quintas, jardins, parques), na medicina por conter propriedades curativas, em ferramentas (e.g. pau pontiagudo criado pelo Homem do Paleolítico, enxada e arado criado pelo Homem do período Megalítico), em inspirações artísticas (e.g. o capitel das colunas coríntias gregas inspira-se na forma da folha do Acanto), na religião (e.g. mensagens de oração, óleos e perfumes de plantas para limpeza espiritual dos utensílios do altar), etc.
No presente texto, foi realizada uma abordagem geral das características do desenho e das plantas usadas em jardins históricos e que revelam significados importantes nos jardins da Babilónia, Egípcio, Persa, Grego, Romano, Islâmico, Renascentista, Barroco, Inglês, e Século XIX.
Conhecer a história da arte dos jardins proporciona dados importantes a quem projecta e concebe jardins e parques no seu quotidiano profissional. Saber explorar o elemento vegetação assume-se fulcral na sociedade contemporânea, tal como referido em diversos episódios dos jardins ao longo dos tempos.
O contacto do homem com as plantas revela-se muito importante, uma vez que estas possuem um papel terapêutico, proporcionando o bem-estar físico, mental e social entre as pessoas.
Através dos significados das plantas, pode-se estabelecer uma relação positiva com o Homem, na medida em que as plantas são um elemento de atracção, tornando a vivência do jardim mais rica.
Em suma, o uso de plantas nos jardins esteve sempre presente ao longo da história da arte dos jardins acompanhando a sua evolução. Por proporcionarem o bem-estar, os Jardins assumiram importância terapêutica ao longo dos séculos, até ao aparecimento dum tipo específico de jardim, o Jardim Terapêutico (situado em Lares e Hospitais).

 

Notas e Referências bibliográficas

[1]  In Especial Astrologia 2002 - O Horóscopo dos Druidas, p. 133.
[2] Vários (2000). Bíblia Sagrada para o Terceiro Milénio da Encarnação. Coimbra: Difusora Bíblica, 2ª Edição, Génesis 1-4.
[3] Lecoq, N., 1985. A Floricultura e a Arte Paisagística-Diaporama. Associação Portuguesa de Horticultura e Fruticultura, p. 1.
[4] Assunção, M. C. B.; Correia, C. J. N.; Santos, L. (1994). Introdução á Filosofia 10ºano. Lisboa: Editorial o Livro, p. 341. & Souza, A. L. O. (2000). O Território, o Homem, e os Espaços. Lisboa: UTL, Faculdade de Arquitectura e Núcleos Urbanos, Lisboa.
[5] Vários (1980). Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Lisboa: Selecções, p. 486.
[6] Castel-Branco, M. C. (1992). O Lugar e o Significado - Os Jardins dos Vice-reis. Lisboa: UTL, Instituto Superior de Agronomia, p. 5.
[7] Cabral, F. C. (1993). Fundamentos da Arquitectura Paisagista. Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza, pp. 87-88.
[8] Cabral, F.C.; Telles, G. R. (1960). A Árvore. Lisboa: Ministério das Obras Públicas, Centro de Estudos de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia, p. 115.
[9] Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p.2. & Santos, G. (1936). A Arte dos Jardins-Breve Resumo Histórico. Lisboa: Separata da Revista Agronómica, vol.24 (1), p. 6.
[10] Almeida, S.C.M. (1997). A Vegetação no Jardim do Cerco-Proposta de Reabilitação. Lisboa: UTL, Instituto Superior de Agronomia, p. 30.
[11] Oliveira, M. J. F. C. C. (1991). Biologia e Utilização das Plantas Aromáticas e Medicinais da Região Mediterrânica. Lisboa: UTL, Instituto Superior de Agronomia, p. 1.
[12] Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 2. &  Wilkinson, A. (1998). The Garden in Ancient Egypt. London: The Rubicon Press.
[13] Oliveira, M. J. F. C. C. (1991). Op. Cit, p. 1.
[14] Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 2. & Santos, G. (1936). Op. Cit., p. 7. &  Jellicoe, G.; Jellicoe, S. (1996). The Landscape of Man. London: Thames and Hudson, p. 30. &  www.jardimdeflores.com.br/paisagismo/A05daniel.htm (acedido em 2002)
[15] Santos, G. (1936). Op. Cit., pp. 8-9. & Vários (1994). The Garden Vision of Paradise. London: New Horizons, Thames and Hudson, p. 132. &  Castel-Branco, M. C. (1992). Op. Cit.
[16] Oliveira, M. J. F. C. C. (1991). Op. Cit., p.30.
[17] Santos, G. (1936). Op. Cit., pp. 9-10. & Castel-Branco, M. C. (1992). Op. Cit.
[18] Ferrão, S. I. C. B.; Henriques, C. C. G. C. (1995). Contribuição para o Estudo da Vegetação Arbustiva Uilizada nos Espaços Verdes Públicos de Lisboa. Lisboa: UTL, Instituto Superior de Agronomia, p. 8-9. & Castel-Branco, M. C. (1992). Op. Cit.
[19] Santos, G. (1936). Op. Cit., p. 10. & Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 4.
[20] Almeida, S. C. M. (1997). Op. Cit., p. 30.
[21] Almeida, A. L. B. S. S. S. L. (2001). O Uso das Plantas nos Jardins - A Evolução da Ciência ao Ornamento. Lisboa: UTL, Instituto Superior de Agronomia, SAAP, p. 49.
[22] Jellicoe, G.; Jellicoe, S. (1996). Op. Cit.& Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 4. & Almeida, S. C. M. (1997). Op. Cit., p. 31. & www.jardimdeflores.com.br/paisagismo/A05daniel.htm (acedido em 2002).
[23] Santos, G. (1936). Op. Cit., p. 11.
[24] Almeida, A. L. B. S. S. S. L. (2001). Op. Cit., p. 49.
[25] Almeida, S. C. M. (1997). Op. Cit., p. 37. & Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 4.
[26] Santos, G. (1936). Op. Cit., p. 11. & Vários (1994). Op. Cit., p.136.
[27] Jellicoe, G.; Jellicoe, S. (1996). Op. Cit., p. 255.
[28] Santos, G. (1936). Op. Cit., pp. 13-14.
[29] Jellicoe, G.; Jellicoe, S. (1996). Op. Cit.
[30] Lecoq, N. (1985). Op. Cit., p. 4.
[31] Almeida, A. L. B. S. S. S. L. (2001). Op. Cit., p. 50.
[32] Santos, G. (1936). Op. Cit., p. 14.
[33] Santos, G. (1936). Op. Cit., pp. 16-18 & Jellicoe, G.; Jellicoe, S. (1996). Op. Cit., p.181.
[34] Ferrão, S. I. C. B.; Henriques, C. C. G. C. (1995). Op. Cit., p. 10.
[35] Santos, G. (1936). Op. Cit., pp. 18-21.
[36] Santos, G. (1936). Op. Cit.,, pp. 21-23. & Cabral, F. C. (1993). Op. Cit., p. 77.
[37] Almeida, A. L. B. S. S. S. L. (2001). Op. Cit., pp. 52, 56-57.
[38] Cabral, F. C. (1993). Op. Cit., pp. 81-82,103-105.
[39] Almeida, A. L. B. S. S. S. L. (2001). Op. Cit., p. 69.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Nunes, C. ; (2010) Desenho de Jardins Históricos. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (6) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt