Estudos gráficos de artefatos arqueológicos na composição de marcas regionais para projetos de Design.

Graphic studies of archaeological artifacts in the composition of regional brands for Design projects.

Sousa, R. Machado, A.

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo interpreta e classifica grafismos contemporâneos desenvolvidos com base em artefatos, “zoólitos”, encontrados nos sítios arqueológicos (sambaquis) do Estado de Santa Catarina. A Teoria da Forma e a classificação de grafismos são consideradas na interpretação das representações gráficas. Por suas características formais e figurativas e por sua relação com a cultura regional, os grafismos são também apresentados como marcas regionais para serem utilizadas em projetos de Design.

 

PALAVRAS-CHAVE: Grafismo; Padrões Visuais; Arqueologia; Design de Superfície.

 

ABSTRACT: This paper interprets and classifies contemporary graphics developed based on artifacts, "zooliths", found in archaeological sites (sambaquis) of the State of Santa Catarina. The Theory of Form and classification of graphics are considered in the interpretation of graphical representations. By their formal characteristics and figurative and its relationship to regional culture, the graphics are also presented as regional brands for use in projects Design.

 

KEYWORDS: Graphics; Visual Standards; Archaeology; Surface Design.

1. Introdução

Este artigo apresenta grafismos contemporâneos produzidos a partir de artefatos encontrados em “sambaquis” no estado de Santa Catarina. Os fundamentos da Teoria da Forma (Dondis, 2007; Wong, 2007; Perassi 2001 e 2008) e uma proposta de classificação de grafismos (Gomes, 1998) são aqui considerados para a interpretação dos elementos gráficos bidimensionais. A relação proposta neste texto entre grafismos e artefatos se justifica porque, “desde os tempos primitivos, o ser humano desenvolve técnicas e formas para expressar e representar, bidimensionalmente, o mundo tridimensional em que vive” (Negrão e Camargo, 2008, p. 149). Além disso, os grafismos produzidos são também indicados como marcas icônicas de identificação regional, para serem aplicados em projetos de Design Gráfico.
“Sambaqui” é uma palavra originária da língua Tupi, que reúne o termo “tamba” ou “samba”, cujo significado é relacionado a marisco e concha, e o termo “ki”, cujo significado indica amontoado, compondo a expressão “amontoado de conchas”. Os sambaquis são depósitos primitivos com materiais diversos, como conchas, restos de cerâmica, de madeira, de pedra e ossadas de humanos e de animais. São decorrentes das atividades de pequenas populações nômades, estimadas com o máximo de cem habitantes.  Os depósitos mais antigos tiveram sua origem datada há cerca de cinco mil e quinhentos anos atrás. Alguns chegam a apresentar, aproximadamente, vinte metros de altura e cem metros de diâmetro. Foram encontrados sambaquis em diversas regiões americanas e nas regiões costeiras do Brasil (Machado, 2003).
Na parte da costa brasileira que pertence hoje ao estado de Santa Catarina, os homens sambaquianos residiram em regiões de lagunas. Essa população não deixou nada registrado na forma de grafismos, seja como desenhos, gravuras ou pinturas sobre planos rupestres. Mas deixou artefatos produzidos em pedras e ossos, com acabamento delicado, cujas formas serviram de base para o desenvolvimento dos grafismos icônicos aqui apresentados. Esses desenhos foram desenvolvidos de acordo com o estilo e os temas da produção encontrada nos sambaquis.
A motivação para essa transposição do design de elementos tridimensionais para o plano por meio da expressão gráfica decorreu da idéia de que desde a pré-história as populações primitivas investiram na produção de desenhos. Assim, comunicaram suas atividades e as ideias que orientavam seu trabalho e seus ritos. De outra parte, pensou-se na produção de ícones para compor parte da representação gráfica da marca regional.
Os registros da representação gráfica bidimensional, por meio de grafismos, remonta ao homem pré-histórico, como registram as inscrições encontradas na Ilha de Creta, no Mar Mediterrâneo e, também, em localidades da Europa, do Egito, da África e da China. As representações gráficas resistem como registros de culturas ancestrais e todas essas expressões demonstram amplo potencial de identificação e comunicação, seja através de desenhos, pinturas ou gravuras, porque “muitos são os propósitos dos seres humanos ao marcarem superfícies, seja riscando, pintando, entalhando ou moldando” (Gomes, 1998, p.27).

 

2. A representação gráfica bidimensional

A representação gráfica bidimensional é, na atualidade, um processo dominante na cultura visual plana da sociedade contemporânea, pela hegemonia da computação gráfica, onde o “pixel” é o elemento original e a unidade mínima da composição visual.
A virtualidade foi totalmente incorporada à realidade do homem urbano, nesta sociedade digitalmente globalizada. Mas é preciso considerar que a conquista dos modos de representação e de reprodução de imagens bidimensionais, por meio da computação gráfica, é decorrente de um longo processo cuja origem se estende ao passado pré-histórico.
A expressão gráfica faz referência a toda representação feita por desenhos abstratos ou figurativos, expressivos ou geométricos, que são relacionados a fenômenos de várias categorias, como físicos, econômicos e sociais, entre outros. A origem dessa expressão é decorrente da linha, seja sulco feito na pedra ou em outras superfícies, que é denominado “glifo”, ou no sinal pintado sobre os diversos suportes, que é denominado “grama” (Gomes, 1998).
A linha é o elemento mais característico da linguagem gráfica, porque sua invenção e sua utilização simplificaram o processo da representação gráfica bidimensional, definindo a configuração das figuras unicamente por seu contorno, configuração ou formato.
Existem dois modos básicos de representação bidimensional. O modo pictórico-naturalista, que é baseado no contraste das áreas (fig. 1A) e característico das pinturas naturalistas e das fotografias, e o modo “gráfico-racionalista”, que é determinado pelo fechamento das linhas (fig.1B), caracterizando os desenhos lineares (Perassi, 2001).

 

 
Fig. 1A – Contraste de área.                                      Fig. 1B – Fechamento por linha.
 
Fonte: Criação dos autores



Acredita-se que a expressão no plano e a representação bidimensional tenham sido decorrentes da expressão espacial e da representação tridimensional, que foram anteriores no tempo. Desde os primórdios da representação gráfica, há quatro elementos básicos da linguagem visual bidimensional que determinam sua expressividade: (1) o “suporte plano”, (2) o “ponto”, (3) a “linha” e (4) a “mancha”. Em princípio, esses elementos são organizados de maneira interativa na composição de abstrações gráficas e de representações figurativas (Perassi, 2008).

 

2.1. Conceitos e elementos fundamentais da representação bidimensional

Para Wong (2007), os elementos que formam uma composição bidimensional, determinando sua aparência e seu conteúdo, podem ser classificados da seguinte forma:
1. Elementos conceituais, que não são visíveis, porém, parecem estar presentes, como ponto, linha, plano e volume;
2. Elementos visuais, que são os traços e manchas que expressam os elementos conceituais e os tornam visíveis, com formato, tamanho, cor e textura;
3. Elementos relacionais, que dizem respeito à localização e às inter-relações dos formatos de um desenho e são percebidos como direção e posição ou como sentidos, espaço e gravidade;
4. Elementos práticos, que são relacionados à funcionalidade, ao conteúdo e à importância da representação, definindo o “porquê” do desenho.
No processo de representação bidimensional, os elementos visuais podem surgir de maneira intuitiva ou planejada. O desenho é um processo de criação visual com um propósito, que objetiva transmitir uma mensagem às pessoas, conciliando em si os fatores estéticos e os comunicativos, que são os propriamente funcionais.  Para Dondis (2007), a linguagem visual é a base da atividade de desenho, sendo formada por elementos como a linha, o ponto, a forma, a cor e a textura. Todavia, a indicação de Dondis (2007) considera os aspectos visuais gerais da linguagem, apresentando em um mesmo plano hierárquico elementos de expressão e elementos expressos.
Na representação gráfica, entretanto, as formas e mesmo as cores indicadas por Dondis (2007) são determinadas por sulcos ou “glifos” contrastantes e por sinais pintados ou “gramas” (Gomes, 1998). Portanto, as cores e as formas não aparecem por si mesmas, sendo expressas sobre o plano por sinais, que representam primeiramente pontos e linhas. Na linguagem essencialmente gráfica, até as manchas são representadas por retículas de pontos ou por hachuras de linhas. Assim, a representação gráfica de pontos e de linhas sobre o plano determina formas e sugerem cores diferentes daquelas que são expressas pelo próprio plano.      
Wong (2007) trata da forma visualmente expressa e, para o autor, a forma é visível e tem formato, tamanho, cor, textura e ocupa espaço, sendo que a forma pode ser oriunda da natureza ou da criação do homem.  Com base em outros autores, o formato é denominado por Perassi (2001) como “configuração”, que também considera que, entre as qualidades percebidas nas formas visíveis, deve-se acrescentar a “tonalidade”. Além disso, deve-se considerar que o tamanho não é uma propriedade em si, porque a qualidade de ser maior ou menor depende de comparação direta com outro elemento. Porém, a qualidade volume é intrínseca à forma, sendo que a mesma pode ser plana e, caso seja volumétrica, pode ser esférica ou cônica, entre outras possibilidades. Nas formas planas, volume ou espacialidade podem ser sugeridos por variação tonal, variação cromática ou ilusão perspectiva. Assim, conforme indica Perassi (2001), configuração, tonalidade, textura, cor e volume são as qualidades perceptíveis da forma.  
A despeito das conceituações matemático-geométricas sobre ponto, linha e plano, entre outras, no âmbito da expressão gráfico-visual um ponto é a menor unidade visível. Portanto, uma forma pequena é reconhecida como ponto quando é considerada mínima, desprezando-se sua dimensão e sua configuração. O conceito de ponto é expresso em diversos formatos e, apesar de ser mais comum o formato circular, um ponto pode parecer triangular, quadrado ou irregular.
Na representação gráfico-visual, uma forma é reconhecida como linha, quando a dimensão do seu comprimento é considerada mais relevante que sua largura, estabelecendo percursos que determinam uma reta, uma curva ou uma sequência de ondulações regulares ou irregulares, entre outras possibilidades. A linha também pode ser apresentada com espessura única em todo o seu comprimento ou variar de espessura durante seu percurso. Inclusive, a variação ou uniformidade de espessura pode assinalar a expressão da ferramenta que determinou a linha, seja um lápis ou um pincel com tinta, entre outras. A representação gráfica considera todas as características da linha, seja ela apresentada como uma figura autônoma ou como contorno de uma outra figura.Wong (2007) salienta que, no caso das linhas espessas, até as bordas de um segmento de linha são elementos expressivos e comunicativos, podendo apresentar bordas quadradas, arredondadas ou irregulares, entre outras.
Os desenhos planos elaborados pelo homem apresentam formatos e cores. O termo cor, neste momento, é apresentado com um sentido muito amplo, como quaisquer sensações de preenchimento dos formatos sejam essas cromáticas ou tonais. Assim, para Wong (2007), a forma bidimensional é configurada e preenchida por pontos ou linhas ou planos sobre uma superfície. A forma visível pode ser estruturada em diversos formatos e de várias maneiras, sendo que as tridimensionais podem ser expressas por massas e as pictóricas com manchas. Todavia, as representações essencialmente gráficas são compostas com linhas, pontos e planos.
Ao longo da História, foram desenvolvidos diversos estudos sobre a representação de formas e formatos. Por exemplo, os estudos realizados pela escola alemã Bauhaus, sobre a representação geométrica nas linguagens técnico-projetivas, além de outros, como nas linguagens artísticas cubistas. Com base nesse percurso, formulou-se uma teoria para composição de todas as formas a partir da combinação de três formas básicas, que são o quadrado, o triângulo e o círculo. 
Wong (2007) apresenta uma classificação das formas e considera que, quanto à sua característica, a forma é (1) “figurativa”, quando pode ser nomeada, seja por uma denominação natural, como “flor” ou “pássaro”, ou por uma denominação cultural, como “martelo” ou mesmo “triângulo”; a forma é (2) “abstrata” ou “não-figurativa”, quando não pode ser nomeada ou reconhecida. Quanto ao seu formato ou desenho, a forma pode ser (1) “caligráfica” ou expressiva, quando feita à mão com curvas livres e pouco precisas; (2) “orgânica”, quando se mostra sinuosa também com curvas livres, sugerindo crescimento, movimento ou leveza; (3) “geométrica”, quando expressa rigor e precisão decorrentes do uso de ferramentas, como régua e compasso, ou devido aos recursos de computação gráfica, que também podem sugerir todos os outros formatos.
Para Perassi (2008), as linhas irregulares e desordenadas propiciam representações mais naturalistas ou mais expressivas. As linhas retas organizadas como horizontais, verticais ou diagonais se relacionam, umas em relação às outras, como paralelas ou perpendiculares ou inclinadas. As linhas geométricas retas ou curvas são ainda mais abstratas do que as linhas sinuosas e expressivas. Além de representar imagens naturalistas, as linhas possibilitam estilizações e abstrações estabelecendo as relações simbólicas, cujo ponto máximo são as escrituras sejam essas ideográficas ou fonéticas.

 

2.2. Estilos e técnicas de representação bidimensional

Há grande variedade de estilos registrada dentro da história da representação ou composição de imagens bidimensionais. “Estilo” é a síntese visual dos elementos que compõe uma imagem, sendo influenciado pela expressão artística (Dondis, 2007) e “imagem” é a “representação de um objeto por meios visuais, gráficos, plásticos ou fotográficos” (Rabaça e Barbosa, 1998, p. 377).
Considerando-se as representações gráficas, de acordo com a classificação das formas (Wong, 2007), sejam essas figurativas ou abstratas, caligráficas, orgânicas ou geométricas, nos modos pictórico-naturalista ou gráfico-racionalista é possível identificar três estilos básicos que foram denominados por Perassi (2008) como: (2) “visual-naturalista”, (3) “racionalista-simbólico” e (4) “emocional-expressivo”.
1. Estilo visual-naturalista é recorrente nos desenhos acadêmicos, apresentando imagens semelhantes ao que é observado diretamente na natureza e nos objetos culturais e procurando representar com verossimilhança o que “os olhos vêem” (fig.2).

 

 

Fig. 2 – Estilo Naturalista.  
Fonte Perassi (2008)



2. Estilo racionalista-simbólico é recorrente nos desenhos estilizados que tendem à simplificação e organização geométrica das formas figurativas, naturais ou culturais, e abstratas (fig.3).
 

 
Fig. 3 – Estilo Simbólico.
Fonte Perassi (2008)

 


3. Estilo emocional-expressivo rompe com a representação naturalista em sentido oposto ao racionalismo idealista, porque não simplifica e organiza, mas excede na gestualidade e na materialidade, investindo na desordenação (fig.4).

 

 

Fig. 4 – Estilo Expressivo.
Fonte Perassi (2008)



Esses estilos básicos são percebidos nas representações gráficas em geral, sendo que, tradicionalmente, as técnicas e as linguagens artísticas ou gráficas influenciavam ou facilitavam a estilização das representações. Atualmente, por meio dos recursos da computação gráfica é possível a produção e a edição de representações, simulando as diversas técnicas, linguagens e estilos de representação gráfica. Essas facilidades dispensaram a mediação de especialistas, trazendo esses processos de estilização da representação gráfica ao domínio de qualquer usuário dos programas de tratamento de imagem.

 

 

3. Grafismos e arqueologia

Os grafismos foram e são usados pela humanidade como elementos de expressão e comunicação, desde as mais antigas representações rupestres da pré-histórica, que foram produzidas há cerca de trinta e cinco mil anos.

 

3.1. Classificação dos grafismos

Gomes (1998) considera que, com relação à intencionalidade, os grafismos podem ser classificados como (1) “acidentais”, caracterizando marcas casuais, como a impressão dos dedos da mão sobre um objeto qualquer, e (2) “propositais”, indicando grafismos produzidos para comunicar comportamentos, atividades e pensamentos. Há subdivisões que tipificam os grafismos “propositais”:
1. Quando se assemelham às formas da natureza, os grafismos propositais são indicados como “naturais”, podendo ser relacionados com as formas figurativas em estilo “visual-naturalista”, como foi proposto anteriormente.
2. Quando não apresentam relação aparente com as coisas observáveis, os grafismos “propositais” são indicados como “artificiais”, podendo ser relacionados com as formas abstratas em estilo “racionalista simbólico” ou em estilo “expressivo”.
3. Quando desenvolvidos livremente com o uso direto de partes do corpo, por exemplo, os riscos na areia realizados com as mãos ou com os pés, os grafismos propositais são denominados como “quirografias diretas”.
4. Quando produzidos com o auxílio de ferramentas como extensões do corpo, por exemplo, estiletes ou pincéis, os grafismos propositais são denominados como “quirografias semidiretas”.
5. Quando são realizados através de máquinas mecânicas, eletrônicas ou eletrônico-digitais, cuja versão mais atual são os computadores, os grafismos propositais são denominados “quirografias indiretas”.
Como foi referido anteriormente, Gomes (1998) indica que os grafismos gravados ou esculpidos nas superfícies são denominados “glifos” e as representações resultantes são chamadas de “glifias”. Já os grafismos pintados sobre o suporte são denominados “gramas” e as representações resultantes são chamadas “grafias”.
Quando um grafismo representa uma imagem natural, cultural ou imaginária é indicado como “pictograma” ou “ícone”, porque é participante de representações imagéticas ou “iconografias”. O ícone que denotar uma imagem e, também, representar uma atitude ou idéia é denominado “ideograma”, porque é participante de uma “ideografia”. O grafismo que representa um som e participa da composição de palavras ou escrita musical é denominado “fonograma”.
Para Gomes (1998, p. 33), as iconografias ou desenhos de imagens compõem “a forma mais primitiva de representação gráfica para expressar as ideias do pensamento humano”.  Portanto, as “iconografias” tendem a ser percebidas como “ideografias”. Isso é perfeitamente coerente nas iconografias do imaginário que, por exemplo, representam dragões alados e outros seres da imaginação. Porém, mesmo as iconografias que representam as coisas visíveis, sejam da natureza ou da cultura, retratam a aparência do mundo, mas expressam também a visão de mundo de uma cultura e ainda dos indivíduos que produziram as representações.  

 

 

3.2. Grafismos produzidos a partir dos artefatos de sambaquis

Entre os achados mais interessantes nos sítios arqueológicos estão os artefatos, que são esculturas de pedras e ossos, denominadas de “zoólitos” (fig. 5). Considerando-se que o termo “zôo” é relacionado a animais e o termo “lito” relacionado a pedras, compõe-se a expressão “animais de pedra”. Esses artefatos foram encontrados exclusivamente nos sambaquis de Santa Catarina. Na pesquisa realizada anteriormente (Machado, 2003), essas esculturas de pedras e ossos foram divididas em dois grupos. O primeiro considerou as “esculturas geométricas” e o segundo grupo reuniu as “figuras de animais”. Os animais marinhos foram os mais representados nos zoólitos encontrados, indicando que a forte ligação cultural das populações de sambaquianos com o mar, principal fonte de alimentos para sua subsistência. Raias, tubarões, baleias e albatrozes, mas também, tatus, jabutis, tartarugas e jacarés são os animais mais representados. O acabamento polido dos artefatos, sem pontas ou arestas, varia entre o polimento com brilho ou aspecto mais fosco, dependendo da natureza do material utilizado. Isso é muito significativo porque informa sobre o estágio de desenvolvimento técnico e estilístico da cultura das populações de sambaquianos.

 

Fig. 5 – Exemplos de Zoólitos.

 
Fonte Machado (2003)

 

O desenvolvimento do estilo de representação dos grafismos inspirados nos zoólitos foi baseado nos pictogramas primitivos. A característica que foi especialmente considerada é o traçado simples, espontâneo e irregular, realizado com materiais expressivos, como bastões de carvão. Isso é indicado no processo de geração de alternativas, que é apresentado na ilustração a seguir (fig.6).  


 
Fig. 6 – Geração de alternativas (grupo II).

Fonte Machado (2003)


 

Alguns exemplos dos grafismos desenvolvidos que foram relacionados para compor padrões gráficos são apresentados a seguir (fig. 7A, 7B e 7C). Os ajustes que determinaram a composição dos padrões foram desenvolvidos com o auxílio da computação gráfica. 
 
 
 

Fig. 7A – Animais marinhos                    Fig. 7B – Animais terrestres                     Fig. 7C – Aves.
 

Fonte: Machado (2003)
 

 

4. Interpretação e classificação dos grafismos produzidos

De acordo com a teoria estudada, os grafismos que compõem os padrões apresentados anteriormente (fig. 7A, 7B e 7C), são especificamente “lineares”, “propositais”, “caligráficos”, “figurativos” ou “icônicos” ou “pictográficos”. Assim, o conjunto de padrões constitui uma “iconografia” contemporânea, que é relacionada à outra “iconografia” ancestral, que foi anteriormente apresentada, sendo composta por zoólitos ou artefatos produzidos por populações sambaquianas da região costeira que, hoje, faz parte do estado de Santa Catarina.
Com relação ao processo de produção dos grafismos e padrões desenvolvidos, considera-se que, inicialmente, os grafismos devem ser indicados como “quirografias semidiretas”. Porém, os padrões foram desenvolvidos com auxílio da computação gráfica, caracterizando-se como “quirografias indiretas”.
Com relação à temática os grafismos e os padrões são “naturalistas”, porque representam figuras naturais. Apesar de não terem sido apresentados aqui todos os grafismos e padrões desenvolvidos, afirma-se que não foram desenhados seres tipicamente imaginários ou expressões puramente abstratas.
Com relação ao estilo, indica-se que, devido à simplificação gráfica das formas naturais por aproximação geométrica, a configuração ou formato das figuras denota um processo de idealização ou estilização das formas, que remete ao estilo “racionalista-simbólico” (fig. 3). Todavia, a expressividade dos materiais utilizados e uma certa informalidade na execução das linhas denotam investimento no estilo “emocional-expressivo (fig. 4).  A conjugação da simplificação das formas com a expressividade dos materiais e dos contornos lineares é aparentemente contraditório, mas é comum nos grafismos, desde as representações rupestres (fig.8)

 

 

Fig. 8 – Pintura paleolítica rupestre, com bisão (detalhe), gruta de Lascaux, França.
Fonte: Perassi (2008)


 
A sinuosidade rítmica das linhas e o arredondamento das formas dos grafismos e da composição dos padrões foram intencionalmente desenvolvidos para expressar o polimento e o arredondamento das formas dos zoólitos. Assim, por conta das composições ondulantes, rítmicas e dinâmicas, tanto as representações contemporâneas, quanto as ancestrais sugerem energia, movimento e vivacidade. Pois, as formas circulares assimilam os sentidos de diversas outras formas análogas, como “laços, alças, voltas, enfim, quaisquer linhas curvas sempre causam ao olhar a sensação de movimento” (Oliveira, 2009, p. 93). Essas características tornam “vivas” as representações, sugerindo a própria vida dos seres naturais.
Em síntese, com relação à expressividade linear e formal os grafismos desenvolvidos apresentam as seguintes características:

  • Simplicidade, espontaneidade e irregularidade no desenho das linhas;
  • Estilização, exagero, distorção e rotundidade na configuração da formas.

As linhas caligráficas cumprem a função de contorno e as formas não apresentam preenchimento próprio de cores e tons. As representações são “figurativo-naturais” e “gráfico-naturalistas”, mas denotam a interferência racional-idealista pelo processo de estilização, configurando em parte o estilo “racionalista-simbólico”. As formas podem ser consideradas “orgânicas”, porque são curvas e dinâmicas. Os grafismos e padrões são “propositais” e foram desenvolvidos em um processo que teve início com a produção de “grafismos quirográficos semidiretos” e foi concluído com “padrões propositais maquinais quirográficos indiretos”.
Considera-se que, além de “iconográficos”, os grafismos desenvolvidos são também “ideográficos” porque expressam idéias e conceitos referentes à cultura ancestral e ao regionalismo. Assim, caracterizam-se como parte de uma ideografia cultural, que advém das formas primitivas sambaquianas, como referências atualizadas da história regional.

 

5. Conclusões

As relações histórico-culturais significam formas, figuras e objetos, como símbolos culturais, agregando-lhes valor histórico e afetivo. Por outro lado, além das funções comunicativas, as representações gráficas exerceram, também, ao longo de sua história, as funções ilustrativas e decorativas. A aplicação de design de superfície no revestimento de produtos, com matizações, texturas visuais e padrões gráficos, tradicionalmente, é considerada como agregação de valor a esses produtos. Isso ocorre, especialmente, quando a diversificação estético-comunicativa dos revestimentos possibilita que um mesmo produto seja adquirido mais de uma vez, ampliando a oferta funcional com ofertas estético-simbólicas.
Os padrões de revestimento exploram valores lúdicos, estéticos e simbólicos e os agregam aos produtos. Os revestimentos originais evitam que os produtos sejam percebidos como “commodities”, especialmente em tempos de produção seriada e globalização. Com relação ao processo de globalização comercial, muitos produtos igualmente úteis são oferecidos indistintamente no mercado global. Diante disso, a distinção de produtos por meio de símbolos regionalistas permite sua identificação e a composição de sua marca com valores simbólicos agregados.
Os padrões de grafismos contemporâneos (fig. 7A, 7B e 7C), desenvolvidos a partir da iconografia ancestral dos zoólitos, servem como marcas regionais para serem utilizadas como revestimento de diversos produtos, como utensílios, objetos e estampas para materiais diversos, como tecido, plástico, cerâmica e vidro, entre muitos outros. Para tanto, os grafismos e padrões devem ser considerados na elaboração de projetos de Design, especialmente, no design de superfícies.
Neste texto, não foram apresentados todos os grafismos e padrões desenvolvidos, contudo, foram indicadas suas características, compondo figuras simples e dinâmicas, construídas com linhas de contorno para representar animais da região, com base em outras representações ancestrais.
O caráter gráfico-estilizado das figuras facilita a comunicação visual e sua simplicidade permite que sejam propostas diversas possibilidades de preenchimento das formas, seja com matizes cromáticos, variações tonais ou texturas visuais. As linhas também podem ser expressas em diversas cores e tonalidades.
As figuras apresentam um desenho contemporâneo, mas diretamente relacionado com elementos histórico-culturais, permitindo um “rastreamento” visual e cultural até suas bases arqueológicas e regionalistas. As características formais e figurativas habilitam os grafismos e padrões como elementos visuais tecnicamente apropriados para revestirem diversos produtos, dirigidos ao público infantil, juvenil ou adulto. Mas, esses mesmos elementos visuais também representam símbolos ou marcas regionais para projetos de Design. 

 

Referências bibliográficas

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Sousa, R. Machado, A. ; (2011) Estudos gráficos de artefatos arqueológicos na composição de marcas regionais para projetos de Design.. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (6) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt