Gramática Comparada da Representação Gráfica

Comparative Grammar of Graphic Representation

Sousa, R.

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este artigo apresenta considerações sobre os elementos gráfico-expressivos, como pontos, linhas, planos, manchas, cores, tonalidades e texturas, considerando também as associações estabelecidas entre estrutura gráfico-expressiva e as situações vividas no mundo material. Essas associações produzem denotações figurativas e conotações rítmicas, dinâmicas e espaciais, entre outras. Os elementos e as relações expressivas estabelecem três níveis de significação, o nível pré-figurativo, o nível-figurativo e o nível metafigurativo. O campo semântico da representação gráfica é estabelecido na interação desses três níveis, partindo das relações sintáticas que, por sua vez, são estabelecidas por princípios gramaticais. A gramática visual não se correlaciona diretamente com a gramática lingüística, mas a comparação se mostra didaticamente interessante. Por outro lado, a efetiva compreensão da gramática gráfico-visual requer o entendimento dos elementos e dos processos de representação e reprodução gráfica. Esses processos técnico-representativos foram desenvolvidos durante milhares de anos de cultura. Porém, o imediatismo, o ecletismo e a verossimilhança das representações decorrentes da computação gráfica provocam o desuso e o esquecimento de aspectos fundamentais do desenvolvimento das artes gráficas como, por exemplo, as diferenças entre as representações pictóricas, em “tom contínuo”, e as representações gráficas, “a traço”.

 

PALAVRAS-CHAVE: Linguagem Artística; Sintaxe Visual; Gramática Visual.

 

ABSTRACT: This article presents considerations on the expressive graphics elements, such as points, lines, planes, stains, colors, shades and textures, also considering the established associations between structure expressive graphic and the situations experienced in the material world. These associations produce figurative denotations and connotations rhythmic, dynamic and spatial, among others. The elements and expressive relations establish three levels of meaning, the pre-figurative, figurative and level-level metafigurativo. The semantic field of graphic representation is established in the interaction of these three levels, starting from the syntactic relations which, in turn, are established by grammatical principles. The visual grammar does not correlate directly with the language grammar, but the comparison shows didactically interesting. Moreover, the effective understanding of graphic-visual grammar requires an understanding of elements, processes of representation and graphic reproduction. These processes were developed technical representative for thousands of years of culture. However, the immediacy, the eclecticism and the likelihood of representations arising from computer graphics cause the disuse and neglect of basic aspects of the development of graphic arts, for example, differences between depictions in "continuous tone", and graphical representations , "the dash".

 

KEYWORDS: Arts Language; Visual Syntax; Visual Grammar.

1. Introdução

A representação gráfica bidimensional é, atualmente, o processo dominante na cultura visual da sociedade contemporânea, devido à hegemonia da computação gráfica, em que o “pixel” é o elemento original e a unidade mínima de composição visual.
Para os que nasceram nesta era digital, que são “nativos digitais” (PRENSKY, 2001), não há necessidade de distinção entre a representação pictórica ou fotográfica, tradicionalmente expressa por manchas, em “tom contínuo” (processos químicos), e a representação gráfica composta “a traço”, por retículas simuladoras do “meio tom” (processo físico). Pois, a linguagem da computação gráfica é expressa sobre uma retícula eletrônica de pixels, que simula automaticamente e perfeitamente a continuidade de tons e cores da realidade visual.
Os produtos da computação gráfica são, portanto, percebidos como parte da realidade, porque preexistem na cultura visual, que abriga e informa as novas gerações. A expressão “realidade virtual” quase que não é mais mencionada, uma vez que a virtualidade foi totalmente incorporada à realidade do homem urbano, nesta sociedade digitalmente globalizada.
Antes do advento do pixel como unidade mínima da representação gráfica, as retículas tracejadas ou pontilhadas foram grandes descobertas, porque expressam “a traço” os “tons contínuos”, que foram propostos primeiramente na pintura e depois na fotografia tradicional.  O histórico das técnicas e das linguagens da gravura artesanal e da indústria gráfica foi praticamente esquecido na cultura dos nativos digitais. Esses não precisam considerar as dificuldades vencidas desde os antigos carimbos de madeira, que antecederam às técnicas de impressão em metal e, também, às técnicas de litogravura e de offset.
Sem deixar vestígios relevantes, os pixels representam os elementos gráficos e também os pictóricos ou fotográficos. Isso provocou o esquecimento das dificuldades históricas, que foram arduamente superadas, com esforços para a obtenção de tecnologias e linguagens de transposição da imagem pictórica ou fotográfica para a imagem gráfica. Esses esforços permitiram o desenvolvimento da produção e da reprodução de imagens em série, primeiramente por meio das técnicas artesanais e, posteriormente por meio das tecnologias industriais.
O pixel se apresenta como um ponto sem “caráter”, porque a tecnologia digital possibilitou a utilização de um elemento visual mínimo, que assume diversas expressões cromáticas e tonais, de acordo com os comandos selecionados nas interfaces gráfico-digitais, que aparecem de modo dinâmico e interativo nas telas dos computadores. Além disso, as características momentâneas dos pixels são diretamente informadas às máquinas impressoras. Essas, automaticamente, são capazes de simular traçados ou manchas, por meio de uma infinidade de pontos de tinta, de acordo com as informações digitais que lhe foram enviadas.
É preciso considerar, entretanto, que a conquista dos modos de representação e de reprodução de imagens bidimensionais, que hoje são expressas corriqueiramente, por meio da computação gráfica, é decorrente de um exaustivo processo, cuja origem se estende ao passado pré-histórico, em tempos remotos e imprecisos. Dentro e fora das cavernas, paredes de pedra suportam e guardam as mais antigas representações bidimensionais, com estimativas de origem calculadas até cerca de quarenta mil anos a.C. A imagem a seguir ilustra esse fato, mostrando uma representação rupestre da gruta de Lascaux, cuja origem é estimada entre 15.000 e 13.000 anos a.C. (fig.1).

 

 

Fig.1 – Pintura paleolítica rupestre, com bisão,  gruta de Lascaux, França.

Fonte: Perassi, 2005.

 


A representação naturalista foi tradicionalmente determinada pelo uso da mancha pintada, expressando as diferenças visuais por contraste entre as áreas manchadas com tinta e as áreas intactas, que mantêm a visualidade original dos suportes. Todavia, a expressão gráfica tem origem na linha decorrente do sulco feito na pedra e em outras superfícies, “glifo”, ou no sinal pintado sobre diversos suportes, “grama” (GOMES, 1998).
A linha é o elemento mais característico da linguagem gráfica, porque sua invenção e sua utilização simplificaram o processo de representação gráfica bidimensional, definindo a configuração das figuras unicamente pelo contorno ou formato. A linguagem gráfica desconsiderou o contraste de áreas de cor para a configuração de formas, que é característico e necessário à pintura, conforme ilustram as imagens a seguir (fig. 2).        

Contraste de área.  

Fechamento por linha.      

Pintura.            

Desenho.

 

Fig. 2 –  Pintura paleolítica rupestre com cavalo e bisão, gruta de Lascaux, França.
Fonte: Perassi, 2005.
 

 

Na imagem anterior (fig. 2), a representação que sugere a cabeça e o dorso de um cavalo é configurada por contraste de área, compondo uma figura escura sobre o fundo um pouco mais claro. Já a representação que sugere a cabeça e o torso de um bisão é configurada por fechamento de linha. Na representação do bisão, a linha aparece como uma marca expressiva, mas sua função configurante assinala seu caráter abstrato ou artificial. O sentido abstrato ou idealizado da linha decorre da constatação da não existência de linhas circundando as imagens naturais. Portanto, é justo supor que a linha definidora da representação do bisão na imagem anterior (fig. 2) não fazia parte da imagem de origem do animal que inspirou o desenho. Por outro lado, as tonalidades escuras da pintura que representa o cavalo foram, provavelmente, percebidas diretamente no animal que motivou a representação.
Os exemplos apresentados na imagem acima (fig. 2) contemplam os dois modos básicos de representação bidimensional. Aqui é denominado de “modo pictórico-naturalista”, o primeiro modo baseado no contraste de área, que caracteriza as pinturas naturalistas e as fotografias tradicionais. O segundo modo, denominado de “modo gráfico-idealista”, é determinado pelo fechamento de linha, que caracteriza os desenhos configurados pela abstração linear.

 

2. Conceitos e elementos da representação bidimensional

A linha é um conceito expresso nas formas ditas lineares, nas quais a medida do comprimento é considerada a dimensão mais significativa, com relação às outras duas dimensões, que são altura e profundidade. Os aspectos que caracterizam conceitualmente a linha são as funções de demarcação espacial e de configuração. Portanto, uma forma linear, cuja dimensão de comprimento se destaca sobre as outras dimensões, expressa o conceito de linha quando é percebida como elemento de demarcação espacial ou configuração. No caso das representações gráficas, dos desenhos propriamente ditos, as linhas são elementos de expressão de formas e figuras.
A primeira imagem a seguir (fig. 3) apresenta uma forma linear ou uma “linha forma”, cujo poder expressivo é dominante, uma vez que não cumpre uma outra função específica de demarcação do espaço ou de configuração de forma. A segunda imagem (fig.4) apresenta uma linha propriamente dita, devido à função de demarcação ou de separação de duas áreas distintas dentro do retângulo cinza. A terceira imagem (fig. 5), também, apresenta uma linha que foi fechada sobre si mesma para expressar a forma elíptica sobre o plano.

 

Fig. 3 – Forma linear.           Fig. 4  – Linha de demarcação.                 Fig.5  – Linha de configuração.

 

 

Em síntese, o conceito de linha é expresso por formas lineares, cuja dimensão de comprimento é privilegiada, servindo para demarcar espaços, indicar percursos ou configurar formas. As linhas irregulares e desordenadas propiciam as representações mais naturalistas e expressivas, presentes na maior parte da História da Arte.  As linhas retas são organizadas no plano, como horizontais, verticais ou diagonais, relacionando-se como paralelas ou ortogonais e indicando seu caráter formalista e regular. As linhas geométricas retas ou curvas são ainda mais ideais ou abstratas do que as linhas mais sinuosas e expressivas. Além das representações das imagens naturalistas, as linhas possibilitam estilizações e abstrações, estabelecendo as relações simbólicas das escrituras ideográficas e fonéticas (fig. 6). Além disso, as estilizações decorrentes do ordenamento geométrico dos processos de representação permitiram a estruturação das linguagens técnico-projetivas.

 

 

Fig. 6 –  Exemplos de caracteres da escrita  fonética e da escrita pictográfica egípcia.

Fonte: Perassi, 2008.

 

A abstração linear foi relacionada ao “ponto” e ao “plano”, que são elementos expressivos, mas exercem igualmente funções conceituais no contexto da linguagem gráfico-geométrica. Como elemento geométrico, o ponto é demarcado pela interseção de duas retas, sendo dinamicamente relacionado à linha, que também considerada como registro do deslocamento de um ponto ou como um ponto em movimento. Como elemento da linguagem visual, o ponto é considerado como a menor unidade visível.
O ponto gráfico é a expressão física de um elemento conceitual e pode ser expresso ou representado por qualquer sinal visível, desde que esse sinal seja considerado como um mínimo indivisível. O ponto não é considerado por suas dimensões ou por sua configuração, mas por sua condição de unidade mínima.
O plano gráfico é a expressão de um elemento geométrico concebido como uma secção bidimensional do espaço, cuja terceira dimensão, que determinaria sua profundidade, é teoricamente desconsiderada. Sua existência ideal é relacionada ao deslocamento de uma linha, cuja trajetória estabelece o plano, propondo uma idéia diretamente relacionada ao deslocamento de um ponto como a origem de uma linha.  A linha é um ponto em movimento e o plano é uma linha em movimento.
Tendo em vista a representação bidimensional e a linguagem visual, o plano é considerado e representado como uma mancha uniforme, na qual não se percebe variações cromáticas ou tonais. Essa planificação assinala seu caráter racional e abstrato, isolando sua aparência da visualidade natural, porque as superfícies das formas naturais são constantemente demarcadas por variações cromáticas e tonais. Por outro lado, a “mancha” é o elemento determinante da linguagem pictórica ou fotográfica, porque apresenta variações cromáticas e tonais.
Historicamente, a linguagem gráfica adotou o ponto como elemento básico, porque as retículas de pontos impressos, com distanciamentos diferenciados e cores diversas, possibilitaram a representação de manchas que variam em cor e tonalidade. A variação tonal é sugerida pelas diferenças no tamanho e no distanciamento dos pontos, interagindo com a tonalidade própria do suporte de impressão que, geralmente, é clara.   
No universo abstrato da linguagem gráfica, o plano é o fundo por excelência, enquanto o ponto é a unidade visual mínima, cuja repetição seletiva em retículas permite a representação de elementos visuais, sejam esses as manchas, as linhas ou os outros planos. A primeira imagem a seguir (fig. 7) representa o plano geométrico caracterizado por sua superfície uniforme sem variações cromáticas ou tonais. A segunda imagem (fig. 8) representa uma mancha com variações tonais. A terceira imagem (fig. 9) mostra uma retícula com variação no distanciamento de pontos pretos interagindo com a tonalidade branca do fundo, para sugerir diversas tonalidades e compor a representação figurativa de parte de um rosto humano.

 

Fig. 7 – Plano geométrico.                            Fig. 8 – Mancha.                         Fig. 9 – Retícula gráfica.

 

Fonte das Imagens Perassi (2006)

 

 

3. A representação bidimensional

Acredita-se que a expressão no plano e a representação bidimensional tenham sido decorrentes da expressão espacial e da representação tridimensional. O desenvolvimento das noções de forma e a concepção das idéias de pontos, linhas e planos foram propiciadas pelo contato com coisas individuais, como pedras ou gravetos, e pela manipulação de substâncias plásticas, como o barro. A idéia de ponto como unidade pode ter decorrido da visão de pedrinhas e de grãos, ou da manipulação de bolotas de argila. O conceito de linha deve ter sido decorrente da relação estabelecida entre os primeiro riscos acidentais e as formas compridas, como as hastes dos vegetais. Os riscos na terra e em outras superfícies induziram as idéias de suportes e de planos.
Do mundo material e tridimensional, as ações migraram para o campo da representação bidimensional. Na representação da gruta de Lascaux, composta mais de uma dezena de milhares de anos a.C., os quatro elementos da linguagem visual bidimensional estão reunidos na representação do bisão, que foi mostrado na primeira imagem deste texto (fig. 1). Apesar de ser configurado por linhas, o desenho sobreposto a outras representações incorporou parte da mancha de uma representação anterior. No infográfico a seguir (fig. 10), esses elementos são didaticamente separados.

 

Fig. 10 –  Ponto, linha e mancha sobre suporte bidimensional. Pintura paleolítica rupestre, com bisão, gruta de Lascaux, França.

Fonte: Perassi, 2005.

 

O reconhecimento do suporte e o processo de abstração e idealização desse elemento induziram o conceito de plano, como suporte idealizado. Assim, há quatro elementos básicos que determinam a expressividade da linguagem bidimensional: 1- ponto, 2- linha, 3- plano e 4- mancha, como configurações elementares, cuja reunião e ordenação propiciam a representação de todas as coisas visualmente percebidas e imaginadas.
No decorrer da história da representação bidimensional, a organização desses elementos evoluiu até à perfeita verossimilhança com as sensações decorrentes da observação direta do mundo natural. Isso foi possível por meio de representações de volumes e de espacializações, em que as variações tonais representam a luz e as sombras. Além disso, houve os estudos e a utilização de recursos gráfico-lineares, para sugerir os efeitos de perspectiva.
Nas artes gráficas, o modelo de reprodução de imagens mais primitivo é o carimbo de madeira da xilogravura, o qual é entintado para imprimir as xilografias, compondo manchas sobre os suportes. A linguagem gráfica é binária desde sua origem, sendo determinada pelo cheio e pelo vazio ou pelo entintado e pelo limpo ou por “um e zero”. Por princípio, as técnicas e linguagens de reprodução gráfica não produzem a mancha que, nos processos de impressão, é decorrente de acidentes ou de estratégias de representação. Portanto, nas linguagens gráficas de reprodução em série os elementos básicos são apenas três: 1- ponto, 2- linha e 3- plano. As manchas com variações tonais são representadas por retículas e as manchas com variações cromáticas são representadas por superposição e justaposição de retículas, decorrentes de diversas impressões coloridas sobrepostas. As retículas gráficas podem resultar de hachuras lineares ou, como já foi dito, da justaposição dos pontos ordenados, com variação de tamanhos e de distanciamento (RABAÇA e BARBOSA, 1998).
A representação bidimensional gráfica é composta apenas por dois processos básicos, por contraste de área ou por fechamento de linha, como foi proposto anteriormente no item “introdução”. Mas, os pontos podem ser organizados para representar linhas e, também, áreas planas ou manchadas. Por isso, o ponto, e mais recentemente o pixel, são os elementos primordiais da representação gráfica bidimensional.
Além das cavernas pré-históricas (fig. 11), outros suportes e linguagens, como os mosaicos medievais (fig. 12) e as pinturas neo-impressionistas (fig. 13), participaram do processo evolutivo do pontilhismo gráfico e gráfico-digital.

 

Fig. 11 – Mão, registro pré-histórico - jato de tinta soprado pela boca.

 


Fig. 12 – Mosaico medieval (detalhe) Basílica de São Vital de Ravena.

Fonte das imagens, Perassi (2005).

 

 

Fig. 13 – “Banho em Asniéres”, pintura pontilhista, de George Seurat (séc. XIX).

 

 

4. Estilos e técnicas de representação bidimensional

Há uma grande diversidade estilística expressa nos registros que compõem a história da representação bidimensional. Porém, nas imagens figurativas e nas imagens abstratas, ou seja, no modo de representação pictórico-naturalista ou no modo gráfico-racionalista é possível identificar três estilos básicos e recorrentes, cujas variações e hibridismos possibilitaram toda a diversidade conhecida. Esses estilos básicos são aqui denominados de “visual-naturalista”, “racionalista-simbólico” e “emocional-expressivo”.
O estilo visual-naturalista é mais recorrente na pintura acadêmica e na fotografia. Como foi dito anteriormente, as representações pictóricas são compostas por manchas e configuradas por contraste de área, assemelhando-se ao modo como os seres humanos percebem as coisas ao seu redor. Por isso, a linguagem pictórica promove representações muito verossímeis (fig. 14), assemelhando-se com as imagens compostas pela observação direta das coisas do mundo. A dissimulação das técnicas de representação, do processo de fatura e do material expressivo caracteriza as obras naturalistas. Todavia, há representações gráfico-naturalistas, que são compostas por linhas mais sutis e com ritmos sinuosos, ou por retículas gráficas, que representam as manchas e sugerem a linguagem pictórica. Entre as imagens não figurativas ou abstratas, há aquelas que sugerem ritmos orgânicos, além de cores, de tonalidades e de texturas ou outros aspectos da natureza, essas obras não figurativas também denotam o estilo naturalista.
O estilo racionalista-simbólico é recorrente no desenho, em especial nas representações geométricas da linguagem técnica, porque tende a simplificar e organizar geometricamente as formas naturais (fig. 15). A estilização geométrica ou com tendência geométrica é a principal característica do estilo racionalista-simbólico. A geometria é dominante no desenho técnico, mas as obras artísticas com tendência geométrica ou compostas com figuras geométricas, também, expressam o estilo simbólico em composições figurativas ou abstratas.
O estilo emocional-expressivo rompe igualmente com a representação naturalista, mas em sentido oposto ao racionalismo. Assim, ao invés de simplificar, reduzir e organizar a matéria e as formas, as obras expressivas apresentam acúmulos de matéria e de formas, sem ordenação rígida ou mesmo em desordem. A expressão das técnicas e o gestual do artista não são dissimulados, como nas obras naturalistas. Ao invés disso, as técnicas e o gestual são ressaltados nas obras expressivas (fig. 16). As deformações e os ritmos mais compulsivos caracterizam o estilo expressivo, que pode ser composto por manchas ou por linhas, em obras figurativas ou abstratas.  

 

 

Fig. 14 – Estilo Naturalista.                  Fig. 15 – Estilo Simbólico            Fig. 16 – Estilo Expressivo.


Fonte das imagens Perassi (2001).

 

Além de serem percebidos em obras de arte, os mesmo estilos básicos também são propostos na criação de símbolos, como os que são apresentados nas imagens anteriores (fig. 14, 15, 16), e ainda podem ser reconhecidos nas imagens em geral.
É oportuno esclarecer que todas as imagens gráficas são ou podem ser percebidas como símbolos, portanto, as imagens apresentadas como exemplos neste texto são simbólicas, sem nenhuma exceção. Porém, há símbolos cuja condição simbólica é dissimulada, por meio da representação mimética ou verossimilhante. Há outros símbolos que exortam sua materialidade, submetendo a referência simbólica à expressão. Há ainda os símbolos genuínos, cuja materialidade foi dissimulada e a relação estabelecida com a realidade visível é muito mais convencional e interpretativa do que imitativa.
As imagens naturalistas (fig.14) são símbolos dissimulados, que foram produzidos para sugerir as sensações decorrentes da percepção direta dos objetos, impressionando o olhar. Por outro lado, as imagens expressivas (fig. 16) são símbolos com forte lastro subjetivo e predominantemente auto-referentes, porque ressaltam sua materialidade e, também, as técnicas e os registros das ações que a produziram. Isso evoca a intersubjetividade e a comunicação estética, estimulando a emoção. Por sua vez, as imagens simbólicas (fig. 15) são símbolos que exaltam essa condição, na medida em que apresentam formas idealizadas, com tendências geométricas (PANOFSKY, 1991). As relações simbólicas com a realidade visual são interpretativas e, por meio da precisão e da impessoalidade, seu modo de representação dissimula os registros técnicos e gestuais, escondendo sua materialidade.
Em síntese, as representações naturalistas são identificadas com as sensações visuais, enquanto as representações simbólicas são associadas aos esquemas lógicos, produzidos pela mente. As representações simbólicas e as expressivas se afastam do modelo natural. Todavia, as expressivas investem na linguagem dramática, indicada pelos vestígios gestuais e excessos materiais, ressaltando os aspectos emocionais. As simbólicas ressaltam a linguagem convencional, priorizando a simplificação geométrica e a composição lógico-racionalista.
As técnicas e as linguagens artísticas interferem nos estilos de representação. Por isso, na tradição ocidental a pintura e as tintas, especialmente as tintas a óleo, serviram mais especificamente para o desenvolvimento das representações naturalistas. Por sua vez, os estiletes, os lápis e outros artefatos para o desenho serviram mais às representações predominantemente comunicativas ou simbólicas. A informalidade e a expressão gestual no uso de tintas e de outros materiais propiciaram as representações mais expressivas.
Atualmente, por meio dos recursos propostos pela computação gráfica, o computador e outros artefatos eletrônico-digitais são ferramentas que permitem a produção e a edição de representações, simulando as mais diversas técnicas, linguagens e estilos. Portanto, a computação gráfica propõe ferramentas e expressões universais que, para o público em geral, dispensam a mediação de especialistas, trazendo os processos de representação gráfica ao domínio do usuário. As referências e nomenclaturas tradicionais, como pintura, desenho, desenho técnico, gravura, fotografia ou videografia e seus atributos ainda servem, como parâmetros de qualificação e comparação das atividades e dos produtos da computação gráfica. Ao longo do tempo, a nominação e toda a organização teórica dos elementos, dos procedimentos e das categorias da representação visual possibilitaram, na atualidade, a ordenação lógica necessária à composição de interfaces gráfico-digitais.
Em resumo, são dois (2) elementos básicos de expressão, a linha e a mancha, os quais definem dois (2) modos básicos de representação, o pictórico-naturalista e o gráfico-idealista. Esses dois elementos básicos podem ser representados por pontos ou pixels, que são considerados elementos mínimos. Por meio de pontos organizados como representações de linhas e de manchas, ou pelo uso direto de linhas e de manchas, é possível a expressão ou a representação de cinco (5) aspectos ou valores das formas visíveis, que são cores, tonalidades, texturas, volumes e configurações. A organização desses aspectos ou valores permite também a expressão ou a representação das formas visuais bidimensionais. Em decorrência da organização dessas formas, ainda, é possível a representação das figuras naturais ou ideais ou a composição de arranjos visuais abstratos. Tudo isso compõe a sintaxe visual (DONDIS, 2007), com base na apresentação ou na organização da matéria visual por elementos compositores de formas e de figuras expressivo-representativas.

 

 

5. A gramática visual

No nível figurativo das representações, cada figura representada indica um substantivo. As relações entre figuras e as características das figuras propõem adjetivações. As atitudes das figuras, com relação ao contexto e às outras figuras, indicam verbos e advérbios. Isso propõe a imagem como uma citação descritiva e às vezes narrativa, que pode substituir ou ser substituída por frases escritas.  Tendo em vista sua composição figurativa, as imagens a seguir (fig. 17, 18) podem ser parcialmente substituídas pelas frases apresentadas ao lado de cada uma delas. A palavra “parcialmente” é justificada, porque há nas imagens um número maior de figuras e de elementos do que os indicados nas frases. Não foram citados nas frases os elementos da paisagem ou do entorno das figuras humanas como, por exemplo, as auréolas que representam santidade.

- Mulher (substantivo) com                                            - Mulher (substantivo) com
  roupas (substantivo) antigas (adjetivo)                           roupas (substantivo) antigas (adjetivo)
- segura  (verbo)                                                              - segura  (verbo)
- criança (substantivo)                                                     - criança (substantivo)
- vestida (adjetivo)                                                           - nua (adjetivo)
- no colo (advérbio).                                                        - no colo (advérbio).

 

Fig. 17 – Cimabue (Séc. XV). “Virgem com Criança no Trono” (detalhe).

Fonte: Perassi, 2005.

 

 

Fig.18 – Rafael Sanzio (Séc. XVI). “Madona e Criança”.


Fonte: Perassi, 2005.

 

Atualmente, os aspectos considerados mais importantes para a gramática visual são determinados no nível pré-figurativo (WÖLFFLIN, 1989), pelas diferenças muito significativas nos modos de representação das imagens (fig. 17, 18). A imagem anterior, que é vista à esquerda do espectador, (fig. 17) foi predominantemente composta no modo gráfico-idealista e a imagem vista à direita (fig. 18) foi composta no modo pictórico-naturalista. No nível pré-figurativo, as imagens figurativas ou abstratas são compostas por pontos, linhas, planos, manchas e formas, que são elementos substantivos. Por outro lado, as cores, as tonalidades e as texturas são elementos adjetivos. Assim, pode-se dizer “a linha escura” ou “o plano amarelo”, entre outras possibilidades de adjetivação.

A associação mental entre as situações vividas no mundo material e as relações estabelecidas entre os elementos expressivos das imagens planas, como linhas e cores, promove os sentidos intelectuais da composição. Isso estabelece o nível metafigurativo, propondo ao espectador sugestões de ritmo e de outros efeitos dinâmicos, de profundidade ou de espacialização, de proporcionalidade e de equilíbrio visual, entre outras possibilidades, como os sentidos de unidade ou de variedade na composição da imagem.

 

Fig. 19 – Ritmo, proporção e espacialização. Doesburg Ilustração de capa Revista De Stijl.

 

 

Fig. 20 – Ritmo, proporção, profundidade e dinamismo. Bridget Riley, “Movement in Squares”.


Fonte das imagens Perassi (2007)

 

 

Fig. 21 – Equilíbrio, variedade, expansão. Imagem que ilustra o equilíbrio axial pleno.

 

 

As relações entre os elementos expressivos e os sentidos decorrentes das associações com as situações vividas determinam outras adjetivações para os substantivos propostos na gramática visual. Por exemplo, “linha sinuosa”, “linha quebrada” ou “forma rebatida”, entre outros. As mesmas relações também estabelecem os verbos e os advérbios. Por exemplo, “o ponto se movimentou”, “a linha quebrou neste ponto”, “o ponto próximo”, “o plano mais distante”, “as manchas superpostas”, entre outros. Uma pintura abstrata de Kandinsky (fig. 22) evidencia o repertório pré-figurativo. Esse foi o artista que mostrou ao mundo o sentido da gramática pré-figurativa, no âmbito da sintaxe visual que é compositora da imagem. Da codificação na organização sintática, decorrem os sentidos figurativos, por analogia visual com seres e objetos, e os sentidos metafigurativos de dinamismo e de espacialização, entre outros.
Como foram aqui apresentados (fig. 17 e 18), tradicionalmente, os discursos pictórico-figurativos são compostos por imagens que se reúnem em enunciados do tipo “mulher segura criança no colo”. Esses discursos são focados no conteúdo, por exemplo, “mulher” e “criança”, que são visualmente representadas por figuras composta por manchas de tinta.
Depois de Kandinsky e do advento da pintura formalista-abstrata (fig. 22), além das manchas, a tinta expressa e destaca outros elementos, como pontos, linhas e planos, que aparecem como figuras autônomas, com expressividade própria, além de eventualmente participarem na composição de formas geométricas e de outras abstrações. Esses elementos visuais são organizados para sugerir movimentos no campo estático-bidimensional da tela. Os supostos movimentos dos grafismos e as variações tonais e cromáticas na superfície do plano da tela, constantemente, sugerem também a ilusão de profundidade. A descoberta das possibilidades expressivo-significativas da pintura abstrata foi, portanto, o “divisor de águas” entre a tradição conteudista acadêmico-figurativa e a estética formalista da pintura modernista.

 

Fig. 22 – Kandinsky, “Amarelo-vermelho-azul” (1925).

Fonte da imagem Perassi (2005).

 

Na tradição acadêmica, o conteúdo prevalece sobre a forma, porque a representação é focada na reprodução da aparência do modelo. Na cultura modernista, predomina a relação entre forma e função. Na maior parte das pinturas modernistas, o modelo é um pretexto para a expressão metalingüística de técnicas, linguagens e estilos artísticos, prevalece a forma compositora sobre o conteúdo temático. A pintura acadêmica dissimula técnicas e linguagens, ressaltando as figuras e suas partes, como “mulher”, “criança”, “cabelos”, “roupas”. A pintura modernista aprofundou seu olhar até à estrutura de expressão, compondo uma gramática visual a partir dos pontos, das linhas, dos planos, das manchas e, também, das cores, das tonalidades e das texturas desses elementos.

 

6. Conclusões

Primeiramente, os processos de reprodução gráfica e, posteriormente, a digitalização de imagens credenciou o ponto e o pixel como elementos mínimos e básicos da representação bidimensional. O pixel é o ponto identificado e mutável, que pode ser acionado para expressar no vídeo do computador diferentes cores e intensidades luminosas. Essas cores e intensidades são reproduzidas pelas impressoras, por meio de pontos coloridos impressos em um suporte.
Um conjunto de pontos ou pixels é capaz de representar manchas, planos e linhas. Esses elementos são organizados para representar todas as figuras percebidas e imaginadas, dentro dos parâmetros do visível. A despeito de toda evolução tecnológica que sofisticou as ferramentas de composição e reprodução das representações bidimensionais, essas ainda são compostas pelos quatro elementos básicos. Os mesmos que foram identificados nas pinturas rupestres, planos, manchas, linhas e pontos.
Para compor todas as representações bidimensionais, ainda hoje, os quatro elementos só podem e devem ser organizados de duas maneiras, compostas de modos distintos ou conjugados. A primeira é caracterizada pelo contraste de área e a segunda pelo fechamento de linha. Mudaram-se as técnicas e as tecnologias, mas a base compositora da representação bidimensional e da linguagem visual ainda é milenar.
A evolução tecnológica permitiu que a produção de representações bidimensionais fosse apoiada e mediada pela computação gráfica. Isso assegura qualidade técnica, dispensando a destreza manual que foi anteriormente requerida e cultivada, O tempo de produção também foi muito reduzido, permitindo a experimentação e a verificação de inúmeras possibilidades compositoras de refinamento do projeto final.
Por outro lado, além da evolução tecnológica houve também uma evolução perceptiva, com relação à própria representação bidimensional. O final do século XIX é o marco de consolidação da cultura industrial que se tornou hegemônica na primeira metade do século XX (WICK, 1989). Esse período modernista evidenciou os elementos pré-figurativos da representação visual, indicando que “o meio é a mensagem”, como ficou explicitado por McLuhan (1974). Nessa nova perspectiva, a urdidura da representação passou a ser percebida como parte da mensagem visual ou como a própria mensagem. Assim, os elementos expressivos que compõem a sintaxe bidimensional, como pontos, linhas, planos, manchas, tonalidades, texturas, formas e cores, são percebidos como elementos gramaticais da linguagem visual.  

 

Referências bibliográficas

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Sousa, R. ; (2010) Gramática Comparada da Representação Gráfica. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (6) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt