Inovação tecnológica e o ensino em artes visuais

Technological innovation and teaching in the visual arts

Maciel, R.

UNIVALE - Universidade Vale do Rio Doce

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Este trabalho propõe uma reflexão quanto às possibilidades de integrar as mais tradicionais técnicas artísticas à tecnologia contemporânea no ensino e na produção em artes visuais. Discute o ensino em Artes Visuais frente às novas possibilidades tecnológicas e o universo visual cotidiano.  A importância de se renovar as propostas de ensino valorizando as diversas formas de expressão artística. Preparar estudantes para a leitura, recepção e produção de arte e comunicação. A discussão perpassa a importância de se apropriar das tecnologias contemporâneas sem desprezar aquelas de lhe deram origem. Buscar nas formas tradicionais de arte e nos processos artesanais de produção os princípios que regem a arte e a comunicação em suas diversas tipologias e suportes. A opção de trabalhar com as possibilidades interativas entre técnicas tradicionais artísticas e recursos tecnológicos contemporâneos partiu do interesse pessoal e da vivência nestes últimos anos de docência no ensino superior de Design Gráfico.


PALAVRAS-CHAVE: Artes Visuais; Ensino; Tradição; Tecnologia..

 

ABSTRACT: This work proposes a reflection about the possibilities to integrate the most traditional artistic techniques to the contemporary technology in education and in the production of visual arts. Discusses the teaching of Visual Arts related to the new technological possibilities and the visual universe of the everyday life. The importance of renewing the proposals of teaching, valuing the various forms of artistic expression. Prepare students for the reading, reception and production of art and communication. The discussion pervades the importance to appropriate of the new contemporary technologies not despising those that originated them. Chase in the traditional forms of art and craft processes of production the principles that govern the art and the communication in their many typologies and supports. The option of working with the interactive possibilities between traditional art techniques and contemporary technological resources came from the personal interest and the experience in recent years of teaching in the Graphic Design graduation curse.

 

KEYWORDS: Visual Arts; Education; Tradition; Technology.

1. Introdução

As tecnologias contemporâneas são alvo de estudos para muitos pesquisadores na área da educação. Em especial nas artes visuais, que extrapolam as galerias de arte e museus, e que abrangem partes do nosso cotidiano. Os avanços tecnológicos estão visivelmente presentes e são determinantes na forma de expressão artística, alcançando vários níveis, do amador cotidiano, do mercadológico, ou da expressão artística por si mesma.
O trabalho do arte-educador se intensifica na medida em que se mostra necessário preparar os estudantes para receber as informações veiculadas nos meios de comunicação e que fazem parte do dia a dia das pessoas. A leitura do mundo através dos elementos das artes visuais, ou o entendimento e a capacidade de decodificação dessas imagens estimula uma conscientização tanto no que diz respeito à recepção quanto à produção das mesmas, influenciando toda a comunicação visual.
Os meios de comunicação tendem a ser mais integrados, em especial a internet que pode reunir em uma só mídia elementos de linguagens diversas. Cada meio de comunicação vem adequando sua linguagem para a convergência digital. Texto escrito e falado, música, vídeo, fotografia e ilustrações compõem produtos e apresentam informações onde o usuário pode navegar encontrando diferentes opções. Com o avanço tecnológico as equipes tendem a ser cada vez mais multidisciplinares e as fronteiras entre arte, design e comunicação são cada vez menos definidas.
Esta convergência digital, tão explícita na vida prática, traz para o educador o desafio de acompanhar a linguagem atual unificando conteúdos e proporcionando aos estudantes uma formação ampla e integrada preparando-os para serem emissores e receptores de todos os tipos de mensagens diante das potencialidades das mídias contemporâneas entre o tradicional e o novo.

 

2. Evolução tecnológica e sociedade

O processo de avanço da tecnologia é acumulativo e não substitutivo como muitas vezes é discutido. Não há invenção que não derive de outras descobertas. Não há processo que não resgate atitudes do passado, apresentando-se em um novo formato. Um exemplo são os retratos pela fotografia e a troca de cartas suplantadas pela democratização do telefone, hoje revisitadas pelas redes sociais. McLuhan [2], em entrevista citada no livro Teoria da Imagem (1979) aponta três efeitos genéricos quanto aos resultados da tecnologia: o primeiro, um acelerador de processos; o segundo, depreciador; e o terceiro cumpre o papel de recuperar coisas esquecidas ou abandonadas.  A denominação “novas tecnologias” é um tanto perigosa, visto a velocidade em que as tecnologias se renovam e se incorporam. O que chamamos de novo hoje pode já ter outra dimensão amanhã.
Não é de hoje que a tecnologia provoca mudanças na sociedade. Também não são novos os debates e discussões sobre seus reflexos na vida do homem. Entre previsões desastrosas, superestimação e subestimação de tecnófobos e tecnófilos[3], cada geração sobrevive às mudanças tecnológicas sem mesmo se dar conta de que quase tudo que vivemos e experimentamos atualmente é fruto de invenções e tecnologias hoje já transformadas por outras mais inovadoras. “O homem transita culturalmente por intermédio das tecnologias”, diz Urânia Maia (2008) que faz uma abordagem quanto à nomenclatura de determinadas fases históricas em função das descobertas tecnológicas do homem: Idade da pedra, do bronze, do ferro.

 

3. Arte e tecnologias contemporâneas

Em meio às transformações culturais provocadas pelas tecnologias contemporâneas, a arte, como reflexo instantâneo da cultura e ao mesmo tempo sua produtora vem se apresentando em novos formatos, novos suportes e novos conceitos. Há um pensamento de que a arte está sempre à frente do seu tempo. Buscando novas formas de expressão, o artista sai à frente explorando as tecnologias e abre, muitas vezes, caminhos para profissionais de outras áreas ao explorar linguagens, formatos e suportes novos. Sob este ponto de vista, podemos nos referir ao cinema e à fotografia e às várias formas de expressão que tardiamente foram reconhecidos como arte. Os artistas não foram seus inventores, mas exploradores de possibilidades expressivas. Eisner (1973) já afirmava muito antes do surgimento dos recursos tecnológicos hoje disponíveis que “artistas e escritores buscam novos meios artísticos para exprimir novas realidades” (p. 233).
Na atualidade, as formas de expressão artística são muitas e recebem denominações que ainda não se pode classificar devido à sua contemporaneidade. É a arte feita a partir dos recursos digitais. Será preciso um tempo maior para analisá-la e estudá-la em seu conjunto e contexto contemporâneo.  Sob denominações diversas, as artes eletrônicas/digitais estão cada vez mais presentes em nosso meio e é preciso considerá-las estudando suas ramificações e especificidades. Arlindo Machado [4] em seu artigo Arte e tecnologia no Brasil: uma introdução (1950-2000) faz um questionamento: “Por que o artista de nosso tempo recusaria as tecnologias contemporâneas?”. Machado traz ainda algumas possíveis denominações de tipologias de arte sobre as quais se aglutinam os grupos de artistas que atuam com as artes tecnológicas. São elas: “arte-comunicação, arte em meios digitais, arte holográfica, arte na rede, hibridismos/intermídias, interação arte-ciência, música eletroacústica, poesia e novas tecnologias, vídeo-arte e vídeo instalação”.

 

4. Tecnologias contemporâneas e o ensino de arte

Diante dessa nova realidade no campo das artes é preciso que instituições culturais, que também tem o compromisso com o ensino, revejam seus programas e projetos de ensino/aprendizagem. Tanto no que diz respeito ao conteúdo a ser trabalhado em artes como em relação aos recursos utilizados para esse fim. Em ambos os casos é preciso incorporar as tecnologias contemporâneas. Não há como ignorar a realidade e o contexto atual. A arte vive uma nova realidade e explora novos meios embora ainda nos deparemos com uma situação inadequada no ensino das formas de arte que nos apresentam até então. Professores despreparados, instituições desinteressadas e a própria história do ensino das artes, em especial no Brasil, são reflexo de situações políticas e de descaso. Há ainda o desconhecimento do público em geral em relação à própria arte, mesmo a mais tradicional e clássica. Eisner (1973) nos mostra que esse não é um assunto novo. Segundo ele, “a discrepância é alarmante. De um lado, a necessária busca de novos meios para exprimir novas realidades, [...] de outro lado, massas de seres humanos para os quais mesmo a velha arte é algo de inteiramente novo, seres que ainda não aprenderam a distinguir o bom do ruim, seres cujo gosto artístico ainda está por se formar, cuja capacidade de apreciar as qualidades artísticas precisa ser desenvolvida” (p. 233-234).
Na opinião de Terezinha Franz [5] em seu artigo Mediação cultural, artes visuais e educação, a “Arte é uma das áreas que mais vem sofrendo os impactos da revolução tecnológica. Por este motivo, não só a prática artística como a arte-educação vem enfrentando grandes desafios”. Ela discute as dificuldades que os profissionais dessas áreas têm diante de dúvidas e questões que necessitam de respostas, mas não são freqüentes as oportunidades efetivas de avaliar sua própria prática e refletir com profundidade sobre ela, enquanto trabalho. Franz ainda supõe que “isso acontece, em grande parte, pela sensação de isolamento dos arte-educadores, geralmente em pouco número nas instituições educacionais”. Mas o uso da própria tecnologia, a internet, pode ser ferramenta de troca e aprendizagem de professores a partir da disponibilização de projetos, e processos já vivenciados. O espaço da internet aponta para o ensino da arte contemporânea de forma colaborativa, em parceria, coletiva e intercultural. Pierre Levy (1999), atenta para os novos paradigmas de aquisição e de constituição de saberes. Segundo o autor, a direção mais promissora, que por sinal traduz a perspectiva da inteligência coletiva no domínio educativo, é a da aprendizagem cooperativa.

 

5. Tecnologia e cultura visual

Há ainda a influência dos meios de comunicação de massa e as experiências do cotidiano tanto do estudante quanto do professor. Num processo contextualizado de ensino aprendizagem deve se considerar os avanços tecnológicos na comunicação e sua influência na vida das pessoas. O mundo das imagens é cada vez mais intenso e sua decodificação cada vez mais complexa. Conseqüentemente, capacitar para tal decodificação é cada dia mais urgente. As tecnologias estimulam a criação de uma nova cultura, de um novo modelo de sociedade. Uma sociedade caracteriza-se pela velocidade de permanente atualização do homem para acompanhar essas mudanças (MAIA, 2008).
Em um trabalho educativo em arte deve-se focalizar também as mídias, o universo tecnológico, as mais recentes produções de design e de comunicação visual, musical ou outras que componham nossa ambiência. [...] E como nosso objetivo é a ampliação dos saberes dos jovens em arte, pode-se procurar desvelar os componentes artísticos através da leitura, apreciação, interpretação e análise mais crítica dessas produções comunicativas (FERRAZ; FUSARI, 2002, p. 44).
Em contrapartida, as demais áreas do conhecimento, especialmente aquelas ligadas à comunicação, design e área afins, devem se apropriar dos conceitos de arte na formação de seus estudantes. A eles cabe a responsabilidade no uso dessas imagens para comunicar, informar a sociedade.
Siqueira (2001) cita Humberto Eco quando afirma que as imagens têm um poder de transformar idéias individuais em idéias gerais e afirma que “em uma comunicação e educação puramente visual é mais fácil programar estratégias persuasivas que reduzem nosso poder crítico.” O autor defende também que a comunicação visual deve ser balanceada com a comunicação escrita, pois, segundo ele, “imagens não podem dizer não é”, o simples fato de mostrar uma imagem a idéia já se forma e se faz presente. Siqueira exemplifica que é impossível falarmos da inexistência de algo sem materializar esse algo. Já para a escrita isso é tarefa simples.
O universo do mundo comunicacional contemporâneo é o universo das imagens. Elas nos rodeiam através da mídia e nos impõe conceitos e produtos sem que sejamos capazes de compreender seu discurso visual. Nas escolas não se aprende a ler imagens. Não se sabe ainda muito bem lidar com elas. “Este mundo cotidiano está cada vez mais sendo dominado pela imagem. Há uma pesquisa na França mostrando que 82% da nossa aprendizagem informal se faz através da imagem e 55% desta aprendizagem é feita inconscientemente” (BARBOSA, 1998, p. 34).
Vivemos imersos em um mundo tecnológico visual extremamente sofisticado e difícil, em que as imagens que usamos no cotidiano para nossa comunicação, instrução e conhecimento transformaram-se em uma mercadoria valiosa e indispensável. Conseqüentemente, os estudantes necessitam compreender como e porque são seduzidos por imaginários do cotidiano e de que forma podem mediar essa relação como sujeitos agentes (DIAS, 2005, p.284).
A escola deve assumir a responsabilidade no preparo de seus estudantes a uma leitura crítica “conscientizando-os de que estão aprendendo com estas imagens” (BARBOSA, 1998). É a alfabetização para a leitura da imagem. Através da gramática visual da imagem estática ou em movimento é possível preparar para a decodificação de imagens artísticas ou não.
A educação estética está ligada à educação da visão, à observação das imagens, o que permite a leitura do mundo através dos elementos das artes visuais. O envolvimento estético é um dos fatores relevantes na construção do conhecimento do aluno. Por este motivo, ele deve ser estimulado a apreciar esteticamente e refletir sobre a arte produzida por artistas, bem como por ele e pelos colegas (VOLLU, 2006, p. 12).
Muitas são as potencialidades e possibilidades da produção artística através das imagens. É certo também que o estudo da arte não se limita ao estudo das imagens no sentido limitado do termo. Entende-se por imagem todo tipo de código visual considerando que o próprio texto escrito é constituído de imagens tipográficas e antes mesmo de seu significado semântico é capaz de produzir sentido pela sua forma primária, seu desenho.
Tratamos até então dos meios tecnológicos contemporâneos, mas iniciamos nosso trabalho fazendo um paralelo entre a tecnologia e seus efeitos na visão de McLuhan. É função do arte-educador imaginar e repensar as possibilidades artísticas. Instigar a produção em artes integrando velhos e novos meios, conceitos e linguagens no contexto contemporâneo. Assim, estará preparando uma nova geração para receber e produzir arte a partir de conhecimentos artísticos embasados pela leitura, interpretação e contextualização. É preciso saber distinguir e não ignorar os processos tradicionais da arte. Não considerá-los substituídos, reconhecer e fazer reconhecer seu valor e sua aplicação. O uso da tecnologia no vazio, sem conceitos, explorando apenas seus recursos, sem propósitos, “não garante o desenvolvimento de um pensamento artístico ou da construção de um saber em arte” (Pimentel, 2002, p.118).
Além do questionamento da tecnologia pela tecnologia sem clareza em seu propósito ou por modismos, há de se considerar ainda sua aplicabilidade e a que se propõe o trabalho artístico ou mesmo comunicacional. Há situações em que o processo tradicional é o mais adequado, é mais viável ou irá garantir maior personalidade e originalidade.“Para alguns trabalhos ou estudos, pode ser preferível utilizar um material/técnica tradicional: para outros, determinado meio/tecnologia é o mais indicado. O bom senso, o conhecimento e o desejo, juntos, vão direcionar a escolha justificada de determinado caminho a ser seguido” (Pimentel, 2002, p.118).
É preciso considerar que a escolha da técnica utilizada determinará de forma significativa o processo e os resultados dos trabalhos, sejam eles no campo da arte, da comunicação ou design. Assim a defesa de McLuhan em que “o meio é a mensagem”, pode ser trazida para este campo. A técnica utilizada é determinante na conceituação do trabalho. E tanto meio como mensagem possuem características e valores próprios que devem ser explorados. Mas, ambos exigem que o conceito do trabalho esteja claro e o resultado corresponda aos objetivos de seu autor. Utilizar uma nova tecnologia sem dela explorar os recursos e pensar de forma limitada é desperdiçar as possibilidades que ela oferece.
Falando especialmente de estudantes de nível superior que se preparam para lidar com Artes Visuais, destacamos a importância de serem preparados para lidar com as imagens em sua profissão. Estarão cotidianamente influenciando e sendo influenciados por elas. Muitos são os profissionais que possuem como base os conceitos artísticos para o melhor desempenho profissional. Diretores de arte, designers, operadores de câmeras, fotógrafos, vitrinistras, letristas, etc. Não se trata apenas de uma questão profissional no sentido mercadológico, mas no sentido da responsabilidade social ao se pensar a recepção e leitura das imagens pelas pessoas. Estes profissionais podem ser mais eficientes se conhecerem, fizerem arte e desenvolverem sua capacidade analítica através da interpretação dos trabalhos artísticos em sua complexidade.
Trabalhar com ensino em artes visuais implica ter em mente a amplitude e o grau de responsabilidade na formação humana e profissional dos estudantes.  “Um grande número de trabalhos e profissões está direta ou indiretamente relacionado à arte comercial e de propaganda, outdoors, cinema, vídeo, à publicação de livros e revistas, à produção audiovisual e à produção de cenários para televisão, além de todos os campos do design para a moda e indústria têxtil, gráfico, ambientes etc (BARBOSA, 1998).

 

6. Tecnologias contemporâneas e tradicionais no ensino de artes visuais

A arte sempre se valeu de algum tipo de tecnologia desde a pré-história. Dos instrumentos mais rudimentares aos mais sofisticados, das técnicas aparentemente mais simples às mais complexas. O que hoje nos é apresentado como “novas tecnologias” rapidamente será superado por outras cada vez mais complexas e abrangentes. Para entender esse processo faz-se necessário pensar cada tecnologia com a realidade de seu tempo. 
A gravura, o cinema e a fotografia demoraram a ser reconhecidos como arte, assim como hoje se discute a Computer Art e outras formas de arte colaborativas que mais valorizam o processo de elaboração e construção do que os resultados obtidos muitas vezes desenvolvidos via internet por pessoas que nunca se viram (PIMENTEL 2002).
 “Platão estava pensando na escrita como uma tecnologia eterna, hostil, como muitas pessoas atualmente fazem com relação ao computador. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita, absorvendo-a tão completamente em nós mesmos, de uma forma que a era de Platão ainda não fizera, julgamos difícil considerá-la uma tecnologia como aceitamos fazer com o computador. No entanto, a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia, exige o uso de ferramentas e de outros equipamentos: estiletes, pincéis e canetas, superfícies cuidadosamente preparadas, pele de animais, tiras de madeira, assim como tintas e tudo mais. A escrita de certo modo, é a mais drástica das três tecnologias. Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam: a redução do som dinâmico a um espaço mudo, o afastamento da palavra em relação ao presente vivo, único lugar que as palavras podem existir” (ONG, 1998 citado por  SIQUEIRA, 2001).
Essa é uma discussão importante que perpassa esse trabalho, mas não se aprofunda. Contextualiza e promove um repensar quanto ao posicionamento de arte-educadores quanto ao incentivo, valorização e capacitação dos alunos a produzirem a arte do seu tempo a partir do referencial que se tem da arte historicamente, sem ignorar qualquer processo, livres de preconceitos e resistências.
O assunto é de significativa importância e merece reflexão. Jovens nascem com os computadores à sua mão enquanto muitos professores iniciam timidamente um primeiro contato com as máquinas. No descompasso, os professores dominam antigas tecnologias que, de certa forma, estão implícitas nas novas tecnologias e que são importantes para a compreensão e melhor utilização em meios contemporâneos.  Nesse cenário, cria-se ainda a discussão sobre o que é e o que não é arte. Uma visão encurtada e parcial sobre a arte pode duvidar de todo e qualquer trabalho que fuja à arte clássica inibindo a experimentação e descoberta de novas linguagens ou novos meios de expressão artística.
Por outro lado, os adeptos à tecnologia pela tecnologia, avançam cada vez mais deslumbrados por novos recursos e ferramentas totalmente desconectados com o universo artístico no seu sentido mais embrionário. Nesse sentido, este trabalho discute possibilidades de integrar as mais tradicionais técnicas artísticas à tecnologia contemporânea no ensino e na produção em artes visuais. É preciso trabalhar os processos convencionais e digitais de forma integrada visando otimizar recursos e tempo sem perder de vista os princípios que norteiam o processo da criação artística e que personificam o trabalho elaborado.
A opção de trabalhar com  as possibilidades interativas entre técnicas tradicionais artísticas e recursos tecnológicos contemporâneos partiu do interesse pessoal e da vivência nestes últimos anos de docência no ensino superior de Design Gráfico. Os estudantes apresentam-se cada vez mais jovens, influenciados e deslumbrados pelas tecnologias atuais.  Na maioria das vezes possuem uma visão distorcida de que nelas encontram-se as respostas e soluções para tudo. “Envelopadas nas exigências de produção e consumo imediato, as tecnologias se tornaram convincentes principalmente porque parecem funcionar invisivelmente” (BARBOSA, 1998, p. 43).
 As tecnologias contemporâneas são aliadas do conhecimento e o mundo das artes delas se apropria cada vez mais redescobrindo ou abrindo novos caminhos. Pensar o mundo hoje sem a tecnologia é tarefa complexa tamanha a sua inserção no cotidiano e sua capacidade de mudar comportamentos, formas de ver e pensar o mundo. Estranhamente, o mundo tecnológico faz avançar e de forma simultânea recupera o passado sem que as pessoas se dêem conta disso.

 

7. Conclusões

Toda tecnologia implica em novas formas de agir e de pensar. Impõe novos comportamentos e lenta ou rapidamente são incorporadas. Até mesmo os mais conservadores se rendem a ela. O homem como parte dessa cultura precisa se deslocar no tempo e no espaço se refazendo e refazendo também seus caminhos. Como nômade tecnológico deve saber a hora de trocar seu local seguro, conhecido e já explorado partindo para novas descobertas levando consigo a experiência e conhecimento até então adquiridos.
Falar de ensino e tecnologia é desafiador, pois, embora seja incoerente dizer, seus tempos são diferentes. Mesclar estes tempos é uma forma de aproximá-los. Adentrar o território da Arte e estreitar fronteiras do ensino e conhecimento tradicionais em artes e com as tecnologias contemporâneas. Mais que conclusões esse trabalho traz uma discussão a ser ampliada no meio acadêmico desde o ensino fundamental ao mais alto nível de formação. Conhecer princípios fundamentais da arte e entender o processo evolutivo das tecnologias são a base para um processo de ensino aprendizagem de bases sólidas potencializando a capacidade crítica e de solucionar questões de toda ordem, em especial para os futuros profissionais da imagem e comunicação.

 

Notas

[1] Fátima Cristina Vollú é mestre em Educação pela UERJ e professora de Artes visuais no CAP- UFRJ desde 1993 onde desenvolve projetos em animações com o uso de novas tecnologias no ensino. VOLLÚ, 2006, p.12.
[2] Herbert Marchal McLuhan (1911-1980). Teórico da comunicação. Conhecido internacionalmente por seus estudos, termos, conceitos e efeitos dos “mass media” e “aldeia Global”
[3] Tecnófilos fazem apologia total às novas tecnologias e os Tecnófobos, são contrários a  qualquer tipo de avanço tecnológico.
[4] Arlindo Machado é doutor em comunicações e professor do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC/SP e do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP.
[5] FRANZ, Terezinha Sueli. Doutora em Belas Artes /Universidade de Barcelona/Espanha. Mestre em Educação pela UFPR. Docente do CEART/UDESC nas Licenciaturas em Artes e no Mestrado em Artes Visuais. Autora dos livros Educação para a compreensão da arte: Museu Victor Meirelles e Educação para uma compreensão crítica da arte.

 

 

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Reference According to APA Style, 5th edition:
Maciel, R. ; (2010) Inovação tecnológica e o ensino em artes visuais. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (6) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt