Designers: entre céticos e dogmáticos

Designers: between skeptics and dogmatists

Casas, D. Straioto, R. Sousa, R.

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina
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Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: Ao longo dos anos, o design passou por transformações que alteraram seu discurso e objetivo inicial, o que, em certa medida, reflete seu amadurecimento e seu reconhecimento social, principalmente ao deixar de ser uma vanguarda, ou um projeto alternativo, e passar a ser absorvido pela empresas e pela sociedade, através da consolidação de um mercado de design. E apesar de aparentarem certo distanciamento, o pensamento cético e o design possuem relação estreita. Este artigo objetiva confrontar o design e algumas de suas perspectivas com o pensamento cético, no intuito de constituir uma relação entre as abordagens de design e suas possíveis bases epistemológicas. Como metodologia para alcançar o objetivo foi utilizada uma pesquisa exploratória e bibliográfica. Os resultados alcançados ressaltam que a divisão entre as abordagens de design é, em certa medida, artificial, como se elas pudessem representar categorias distintas e grupos exclusivos de indivíduos. É possível também notar que o pensamento cético e o design possuem íntima relação e tanto a abordagem de design, como a postura cética ou dogmática em relação a tal abordagem, devem, ambas, ser fruto reflexão dos designers.

 

PALAVRAS-CHAVE: Design, Ceticismo, Epistemologia.

 

ABSTRACT: Over the years, design has undergone transformations that have altered their speech and initial goal, which to some extent, reflects its ripening and its social recognition, especially when no longer a vanguard, or an alternative project, and become absorbed by enterprises and society, through the consolidation of a market design. And despite appearing to a certain distance, skeptical thinking and design have close relationship. This article aims to confront the design and some their perspectives with the skeptical thought, in order to constitute a relationship between the design approaches and their possible epistemological bases. As a methodology to achieve the objective a research exploratory and literature. The results emphasize that the division between the design approaches is to some extent artificial, as they could represent distinct categories and exclusive groups of individuals. It can also be noted that skeptical thinking and design are closely related and both the design approach, such as dogmatic or skeptical attitude towards such an approach, should both be the result of reflection designers.

 

KEYWORDS: Design, Skepticism, Epistemology.

1. Introdução

Mesmo aparentemente distantes, o pensamento cético e o design possuem uma relação estreita. De modo que o ceticismo e seu oposto, o dogmatismo, estão presentes cotidianamente no modo de agir e pensar dos profissionais ligados à atividade de design.
A proposta do artigo é confrontar o design, em suas principais perspectivas, com as bases do pensamento cético, a fim de estabelecer uma relação entre as abordagens de design e suas possíveis bases epistemológicas.
Com o passar dos anos, desde sua fundação, o design passou por transformações que alteraram seu discurso e objetivo inicial, que, em certa medida, reflete seu amadurecimento e seu reconhecimento social, principalmente ao deixar de ser uma vanguarda, ou um projeto alternativo, e passar a ser absorvido pela empresas e pela sociedade, através da consolidação de um mercado de design.
Essa discussão tem como embasamento a análise de Nuno Portas (1993), sobre as três principais correntes ou tendências em Design, que, segundo ele, norteiam a formação e a visão da maioria dos profissionais da área sobre a atividade e, consequentemente, as ações projetuais e as políticas desenvolvidas pelos mesmos.
Como suporte e complementação a abordagem de Portas, utilizaremos a reflexão crítica de Norberto Chaves (2001) sobre os discursos assumidos pelo design no decorrer de sua trajetória, polarizados e contrastados como discurso dos fundadores e discurso do mercado, mas também se referindo a uma terceira corrente pós-moderna, que, nesse ponto, se diferencia de Portas, e assim expande as perspectivas sobre os rumos da atividade de design.
O pensamento cético, em síntese, pode ser encarado como a suspensão do juízo, sem aceitar ou negar uma teoria, o que demonstra seu caráter de investigação permanente. O cético pirrônico, conforme Sexto Empírico, também pode propor teorias, mas, no entanto, a diferença entre ele e o dogmático, é que o cético suspende o juízo e continua investigando. Conforme o Dicionário Básico de Filosofia (JAPIASSÚ, 1990), por oposição ao ceticismo, o dogmatismo é a atitude que consiste em admitir a possibilidade, para a razão humana, de chegar a verdades absolutamente certas e seguras. Na concepção cética geral, portanto, a especulação filosófica daria lugar ao senso comum e à vida prática.
Considerando apenas o que é aceite no senso comum entre os autores de design utilizados que, como vimos, é uma das essências do pensamento cético, a ênfase se dará, então, na abordagem funcionalista relacionada com o discurso dos fundadores da teoria do design, e a abordagem do Styling, adotada pelos agentes do mercado. Essa duas abordagens são aproximadas do pensamento cético, através de seus principais expoentes - como Sexto Empírico, Descartes, Hume, Kant entre outros-, e, assim, buscar estabelecer relações epistemológicas das duas principais correntes de design. As outras perspectivas também são indicadas no texto, como concepção sistêmica ou ecológica (Portas) e a pós-moderna (Chaves), porém, sem o mesmo destaque das duas anteriores, por não serem consensuais entre os autores.
Em suma, o presente estudo aborda também a transformação do design no decorrer dos tempos, de sua origem até a atualidade, traçando um paralelo com o pensamento cético. Busca contrastar as principais correntes de design, desde a origem funcionalista e mais dogmática, passando pelo Styling e pelo pragmatismo em relação ao êxito de mercado. Encerra-se com as correntes mais recentes, como a pós-moderna e o design sistêmico, que, de certa forma, se caracterizam, respectivamente, como uma postura mais cética e mais dogmática em relação ao design.

 

2. Os pensamentos cético e dogmático no design

Para Lobach (2001), o design pode ser compreendido, no sentido amplo, como a concretização de uma ideia em forma de projetos. Para o cético, o conhecimento do real é impossível à razão humana. Portanto, o homem deve renunciar à certeza, suspender seu juízo sobre as coisas e submeter toda afirmação a uma dúvida constante. E ser dogmático, consiste em admitir a possibilidade, para a razão humana, de chegar a verdades absolutamente certas e seguras.
Uma aplicação rápida dos pensamentos acima, em relação aos projetos do design, é o exemplo do walkman, representado pela Figura 01. Ele demonstra o potencial do design no surgimento de novos produtos, utilizando-se do ceticismo metodológico para refutar propostas de produtos que não “resolvem o problema”. Como resultado desse processo, tem-se um produto que resistiu a todas as dúvidas impostas sobre suas qualidades, sobre o atendimento das necessidades do usuário, aos aspectos técnicos de sua produção e comercialização e, mais recentemente, até mesmo sobre o seu descarte.

 

 

Fig. 1 – Evolução players.

Fonte: arquivo dos autores.

 


 
De certa forma, portanto, o designer é cético com relação ao fato de ter alcançado definitivamente a melhor forma para uma determinada função. Pois, como no exemplo anterior (fig.01), os produtos sempre se transformam para atender uma mesma função, quando não é a própria a função que se altera. Por outro lado, o designer também precisa ser pontualmente dogmático, porque cada produto é uma espécie de teoria, ou enunciado, que corresponde a uma resposta considerada verdadeira com relação ao atendimento da necessidade proposta. Nesse sentido, em certos casos, o designer assume o pragmatismo dos céticos, considerando certos procedimentos e produtos úteis, apesar de não serem necessariamente “verdadeiros”. Em outros casos, entretanto, assume o dogmatismo ao mostrar-se convencido de que design é ciência capaz de encontrar a verdade.
Conforme Burdek (1999), todo objeto de design há de ser entendido como resultado de um processo de desenvolvimento que sempre reflete nas condições sob as quais surgiu: o contexto histórico, social e cultural, as limitações da técnica e da produção, os requisitos ergonômicos, ecológicos, os interesses econômicos, políticos e até as aspirações artísticas.
A partir disso, podemos considerar as constantes mudanças sócio-culturais que, com o passar dos anos, mudam as necessidades, gerando demandas por novas funções para produtos já existentes e, também, por novos produtos. O designer, como atuante fundamental no sistema de produção e consumo, deve estar atento às mudanças, visando aprimorar e adequar o sistema sócio-produtivo.

 

3. Relações entre design e ceticismo

O ceticismo inspira a atitude crítica e questionadora da filosofia contemporânea, como a relatividade do conhecimento e dos limites da razão e da ciência, que a epistemologia atual trata. Desde a antiguidade, existem os filósofos céticos e os filósofos dogmáticos. Os primeiros se recusam a crer nas verdades estabelecidas, enquanto os segundos defendem as verdades de sua “escola”. No Design, dentro das suas diversas abordagens e “escolas”, a atitude cética e a dogmática pode ser utilizada como extremos de uma escala para posicionar o comportamento, ou mesmo o discurso dos profissionais da área. Como vimos, a relação entre design e ceticismo é clara, ao observarmos o desenvolvimento dos produtos, mas, a partir de agora, passaremos a confrontar as diversas “escolas de pensamento”, ou “discursos” de design, com o pensamento cético e a epistemologia.

 

3.1 O Designer Funcionalista e o discurso dos fundadores

Azevedo (1998) afirma que, para compreender melhor a atividade do design, é preciso observar os movimentos que, ao passar do tempo, incentivaram o homem na busca por novas formas, materiais e métodos. Mas, em essência, a idéia de design surge no mundo quando o homem começa fazer suas ferramentas e objetos. Principalmente antes do século XX, a confecção de um objeto era função do artesão. Mas, com o surgimento da indústria, tornou-se necessário aproximar a atividade do artesão e da máquina, pois era preciso adaptar o processo de construção do objeto, de modo a facilitar sua produção pela máquina. Assim, a partir do modelo industrial de produção, o processo de concepção do objeto passou a ser entendido como design, ou mesmo, como desenho industrial.
Com origens históricas na Europa Central do primeiro pós-guerra, sobretudo, lançado pela escola alemã Bauhaus, o design assumia um discurso essencialmente funcionalista, na medida em que a criação da forma dos produtos deveria traduzir a constituição lógica da produção do objeto e, sobretudo, a lógica da sua função – da utilidade, do uso – a que se destinava. O que levou ao desenvolvimento de múltiplos estudos – como a ergonomia - da adaptação dos utensílios e espaços ao homem (PORTAS, 1993).
Isso porque, segundo Portas (1993), o designer honestamente funcionalista deve racionalizar a concepção do produto para, acima de tudo, torná-lo mais útil e adaptado, melhor manipulável pelo usuário, cujas atividades ou necessidades se vão conhecendo pela via científica, e não por questões de marketing, preocupando-se principalmente com o uso imediato do objeto e em melhorar sua utilidade dentro das condições econômicas e técnicas aceitáveis pela indústria.
Conforme Chaves (2001), este é o estágio inicial da emergência do design, aparecendo como uma alternativa a todas as formas prévias de definição da forma dos produtos de uso e do habitat. Em seguida, o design foi englobando praticamente a totalidade da produção material. Dessa forma, o design veio ser a linguagem e a expressão da própria revolução industrial.
Ainda segundo Chaves (2001), o discurso funcionalista, não somente segue vivo, como em alguns casos é o único possível, pois, para certos problemas, possui uma eficácia incontestável.  Porém, a relação imaginária que os designers estabeleciam com o “Usuário”, como este sendo uma espécie de ser supremo imaginado a partir de um modelo de “Usuário” concebido como imagem e semelhança da utopia intelectual do setor. Este “Usuário” era um ente anatômico e fisiológico carregado de necessidades práticas e objetivas, privado de história e pré-disposições culturais socialmente adquiridas, que não coincidia com nenhum setor concreto da população.
Em suma, uma concepção de usuário demasiadamente racionalizada e teórica, idealizada a partir de médias antropométricas e necessidades fisiológicas, mas que, por muitas vezes, desconsidera aspectos emocionais, psicológicos, culturais e simbólicos. Aspectos esses, que são marcantes no Styling, escola de design subseqüente nesta análise, mas para o design funcionalista tornou-se uma limitação dentro da lógica de mercado que se consolida a partir do segundo pós-guerra.
De certo modo, a corrente funcionalista é que mais se aproxima da postura puramente dogmática, com fortes influências epistemológicas do Racionalismo e do Positivismo. Isso, porque a ênfase na racionalização do produto, e até mesmo do próprio usuário, aproxima-se do Racionalismo, que tem na razão o fundamento de todo o conhecimento possível, e, portanto, somente ela é capaz de conhecer o real. Nesse ponto, em relação ao pensamento cético, a perspectiva funcionalista do design aproxima-se do ceticismo metodológico de Descartes, que, segundo Dutra (2005), é voltado para a compreensão do ceticismo como atitude de duvidar de nossas opiniões - Cogito, ergo sum -, confiando que aquelas que realmente forem expressão da “verdade” irão resistir a qualquer dúvida e, assim, defender opiniões, teorias e teses ou, conforme os céticos, estabelecer dogmas.
A preferência pela via científica de aquisição de informações corresponde à abordagem Positivista, que pregava a cientifização do pensamento e dos estudos humanos, para obter resultados verdadeiros: claros, objetivos e completamente corretos. O fundador desse movimento, Auguste Comte (1798-1857), acreditava num ideal de neutralidade, isto é, na separação entre o pesquisador/autor e seu objeto de pesquisa. A ciência retrataria de forma neutra e clara uma dada realidade a partir de seus fatos, sem recorrer a opiniões e julgamentos do pesquisador.

 

 

 3.2 Styling no discurso do mercado

Conforme a análise de Chaves (2001), com o tempo, o design torna-se um instrumento indispensável da sociedade contemporânea, deixa de ser uma proposta e torna-se uma cultura efetiva, com um mercado concreto, onde existem produtores, distribuidores e consumidores de design. Este metabolismo social da disciplina definiu uma estrutura e conteúdos bastante distintos dos iniciais. Enquanto, no início, os agentes eram a própria vanguarda da arquitetura e do design, como agentes econômicos diretos, posteriormente, o design é desenvolvido por empresas, corporações e organismos vinculados com o desenvolvimento dos mercados. Então, o discurso do design passa das mãos das vanguardas às mãos das empresas e, logo, surgem novas razões, novos princípios e novos sentidos para a disciplina.
Este novo discurso de design, segundo Portas (1993), ficou na história com o nome de Styling, com origem na América do Norte, no período entre guerras e, no pós-guerra, na Europa e no Japão, e corresponde à imagem mais comum que se tem de design na atualidade, que é “a do embelezamento de um dado produto para o tonar mais atrativo em termos de venda, ou seja, como fator adicional de competitividade comercial” (PORTAS, 1993, p.233).
O discurso do Styling quase não tem nenhuma palavra em comum com o discurso inicial. Segundo Chaves (2001), neste contexto, a sociedade virou “mercado”, o usuário tornou-se “consumidor”, a qualidade de design tornou-se “valor agregado”, produto é “mercadoria”, satisfação de necessidades de uso é “motivação de compra”, racionalidade é “competitividade”. O racional é aquilo que consegue resolver o problema de ingressar no mercado. Esta é a racionalidade da sociedade atual.
O racional não é produzir algo intrinsecamente bom, mas produzir algo que funcione na lógica do mercado. É o discurso da gestão empresarial do design, o discurso do marketing, o discurso promocional das instituições de apoio e desenvolvimento da competitividade das empresas. É o que Chaves (2001) chamou de “razão pragmática”, em contraste com os fundadores, que foi por ele rotulada como “razão ingênua”, em virtude de excesso de crença na razão e na neutralidade da ciência.
Sendo que o Pragmatismo considera o conhecimento humano com um caráter utilitário e operacional, isto conduz ao tema da ação, de nossa atuação no mundo, das consequências que ela produz e sua relação com o próprio conhecimento. De forma geral, o Pragmatismo americano, principalmente de Dewey, se concentra na tese de que o significado de um conceito reside em sua consequências, e não na forma como o idealizamos (DUTRA, 2005).
Esse pragmatismo, de certo modo, aproxima-se do ceticismo pirrônico, que consiste em seguir as manifestações da natureza, os costumes da sociedade em que se vive, isso conduz também a adotar o significado comum dos termos, sem inquirir a todo o momento sobre o significado real dos termos. O significado que interessa é aquele que é eficiente na comunicação e entendimento dos falantes (DUTRA, 2005, p.36-37).
Sob o ponto de vista do Styling, o design “é o instrumento não da substituição de um produto por outro substancialmente melhor, mas sim da persuasão do consumidor para substituir os produtos que usa por outros, apenas porque o aspecto é diferente” (PORTAS, 1993, p.234).
Volta-se a atenção, portanto, para parâmetros psicológicos principalmente através de estudos sobre o comportamento do consumidor. Isso propõe no campo filosófico uma retomada do ceticismo de David Hume (1711-1776), para quem nossas crenças ou opiniões sobre relações de causa e efeito não são legítimas, no sentido de possuírem força de argumento, mas são inevitáveis, em virtude de nossa constituição psicológica (DUTRA, 2005, p.34).
É preciso destacar, ainda, as correntes antagónicas do behavorismo e do mentalismo. Para o Behavorismo, o comportamento do humano é regido pelo ambiente, seja esse natural ou social, que abriga os indivíduos humanos ou animais. O Mentalismo, em oposição, propõe o comportamento do homem como produto dos processos mentais prévios à ação e internos ao indivíduo, como defende a psicologia cognitiva contemporânea (DUTRA, 2005).
O Mentalismo apoia-se em pontos do ceticismo filosófico, ou melhor, na corrente intelectualista, como na filosofia de Kant, que reconhecia a possibilidade de existência dos objetos, ou da coisa-em-si, mas considerava que nós apenas alcançamos o “fenômeno”, ou seja, o objeto da nossa experiência, decorrente da relação da coisa-em-si, com a nossa estrutura de sensibilidade.
A restrição do objeto ao fenômeno reforça o ceticismo grego, com Agripa e, principalmente, com Enesidemo, que “esforçaram-se para mostrar que os sentidos somente nos revelam a aparência e não a essência dos objetos, em outros termos, que as qualidade sensíveis não pertencem propriamente ao objeto, mas apenas impressões sentidas pelo sujeito” (VERDAN, 1998, p.97).
O Styling, como corrente de design, apresenta, em suas bases, pontos de convergência com o pensamento cético e o pragmatismo, a partir do momento que desloca a atenção do objeto em si, para o fenômeno do consumo, ou seja, seu interesse principal não é configurar o melhor produto, mais sim, aquilo que apresenta os melhores resultados em termos de vendas no mercado.
Conforme Chaves (2001, p.27), compreende-se que o empresário deve ser mais que um mero “fabricante”, porque precisa ser um excelente comunicador. Deve vender, independente do que e onde, pois o produto, como objeto concreto, tende a ter sua importância econômica diminuída em relação ao universo imaginário que o rodeia. Nessas condições, os designers tornam-se as “estrelas”, definindo-se pela sua capacidade de inovação estética e simbólica, porque o que vale agora é a incorporação de um elemento de inovação, que proponha um acontecimento atraente para o mercado, sem necessariamente buscar a solução de problemas relacionados às necessidades objetivas do usuário.

 

 3.3 Terceiras vias: o Designer Sistêmico e o Pós-moderno

Nuno Portas (1993) apresenta a corrente do design sistêmico - ou ecológico - como terceira principal corrente de pensamento em design. Assim, diverge da análise crítica feita por Noberto Chaves (2001), que indica como alternativa a corrente pós-moderna em design que, segundo ele, representa o estágio atual do desenvolvimento cultural do Ocidente.
Para Chaves (2001), o design pós-moderno combina valores das elites culturais com demandas irrenunciáveis do mercado, retendo os valores “universais” da disciplina articulados com a cultura do consumo. Para o autor, há uma “razão cínica”, com atributos como irracionalismo, formalismo, amoralismo, apoliticismo, individualismo, narcisismo, oportunismo, entre outros. Isso provocou a hipertrofia da inovação formal que, geralmente, é observada nas áreas lentas ou paralisadas do mercado, onde não é mais possível introduzir inovações radicais.
De certa forma, o design pós-moderno tem grande proximidade com a corrente Styling e, consequentemente, tende a se posicionar mais próxima da atitude cética, do que a corrente do design sistêmico. Segundo Portas (1993), o design sistêmico resulta do alargamento da visão do designer funcionalista. Desse modo, reconecta o design a uma perspectiva que transcende a lógica do produtor e do consumidor ou usuário, pois não se limita ao objeto em si, repensado-o como componente de sistemas mais vastos.
Nessa linha, Manzini (2005) argumenta que o design assume uma abordagem sistêmica, quando a tarefa de desenvolvimento de um novo produto torna-se o ato de projetar o ciclo de vida inteiro do sistema-produto, o que inclui a pré-produção, produção, distribuição, uso e descarte.
Em última análise, entretanto, a corrente do design sistêmico tem uma proximidade maior com a atitude dogmática e, assim como o design funcionalista, apresenta uma argumentação baseada na racionalizaçao do objeto, mesmo reconhecendo que “a simples racionalização tecnológica e formal pode ter na base uma irracionalidade de necessidades do ponto de vista da economia do país, dos interesses reais (não fictícios) dos consumidores ou do equilíbrio ecológico ou ambiental” (PORTAS, 1993, p.238).
A Teoria Geral de Sistemas, uma das principais bases científicas da corrente do design sistêmico, propõe um programa ao mesmo tempo científico e filosófico que, sem abandonar o rigor das ciências clássicas, exige a criação ou o aperfeiçoamento de uma linguagem própria, com esquemas teóricos particulares e, até mesmo, de uma particular “visão do mundo”. (JAPIASSÚ, 1990)
Neste ponto, cabe destacar outra contribuição do ceticismo de David Hume para a filosofia e para a ciência, considerando também sua contribuição para o design, cujo objetivo é determinar os limites da razão lógica e definir o domínio que lhe é próprio, a fim de evitar que ela se perca em problemas insolúveis (VERDAN, 2005). Essa é uma contribuição fundamental, principalmente, para a abordagem sistêmica, no que consiste em definir os limites do sistema-produto. Pois, em última instância, um produto se relaciona com praticamente todos os outros sistemas existentes.

 

 4. Conclusões

A tradição do design clássico-positivista é incompatível com o ceticismo moral ou filosófico, porque é alinhada ao dogmatismo científico-positivista. A origem teórica do design é idealista/racionalista e sua prática é funcionalista, como decorrência direta da Revolução Industrial, que foi um fenômeno material e social decorrente da matriz ideológica positivista. 
Na cultura ocidental, entretanto, o positivismo foi superado pelo liberalismo, promovendo a superação do racionalismo pelo pragmatismo, que uma das expressões possíveis do ceticismo. O percurso que destituiu o racionalismo dando lugar ao pragmatismo foi expresso e percebido na evolução do design no Ocidente.
O imediatismo pragmático, contudo, está sob suspeição, na medida em que o consumo desenfreado provoca o desperdício dos recursos materiais não renováveis em função da necessidade de renovação simbólica como estratégia de renovação do próprio consumo. Essa situação de calamidade eminente propôs o discurso da sustentabilidade ambiental que envolve o reaproveitamento de matéria prima e a suspensão do abuso sobre os recursos naturais.
O design sistêmico, que prevê o planejamento de todo ciclo do produto, da concepção ao descarte, apresenta-se como a solução possível para garantir a renovação dos recursos de produção e a renovação dos ciclos de consumo, ampliando a esfera do consumo simbólico e restringindo o desperdício de recursos não renováveis.
A divisão entre as abordagens do design é, portanto, em certa medida, artificial, porque não representa realidades ou categorias totalmente distintas. Essas abordagens diferenciadas assinalam a própria evolução da cultura industrial e pós-industrial com relação:
1- A necessidade primeira de atendimento à grande demanda reprimida de consumo de bens industrializados, que vinha como herança da era artesanal;
2- A necessidade posterior de ampliação do consumo, diante da demanda por ampliação dos postos de trabalho e a consequente necessidade de ampliação dos setores produtivos;
3- A necessidade de manutenção e ampliação do consumo e dos postos de trabalho nos setores produtivos, mas sem colocar ainda mais em risco a vida no planeta terra.
O idealismo positivista/racionalista da abordagem original foi uma resposta dada à necessidade de se criar uma sociedade industrial que, até então, era inexistente e, portanto, inacessível à experiência, sendo alcançável apenas idealmente ou racionalmente.
O pragmatismo cético, com relação à verdade precedente do projeto sobre a realidade do mercado, como o conjunto de distribuidores e consumidores, decorreu da constatação de que nem tudo que fosse oferecido seria prontamente aceite por uma sociedade já praticamente saciada, com relação às demandas objetivas.
A visão sistêmica também instaura, por fim, o ceticismo, com relação à capacidade da razão clássica em garantir o futuro da sociedade, da cultura e do planeta.
No percurso evolutivo do design, o ceticismo e o dogmatismo expressos entre os profissionais da área pode ser entendido segundo a perspectiva neopirrônica do pensamento cético, que considera ambas as atitudes como comportamento de investigação possíveis, corroborando o ponto de vista mais pragmático, ou seja, adotando a atitude que alcance melhores resultados conforme o contexto (DUTRA, 2005), de acordo com os aspectos econômicos, sociais, culturais e ecológicos do momento.

 

Referências bibliográficas

BURDEK, Bernhard; Diseño. História, teoría y práctica del diseño industrial - Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SA - 2ª edição 1999.
CHAVES, Norberto; Diseño, mercado e utopia - De instrumento de transformación social a medio de dinamización económica in El oficio de disenãr: propuestas a la conciencia crítica de los que comienzan, Editorial GustavoGili, SA, Barcelona, 2001.
DUTRA, Luiz Henrique de Araújo. Oposições Filosóficas - A epistemologia e suas polêmicas. Florianópolis; Editora da UFSC, 2005
JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário Básico de Filosofia / Hilton Japiassú e Danilo Marcondes - Rio de Janeiro; Ed. Jorge Zahar Editor, 1990.
LÖBACH, Bernd. Design Industrial: Bases para a configuração dos produtos industriais. Tradução Freddy Van Camp. São Paulo: Editora Blucher, 2001.
MANZINI, Ezio; Vezzoli, Carlo; O Desenvolvimento de Produtos Sustentáveis. tradução de Astrid de Carvalho. 1ed. 1reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.
VERDAN, André. O ceticismo filosófico; tradução Jaimir Conte,- Florianópolis: Ed. da UFSC, 1998.

Reference According to APA Style, 5th edition:
Casas, D. Straioto, R. Sousa, R. ; (2010) Designers: entre céticos e dogmáticos. Convergências - Revista de Investigação e Ensino das Artes , VOL III (6) Retrieved from journal URL: http://convergencias.ipcb.pt