Contributo da Pesquisa Qualitativa para a Consolidação Disciplinar dos Estudos de Tendências: processo, perspectivas e corpus

Rech, S.

Retirado de: http://convergencias.esart.ipcb.pt

RESUMO: A abordagem qualitativa considera a sociedade constituída por indivíduos e grupos, que compartilham significações de acordo com expectativas e prismas coletivos. Isto contribui positivamente para uma visão crítica dos estudiosos da área de moda em relação ao fenômeno das tendências, uma vez que o pesquisador investiga fatos, situações e processos no cenário social que, interligados, possibilitam explanar sobre determinado fenômeno examinado.  A literatura destaca que coexistem diversas perspectivas, epistemologias e ontologias na investigação qualitativa. Destarte, este trabalho, de revisão bibliográfica, objetiva apontar indícios para uma suficiente compreensão deste assunto, visto que os autores da área dissertam uma multiplicidade de posicionamentos paradigmáticos no contexto da pesquisa qualitativa e contemplam diversas interpretações no decurso histórico.

 

PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa Qualitativa; Processo; Perspectivas; Corpus; Tendências.

ABSTRACT: The qualitative approach considers society to be made up of individuals and groups who share meanings according to expectations and collective perspectives. It may contribute positively a critical view of scholars and fashion professionals with regard to the phenomenon of the trends. From this methodological design, the researcher investigates processes, facts and situations in the social scene which, interconnected, can explain the phenomenon analyzed. The literature points out that for qualitative research several perspectives, epistemologies and ontologies coexist. Thus, the overall objective of this work is to show indicative data to a reasonable understanding of these issues, with no intention of exausting them. The authors in this area present plenty of paradigmatic positions within the qualitative research and conceive different meanings over historical moments.

 

KEY-WORDS: Qualitative Research; Process; Perspectives; Corpus; Trends.

1. Introdução

Como novo campo disciplinar e área emergente de pesquisa na academia, os Estudos de Tendências abarcam ferramentas de diversas disciplinas, especialmente das Ciências Sociais e Humanas, o que viabiliza a identificação, a análise e o monitoramento das expressões manifestadas na sociedade. Assim sendo, o escopo da investigação na esfera das tendências é a compreensão do ambiente social e das alterações do comportamento do ser humano em determinado período temporal.  É importante frisar que os Estudos de Tendências não se fundamentam como um campo uno e monolítico, por consequência, seus princípios nem sempre são uniformes. O objetivo é delinear indícios, centrados nos momentos passado e presente, com o propósito de perscrutar variações, tendo em vista o cenário futuro dos comportamentos sociais. Sintetizando, configuram uma etapa substancial durante o processo de formatação de novas estratégias de negócios, de novas políticas e, em decorrência, da inovação.

Outrossim, a pesquisa qualitativa expressa pluralidade e um campo heterogêneo que incorpora diversas abordagens, técnicas, procedimentos e recursos sobre concepções filosóficas e metodológicas com a finalidade de pesquisar, interpretar e explicar o mundo social, representando, ao mesmo tempo, possibilidades e desafios para a produção do conhecimento. A abordagem qualitativa da pesquisa pondera a sociedade composta por sujeitos e grupos, que partilham acepções de acordo com perspectivas coletivas. Partindo desse desenho metodológico, e de uma sequência de hipóteses, o pesquisador averigua processos, fatos e situações na cena social que, relacionados, podem explicar o fenômeno analisado. O método de comparação associa aspectos de pesquisa indutivos e dedutivos, por meio da coleta, codificação e análise simultânea dos dados.

Isto posto, o resultado da associação entre essas duas áreas de investigação produz informações sólidas e confiáveis acerca das transformações comportamentais dos indivíduos, objetivando a geração de insights, a partir dos movimentos sociais, e a identificação de oportunidades, por meio da conexão com as necessidades, desejos e anseios dos consumidores.  É importante enfatizar que a dissenção na definição de processos básicos de investigação e o vácuo de certos pontos de vista metodológicos (ou terminológicos) restringem a pesquisa qualitativa, o que, por seu turno, instiga o anseio por este tipo de perquisição e, concomitantemente, fomenta críticas enfáticas, sobretudo, pelas atitudes dos próprios investigadores.

Portanto, a partir destas ideias iniciais, o objetivo geral deste trabalho é apresentar indicativos para uma razoável compreensão do paradigma da pesquisa qualitativa enquanto processo, sem a pretensão de os esgotar. A literatura pertinente aponta uma multiplicidade de posicionamentos paradigmáticos no domínio da pesquisa qualitativa e contempla acepções diferentes ao longo da história. No entanto, percebe-se que o campo de ação da pesquisa qualitativa dispõe de uma perspectiva multimetódica que engloba uma abordagem interpretativa do sujeito de análise.

O presente texto é composto por três partes, além da Introdução e das Considerações Finais, a saber: (1) A Pesquisa Qualitativa como Processo, que apresenta os pontos para um delineamento da investigação qualitativa;  (2) Posicionamentos Paradigmáticos na Investigação Qualitativa, que aborda as várias acepções na esfera da pesquisa qualitativa, demonstrando ser uma área interdisciplinar, transdisciplinar e contradisciplinar; (3) Corpus da Pesquisa Qualitativa, que configura os principais tópicos de um corpus investigativo.

 

2. Metodologia

O desenho metodológico deste trabalho caracteriza-se como exploratório descritivo quantos aos objetivos, por alinhavar a frequência com que um fenômeno ocorre, sua relação e conexão com outros, sua natureza e características. Segundo Gil (2010, p. 41), esse tipo de pesquisa proporciona “maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito”. A abordagem é qualitativa, pois engloba uma aproximação interpretativa do mundo e ressalta o detalhamento dos elementos e dos fenômenos envolvidos (DENZIN e LINCOLN, 2006).

Quanto aos procedimentos, constitui-se como um artigo de revisão bibliográfica, haja vista que aborda o estado da arte da pesquisa qualitativa, sublinhada pelos trabalhos de referências reconhecidas como Peter (2015); Morin (2015); Creswell (2014); Bauer e Aarts (2013); Barthes (2010); Gil (2010); Glaser e Strauss (2009); Flick (2009); Strauss e Corbin (2009); Denzin E Lincoln (2006); Guba e Lincoln (1994); Guba (1990). Em virtude de sua natureza, o texto estrutura-se como investigação aplicada, por objetivar a geração de conhecimentos para a aplicação prática na solução de problemas específicos (PARRA FILHO e SANTOS, 2011).

 

3. A Pesquisa Qualitativa como Processo

O termo “qualitativa” significa “qualquer tipo de pesquisa que produza resultados não alcançados através de procedimentos estatísticos ou de outros meios de quantificação” (STRAUSS e CORBIN, 2009, p. 23).  A literatura pertinente aponta que, na investigação qualitativa, coexistem várias perspectivas, epistemologias e ontologias. Por conseguinte, o processo de pesquisa qualitativa é reflexivo e complexo, sendo demarcado pela inter-relação de três graus de operações genéricas, que enquadram terminologias diversas como: (1) teoria, método e análise, (2) ontologia e epistemologia e (3) metodologia (DENZIN e LINCOLN, 2006).

Diante desta amálgama de informações, um ponto base para o delineamento da pesquisa qualitativa é a identificação, a definição e adesão de determinadas perspectivas, epistemologias e metodologias que permeiam o processo investigativo. Gutberlet e Pontuschka (2010, p. 220) dissertam que, primeira e continuamente, o investigador deve “ter sua definição teórica e abordagem filosófica, na qual está implíci­ta uma visão de mundo”, uma vez que isso irá determinar o rumo epistemológico da pesquisa e a descrição das técnicas a serem utilizadas durante o processo investigativo. “O objeto e os objetivos da pesquisa determinam as escolhas metodoló­gicas e as dimensões a serem adotadas pelo pesquisador”, realçados pela complementarie­dade entre os diversos métodos e as variá­veis técnicas de pesquisa.

Cabe frisar que este conjunto diverso que singulariza o estudo qualitativo estimula o desejo por este tipo de pesquisa e, ao mesmo tempo, suscita muitas críticas acentuadas, especialmente, pelas posturas dos próprios pesquisadores. Freitas (2013) relata que a divergência na delimitação de procedimentos básicos de investigação e a omissão de certos enfoques metodológicos (ou terminológicos) limitam a pesquisa qualitativa. Sem embargo, é inevitável que a perspectiva de investigação adotada pelo pesquisador interfere na formulação do problema, no ponto de vista metodológico e na compreensão global do estudo.

As diferentes fases do processo de investigação qualitativa não se desencadeiam de forma linear, mas interativamente [...], ou seja, em cada momento existe uma estreita relação entre modelo teórico, estratégicas de pesquisa, métodos de recolha e análise de informação, avaliação e apresentação dos resultados do projeto de pesquisa (AIRES, 2015, p. 14).

Na pesquisa qualitativa há a necessidade do contato direto com as pessoas, objetivando apreender significados dos comportamentos por meio da observação, uma vez que se parte da suposição de que as pessoas atuam apoiadas em suas percepções, crenças, sentimentos e valores. É basal grifar que, igualmente, a observação é dos pilares dos Estudos de Tendências. Minayo e Guerreiro (2014, p. 1104) ratificam que “a atenção constante sobre como e o que ocorre no contexto empírico afeta o pesquisador e sua obra o que, por sua vez, afeta o campo e a vida social e recebe o nome de ‘reflexividade”. Este esquema implica em três processos: (1) o comprometimento do pesquisador com o campo; (2) o exame do material; (3) a descrição que emerge do conhecimento empírico.

Gutberlet e Pontuschka (2010, p. 221) sublinham que a reflexividade tem um papel proeminente durante o processo da pesquisa qualitativa, pois posiciona o investigador em seu ambiente social e político, além de contextualizar a própria pesquisa. Ou seja, a reflexividade clarifica as escolhas de estudo, as leituras e as interpretações dos resultados por parte do pesquisador, determinadas pela história (passada e atual) e identidade deste investigador. “É justamente o envolvimento reflexivo na pesquisa que promove um olhar diferenciado da questão em estudo. A abordagem qualitativa reconhece o próprio pesquisador como ser social”. Destarte, “a pesquisa qualitativa dirige-se à análise de casos concretos em suas peculiaridades locais e temporais, partindo das expressões e atividades das pessoas em seus contextos locais” (FLICK, 2009, p. 37). Rech (apud Chaves, 2016, p. 32-33) afiança que:

[...] pesquisar tendências é perceber influências exercidas sobre um contexto e ler sua evolução buscando compreender suas futuras consequências. A função dos analistas de tendências é destrinchar estes dados, compará-los com os momentos culturais, econômicos ou sociais em que se vive, e decidir o que pertence ou não a uma determinada linha de pensamento, diminuindo assim o grau de erro na determinação de novas tendências. A investigação dos estudos de tendências encetada sobre as fontes exige um questionamento que supere a descrição, a enumeração e o reconhecimento da importância da aparência no contexto escolhido.

Por isso, é essencial, no desenvolvimento da investigação qualitativa visando os Estudos de Tendências, a garantia do pesquisador em campo de estudo, para que haja o desenvolvimento de uma relação de confiança entre o pesquisador e o pesquisado, eliminando a hierarquia entre ambos. Desta forma, haverá uma aproximação e conhecimento do mundo simbólico e subjetivo, no intuito de compreender os processos intrínsecos àquela realidade. A intersubjetividade se faz oportuna para otimizar a pesquisa qualitativa, “seja por meio de qualquer técnica de coleta de dados que opte o pesquisador o qual, por sua vez deve observar o rigor metodológico da mesma maneira que em qualquer outra modalidade de pesquisa científica” (MEDEIROS, 2012, p. 224).

 

4. Posicionamentos Paradigmáticos na Investigação Qualitativa

Os autores da área apresentam uma pluralidade de posicionamentos paradigmáticos no âmbito da pesquisa qualitativa e concebem acepções diferentes ao longo de momentos históricos. Neste aspecto, pode-se afirmar que a investigação qualitativa é um campo interdisciplinar, transdisciplinar e contradisciplinar, uma vez que “atravessa as Humanidades, as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza. É multiparadigmática no seu enfoque” (LOPEZ, 2011 apud AMADO, 2013, p. 69-70). Novamente, destaca-se que, de forma semelhante, no processo de investigação dos Estudos de Tendências há, uma aproximação com as Ciências Sociais e com as Ciências Humanas no uso de metodologias que facultam a identificação e a análise de manifestações existentes na sociedade contemporânea.

Morin (2015) defende que paradigma é um princípio supra lógico de organização do pensamento, composto e gerido por uma conexão profunda entre noções mestras, concepções chave e princípios base. Assim, “o conhecimento e a ação, o saber e o fazer, a teoria e a prática, a ciência e a técnica em um contexto monolítico, tornam-se insuficientes para a compreensão de realidades complexas como comenta Morin” (AMBONI e CARMINHA, 2014, p.10). É fundamental lembrar que Morin (2015) explica os paradigmas de ciência, em um mundo complexo, através de três conceitos: (1) a dialógica (manutenção da dualidade); (2) a recursividade (a viabilidade de a causa agir sobre o efeito e de o efeito agir sobre a causa) e a (3) multiplicidade (princípio holográfico – ou se vê o todo ou apenas as partes). Logo, a interdisciplinaridade é um dos pilares para a compreensão dos paradigmas investigativos. Ignorar esta multiplicidade paradigmática aprisiona e demarca limites no desenvolvimento do campo científico (AMBONI e CARMINHA, 2014).

Flick (2009, p. 25) discorre que “a pesquisa qualitativa não se baseia em um conceito teórico e metodológico unificado. Diversas abordagens teóricas e seus métodos caracterizam as discussões e a prática da pesquisa” (Quadro 1). Quanto aos referenciais teóricos, à percepção de seus objetos e aos eixos metodológicos, os principais pontos das três perspectivas defendidas por Flick (2009) são: (1) os procedimentos teóricos são extraídos das tradições do interacionismo simbólico e da fenomenologia; (2) ancorada pela etnometodologia, o construtivismo e a atenção dada à produção da realidade social; (3) abrange as posturas estruturalistas, ou psicanalíticas, as composições sociais latentes e os mecanismos psicológicos inconscientes. “Estas três perspectivas principais diferenciam-se por seus objetos de pesquisa e pelos métodos que empregam” (FLICK, 2009, p. 29). Consequentemente, o paradigma exerce duas principais funções: (1) agregar os conceitos, os pontos de vista e a pertença a uma identidade comum com questões teóricas e metodológicas; (2) validar os dados de um certo paradigma entre os pesquisadores, indigitando os critérios de validade e de interpretação (COUTINHO, 2013). 

 

Quadro  1 – Perspectivas de pesquisa na investigação qualitativa


Fonte: FLICK (2009, p. 30).

Dentre as referências examinadas, Guba (1990, p. 17) define paradigma, conforme o senso comum, como um conjunto de crenças que norteiam a ação. De maneira consensual, detectam-se três grandes paradigmas em pesquisas nas Ciências Sociais e Humanas: (1) o paradigma positivista ou quantitativo; (2) o paradigma interpretativo ou qualitativo; (3) o paradigma sociocrítico ou hermenêutico (COUTINHO, 2013). “A opção por uma abordagem ou outra se dá compulsoriamente diante da disposição e disponibilidade do pesquisador e do seu envolvimento com o objeto de estudo além da intencionalidade da pesquisa” (FRANCO, CARMO e MEDEIROS, 2013, p. 92-93). Por este motivo, “o termo ‘paradigma’ deve ser entendido como uma base ontológica e epistemológica que fundamenta as teorias organizacionais modernas” (AMBONI e CARMINHA, 2014, p. 3). Guba e Lincoln (1994) sancionam que um paradigma abrange três pontos principais: (1) o ontológico; (2) o epistemológico; (3) metodológico. Peters (2015, p. 23) afirma que o caráter ontológico é:

[...] relativo ao diagnóstico das entidades e processos constitutivos do mundo social, o que envolve, por exemplo, caracterizações da natureza da conduta individual e de sua relação com as motivações subjetivas conscientes e/ou in­conscientes dos agentes, das propriedades genéricas da interação social, do relacionamento entre agência e estrutura ou entre as dimensões micro e macroscópica do universo societário, etc.

O autor também sanciona que a particularidade engloba os problemas epistemológicos incursos na pesquisa científica da “ação humano, de representações sociocul­turais e de processos coletivos” expressos no meio das ciências humanas. Quanto à abordagem metodológica da investigação qualitativa, Freitas (2013, p. 1084) afiança que é caracterizada pela “adoção de posturas hermenêuticas e dialéticas, pelo refinamento dos resultados, e pela elaboração de uma construção da realidade, num grau de sofisticação compatível com os propósitos do estudo”.

Freitas (2013, p. 1085), sustentada pelas propostas de Creswell (2014), reconhece as três dimensões do modelo de Guba e Lincoln (1994) e acrescenta dois outros aspetos: (1) o axiológico e (2) o retórico.

Do ponto de vista axiológico, em que relevam os valores, as investigações qualitativas caracterizam-se pela primazia dada à realidade construída pelos/as próprios envolvidos/as, em relação às outras possíveis realidades. Consequentemente, valorizam-se as posturas que levam à aproximação do/a investigador/a com o seu objeto, reduzindo as distâncias e proporcionando uma relação intersubjetiva. Do ponto de vista retórico, em que releva o discurso, as investigações qualitativas caracterizam-se pelo estilo próprio dos seus relatos que, em certos casos, privilegiam o uso de uma linguagem informal e metafórica, aliada à construção da narrativa na primeira pessoa.

Creswell (2014) utiliza o termo visão de mundo, ao invés de paradigma, como a “orientação filosófica geral sobre o mundo e a natureza que um pesquisador traz ao estudo”. O investigador deve, durante o planeamento de um estudo, explicitar claramente quais premissas filosóficas estão relacionadas com o projeto de pesquisa, com as abordagens e métodos a serem utilizados (apesar de existir uma tendência deliberada para não o fazer). O autor destaca quatro tipos de visões do mundo amplamente discutidas na literatura: (1) pós-positivista; (2) construtivista; (3) socio-crítico; (4) pragmático. A primeira visão de mundo sustenta o perfil do investigador objetivo e não interventivo, e define a metodologia quantitativa de coleta e análise de dados como a única apropriada para produção de conhecimento científico válido. Baseia-se no princípio de mensuração da realidade, por meio de métodos quantitativos de recolha e análise de dados. Porém, quando o objeto de estudo é o ser humano, o paradigma considera que não é passível o conhecimento absoluto.

O paradigma, ou visão de mundo, construtivista faz uso de procedimentos qualitativos e o pesquisador é elemento de influência no processo, construindo a teoria de forma indutiva. A visão de mundo é subjetiva e depende da experiência e da compreensão de cada sujeito, que aprende por conta própria. Por este motivo, os investigadores não generalizam os atores sociais e/ou situações, mas consideram variáveis individuais. A terceira visão de mundo, a socio-crítica, contempla concepções ideológicas-políticas e questões de cunho sociocultural. Os pesquisadores, os sujeitos e as instituições intervenientes se envolvem de forma participativa no processo.

Finalmente, o paradigma pragmático considera significativa a produtividade e a praticidade da pesquisa, que, por sua vez, é dependente do contexto social, cultural, histórico e político. Apresenta uma visão pluralista e os métodos adotados são escolhidos em função do objeto de estudo. Pearce (2012) defende que o uso de métodos mistos, sobretudo no paradigma pragmático, permite uma diminuição da tensão entre investigações quantitativa e qualitativa. Augusto (2014), citando Onwuegbuzie e Leech (2005), acrescenta que a abordagem dos métodos mistos é o melhor meio para respeitar a universalidade epistemológica da investigação. A autora denomina os pesquisadores pragmáticos de bi-investigadores (que utilizam tanto os métodos quantitativos quantos os qualitativos), termo antagônico a uni-investigadores, profissionais que incorporam uma ou outra forma de investigação.

 

5. Corpus da Pesquisa Qualitativa

Do latim corpora, corpus designa corpo.  Na linguística, significa os registros orais utilizados para análise linguística e, nas ciências históricas, refere-se a uma coletânea de textos. Portanto, pode ser dividido em corpus oral e corpus textual. Barthes (2010) sanciona que corpus é um conjunto pré-selecionado e determinado de materiais a serem analisados pelo investigador e podem incluir textos, imagens, músicas, vídeos e outros tipos de significantes da vida social. Todos os dados obtidos devem ser sistematicamente tratados. Nos Estudos de Tendências, normalmente, a busca por materiais realiza-se na blogosfera, que se refere ao termo coletivo que compreende blogs e suas conexões, ou em atividades de coolhunting, um conjunto de técnicas para encontrar produtos e tendências cool, bem como grupos inovadores de pessoas (GLOOR e COOPER (2007). Pode-se diferenciar dois tipos de corpora: (a) corpora para propósitos gerais, que considera uma visão ampla das questões de pesquisa; (b) corpora tópicos, que é esboçado para um objetivo específico e delimitado de pesquisa (BAUER e AARTS, 2013). Mas como construir um corpus na pesquisa qualitativa dos Estudos de Tendências se os pesquisadores têm que defrontar o paradoxo do corpus teórico?

Os autores afirmam que para solucionar esta situação, a delimitação do corpus deve ser um processo cíclico, isto é, a configuração de um corpus equilibrado significa que consecutivas melhorias devem ser efetuadas, com o propósito de equilibrar os vieses que são arquitetados. Contudo, um processo cíclico exige um critério para a finalização, caso contrário o projeto de pesquisa não teria fim. “Saturação é o critério de finalização: investigam-se diferentes representações, apenas até que a inclusão de novos estratos não acrescente mais nada de novo” (BAUER e AARTS, 2013, p. 59). Logo, a sugestão é um “procedimento por etapas: (1) selecionar preliminarmente; (2) analisar essa variedade; (3) ampliar o corpus de dados até que não se descubra mais variedade” (BAUER e AARTS, 2013, p. 55).

Ao decidir a área do tópico a ser investigado, Bauer e Aarts (2013) afirmam que o pesquisador deve considerar as etapas da construção de um corpus conforme quatro regras fundamentais: (1) realização das etapas de seleção, análise e seleção mais de uma vez; (2) antecipação dos tipos das categorias e funções ante à variedade das representações; (3) priorização da descrição da multiplicidade das representações sobre seu vínculo em séries de pessoas existentes; (4) maximização da natureza de representações alargando o espectro de estratos/funções considerados.

No exercício dos Estudos de Tendências, a percepção dos princípios culturais e sociais torna-se capital para propiciar os inputs empíricos, de sorte a diferenciar o peso e a natureza de uma tendência na composição socioeconômica. Investigadores da área chancelam que tudo são dados, isto é, tudo o que se observa no ambiente de pesquisa ou sobre o tema de pesquisa. A tendência provém dos dados, coletados e analisados por meio do processo de investigação (RECH apud CHAVES, 2016, p. 32-33).

Em um segundo momento, o pesquisador deve orientar a construção de um corpus fazendo uso de padrões de amostragem representativa e padrões análogos, que podem incluir (BAUER e AARTS, 2013):

(1) Uma relação dos materiais implicados (texto, imagem, som, etc);

(2) A definição do tópico de pesquisa;

(3) Um parecer sobre as modalidades da gradual ampliação do corpus aberto;

(4) As funções, as categorias e estratos sociais utilizados no início da pesquisa;

(5) As funções, as categorias e estratos sociais acrescidos posteriormente durante o processo de pesquisa;

(6) A evidência do ponto de saturação;

(7) A extensão dos ciclos de tempo na coleta de dados;

(8) O ambiente de coleta de dados.

Ayrosa e Cerchiaroz (2014, p. 9) discorrem sobre a importância da produção de um corpus a partir dos dados, que supra as necessidades dos investigadores, e asseveram que “os pesquisadores qualitativos, diferentemente dos quantitativos, não estão à procura de confirmação estatística de expectativas, mas sim de relatos distintos que abram o campo de visada sobre o fenômeno sob investigação”. Logo, na investigação qualitativa, importa a variedade e diferença dos dados sobre a repetição de dados iguais. Quando o investigador perceber que a diversidade de representação dos dados é restrita no tempo e no espaço social ocorre o critério de finalização, ou seja, a saturação (GLASER e STRAUSS, 2009).

A transposição desta ideia [de saturação] para a metodologia de pesquisa está baseada na assunção de que quando se coletam dados qualitativos ocorre igualmente uma transferência de materiais (no caso, significações psicoculturais), que passariam de seu meio original (aquele em que se manifestam as particularidades psíquicas e socioculturais de indivíduos ou grupos) para outro meio (aquele do pesquisador). [...] A metáfora se configura quando se diz que o processo de coleta de dados se saturou teoricamente, ou seja, quando o pesquisador cogita a ocorrência de uma espécie de descarte dos dados mais recentemente coletados, porque não mais contribuem para a elaboração teórica pretendida (FONTANELLA e MAGDALENO JÚNIOR, 2012, p. 64).

A função da saturação é orientar o pesquisador quanto à suficiência de dados, sendo possível a generalização dos resultados da investigação ao universo estudado. “Deste modo, os conceitos de ‘diversidade’ e de ‘saturação’ auxiliam na definição da ‘amostra’ que fará parte do estudo” (MAIA, BAPTISTA e MARTINS, 2013). Existem dois tipos de saturação: (1) empírica e (2) teórica. A saturação empírica ocorre quando o investigador detecta que já tem dados suficientes para responder à pergunta da pesquisa e não justifica-se um aumento na recolha do material empírico (PIRES, 2014; GUERRA, 2011). Já, o segundo tipo de saturação ocorre quando o pesquisador perceber que existe uma determinada redundância ou repetição de dados, não sendo necessária maior coleta de dados (FONTANELLA e MAGDALENO JÚNIOR, 2012; GLASER e STRAUSS, 2009; DENZIN e LINCOLN, 2006).  Para facilitar a constatação da saturação teórica, por parte dos pesquisadores, Fontanella et al (2011) elaboraram um procedimento para a constatação da saturação teórica conforme as etapas apresentadas no Quadro 2.

 

Quadro 2 – Etapas para a Constatação da Saturação Teórica


Fonte: FONTANELLA et al (2011, p. 391).

 

Os autores igualmente apresentam uma distinção entre cinco dimensões da saturação teórica: (1) prática; (2) metodológica; (3) cognitiva; (4) psíquica e (5) ontológica. Fatores como disponibilidade de recursos (escassez de tempo ou restrição do alcance da pesquisa) influenciam a dimensão prática. A dimensão metodológica refere-se à limitação de objetivos, do campo de investigação ou de questões de pesquisa pontuais. A terceira e quartas dimensões, cognitiva e psíquica, ocorrem quando as informações não são apreendidas pelo pesquisador ou equipe, “sendo mentalmente descartados, não absorvidos, rejeitados de antemão, e assim os modelos interpretativos existentes não são empregados em razão de limites pessoais do pesquisador” (FONTANELLA et al, 2011, p. 65). E, por fim, a probabilidade da existência de dados cientificamente irreconhecíveis por falta de referências teóricas constituem a dimensão ontológica.



6. Conclusões

A pesquisa qualitativa é uma área que encerra pontos de vista e metodologias que intentam analisar e destrinchar o universo social. A importância da pesquisa qualitativa reside na produção de conhecimento que, além de ser útil, aponta à criatividade, norteada por um projeto ético. À vista disto, por via de regra, prioriza o exame de micro processos, as verificações das ações pessoais e grupais e executa uma averiguação dos dados coletados por métodos específicos. Durante a análise, a fim de se discutir os fenômenos e examinar sua contribuição no processo de geração de conhecimento, a intuição e a capacidade criadora são ferramentas imprescindíveis.
Do mesmo modo, os Estudos de Tendências são um campo de investigação transdisciplinar, que associa ferramentas e conceitos de diversas disciplinas, como das Ciências Sociais, que viabilizam o eixo metodológico enquanto esfera científica; e das Ciências Humanas, que facultam a compreensão do complexo quadro sociocultural. Na acepção de entender os ciclos e as mudanças no comportamento do consumidor, se ocupa da complexidade cultural no interesse de formatar prospecções circunscritas no âmbito imaterial dos sentidos.
Resumidamente, na fusão destes dois campos de conhecimento, pode-se afirmar que: (1) por vários motivos, a pesquisa qualitativa apresenta significância para os Estudos de Tendências; (2) a pesquisa qualitativa é composta por uma multiplicidade de abordagens, que apresentam pontos em comum aos Estudos de Tendências; (3) as perspectivas de pesquisa qualitativa são distintas conforme a escola ou tendência; (4) a melhor maneira de aprender a pesquisa qualitativa é desenvolvendo o trabalho na prática.
Finalizando, assegura-se que os Estudos de Tendências constituem uma área emergente e possibilitam oportunidades e novos direcionamentos de investigação para os acadêmicos no campo do Design de Moda. Ademais, o resultado da proximidade entre os Estudos de Tendências e a pesquisa qualitativa oportuniza informações concretas acerca do comportamento dos sujeitos sociais, imprescindíveis durante o processo de desenvolvimento de produtos.


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